terça-feira, 31 de maio de 2011

Bom humor na literatura: Pedro Juan Gutiérrez fala sobre o jogo na escrita

Da Revista Cult
No segundo dia do 3° Congresso Internacional de Jornalismo Cultural, na palestra que teve início às 9h30, o escritor e jornalista cubano Pedro Juan Gutiérrez falou sobre a importância do jogo na escrita: “O mais importante na vida é a brincadeira, o riso, o bom humor. Acho que a arte boa, de qualidade, está em torno da filosofia e do conceito do jogo. É necessário um contraponto vibrante junto com o rigor da seriedade, e esse antagonismo é a arte”, diz.
Na sua opinião, dois escritores que representam bem esta visão são Julio Cortázar e Franz Kafka. “Cada um dos textos de Cortázar expressa um ponto de vista brincalhão a respeito da realidade que, de fato, nunca começa e nunca termina”, diz. Em relação a Kafka, destaca a frase “Quando Gregor Samsa acordou de uma noite de sonhos agitados viu-se transformado num monstruoso inseto”, de A Metamorfose (Companhia das Letras), livro que começou a ler aos 14 anos e só foi terminar 20 anos depois.
“Era a frase mais horrorosa que já tinha sido escrita. Kafka viveu uma vida atormentada mas, apesar de tudo, mostrou um sentido sempre brincalhão e de transmutação da realidade. Ele fez isso porque nunca se levou a sério”, diz. Quando indagado por Xico Sá, mediador da mesa, como conseguiu se livrar da influência direta dos dois escritores citados, Gutiérrez brinca: “Nós amamos os deuses, mas não os imitamos. É melhor que imitemos os demônios”.
Para Gutiérrez, “o trabalho do escritor consiste em viver na rua para depois se trancar sozinho no quarto e brincar, sonhar, refletir e, no final das contas, escrever sobre todas as pessoas que conheceu na rua”. Dentre os artistas de língua portuguesa que escrevem com humor e inclinados aos recursos da brincadeira, cita Jorge Amado, Paulo Lins, Rubens Fonseca, Milton Hatoum e Clarice Lispector.
Em relação a cenas fortes de sexo na literatura, como as presentes em sua Trilogia Suja de Havana(Alfaguara), diz: “Eu fico muito chateado quando vejo alguns escritores que não descrevem o sexo nunca porque têm medo. Acho que existe um sentido muito extenso neles do pecado, da culpabilidade. Isso incomoda, porque nós somos mamíferos. Nós não somos caracóis, não somos bichinhos do mar”.
Sobre o exercício da escrita, Gutiérrez, que está preparando um romance novo há 13 anos a respeito de um cubano que vive em Madri, na Espanha, faz analogia com a arquitetura, profissão que almejava exercer quando jovem. “Quando você escreve um romance, é uma grande construção, como um prédio muito grande. Você precisa saber por onde vai começar, até onde você vai e quais são as sustentações que você precisa ter. O conto já é uma casinha pequena em que você pode cometer um erro sem que ela desabe”, diz, e considera-se mais contista do que romancista.
Além disso, o escritor menciona que “cada escritor, no fundo, embora crie outros personagens, escreve de si mesmo, da própria vida e das pessoas que ele conhece” e que não tem interesse de ver suas obras adaptadas ao cinema.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Miles Davis - O inquieto trompetista


Da Revista Soprametais

Em tom quase sempre protocolar, as efemérides ficaram meio banalizadas. Todo dia alguma “celebração” de nascimento ou morte ganha os holofotes. Mas nem sempre há o que dizer. E nem sempre o biografado tem força que valha o culto obrigatório. É uma armadilha alimentada pelo jornalismo cultural. A última quarta-feira [26], porém, foi um data que tem um peso diferente da produção rotineira. Quem faria aniversário é o jazzista Miles Davis. Falecido em 1991, aos 65 anos, ele ainda é uma figura influente, referência para muitos instrumentistas e músicos.
O apuramento técnico desenvolvido no trompete é só um dos predicados do norte-americano, que sempre soube se cercar de músicos de excelência. Entram nesta lista Red Garland, Herbie Hancock, Bill Evans, Wynton Kelly, Wayne Shorter, Cannonball Adderley, John Coltrane e Paul Chambers. Além da capacidade de soar sempre único, Miles compôs uma obra incrivelmente variada e atemporal. Foi do jazz tradicional ao mais alto grau de experimentação. Mesmo quando atuou por caminhos mais tortuosos, nunca deixou de criar polêmicas, angariar novos fãs, virar símbolo do que há de mais moderno.
Em sua carreira, gravou dezenas de álbuns, desbravou novas sonoridades, renovou linguagens, fez o jazz virar febre até entre os mais jovens. Hard bop, modal, free bob, jazz rock, fusion… não há como enquadrar uma produção tão camaleônica e genial. É bem provável que se estivesse vivo, estaria a explorar as variantes do nu jazz ou do dubstep.
Eleger o essencial na trajetória de Miles é quase uma heresia, mas três álbuns ajudam a definir a força e sofisticação de sua obra: Birth of Cool, de 1956, Kind of Blue, de 1959, e Bitches Brew, de 1970. O primeiro consolida a transição da fase bop para o cool jazz, quando o trompetista prova que é possível levar uma big band para climas intimistas e mais relaxados. O arranjador Gill Evans teve papel central nas três sessões que resultaram no disco.
O segundo é sua maior obra-prima. O jazz modal de Kind of Blue elevou o gênero para patamares só desfrutados por astros do rock ou do pop. O disco tem apenas cinco faixas, conduzidas com extremo brilhantismo pelo sexteto de Miles. Valsas, blues e baladas dão conta de um trabalho perfeito, inatingível.
Por fim, o terceiro: Bitches Brew. A fase elétrica de Miles, quem diria, também teria sua obra-prima. Com uma música sedutora, hipnótica e complexa, o instrumentista extrapola qualquer convenção em longas e caóticas peças. Wayne Shorter, Joe Zawinul e Chick Corea foram alguns dos jazzistas que participaram deste álbum revolucionário.
Miles Davis morreu em 28 de setembro de 1991. Mas difícil dizer que seu trompete tenha silenciado. É um caso de eterno culto, mesmo quando não há datas redondas para encaixar.


sexta-feira, 27 de maio de 2011

Entre Marx, Freud e Sartre



Por Maria Elisa Cevasco, da Folha de São Paulo

RESUMO
O crítico cultural americano Fredric Jameson comenta o conceito de dialética espacial, desenvolvido por ele para pensar as relações entre centro e periferia; reflete sobre os efeitos da globalização na produção intelectual e comenta aspectos de sua formação, lastreada nas teorias de Marx, Freud e Sartre.

O mais importante problema trazido pela globalização para os intelectuais, segundo o crítico cultural americano Fredric Jameson, é "o surgimento de novas ideias políticas". "É uma tarefa fundamental que ainda precisa ser realizada. É muito estimulante saber que existem novos problemas para serem resolvidos, novas ideias para serem concebidas", afirmou o crítico em entrevista à professora Maria Elisa Cevasco, por telefone, traduzida por Paula Carvalho.
Teórico da pós-modernidade e um dos mais influentes pensadores marxistas, o autor de "A Virada Cultural - Reflexões sobre o Pós-Moderno" veio ao Brasil abrir a série de oito conferências da edição 2011 do ciclo Fronteiras do Pensamento.

 Em "Valences of Dialectic" (2009), o sr. desenvolve a ideia de dialética espacial, a fim de criar uma descrição mais adequada à globalização. Quais são as especificidades de pensar o sistema mundial do centro e da periferia?
Precisamos desesperadamente, na política, de um contrapeso ao poder americano. Antes, os países socialistas faziam esse contrapeso. A esperança é que da aliança de Brasil, China, Índia etc., os poderes do Terceiro Mundo, -se é que ainda podemos chamá-los assim-, apareça uma nova força contrária.
As revoltas islâmicas também podem contrabalançar a centralidade americana. Não digo essas novas revoluções, mas o movimento jihadista era, até certo ponto, antiamericano, mas não era anticapitalista. A questão é onde, no mundo, esse movimento pode tomar um rumo não capitalista.

Isso mudaria a forma como pensamos o sistema mundial?
Mudaria um pouco, sim. O que permitiria tornar outras coisas possíveis. O peso do dinheiro americano é tão grande que é difícil ver como outros modos de vida podem se desenvolver e não serem influenciados pelo americano.
Acredito que as políticas alternativas que estamos procurando não são nem socialistas, nem capitalistas, mas gaullistas, no sentido de [Charles] de Gaulle [presidente da França, 1959-69]. Ele fez com que a França se tornasse independente dos poderes americano e soviético.
A China pode ser independente dos EUA, mas recebeu entusiasticamente o modo de desenvolvimento americano. O Brasil era mais distante dos EUA em relação aos países latino-americanos, por isso tem uma tradição cultural e política diferente bastante promissora.
Para o Primeiro Mundo capitalista, é muito importante pensar num espaço que está fora de nós. Um país como o Brasil nos permite pensar um tipo diferente de desenvolvimento, um espaço onde é possível imaginar a existência de coisas inconcebíveis dentro desse sistema.

No seu prefácio a "Jameson on Jameson" (2007), o sr. afirma que a nova globalização inaugura um conjunto estimulante de novas atividades intelectuais, levando a uma reinvenção da vocação dos intelectuais. Como isso se dá?
A passagem da globalização da era dos imperialismos para a realidade global contemporânea precisa ser transcodificada, a fim de que as linguagens e os problemas do passado sejam traduzidos para a atualidade -é uma eterna reinterpretação dos conceitos do passado. Hoje, temos novas formas e experiências, novas temporalidades e manifestações artísticas, que ainda precisam ser descritas. O mais importante, no entanto, é o surgimento de novas ideias políticas. É uma tarefa fundamental que ainda precisa ser realizada. É muito estimulante saber que existem novos problemas para serem resolvidos, novas ideias para serem concebidas.

O artigo "Metacommentary", de 1971, inaugura uma série de "invenções categóricas" que incluem o inconsciente político, a transcodificação e o mapeamento cognitivo. Essas categorias estão a serviço de quais necessidades?
A ideia de inconsciente político está ligada à interpretação do texto, o que está por trás dele, e, no final das contas, à própria ideologia e à natureza da ideologia como uma forma de inconsciente. Tentei explorar, e até desvelar, um conceito mais novo e complexo de ideologia que o tradicional. Não chamaria de freudo-marxismo, mas seria uma combinação de Marx e Freud. Assim como para Freud há um inconsciente, que se volta para experiências da infância etc., há também um inconsciente marxiano, que é a fonte da ideologia.
E Sartre também foi importante para mim nessa questão, já que ele também estava muito interessado na formação dos princípios ideológicos na criança, para além do tipo freudiano. O inconsciente político cobre essa área como um problema, não como um conceito ou uma solução.
O problema freudiano é saber onde nos situamos em relação a outros indivíduos, e como eles nos veem e como nós os vemos, enquanto que o problema marxiano é saber onde nos posicionamos em termos nacionais, e como isso se relaciona com o posicionamento em termos nacionais de outras pessoas, como elas nos veem etc. É um nível coletivo cuja importância não é reconhecida da mesma maneira que o inconsciente individual freudiano, por exemplo.
Não só devemos saber onde nos posicionamos individualmente, quem somos, qual é a nossa identidade, mas também temos de refletir sobre a nossa posição no sistema mundial e como isso afeta as nossas identidades coletivas. Acho que está subentendido que, para certas pessoas que vivem em determinadas partes do mundo, é mais fácil mapear a própria posição em relação ao resto da humanidade do que em outros lugares.
Por exemplo, temos um problema especial nos Estados Unidos. Não é só por sermos um país de grandes dimensões, como Rússia e China, que nunca pensamos no mundo lá fora; há também uma certa cegueira do centro, que dificulta a compreensão dos contextos de outros países e do significado de atos culturais e políticos.
Já países que sofrem o peso de forças e centros vindos do fora (como o Brasil) conseguem ter uma visão mais clara do mundo lá fora, e da posição que ocupam nesse mundo em relação a esses centros. Portanto, a margem tem uma vantagem epistemológica sobre o centro e, talvez, os seus mapeamentos cognitivos sejam mais reveladores, ricos e interessantes dos que aqueles disponíveis nos centros de poder.

Que formas de arte incorporam as contradições sociais da atualidade?
Isso muda de acordo com o momento histórico. Em certos momentos históricos, uma forma de arte -como a pintura- concentra todas as outras formas...

Como a influência do romance no século 19?
Sim, mas, nas artes literárias, também a poesia. Na pós-modernidade, seriam formas visuais, como a fotografia. Há sistemas de belas-artes que passam por transformações constantes, em que um aspecto dominante se torna, em seguida, subordinado.

Que formas de arte chamam mais a sua atenção hoje?
As artes literárias tornaram-se mais subordinadas. A gastronomia se tornou uma grande arte. Para mim, a pintura é uma arte bastante reveladora. Mas a meu ver, todas as artes estão passando por uma crise. Talvez a própria escrita da teoria seja essa arte dominante.

Gostaria que comentasse sobre a sua formação e suas influências intelectuais.
Não sei se a dialética é o eixo central da minha obra. Embora possa discorrer sobre a minha formação intelectual, não gosto muito de autobiografias intelectuais. Mas posso dizer que a minha formação filosófica é sartriana, não só em termos existencialistas, mas também por um forte hegelianismo, e, numa fase posterior, uma maior ênfase no marxismo. Ou seja, a tradição francesa.
É importante ressaltar que, por vários acasos na minha vida, fiquei fluente em francês e alemão e, por isso, tive acesso a textos estruturalistas, dialéticos e psicanalíticos. Talvez seja essa combinação que forneça ao meu trabalho sua distinção identitária. Ainda me surpreendo com o quanto ainda sou sartriano. Mas, claro, que tive outras influências.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Inscrições para festival de cinema de Patos encerram no próximo dia 10 de junho


Por Juliana Rosas, com informações da Assessoria do Festival

O audiovisual paraibano vem crescendo. E muito. A prova disso é o maior número de festivais e mostras, incluindo o Comunicurtas - Festival Audiovisual de Campina Grande, promovido pela Universidade Estadual da Paraíba. Os produtores e realizadores brasileiros, especialmente da Paraíba, terão até o próximo dia 10 de junho para enviar seus vídeos para a quinta edição do Festival Cinema com Farinha, que acontece em Patos-PB. Estão abertas as inscrições para as mostras competitivas nas categorias ficção, documental e animação, e para as mostras não competitivas de longa-metragem, vídeo minuto e a mostra sertão. As informações sobre o processo de inscrição estão disponíveis no portal www.cinemacomfarinha.com.
O 5º Festival Cinema com Farinha - Festival Audiovisual do Sertão Paraibano - ocorrerá entre os dias 04 e 07 de agosto de 2011. No próximo mês de junho, serão divulgadas as novidades do festival, entre elas, os filmes da mostra internacional, os fóruns de discussões, os lançamentos e os nomes dos convidados.
O Festival é um evento que visa proporcionar um espaço de encontro para discussão e exibição da produção audiovisual brasileira, e ainda, continuar atendendo à demanda existente para esse tipo de manifestação cultural no sertão paraibano. Busca também divulgar a cena cultural oculta da região, detectando produções audiovisuais no sertão paraibano, contribuindo ao mesmo tempo para a divulgação imediata, como para a formação de um banco de memória acessível.
A programação apresentará uma grande multiplicidade de tendências e movimentos culturais, o que atrairá um elevado número de participantes. A realização do festival se dividirá, basicamente, em mostras de vídeos de curta e longa duração e oficinas de produção audiovisual. O evento pretende ainda trazer diversas intervenções artísticas em seus locais de exibição e festa de encerramento, com música e exposições.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

As viagens de Foucault ao Brasil

Por Rafael Cariello, da Ilustríssima


RESUMO
Nos anos 1960 e 70, Michel Foucault veio diversas vezes ao Brasil, tendo exercido forte influência em jovens filósofos e psicanalistas, não sem questionar em debates as convicções ideológicas locais. Embora tenha feito laços afetivos e tenha se divertido na Lapa carioca, não manteve uma relação duradoura com o país.
Foucault corrompe a juventude?", pergunta o título de um dos capítulos do livro de Paul Veyne sobre Michel Foucault, ecoando, não sem ironia, a acusação feita pela cidade-Estado de Atenas ao pensador grego Sócrates, quatro séculos antes de Cristo. No auge de sua produção intelectual, Michel Foucault esteve por cinco vezes no Brasil. Entre 1965 e 1976, "corrompeu a juventude" do país com suas ideias, em cursos e palestras nas universidades brasileiras.
Sobretudo nas visitas a partir de 1973, quando já era uma estrela da vida intelectual francesa, o impacto de sua presença no Brasil ultrapassou a simples exposição de ideias em sala de aula. Ele próprio se disse impressionado, mais tarde, pelos estudantes brasileiros, "famintos por aprender". As discussões prosseguiam nas festas, nos almoços, na praia.
Ao filósofo Roberto Machado, que se tornou seu amigo nas visitas ao Rio e o acompanhou em sua viagem ao Nordeste do país, Foucault dizia nunca ter trabalhado tanto, falado tanto, nunca ter sido tão requisitado.
Ao mesmo tempo, tanto quanto Sócrates nos diálogos de Platão, era por vezes implacável com seus interlocutores brasileiros, derrubando impiedosamente certezas pré-estabelecidas. Isso não impediu que, assim como o protagonista do "Banquete", despertasse paixões, motivadas tanto por suas ideias quanto por sua personalidade.

DESCONFORTO
O ceticismo de Foucault provocou desconforto num país em que se discutia "Freud e Marx ao infinito", como constatou o próprio filósofo, em carta ao companheiro Daniel Defert. Durante suas palestras na PUC-Rio, em 1973, o pensador francês chegou a ouvir acusações, proferidas da plateia, de "ingenuidade" e "idealismo". Estudantes, pesquisadores e professores lotavam um dos auditórios do campus da Gávea.
Roberto Machado, hoje professor aposentado de filosofia da UFRJ, lecionava à época na universidade católica. "O auditório ficava cheiíssimo. Não me lembro bem, mas parece que era pago. Houve até uma manifestação de estudantes para poderem entrar de graça. Mesmo assim, as palestras ficavam abarrotadas de gente."
Na mesma semana, Foucault participou de uma mesa redonda com professores da PUC e alguns convidados, entre eles o psicanalista Hélio Peregrino (1924-88), com quem debateu sobre o complexo de Édipo. Para Pellegrino, a relação da criança com os pais é determinante para toda experiência de desejo posterior daquele indivíduo. O palestrante principal argumentava que não há um fundamento único do desejo, que a mãe é um "objeto primeiro" para a criança apenas no sentido cronológico, mas nem por isso "primordial, essencial, fundamental".
O psicanalista brasileiro citou então a pesquisa de um colega. "Ele mostra o fenômeno 'hospitalício'", disse Pellegrino, em referência a bebês criados em hospitais, desde o nascimento. "As crianças que não têm maternização simplesmente perecem, morrem por falta de mãe".
"Compreendo", respondeu Foucault. "Mas isso só prova uma coisa: não que a mãe seja indispensável, mas que o hospital não é bom."

DITADURA
Há poucos registros de críticas públicas do autor de "Vigiar e Punir" à ditadura militar brasileira, que vigorou por todo o período em que Foucault fez visitas ao Brasil. "Ele nunca foi um provocador inconsequente", argumenta o psicanalista Jurandir Freire Costa, que acompanhou o filósofo no Rio de Janeiro na década de 70. "Sabia que estava sob uma ditadura, cercado de pessoas que eram vulneráveis. Havia um acordo tácito de que só falaríamos do que era possível."
Mas, em outubro de 1975, enquanto dava um curso na USP, uma onda de prisões foi deflagrada pelos agentes do regime militar na cidade. A Folha do dia 24 daquele mês relata um protesto de estudantes da universidade "contra a prisão, ocorrida nas últimas semanas, de estudantes, professores e jornalistas". A reportagem registra que o "professor Michel Foucault, psicólogo francês" compareceu à assembleia e fez "um pronunciamento de solidariedade aos estudantes". Anunciou, em seguida, que suspenderia seu curso antes do fim.
Dois dias depois, o país tomava conhecimento da morte do jornalista Vladimir Herzog, preso e torturado por agentes da repressão.
Foucault também fez, ainda em São Paulo, declarações de repúdio à ditadura brasileira para a imprensa internacional, lembra Heliana Conde, professora do departamento de psicologia social da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), que realiza pesquisa sobre as visitas do filósofo ao Brasil.

PROVOCAR
Roberto Machado afirma que o objetivo das declarações era provocar os militares, tentar ser expulso do país e assim chamar a atenção da opinião pública internacional para o que se passava no Brasil. Como não conseguiu, acreditou que poderia ser barrado ao tentar entrar novamente em território brasileiro, no ano seguinte, mas sua visita, organizada pela Aliança Francesa, foi autorizada. Em 1976, proferiu palestras em Salvador, Recife e Belém. Acreditava estar sendo seguido pelos militares enquanto viajava pelo país.
Em Belém, deu um curso a estudantes e pesquisadores da Universidade Federal do Pará, a pedido do filósofo Benedito Nunes (1929-2011). "Menos de uma semana depois que Foucault foi embora, fui chamado pelo diretor, cujo nome não vou mencionar, me dizendo que o SNI estava pedindo a relação dos frequentadores" das aulas, relatou Nunes em 2008 à revista "Transformação", da Unesp (Universidade Estadual Paulista).
"Eu disse: 'Não dou a relação'. Saí de lá e fui diretamente falar com o reitor, que foi muito correto, e até corajoso. Ele me disse para não dar a lista. Havia uma vigilância até nesse ponto. Não era uma invenção dizer que o SNI estava infiltrado".

À VONTADE
Uma relação de "afinidade eletiva" ligava Foucault ao Brasil, segundo estudantes e professores que o acompanharam em suas visitas, como os psicanalistas Chaim Samuel Katz e Jurandir Freire Costa. Avesso à formalidade francesa, o filósofo se sentia à vontade no Rio de Janeiro, conta Machado.
O professor brasileiro se lembra de uma carona que ofereceu, logo na primeira visita, em 1973, ao colega francês. O destino era a Lapa, bairro "para onde a garotada da zona sul ainda não ia", no início dos anos 70, conta Machado. Recém-chegado à cidade, após os anos de doutorado na Bélgica, o professor brasileiro parou seu Fusca ao lado de um táxi, ao sair de Copacabana, e pediu informações sobre o caminho. Foucault brincou: "Você mora no Rio de Janeiro e não conhece o bairro mais interessante da cidade?".
As visitas ao centro da cidade se repetiram em todas as suas estadas no Rio. Ia sempre se encontrar com um certo Hamilton, enfermeiro brasileiro que morara em Paris.
Chaim Katz conta que, certa vez, a pedido de Foucault, foi levar uma encomenda ao amigo do filósofo francês. Era o pagamento de uma palestra feita no Brasil, que deveria ser entregue a Hamilton. Num edifício enorme e pobre, com centenas de apartamentos, Katz se encontrou rapidamente com um sujeito que descreve como "mulato, relativamente bonito".
Pouco antes de deixar o Brasil pela última vez, Foucault chamou Machado e Katz para uma conversa. Disse que seu amigo estava doente e que iria procurá-los. Pediu que o ajudassem da melhor forma possível. Hamilton nunca pediu a ajuda dos amigos de Foucault.

CALIFÓRNIA
E o filósofo nunca mais voltou ao Brasil. No final dos anos 70, foi descoberto, com relativo atraso, pela universidade norte-americana. Ao mesmo tempo em que ele próprio descobriu a Califórnia, ou melhor, San Francisco.
Mesmo as conversas por carta com seus admiradores mais próximos no Brasil cessaram. Novos convites de visita foram feitos, mas Foucault não se mostrou interessado. "Acho que foi o encontro com os Estados Unidos", explica Machado.
"Ele ficou deslumbrado. Encontrou por lá um debate mais afinado com as pesquisas que estava fazendo no momento, as trocas intelectuais foram intensas. Também encontrou nos Estados Unidos movimentos organizados, como o dos homossexuais e dos negros, que já usavam ideias que ele valorizava muito. Uma coisa é ser admirado no Brasil. Outra é ser acolhido nas grandes universidades americanas."

terça-feira, 24 de maio de 2011

Salete Cobra - A história que virou filme na UEPB



Por Juliana Rosas, da ASCOM/UEPB, com informações da assessoria da produção


Salete Cobra é um vídeo-documentário produzido por alunos do curso de extensão de Produção de Documentários, oferecido pelo Departamento de Comunicação Social da Universidade Estadual da Paraíba, ministrado pelo premiado cineasta André da Costa Pinto. O documentário, que ainda está em fase de pré-produção, pretende atender ao gênero curta-metragem de até 15 minutos de duração e será gravado no dia 04 de junho, na cidade de Guarabira-PB. Além da casa da protagonista, o curta terá como cenários lugares comuns da cidade, como o cemitério antigo, a igreja matriz e algumas ruas principais.
O documentário conta a história da viúva de Antônio Cobra, Salete, de 50 anos e funcionária da Secretaria de Educação do município de Guarabira. A personagem se destaca pelo seu gosto curioso e peculiar de frequentar funerais. Costume esse que começou em sua juventude e surpreende pelos grandes números de enterros que ela já frequentou.
A equipe é formada por profissionais experientes no audiovisual paraibano e também aposta em nomes novos do cinema. Direção e roteiro são de Ailton Francisco, produção executiva de Allan Dantas e Anne Emanuelle, fotografia de Renato Hennys. O filme será lançado no final do mês de junho, na cidade de Campina Grande e posteriormente em Guarabira, quando também será inscrito em festivais de cinema de todo o Brasil.

Ficha técnica
 
Direção geral: Ailton Francisco
Direção de produção: Maria de Fátima Ramalho
Assistente de direção: Anne Emanuelle
Produção executiva: Allan Dantas e Anne Emanuelle
Assistentes de produção: Aridelson Oliveira, Tereza Helena e Roberta Lucena
Fotografia: Renato Hennys
Still: Roberta Lucena
Assessoria de imprensa: Roberta Lucena

segunda-feira, 23 de maio de 2011

ONU – Programa de Bolsas para Afrodescendentes

Com informações da Coordenadoria de Assuntos Institucionais e Internacionais da UEPB
 
No contexto do Ano Internacional dos Afrodescendentes, a Unidade Anti-Discriminação do escritório do Alto Comissariado de Direitos humanos das Nações Unidas está lançando um programa de Bolsas para descendentes de africanos de 10 de outubro a 4 novembro de 2011.

O programa de bolsas proporcionará a oportunidade de aprofundar a compreensão do Sistema de Direitos Humanos das Nações Unidas e de seus mecanismos, com foco em questões de particular relevância as pessoas de ascendência africana.

Isso permitirá aos bolsistas contribuir de forma mais efetiva à proteção e a promoção dos Direitos civis, políticos, econômicos, sociais e cultural dos Afrodescendentes em seus respectivos países e comunidades.

Quem pode se candidatar?

* O candidato deve ser afrodescendente
* O candidato deve ter no mínimo 4 anos de experiência no tratamento de questões relativas aos afro-descendentes ou minorias.
* O candidato deve ser fluente em inglês.
* Uma carta de apoio de uma organização afrodescendente ou da comunidade

Processo de Seleção


Na seleção dos bolsistas, as questões de gênero, e um equilíbrio regional serão levados em conta. Os documentos apresentados deverão estar em Inglês.

Direitos

O candidato selecionado tem direito a uma bolsa para cobrir alojamento, as despesas básicas em Genebra, seguro básico de saúde, bem como um retorno de avião com bilhete de classe econômica.

Aplicação

Os candidatos interessados são convidados a apresentar o seu pedido por e-mail para: africandescent@ohchr.org, ou por fax para: 004122-928 9050 com uma carta de apresentação indicando claramente “Application to the 2011 Fellowship Programme for People of African Descent”, com os seguintes documentos:

* Application form:

Conferir o endereço:
http://www.ohchr.org/Documents/Events/IYPAD/ApplicationFormIYPAD.pdf

* curriculum vitae;
* carta de motivação (máximo de 1 página) onde o candidato explicará sua motivação para a candidatura, o que ele/ela espera alcançar através da bolsa e como ele/ela usará o que aprendeu para promover os interesses e os direitos dos afro-descendentes;
* uma carta de apoio de uma organização /entidade parceira.

O prazo para recepção de aplicações é 15 de junho de 2011. Somente os candidatos pré-selecionados serão contatados.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

“Sociedade precisa dar valor aos cientistas”, diz coordenador do CNPQ e ex-assessor da UEPB


Por Joana Rozowykwiat, Do Portal Vermelho

Em entrevista ao Portal Vermelho, o coordenador do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, Olival Freire [*que também assessorou a Universidade Estadual da Paraíba por muitos anos], fala sobre os desafios do setor no país. Para ele, é preciso investir mais em inovação, incentivar a participação de empresas privadas nessa área, ampliar o peso da produção com maior conteúdo tecnológico na indústria brasileira e, principalmente, fazer com que a sociedade valorize a ciência e a tecnologia.

“Se o Brasil pretende ter uma inserção soberana na área internacional, é preciso alterar o perfil da indústria brasileira, para ampliar o peso da produção com maior conteúdo tecnológico”, avalia Olival Freire, que aponta ainda uma clara assimetria no desenvolvimento científico e o tecnológico no Brasil.

Segundo ele, fazer com que este setor avance ainda mais é uma questão que depende não só do governo, mas também do Congresso Nacional e, mais ainda, da sociedade. Olival defende que os parlamentares precisam rever a nova legislação do pré-sal, que terminou por pulverizar recursos antes destinados especificamente ao desenvolvimento científico e tecnológico.

Olival Freire também chama a atenção para o fato de que não há, no país, uma cultura de valorização dos cientistas. “A sociedade precisa valorizar seus engenheiros e cientistas da mesma forma que valoriza seus jogadores de futebol, suas atrizes e seus cantores, para chegar a uma comparação extremada”, diz.

Questionado sobre o contingenciamento de recursos da pasta de Ciência e Tecnologia, definido no início da gestão da presidente Dilma Rousseff, Olival afirmou que ele não será um problema para os projetos em curso. Mas advertiu que, caso essas restrições permaneçam ao longo do governo, a situação será grave, porque significaria limitar uma expansão necessária. “Limitar a expansão no Brasil hoje seria um quadro seríssimo”.

Como o senhor avalia o cenário da Ciência e Tecnologia no país hoje? 
Nós temos um cenário que, por um lado, é marcado por um grande progresso da ciência brasileira, que resulta do esforço acumulado nos últimos 50, 60 anos, mas, em particular, de um esforço concentrado a partir da década de 1970 e, mais em particular ainda, de um esforço de apoio a partir do ano 2000, especialmente nos dois governos Lula.

Temos vários indicadores desse avanço. O Brasil forma hoje quase 12 mil doutores por ano, ocupa, no ranking das nações com números de publicações indexadas em revistas qualificadas, uma posição muito boa, é o 13º.

Em alguns setores da economia há uma clara interação positiva entre desenvolvimento científico e tecnológico e desenvolvimento econômico. Como exemplo, temos o caso da indústria do petróleo, da aeronáutica. Nós não podemos conceber a Embraer que existe hoje sem a criação do ITA, no início dos anos 1950. E há razoável consenso de que, sem a Embrapa, não teríamos chegado à posição que temos hoje em relação ao agronegócio.

Por outro lado, esse cenário não pode nos levar a uma posição de acomodação, de tranquilidade. Porque temos desafios para o desenvolvimento do país, que dependem crucialmente do desenvolvimento em ciência, da tecnologia e da melhoria das condições de educação.

Que desafios são esses?
O principal deles diz respeito ao seguinte: a força econômica do Brasil hoje está muito concentrada na produção de commodities, em mercadorias como petróleo, minerais, agricultura e pecuária. E, em geral, nossa produção não incorpora um volume muito significativo de conhecimento tecnológico.

Então, se o Brasil pretende ter uma inserção soberana na área internacional, e esse é o projeto do governo, nós temos que alterar o perfil da indústria brasileira, de modo a aumentar o peso daquela produção com maior conteúdo tecnológico.

Aqui no Ministério (de Ciência e Tecnologia) se costuma utilizar um número que ajuda a ilustrar essa questão: pra importar uma tonelada de circuitos integrados – todos esses computadores e aparatos de informática que o Brasil importa – o valor disso é basicamente o equivalente ao valor de 21 mil toneladas de minério de ferro ou 1,7 mil tonelada de soja.

Esse cenário é agravado por um desequilíbrio que o Brasil passa a ter nas contas, na medida em que os valores que temos gasto com importação nos últimos anos, em produtos de alta tecnologia, tem aumentado consideravelmente.

E, normalmente, os setores que exigem maior conteúdo tecnológico são setores da economia que oferecem empregos mais qualificados. Costumo sempre comparar dois extremos, os trabalhadores da construção civil, com os da Embraer. É evidente então que temos interesse em um número maior de empregos mais qualificados.

Quais os principais problemas na gestão de Ciência e Tecnologia?
Olival Freire: Nós temos um problema crucial que diz respeito à inovação. O número que normalmente chama a atenção é o de que, em qualidade da pesquisa, a gente está em 13ª posição no cenário internacional. Mas, quando olhamos, por exemplo, o número de patentes, a gente vai lá para trás. Vamos para a 40ª posição, coisa desse tipo.

Então temos uma clara assimetria no desenvolvimento científico e tecnológico no Brasil. Vários fatores têm contribuído para isso. Um deles é o fato de que o investimento privado em ciência e tecnologia no país é extremamente limitado.

Temos 1,2% do PIB investido em Ciência e Tecnologia. Mas, quando a gente desagrega esse número e o compara com outros países em desenvolvimento, vemos que o investimento público e estatal no Brasil não é um problema absolutamente crucial, ainda que precise ser ampliado. É no investimento privado que nós perdemos feio.

E como resolver essas questões?
Temos que aumentar o investimento privado, por exemplo, com a criação de centros de pesquisa, com atração de centros de pesquisa estrangeiros para o Brasil. A GE, por exemplo, está construindo um centro de pesquisa na ilha do Fundão, junto à UFRJ.

O ministério está trabalhando também a ideia de criação de novos fundos setoriais, fundos de captação de recursos de setores da economia para financiar o desenvolvimento tecnológico daqueles setores. Estamos propondo fundos dos setores automotivo, financeiro, da construção civil e da mineração. Essa é uma fórmula que foi muito positiva nos últimos dez anos, por exemplo, com o fundo do petróleo, que tem sido essencial no desenvolvimento científico e tecnológico da área da cadeia do petróleo.

Outra questão que já tinha sendo tratada e que o ministério pretende enfatizar é que as dificuldades não são só do lado das empresas, mas no mundo acadêmico brasileiro. Nós temos ainda uma cultura avessa, na academia, à interação com as empresas.

Já nas gestões anteriores, o governo tomou uma série de providências no sentido de colocar bolsas de pesquisas para a colocação de doutores em empresas e medidas desse tipo. Outra medida que está sendo analisada é a transformação da Finep em um banco de inovação, de modo que ela possa ter uma estrutura mais robusta de financiamento à inovação, com mais recursos e mais flexibilidade.

Também há a expectativa de um plano pró-engenharia, que envolve desde a oferta de bolsas para formar engenheiros, alguns estímulos para atrair e manter os estudantes nas escolas de engenharia, quanto a reformulação do ensino de engenharia, de modo que esse conjunto de esforços possa fazer face a um gargalo que há nessa área.

Qual o papel da Ciência e Tecnologia no governo Dilma? Quais as expectativas para esta área?
A sinalização é, no mesmo sentido do governo interior, de incremento na área. O assunto foi tema de campanha, foi tema do primeiro discurso da presidente Dilma e um aspecto importante é que ela tem colocado a ciência e tecnologia na agenda da diplomacia brasileira. Por exemplo, nos entendimentos com a China e os Estados Unidos, o componente ciência e tecnologia teve papel muito importante.

Então, certamente, todos nós temos uma elevada expectativa quanto a esse compromisso. O que não significa que não existam dificuldades, especialmente momentâneas, relacionadas a esses ajustes que o governo vem promovendo no início da gestão.

O contingenciamento de recursos pode afetar projetos em andamento?
Eu acho que o problema desse corte no orçamento não é tanto comprometer os projetos em curso. O problema é que vivemos uma fase de expansão, e uma expansão absolutamente necessária. E é claro que, se prevalecessem essas restrições ao longo de todo o governo, nós estaríamos diante de um quadro problemático, porque estaríamos limitando a expansão. Limitar a expansão no Brasil hoje seria um quadro seríssimo.

Então a nossa expectativa e luta é por uma modificação nesse cenário. Agora é uma luta que é do ministério, certamente a presidente Dilma tem uma posição favorável, mas é uma posição que depende também do Congresso Nacional e da sociedade brasileira.

Depende do Congresso porque, por exemplo, antes, havia um percentual do fundo do petróleo que era destinado especificamente para ciência e tecnologia. E, depois que a legislação do pré-sal foi aprovada,a distribuição desse percentual está descrita de forma genérica entre o que se chamou de obrigações sociais, e distribuído também com estados e municípios.

Temos consciência de que, com isso, não enfrentamos uma apagão de ciência e tecnologia em 2011 porque o presidente Lula, no último dia do governo, baixou um decreto, sustando por um ano a aplicabilidade desse aspecto da legislação do pré-sal. Então nós temos que modificar essa legislação.

E como sensibilizar para essa mudança?
O ministro esteve na Câmara e no Senado, aparentemente a reação inicial foi positiva, mas, em minha opinião, a ciência e tecnologia ainda são pouco valorizadas no cenário da cultura brasileira.

A sociedade precisa valorizar seus engenheiros e cientistas da mesma forma que valoriza seus jogadores de futebol, suas atrizes e seus cantores, para chegar a uma comparação extremada. De maneira mais específica, me chamou a atenção, por exemplo, que na composição do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, não tenha nenhuma central sindical.

O que significa isso? Não interessa ao trabalhador brasileiro a política de ciência e tecnologia? Eu acho que interessa. Agora por que não tem central sindical? Certamente isso é um vício do decreto que regulamentou esse conselho há muito tempo, mas expressa também pouco empenho das centrais em interferir nas questões de ciência e tecnologia.

Então tem que convencer o Congresso a reformar a lei, e tem a questão cultural. E a questão cultural às vezes está em uma camada do nosso imaginário que é mais profunda do que a questão política. Ninguém vai dizer que ciência e tecnologia não é um gasto tão relevante, mas no fundo age como se não fosse.

O CNPq está fazendo 60 anos. Que contribuição o senhor avalia que o conselho tem dado à ciência brasileira?
Eu comecei esta entrevista dizendo que temos um progresso nessa área que é resultado de um esforço de 50, 60 anos. E nesse período, nós tivemos marcos fundamentais, como a criação do CNPq.

No pós-guerra o mundo compreendeu claramente o papel da Ciência e Tecnologia. O radar e a bomba atômica tiveram papel crucial na guerra. Então o mundo saiu da 2ª Guerra entendendo que não pode ter país desenvolvido ou independente se não tiver desenvolvimento científico e tecnológico.

Nesse espírito, o Brasil criou o CNPq e a Caps, no mesmo ano, e também foi criado o ITA. Muito do que temos hoje de positivo na ciência brasileira tem uma fórmula simples: se você leva 60 anos apoiando uma atividade, com incentivos e bolsas, essa atividade vai frutificar.

O povo brasileiro não é nem mais nem menos inteligente que qualquer outro povo. Nesses 60 anos, com o CNPq dizendo que quem produzir e publicar vai ter incentivo, a sociedade brasileira passou a encarar a atividade científica como uma atividade importante. O CNPq, mais que uma agência financiadora, é um símbolo, um ícone.


* Nota da ASCOM/UEPB

quinta-feira, 19 de maio de 2011

1º Encontro de Blogueiros e Redes Sociais da Paraíba ocorrerá amanhã (20)

Nesta sexta-feira (20), João Pessoa sediará o 1º Encontro de Blogueiros e Redes Sociais da Paraíba. O evento ocorrerá a partir das 9h, na Empresa Paraibana de Turismo (PBTUR), localizada na Avenida Almirante. Tamandaré, 100,  em Tambaú.  A programação conta com debates, oficinas para blogs e redes sociais e assessoria jurídica para blogueiros.

O evento conta com mais de 400 blogs já inscritos e a participação do advogado Harrison Targino, do presidente da Associação Nacional para Inclusão Digital, Percival Henriques, além do governador do estado da Paraíba, Ricardo Coutinho, entre outros.

Para maiores informações, acesse o portal do encontro: http://www.blogueiros.net.br/

quarta-feira, 18 de maio de 2011

A sabedoria da insegurança


Por Michael Kepp [jornalista norte-americano radicado há 28 anos no Brasil], da Revista Equilíbrio


Alguns consideram minha mudança para o Brasil, uma viagem sem volta para um país que nunca havia visitado, um ato de coragem, um pulo gigante. Não foi. Foi um passo gradativo, uma extensão de uma década errante.
Entre meus 20 e 30 anos, passei muito tempo pegando caronas pelos EUA com a placa: "Qualquer lugar menos este". Vir para cá foi uma separação de um lugar onde nunca me senti em casa.
Meus dias na estrada me fizeram sentir seguro sobre como viver no presente. Ao me colocar em uma situação aparentemente insegura por um tempo indefinido e aceitando suas consequências, aprendi a desenvolver uma segurança interior.
O filosofo inglês Allan Watts disse: "O desejo de segurança é uma dor e uma contradição e, quanto mais nós o perseguimos, mais doloroso fica".
Quer dizer, renunciar à compulsão por se sentir seguro torna você mais seguro.
Na época das caronas, eu vivia de bicos construindo casas, colhendo maçãs, trabalhando como barman e garçom e lia Watts. Essa jornada incluiu pausas maiores em cinco cidades americanas e europeias antes de chegar ao Rio, o refúgio ideal.
O jeito descontraído dos cariocas ajudou a me recuperar de uma cultura mais estressante e competitiva. E, quando vi que podia sobreviver como jornalista freelancer, a pausa virou permanência. Eu tinha 33 anos. Agora, 28 anos depois, ainda sou freelancer. E viver à margem de uma profissão, como viajar à beira de uma estrada, ensina que a segurança vem de ter fé em si mesmo.
Os jovens de hoje não são aventureiros como no início dos anos 70.
Era uma época em que os jovens faziam viagens sem destino, fossem psicodélicas ou quilométricas, para abrir as portas da percepção e da autodescoberta.
Hoje, poucos jovens fazem essas odisseias. Uma economia global instável e mais competitiva acelerou as tentativas de entrar no mercado de trabalho. Muitos conhecem o terno e a gravata antes de conhecerem a si mesmos.
Para alguns, esse processo é um constante e imprevisível ato de autorreinvenção. Eu estudei zoologia e cinema, virei jornalista e depois cronista. E descobri que você encontra segurança não quando a procura, mas quando aceita os mistérios e as incertezas da vida. Não é uma busca externa, mas uma entrega interna. É a diferença entre passar pela vida e deixar a vida passar por você.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Valorize os outros, a fim de que eles valorizem você


Por Giuliana Rodrigues, da ASCOM/UEPB


Em um programa de TV dos Estados Unidos, chamado “O que você faria?”, foi exibida a seguinte experiência comportamental: jovens atores simularam um trote, semelhantes àqueles praticados por irmandades, sociedades e até mesmo universidades para ingresso de seus componentes.
 
A ideia era que um grupo dominante reproduzisse, em via pública, uma cena de bullying que normalmente acontece a portas fechadas. No episódio, jovens que supostamente desejavam entrar na fraternidade eram obrigados a ingerir imensa quantidade de bebida alcoólica e, em seguida, submetidos por seus “colegas” a sessões de humilhação. Moças e rapazes foram amarrados a postes, pintados com tintas, sujos com lama, insultados e forçados a participar de atividades degradantes.
 
O que o programa pretendia, como o próprio nome indicava, era saber de que forma as pessoas que passavam pela rua reagiriam ao fato. O resultado foi que algumas se indignaram com o que estavam vendo, protestaram, brigaram com os “torturadores”, soltaram os garotos das amarras e telefonaram para a polícia.
 
No entanto, era impressionante como boa parte do público achava a cena interessante, chegando a participar, fotografar e até achar graça. Em geral, a cena sensibilizou adultos, mães ou pais, cujos filhos poderiam ser vítima do bullying que se praticava.
 
De tudo isso, resta-nos refletir: No lugar dessas pessoas, o que faríamos? Será que somos incapazes de ajudar o próximo? Perante alguém que surja enfermo, acidentado ou injustiçado, coloquemo-nos, em pensamento, no lugar difícil desse alguém e providenciemos o socorro possível. Certamente, o auxílio ao próximo é sempre o melhor investimento.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Assistente de Neruda afirma: Poeta foi assassinado pela ditadura


Por Francisco Marín, do Jornal El Clarín

Tudo estava pronto para que o poeta e Prêmio Nobel de Literatura Pablo Neruda se exilasse no México. Ele viajou de sua casa em Isla Negra, no litoral chileno, para Santiago do Chile e um avião enviado pelo governo mexicano estava pronto para levá-lo. No entanto, ele teve que ser internado na Clínica Santa Maria da capital chilena.

Avisou por telefone a sua esposa, Matilde Urrutia, e ao seu assistente, Manuel Araya, que um médico havia lhe dado uma injeção no estômago. Poucas horas depois ele morreu. Araya – que esteve ao lado do poeta nos seus últimos dias - conta um segredo que o afoga: O poeta “foi assassinado”.

O poeta chileno Pablo Neruda às quatro horas da madrugada (de 11 de setembro de 1973), soube do golpe de Estado. Ficou sabendo através de uma emissora de rádio argentina que captava por ondas curtas. A emissora informava que a Marinha tinha se amotinado no porto de Valparaíso.

“Ele tentou se comunicar com Santiago, mas foi impossível. O telefone estava fora de serviço. Somente às nove horas da manhã confirmamos que o golpe tinha estava acontecendo. (...) Esse 11 de setembro foi um dia caótico e amargo, porque não sabíamos o que aconteceria com o Chile e com a gente”.

Manuel Araya Osorio fala de Neruda com a familiaridade de alguém que dividiu momentos cruciais com uma personagem histórica. E de fato. Ele foi assistente do poeta desde novembro de 1972 – quando ele voltou da França – até sua morte em 23 de setembro de 1973.

Este correspondente reuniu-se com esta personagem em 24 de Abril, no porto de San Antonio, próximo a Valparaíso. A entrevista foi realizada na casa do dirigente dos pescadores artesanais Cosme Caracciolo, para quem Araya pediu ajuda para desvendar um segredo que o sufocava: “Tudo que eu quero antes de morrer é que o mundo conheça a verdade: Pablo Neruda foi assassinado”, disse.

Somente o jornal El Lider, de San Antonio, mostrou parcialmente a sua versão em 26 de junho de 2004. Mas não teve repercussão pela pouca influência deste meio.

Araya afirma que sempre quis ver a justiça ser feita. Conta que, em 01 de maio de 1974, propôs a Matilde Urrutia, viúva de Neruda, que se esclarecesse essa morte. Ambos foram testemunhas de suas últimas horas: dormiram, comeram e conviveram na mesma casa a partir do golpe de 11 de setembro de 1973 até a morte do poeta, 12 dias depois, na Clínica Santa Maria em Santiago.

Mas Araya afirma que Matilde – que faleceu em janeiro de 1985 – não quis tomar nenhuma ação para estabelecer eventuais responsabilidades. Segundo ele, Matilde lhe disse: “Se eu começar um processo judicial vão tirar todos meus bens”. Araya conta que em outra ocasião tiveram uma discussão que marcou a ruptura definitiva da relação com a viúva. “Ela me disse que o que tinha acontecido era assunto dela e não meu, porque eu já tinha terminado de trabalhar com Pablo, já não era mais seu funcionário e não tínhamos mais ligação”.

“Neruda queria que, quando ele morresse, a casa em Isla Negra ficasse para os  mineiros do carvão (...) Mas a fundação (Pablo Neruda) apropriou-se da sua obra e não realizou nenhum dos seus sonhos. Eles (os diretores da fundação) estão interessados apenas em dinheiro”, espetou.

Afirma que há dois anos entregou para Jaime Pinos, então diretor da Casa Museu de Isla Negra, da fundação, um relato sobre os últimos dias do poeta. “Mas eles não fizeram nada com essa informação, nem sequer a tornaram pública. Não querem que se conheça a verdade (...) Nunca me deram a palavra nos eventos organizados e nem mesmo nas comemorações da sua morte”.

Araya vem de uma família de camponeses da fazenda La Marquesa, perto de San Antonio. Quando tinha 14 anos foi acolhido em Santiago pela dirigente comunista Julieta Campusano, que lhe o tratou como afilhado.

Esta relação o ajudou, pois Campusano chegou a ser senadora e a mulher mais influente do Partido Comunista, e conseguiu que Araya recebesse um treinamento especial em segurança e inteligência, entre outros assuntos. Araya subiu rápido. Foi mensageiro pessoal de Allende antes de servir como principal assistente de Neruda.

Araya, que era motorista, mensageiro e encarregado da segurança de Neruda, concorda que o autor de Canto Geral tinha câncer de próstata, mas não acredita que essa doença o matou. Garante que essa condição “estava controlada” e que Neruda “gozava de boa saúde, com as fraquezas próprias de uma pessoa de 69 anos”.

"Abandonados"

Araya disse que, após o golpe de 11 de setembro, Neruda, sua esposa e o resto dos habitantes da casa de Isla Negra, estavam “sozinhos e abandonados”. O contato com o mundo exterior era limitado às notícias que chegavam através de um pequeno rádio sintonizando Neruda, às conversas telefônicas esporádicas por um telefone que somente recebia chamadas e ao que era contado na Hospedaria Santa Elena, onde a proprietária “era da direita e sabia de tudo o que estava acontecendo”.

Conta que, em 12 de setembro, chegou um jipe com quatro militares. “Todos estavam com o rosto pintado de preto. Eu saí para recebê-los. (...) O oficial perguntou-me quem estava na casa. Tive que dizer que naquele momento estavam Cristina, a cozinheira; a sua irmã, Ruth; Patrício, que era jardineiro e garçom; Laurita (Reyes, irmã de Neruda); a Sra. Matilde, Pablito (Neruda) e eu."

“O oficial disse-nos que na casa não poderia ficar ninguém além de Neruda, Matilde e eu. Então tivemos que no virar entre os três: dormíamos no quarto do casal que ficava no segundo andar. Eu dormia sentado em uma cadeira, enrolado com uma manta. Fazia isso para ficar mais perto de Neruda, porque não sabíamos o que iria acontecer”.

Em 13 de Setembro, por volta das dez horas da manhã, os militares invadiram a casa. Araya conta que eram aproximadamente 40 soldados distribuídos em três caminhões. Armados com metralhadoras, rostos pintados de preto e uniformes camuflados. Vestido e equipados “como se fossem para uma guerra”.

Ele recorda: “Entravam por todos os lados: pela praia, pela lateral (...) Saí ao pátio para perguntar o que eles queriam. Falei com o oficial que dava as ordens. Ele me disse para abrir todas as portas. Enquanto revistavam, destruíam e roubavam, os militares perguntavam se tínhamos armas, se havia pessoas escondidas, se escondíamos dirigentes do Partido Comunista (...) Mas não encontraram nada. Foram embora em silêncio. Nem pediram desculpas. Sentiam-se donos e senhores do sistema. Eles tinham o poder nas mãos."

Acrescenta que, por volta das três horas da tarde, logo após os soldados do exército irem embora, chegaram os soldados da marinha. “Estiveram por mais de duas horas. Também invadiram a casa e roubaram objetos. Usavam detectores de metal. (...) A Sra. Matilde me contou que o chefão dos marinheiros entrou no quarto de Neruda e lhe disse: 'Desculpas, senhor Neruda’. E foi embora”.

Araya recorda que por vários dias, a Marinha manteve um navio de guerra em frente à casa do poeta. “Neruda dizia: 'Vão-nos matar, vão-nos fazer voar pelos ares’. E eu respondia: ‘Se tivermos que morrer, eu vou morrer na janela primeiro que o senhor’. Fazia isso para encorajá-lo, para se sentir acompanhado. Então ele disse a Sra. Matilde: ‘Patoja – como ele a chamava – veja o companheiro, ele não nós abandonará, ele vai ficar aqui’”.

Araya conta que conversas dessa natureza aconteciam no quarto do casal: eles deitados e Araya sentado na beirada da cama. “Perguntávamos-nos o que faríamos nós sozinhos. Pensávamos que Neruda seria assassinado. Então, decidimos que a única opção era deixar o país”.

A viagem

Araya narra que Neruda lhe disse que seu plano era se estabelecer no México e uma vez lá, pedir “aos intelectuais e aos governos do mundo ajuda para derrotar a tirania e reconstruir a democracia no Chile”.

Relembra “Da Hospedaria Santa Elena – a menos de 100 metros da casa de Isla Negra – entramos em contato com as embaixadas da França e do México. A do México ganhou nota dez. O embaixador (Gonzalo Martinez Corbalá) prontificou-se para nos ajudar. Acho que em 17 setembro ligou para dizer que conseguira um quarto na Clínica Santa Maria. Lá deveríamos esperar a chegada de um avião oferecido pelo presidente Luis Echeverría”.

O problema era transportar o poeta até a clínica. “Com Neruda e Matilde pensamos que a melhor e mais segura forma de chegar lá era de ambulância. Minha missão era conseguí-la. Viajei para Santiago no nosso Fiat 125 e consegui alugar uma ambulância. (...) Lembro que ofereci seis vezes mais do que me cobravam para ter certeza de que realmente fossem nos buscar. Combinamos que fossem no dia 19, porque naquele dia a Clínica teria tudo pronto para receber Pablito”.

“Chega o dia 19 e solicitamos ao quartel do exército da província de San Antonio (Tejas Verdes) permissão para se transportar a Neruda. Disseram-me: 'Não estamos dando passes, menos ainda para Neruda’. Apesar da recusa decidimos partir. A ambulância chegou até a porta que dava para a escada de seu quarto. (...) Ao sair, Neruda despediu-se da sua cadela Panda, subiu na ambulância e deitou na maca. Neruda e Matilde foram de ambulância. Eu os segui de perto no Fiat”.

“A viagem foi triste, caótica e terrível. Controlavam-nos a cada quatro ou cinco quilômetros, parecia impossível chegar ao nosso destino. Saímos às 12:30h de Isla Negra e chegamos às 18:30 na Clinica em Santiago (uma distância de pouco mais de 100 quilômetros)”.

“Na localidade de Melipilla encontramos o controle mais amaldiçoado. Lá Neruda viveu o pior momento. (...) Os militares o tiraram da ambulância e o revistaram. Eles disseram que estavam à procura de armas. Neruda pedia clemência, dizendo que era um poeta, um Prêmio Nobel, que tinha dado tudo por seu país e que merecia respeito. Para amolecer seus corações disse-lhes que estava muito doente, mas a humilhação continuou. Em certo momento nós três choramos de mãos dadas porque pensávamos que chegara o nosso fim”.

Finalmente a ambulância chegou à clínica, três horas mais tarde do que o combinado. “Como chegamos muito próximo da hora do toque de recolher, não podíamos fazer nada mais que permanecer na clínica para pernoitar (...)”.

“O embaixador Martinez Corbalá foi nos ver no dia seguinte. E também o francês, que nunca soube seu nome. Recebemos também a visita de Rodomiro Tomic e Máximo Pacheco (dirigentes democratacristãos), de um diplomata sueco, e mais ninguém”.

A Injeção Misteriosa

Araya disse que os primeiros dias na clínica transcorreram sem problemas. Em 22 de setembro, a Embaixada do México avisou que o avião colocado à disposição por seu governo estava previsto para deixar Santiago rumo ao México em 24 de Setembro. Comunicou ainda que o regime militar havia autorizado o voo.

"Então Neruda pediu a Matilde e a mim que viajássemos a Isla Negra para procurar suas coisas mais importantes, entre elas suas memórias inacabadas. Penso que era ‘Confesso que Vivi’. No dia seguinte – 23 de setembro – partimos bem cedo para a casa em Isla Negra. (...) Deixamos Neruda muito bem na clínica, acompanhado por sua irmã Laurita, que chegou nesse dia”.

Garante que Neruda estava “em excelente estado, tomando todos seus medicamentos”. Nenhum deles era injetável, todos eram comprimidos. Tomamos o cuidado de pegar tudo que ele recomendou. Nisso estávamos quando, perto das quatro da tarde, Neruda ligou para a Hospedaria Santa Elena, onde deram o recado para Matilde, que retornou a ligação. Neruda disse: “Venham depressa, porque enquanto estava dormindo entrou um médico e me pôs uma injeção”.

“Quando chegamos à clínica, Neruda estava muito febril e avermelhado. Ele disse que tinha tomado uma agulhada na barriga (estômago) e que não sabia qual fora a substância. Então verificamos que havia uma mancha vermelha na barriga”.

Araya recorda que momentos depois, quando estava lavando o rosto no banheiro, entrou um médico que lhe disse: “Você tem que comprar urgente para o Senhor Pablito um remédio que não tem na clinica”.

Fui comprar o remédio e Neruda ficou com Matilde Neruda e Laurita. “No caminho fui seguido sem perceber. O médico tinha me dito que não havia esse medicamento no centro de Santiago, mas em uma farmácia da rua Vivaceta ou Independência. Quando saí pela rua Balmaceda para entrar em Vivaceta apareceram dois carros, um atrás e outro pela frente. Homens desceram dos carros e me bateram com socos e pontapés. Não soube quem eram eles. Me esbofetearam muito e depois me deram um tiro numa das pernas”.

“Depois de apanhar, fiquei muito ferido e fui para a delegacia de polícia de Carrión, que fica em Vivaceta esquina de Santa Maria. Então me transferiram para o Estádio Nacional onde sofri graves torturas que me deixaram a um passo da morte. O Cardeal Raúl Silva Henríquez conseguiu me tirar desse inferno. Por isso estou vivo’”.

Neruda morreu às 22:00 horas em seu quarto – o número 406 – da Clínica Santa Maria.

Consultado, o diretor dos arquivos da Fundação Neruda, Dario Oses, anunciou a posição da instituição sobre a morte do poeta:

"Não há uma versão oficial manipulada pela Fundação. Esta se limita aos testemunhos de pessoas próximas a Neruda no momento da sua morte e de biógrafos que obtiveram fontes confiáveis. Há muitas coincidências entre as versões de Matilde Urrutia, em seu livro ‘Minha vida junto de Pablo’, a de Jorge Edwards em ‘Adeus poeta’ e a de Volodia Teitelboim em sua biografia ‘Neruda’. A causa da morte foi câncer. Um dos médicos que o tratou, aparentemente o Dr. Vargas Salazar, tinha avisado a Matilde que a agitação produzida ao poeta de saber sobre o que estava acontecendo no Chile nesse momento podia agravar seu estado. Para esta situação também contribuíram a invasão de sua casa (...), o transporte em ambulância (...) com controles e revistas militares na estrada”.

Mas Manuel Araya diz que não tem a menor dúvida: “Neruda foi assassinado”. E argumenta que a ordem veio de Augusto Pinochet: “De onde mais poderia vir?”.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Bicentenário de nascimento de Franz Liszt, o cosmopolita visionário


Franz Liszt é considerado como uma das personalidades mais estridentes entre os compositores clássicos. Era um excêntrico e um "D. Juan", um pianista virtuoso que enchia as salas de concertos, um intelectual, cosmopolita e muito viajado e, sobretudo, uma pessoa que compunha sem cessar. A sua criação musical abrange 123 obras para piano, 77 canções, 25 obras para orquestra, 65 obras religiosas e 28 obras profanas para coro, assim como inúmeros arranjos, obras para órgão e ainda outras obras. Liszt é percursor da "composição sinfónica", na qual a música descreve momentos cénicos e se torna um meio para se contar uma história.

Franz Liszt nasce a 22 de outubro de 1811 em Raiding, Burgenland, que naquela altura ficava na parte húngara do império austríaco. Desde cedo seu pai (educador musical ambicioso e severo) lhe dá aulas de piano. De Viena, onde Liszt, entre outros, tem lições com Antonio Salieri, a família segue para Paris. E se, por um lado, o Conservatório de Paris, devido à sua nacionalidade, nega a admissão à criança prodígio de 12 anos, o pai, por outro lado, intensifica o treino musical do filho.

Em Paris, Liszt, que se interessa pelas correntes intelectuais do seu tempo, estabelece contatos com muitos artistas da sua época. A comunicação com os grandes gênios musicais como, por exemplo, Frédéric Chopin, Hector Berlioz e Felix Mendelssohn Bartholdy, faz com que Liszt se aperceba dos seus próprios limites musicais, mas este confronto incita-o. Em maio de 1832, numa carta ao seu aluno e amigo Pierre Wolff, Liszt escreve: Há duas semanas que o meu espírito e os meus dedos trabalham como loucos [sic.] - Homero, a Bíblia, Platão, Locke, Byron, Hugo [...], Beethoven, Bach, Hummel, Mozart, Weber todos eles estão à minha volta. Estudo-os, observo-os, devoro-os com entusiasmo e, para além disso, exercito-me 4 a 5 horas [...]. Ah! Se não ficar louco, quando eu regressar, vais ter perante ti um artista!

Os anos seguintes são marcados por incessantes viagens através de toda a Europa, assim como por inúmeras composições e apresentações. Casa com Marie d'Agoult, seis anos mais velha do que ele, com quem tem três filhos. Às estadias na Suíça e em Itália seguem-se inúmeras paragens por toda a Europa. Do ponto de vista artístico, Liszt vê-se na altura confrontado não só com críticas como também com grandes e extremos sucessos. Em 1841/42, em Berlim, Liszt é tão festejado como pianista, sobretudo pelo universo feminino, que Heinrich Heine cria o termo "lisztomaníaco".

Liszt e Marie d'Agoult separam-se em finais de 1843, por Marie Liszt não estar mais disposta a desculpar as suas repetidas infidelidades. Franz Liszt ganha uma violenta disputa pela guarda dos filhos do casal, acabando no entanto por deixar as crianças em Paris com a mãe.

De 1843 a 1861, Franz Liszt é chefe de orquestra em Weimar, tornando-se nessa altura amigo de Richard Wagner que, mais tarde e contra a vontade de Liszt, virá a casar com a sua filha Cosima. Por esta altura inicia a relação com a temperamental princesa Carolyne zu Sayn-Wittgenstein, na qual encontra uma parceira de discussão à altura e, simultaneamente, uma mecenas da sua arte. Os anos de Weimar são a época artística mais produtiva da vida de Liszt. Muitas das suas obras de piano, doze poemas sinfônicos, obras profanas (inúmeras canções, melodramas, coros de vozes masculinas) e música religiosa datam desta altura. Mas o seu reconhecimento como compositor mantém-se pouco significativo. E o mesmo acontece com o seu trabalho como maestro: apreciado por um lado, e, por outro lado, objeto de forte rejeição.

Após cerca de 20 anos em Weimar, Franz Liszt muda-se para Roma. Na verdade, para aí casar com Carolyne zu Sayn-Wittgenstein, a sua companheira. Mas, um dia apenas antes do casamento, Carolyne zu Sayn-Wittgenstein, pressionada pela família que é contra o casamento, retira o seu acordo. Este fracasso tem consequências sobre a relação dos dois, levando por fim à separação.

Liszt passa então a dedicar-se cada vez mais às composições e obras de caráter religioso. Por fim, o Papa Pio IX confere-lhe as ordens menores e a dignidade de abade, vindo assim ainda a realizar-se o sonho juvenil de Liszt de vir a pertencer ao clero. Nestes seus últimos anos de vida, as sua criações como compositor são também finalmente reconhecidas, em especial as suas obras para orquestra e as suas obras religiosas. Em 1886 viaja, já muito doente, para Weimar para assistir ao Festival de Bayreuth, realizado sob a direção da sua filha Cosima. Morre a 31 de julho, poucos dias depois da sua chegada. 

Visionário musical

Franz Liszt é considerado como criador de uma música para piano totalmente nova, num estilo de composição futurista. Como pianista quebrou também com todas as regras, recorrendo a um ou mais temas de óperas conhecidas, os quais ornamentava e transformava em peças brilhantes para piano, juntamente com as suas próprias ideias de composição. Para além disso, Liszt é considerado como o precursor da poesia sinfônica. É este o nome que se dá a uma peça para orquestra que, originariamente, descreve musicalmente conteúdos não musicais, tais como suportes literários ou quadros. Exemplos das poesias sinfônicas de Liszt são a sua Sinfonia Fausto ou a famosa Sinfonia Dante. 

Liszt compôs também muitas músicas de inspiração religiosa. Das principais delas fazem parte, entre outras, a Missa solemnis, a Missa de Coroação Húngara, o Oratorium Christus, e a Graner Messe,  um dos auges da música religiosa do século XIX.

Citação:

"Quando nos mantemos fiéis ao verdadeiro génio da música, a nova arte do som, com todas as suas vantagens instrumentais sutis não tem qualquer outro sentido senão o da flauta de Tuvalkin, o do primeiro instrumento de sopro, o da primeira gaita de foles dos primeiros sanabreses, o do "jodel" alpino, o do psalmo do monge, o do bater das tampas e o do acenar dos bambús dos negros, o do pequeno órgão da Cecília, o do violino de Paganini, o da ópera de Mozart e da canção de Hugo Wolf, ou seja, a função de, numa outra língua que não a das palavras ou a da pintura  ou a da arquitetura, na linguagem dos sons, falar de alma para alma." (Franz Liszt)

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Oportunidade de Estágio em Informática e Workshop Engenharias


A Casa Brasil Municipal iniciará nesta sexta-feira, às 14h, processo seletivo para estágios na área de informática. Serão selecionados quatro estagiários em nível técnico e dois em nível universitário para atuarem nas áreas de manutenção, rede, segurança de dados, operação de microcomputadores e multimídia. Os critérios quanto à seleção obedecem rigorosamente o que determina a lei de estágio (lei nº 11.788) e o processo seletivo contará com uma banca, tendo o acompanhamento das instituições de ensino, garantindo a transparência e lisura do processo.

Esta seleção, além de beneficiar os alunos, traz uma importante contribuição à sociedade quanto ao respaldo prático da formação profissional (requisito exigido pelo mercado de trabalho). Desta forma, procura-se também estimular e agregar outros órgãos públicos a contribuir com a formação técnica substanciando a oferta de profissionais em fase de formação, respaldando a tecnologia em nossa cidade. Segundo o coordenador da Unidade, Mário Wilson “é importante frisar que, tecnologia, acima de equipamentos e softwares, é reflexo dos investimentos em formação e qualificação profissional (suporte)”.

A prova de avaliação de conhecimentos acontecerá no auditório da Secretaria de Administração (3º andar), na sexta feira, das 13 às 14h, à Avenida Floriano Peixoto, 692, Centro. A avaliação do resultado será feita na Casa Brasil no dia 16, às 9h, à rua advogado Otávio Amorim, s/n - Cruzeiro, ao lado do antigo Forrock, sob a supervisão dos integrantes das instituições de ensino as quais pertencem os concorrentes e das secretarias responsáveis pelo processo de seleção.

E a última etapa será no dia 18 às 9h quando será realizada uma entrevista coletiva com os classificados. Nessa fase serão resolvidos casos de empate (se houver) com a decisão sobre ocupação de vagas. A divulgação dos resultados será feita no dia 19 através de envio de e-mail a todos os concorrentes e às suas escolas/universidades. A assunção do estágio dependerá dos trâmites burocráticos, mas, a capacitação dos estagiários começará logo após a divulgação dos resultados.
No momento a Casa Brasil está atendendo cerca de 130 pessoas/dia e com essa seleção, a Unidade pretende reiniciar, a partir de junho, a volta da totalidade de suas atividades de cursos e oficinas.

Mais informações contatar: Karina (Secretaria de Administração) - 8892-4904 ou Mário (Casa Brasil) 3335-1251 / 8837-4838.

Estudantes de Engenharia Química promovem workshop
Os estudantes concluintes do curso de Engenharia Química da Universidade Federal de Campina Grande promovem de 16 a 18 de maio o workshop Engenharias. O evento será realizado no Centro de Extensão José Farias da Nóbrega, no campus de Campina Grande.

Na ocasião, os participantes terão a oportunidade de participar de palestras que abordarão as seguintes temáticas: o Exercício do Profissional de Engenharia, o Ciclo evolutivo com a utilização das inovações tecnológicas mediante o uso da Engenharia, Visão logística e Empresarial e Nova Fabrica da Ambev e Oportunidade de Recrutamento.
Já os minicursos oferecidos no evento serão relacionados à produção de cerveja e refrigerante e matrizes energéticas, controle e automação.
As inscrições serão realizadas até esta sexta-feira (13), no stand localizado no Hall da Biblioteca Central. A taxa de inscrição varia de R$ 20 a R$ 80, dependendo do pacote de palestras e minicursos escolhidos pelo participante.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Inscrições abertas para Bolsas de Pesquisa MEXT 2012 no Japão


Estão abertas até o dia 31 de maio as inscrições para as Bolsas de Pesquisa MEXT-2012, para realização de pesquisas em universidades japonesas, oferecendo aos interessados a oportunidade de cursar mestrado e/ou doutorado em universidades japonesas. As inscrições podem ser feitas pelos Correios, pessoalmente ou através de procuração na posse dos documentos necessários. 

Para candidatos domiciliados no Estado da Paraíba, as inscrições devem ser feitas por meio do Escritório Consular da Embaixada do Japão em Recife - PE, localizada na Rua Padre Carpuceiro, 733, 14º andar, Ed. Empresarial Center I, Boa Viagem. Caixa Postal 502, CEP: 51020-280. Tel: (0xx81) 3207-0190.
 
As Bolsas terão duração de 01 ano e seis meses, no valor de 150.000 ienes (sujeito à pequena variação), cerca de R$2.905,50 mensais, abrangendo igualmente as passagens aéreas de ida e volta e a isenção das taxas escolares. As áreas de interesse são várias, abrangendo os campos das Ciências Humanas, Exatas e Biológicas.
 
Para inscrever-se, os candidatos devem ter nacionalidade brasileira, até 34 anos de idade, formação universitária, interesse pela língua e cultura japonesa, dentre outros requisitos.
 
O processo de seleção é dividido em duas fases, a primeira abrange uma prova de línguas e entrevista e a análise de documentos e projeto de pesquisa.  Os melhores projetos serão selecionados e convocados para o exame de entrevista, quando seus documentos serão analisados pelo MEXT-2012 no Japão.
 
Para mais informações acesse o portal: http://www.sp.br.emb-japan.go.jp/pt/cultura/bolsa1_posa.htm

terça-feira, 10 de maio de 2011

Engels sobre Balzac: conservador, mas realista

Por José Carlos Ruy, do Portal Vermelho

Fundador do realismo literário moderno, o escritor francês Honoré de Balzac, sem ser aquilo que se convenciona chamar de romancista histórico, deu à literatura quase uma dimensão histórica- ou, dito de outra forma, deu expressão literária aos fenômenos políticos, sociais, econômicos, de seu tempo. Um tempo em que a burguesia emergia como a força social dominante, lançando os tentáculos do dinheiro e de sua forma de viver não só sobre o proletariado que estava sob seu tacão mas também sobre a velha aristocracia derrotada nas revoluções do final do século 18 e que, mesmo quando conseguiu restaurar parte de seu poder, só pode fazê-lo sob as formas e a lógica tipicamente burguesas.

Mesmo sendo um monarquista e partidário da aristocrqacia, Balzac (cujo aniversário se comemora no dia 20 de maio; ele nasceu em 1799 e viveu até 1850) não deixou suas convicções politicas embotarem o realismo com que encarou e descreveu a sociedade de seu tempo.

Esta é a tese defendida por Engels na carta endereçada à escritora socialista inglesa Margaret Harkness. Escrita em 1888, foi um dos textos onde Friedrich Engels manifestou opiniões elogiosas a respeito da obra de Honoré de Balzac.

Harkness foi autora de vários romances publicados no final do século 19 e havia enviado a Engels um exemplar de seu primeiro livro, “City Girl”. O ardor socialista naqueles anos. Mas hoje ela é lembrada principalmente pelos comentários de Engels a sua literatura.
Na carta, Engels refere-se ao realismo de Balzac que faz o escritor francês superar suas opiniões reacionárias ao descrever com cores fortes a ascensão dos valores burgueses na sociedade francesa de seu tempo.


Confira a carta enviada por Friedrich Engels a Margaret Harkenss:

Londres, início de abril de 1888


Cara Srta. Margaret Harkness


Agradeço muito por me enviar seu "City Girl", através dos Srs. Vizetelly. Eu o li com o maior prazer e avidez. É, na verdade, como meu amigo Eichhoff seu tradutor diz, kleines Kunstwerk ein ... (uma pequena obra de arte).


Se tenho algo a criticar, seria o fato de que talvez, afinal, o livro não é realista o suficiente. Realismo, em minha opinião, implica, para além da verdade dos detalhes, na reprodução de verdadeiros personagens típicos em circunstâncias típicas. Agora, seus personagens são típicos o suficiente, tanto quanto possível. Mas talvez as circunstâncias que os cercam e os fazem agir talvez não sejam parecidas. Em "City Girl" a classe trabalhadora é retratada como uma massa passiva, incapaz de ajudar a si mesma, não podendo mesmo demonstrar (fazer) qualquer tentativa de esforço nesse sentido.


Todas as tentativas de arrastá-la fora de sua apática miséria vêm de fora, de cima para baixo. Agora, se esta era uma descrição correta por volta de 1800 ou 1810, nos dias de Saint-Simon e Owen Robert, ela não pode aparecer assim em 1887 a um homem que durante quase cinquenta anos teve a honra de participar na maioria das lutas do proletariado militante. A reação de rebeldia da classe trabalhadora contra o meio opressivo que a rodeia, suas tentativas - convulsivas, semi-inconscientes ou conscientes - para recuperar sua condição de seres humanos, pertencem à história e devem reivindicar um lugar no domínio do realismo.


Estou longe de ver como uma falha o fato de você não ter escrito um romance socialista à queima-roupa, uma "tendenzroman" (um romance de tendência), como dizemos em alemão, glorificando o ponto de vista social e político do autor. Não é isso que quero dizer. Quanto mais as opiniões do autor permanecerem ocultas, melhor para a obra de arte. O realismo a que me refino revela-se a despeito das opiniões do autor. Deixe-me referir, por exemplo, a Balzac, a quem considero um mestre do realismo ainda maior do todos os Zolas do passado, presente e futuro. Em A Comédia Humana Balzac nos dá uma história maravilhosamente realista da "sociedade" francesa, especialmente do monde parisien (ao mundo social parisiense), descrevendo, na forma de crônica, quase ano a ano de 1816-1848 a ascensão progressiva da burguesia sobre a sociedade de nobres, que reconstituiu após 1815 e estabeleceu outra vez, na medida em que pode, o padrão da viellie politesse française (o refinamento francês).


Ele descreve como os últimos remanescentes deste mundo, que encarava como uma sociedade modelo, sucumbiram gradualmente ante a invasão dos vulgares arrivistas endinheirados, ou foram corrompidos por eles, como a grande dama cujas infidelidades conjugais não passavam de uma maneira de se acomodar com o modo como ela foi preparada em seu casamento, cedeu lugar à burguesia, e chifrava o marido por dinheiro ou cashmere. Em torno desta figura central Balzac agrupou uma história completa da sociedade francesa na qual, mesmo em pormenores econômicos (por exemplo, o rearranjo de bens móveis e imóveis após a Revolução), aprendi mais do que de todos os historiadores professos, economistas e estatísticos do período juntos.


Bem, Balzac era politicamente um legitimista; sua grande obra é uma elegia constante sobre a decadência inevitável da boa sociedade; suas simpatias são todas para a classe condenada à extinção. É por tudo isso que sua sátira nunca é aguçada, sua ironia nunca é amarga, mesmo quando ele põe em movimento os próprios homens e mulheres com quem simpatiza mais profundamente - os nobres. E os únicos homens de quem ele sempre fala com indisfarçável admiração, são os seus mais ferrenhos adversários políticos, os heróis republicanos do Cloître Saint-Méry, os homens, que na época (1830-6) foram de fato os representantes das massas populares. Que Balzac tenha sido obrigado a ir contra suas próprias simpatias de classe e preconceitos políticos, que tenha visto a necessidade da queda dos seus nobres favoritos, e que os tenha descrito como pessoas que não mereciam melhor sorte; e que tenha visto os verdadeiros homens do futuro no púnico lugar onde então eles só podiam ser encontrados – isto é o que considero um dos maiores triunfos do realismo, e uma das maiores características do velho Balzac.


Devo admitir, em sua defesa, que em nenhum lugar do mundo civilizado são os trabalhadores menos ativamente resistentes, mais passivamente submissos ao destino, mais hébétés (confusos) do que no East End de Londres. E como posso saber se você não tem boas razões para, contentando-se com uma imagem inicial da passividade da vida da classe trabalhadora, não tenha reservado o lado ativo para um outro trabalho?

Friedrich Engels

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Abertas inscrições para o Prêmio Jovem Cientista 2011


 Da Assessoria do CNPQ

O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) está com inscrições abertas, até o dia 31 de agosto, para o 25º Prêmio Jovem Cientista. A edição de 2011 comemora os 30 anos do prêmio e os 60 anos do conselho.

Com o tema "Cidades Sustentáveis", o prêmio tem o objetivo de promover o debate e a pesquisa, revelar talentos e investir  em estudantes e jovens pesquisadores que procuram alternativas para os problemas brasileiros.

São quatro categorias: "Graduado", "Estudante do Ensino Superior", "Estudante do Ensino Médio" e "Mérito Institucional". Também será concedida uma menção honrosa a um pesquisador doutor indicado por comitês do CNPq, associações ou sociedades científicas e instituições governamentais.

Na categoria Mérito Institucional serão premiadas duas instituições – uma de ensino médio e outra de ensino superior – que tiverem vinculados o maior número de trabalhos com mérito científico, desenvolvidos por candidatos inscritos nas categorias Graduado, Estudante do Ensino Superior e Estudante do Ensino Médio.

Os orientadores das três categorias e as escolas dos três classificados do Ensino Médio serão agraciados com laptops, como forma de estimular e reconhecer a cadeia de aprendizagem. Todos os premiados receberão, ainda, bolsas de estudo do CNPq.

Na categoria Graduado, os vencedores serão agraciados com R$ 30 mil (1º lugar), R$ 20 mil (2º lugar) e R$ 15 mil (3º lugar). Para Estudantes do Ensino Superior, os valores são de R$ 15 mil para o 1º lugar, R$ 12 mil para o 2º lugar e R$ 10 mil para o 3º lugar. Estudantes do Ensino Médio classificados em 1º, 2º e 3º lugares recebem um laptop de última geração cada um.

No Mérito Institucional, serão pagos R$ 35 mil para cada uma das duas instituições – uma de Ensino Médio e uma de Ensino Superior – que tiverem o maior número de trabalhos com mérito científico inscrito. O pesquisador que for indicado para a Menção Honrosa ganhará R$ 20 mil.

Mais informações no portal www.jovemcientista.cnpq.br.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Associação dos Homossexuais de CG comemora aprovação da união estável de gays


Por Oziella Inocêncio, da ASCOM/UEPB

A Associação dos Homossexuais de Campina Grande (AHCG) comemorou o julgamento histórico no Supremo Tribunal Federal (STF), que decidiu por unanimidade reconhecer as uniões estáveis de homossexuais no Brasil. Um dos integrantes da AHCG, Mário Wilson de Jesus Fernandes, explicou que o momento é de alegria e orgulho por este enorme avanço em matéria de acesso aos direitos e à proteção dos casais e famílias da diversidade no Brasil. “Isso colabora para que todos se sintam mais livres, apoiados e cidadãos”, afirmou.

Para Mário, contudo, a luta pela igualdade precisa prosseguir. “A decisão não é suficiente. Para que o preconceito acabe e todas as consequências advindas dele sejam extintas é preciso uma mudança cultural, mas esse já um grande passo. Necessitamos alcançar a total igualdade de acesso aos direitos, que é a melhor ferramenta para combater a violência e discriminação", enfatizou.

Mário acrescentou que em sua trajetória de vida acompanhou muitos casos em que após o parceiro falecer, o companheiro não teve mais condições de morar no local, pelo imóvel haver sido tomado pela família. “Ser expulso da casa não será mais algo natural. É absurdo haver um patrimônio construído junto e que não permanece para quem é de direito”, explicou.

Mário acredita ainda estar longe o tempo em que um casal homossexual possa caminhar pelas ruas como o faz um casal heterossexual. “Isso incomoda muito as pessoas, gera um mal estar, embora expressar amor não provoque nada de ruim. O beijo gay nas novelas, por exemplo, ainda é tabu e visto como algo feio pela sociedade. A polêmica continua”, disse.

Na última quinta-feira (05), dez ministros do STF entenderam que casais gays devem desfrutar de direitos semelhantes aos de pares heterossexuais, como pensões, aposentadorias e inclusão em planos de saúde. A decisão pode ainda facilitar a adoção, por exemplo.

Direito

A advogada especializada em Direito Homoafetivo Ana Célia Sousa atentou para o fato que por meio desses votos unânimes o Poder Judiciário pressionou o Legislativo a tomar as decisões cabíveis à situação. “A busca dos homossexuais por melhorias prossegue, mas agora eles têm o aval do STF para irem atrás dos seus direitos”, destacou. Célia alertou, porém, que direitos ligados ao casamento, como, por exemplo, alterar o estado civil, continuam sem aprovação.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

"Morrerei sendo transgressor", diz Ney Matogrosso

Da Revista Rolling Stone

 Ney Matogrosso não para - e nem pensa em parar. Aos 69 anos e sempre mantendo curtos intervalos entre um disco e outro, Ney acaba de lançar o DVD e CD ao vivo Beijo Bandido, gravado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em que sublima seu poder nos quadris para focar em sua veia teatral. Dono de uma das vozes mais potentes do Brasil, o intérprete vai aparecer ainda no filme Luz nas Trevas - A Volta do Bandido da Luz Vermelha, que deve estrear neste semestre. "Quero fazer mais cinema, sou ator antes de ser cantor", diz.

Confira a entrevista:

Nos extras do DVD Beijo Bandido, você diz achar que o mundo de hoje é mais careta que antigamente. Por quê?
Porque eu vejo muito mais preconceito, desarmonia, desentendimento. Não sou desses que acha que antigamente o mundo era todo melhor, mas agora o vejo decadente, ladeira abaixo. Por incrível que pareça, na década de 1970 nós tínhamos uma liberdade muito maior. Uma liberdade individual, porque havia uma reação de todos para haver uma liberação. Hoje eu não vejo ninguém mobilizado para nada.

Atualmente, pouca coisa na música parece passar uma imagem realmente transgressora, como foi o caso do Secos & Molhados. As pessoas estão acostumadas a tudo ou há uma falta de criatividade artística?
Não sei te responder... Tem uma música do Luís Capucho com uma temática muito forte que pretendo cantar, que vai ser um teste para isso. Quero ver até onde as pessoas estão acostumadas, se elas reagirão. Vamos ver se o público está evoluído mesmo, ou se está só dormente.

O excesso de nudez, por exemplo, mudou o modo como o jovem se relaciona com a arte?

Talvez sim. É muito louco eu estar falando isso, porque eu sou um artista que introduziu a sexualidade explícita na arte brasileira... Mas acho que tudo hoje é sexo. Quando eu fazia, estávamos em uma ditadura estúpida que mandava jogar pessoas vivas, de um avião, no mar. Então tinha um sentido. Hoje, nem se eu fizesse teria sentido. Há uma banalização da nudez, do sexo. É interessante poder se expressar, mas agora não é contra nada, é uma decadência generalizada. Sou uma pessoa muito liberal, acho que tudo pode, mas isso nem é um excesso de liberalidade, é mais uma vulgaridade que impera. Isso me incomoda.

Qual foi sua maior dificuldade na hora de filmar o Luz nas Trevas - A Volta do Bandido da Luz Vermelha?
Foi no primeiro dia de gravação. Eu tive que encarar um corredor cheio de presos e ele [o Bandido da Luz Vermelha, personagem vivido por Ney] completamente alterado. Fiquei com vergonha dessa exposição emocional, e essa inibição me fazia esquecer o texto. Aí pedi para botarem vários papéis escritos pela parede, porque precisava de uma palavra ou outra para lembrar.

Você tem outros filmes em vista?
Não, mas quero fazer mais cinema. É uma coisa que me dá prazer, por ser um exercício do ator que eu sempre soube que era, mas que não consegui realizar no teatro. Eu sou ator antes de ser cantor. O fato de cantar, para mim, era simplesmente útil ao ator. Eu fiz teatro antes, fiz quatro peças, e era isso que eu achava que ia fazer, embora eu ache que no palco, cantando, eu também sou ator. Pessoalmente, sou completamente diferente daquilo.

Existe alguma vontade, como artista, que você ainda não tenha realizado?
Não. Ainda vou realizar outras coisas até ser impedido pelo tempo, porque eu tenho 69 anos e não acredito que tenha ainda muitos, muitos anos pela frente para exercitar o meu ofício. Mas eu não penso em parar. Ainda tenho um fogo aceso dentro de mim e morrerei sendo transgressor.

Numa entrevista  em 2008, você contou como saiu de casa, quando brigou com seu pai, desde cedo já mostrando um temperamento forte. Alguma vez na vida você baixou a cabeça para alguém?Não, não. Com exceção do tempo em que estava servindo, porque ali você tem que baixar a cabeça. Ali você é um soldado e tem que cumprir ordens, e eu sabia que era isso. Mas só ali.

Apesar dessa imagem de homem destemido, você tem algum grande medo?
Nenhum. O medo que me acompanhou durante a vida inteira foi a morte. Quando eu era criança e me falavam que um dia eu ia morrer, eu chorava dois dias. Hoje eu sei que vai chegar a hora a qualquer momento, e isso é que é o grande mistério da vida. Tento conviver com a maior tranquilidade com esse assunto.

Por que você afirma que Beijo Bandido é um dos shows mais teatrais que você já fez?
Porque ele tem um texto. Quando eu selecionei o repertório, pensei num texto. Não como uma música, mas como um texto mesmo... Ele é mais contido, tem uma introspecção que induz mais ao teatro. Tem um acabamento cinematográfico, mas a minha atuação é mais teatral.

Existe alguma diferença na forma como você se prepara para um espetáculo como Inclassificáveis e Beijo Bandido?
Não, porque eu não me preparo para nada. Eu vou fazendo, chego lá e faço. A única coisa que eu faço, quando eu estou ali no camarim, é ficar sozinho. Às vezes, quando estou com algum obstáculo vocal, faço alguns exercícios e só, porque nem exercício vocal eu costumo fazer.

Você tem algum cuidado especial?
Eu vivo em função disso. Eu não sou de sair à noite, eu não vou pra nada. Se eu estou em temporada, saio do show e não saio nem pra comer, venho direto pra minha casa, pra comer pouquinho e dormir. Preciso descansar. Meu descanso para a voz é o sono. Então fico ali, caretamente vivendo, mas não me queixo. É assim que eu gosto de ser, sabe?

Você tem algum tipo de contato com os fãs?

Eu tenho contato com as pessoas no teatro, as recebo, mas não alimento muito isso de fã, de fanatismo. Acho que temos que ser pessoas civilizadas, vivemos na mesma época neste planeta. Para de bobagem, né?, todo mundo significa, todo mundo tem valor. Eu jamais me refiro a alguém dizendo "ai, meu fã". Acho tão absurdo alguém falar isso de outra! Então você é mais que outro? Acho isso muito estranho. Acho a palavra admirador mais interessante do que fã. Por exemplo, eu sou admirador da Amy [Winehouse]. Mas eu não fui ver o show dela. Não diria que sou um fã.

E por que você não foi?

Ah, porque eu não tenho mais paciência pra me meter em multidão. Se fosse num teatro eu provavelmente iria, mas numa coisa dessas, com 12 mil pessoas... O trânsito do Rio de Janeiro está insuportável.

Você acha que é importante ter músicas em trilhas de novelas, já que é o tipo de programa mais assistido do Brasil?
Não é que eu acho importante, mas não tenho nada contra. Agora, todas as músicas que eu gravo para novela eu não boto no meu show.

E você pensa em gravar um outro disco colaborativo, como Vagabundo?

Eu não tenho a intenção, mas se aparecer um grupo interessante o suficiente para me levar a isso eu não tenho nada contra. Eu gosto dessas misturas, gosto de me juntar.

Hoje existiria alguém?

Tem um grupo de São Paulo que eu gosto muito, o Zabomba, mas não sei eles teriam disponibilidade para uma coisa dessas. Até já pensei nisso, mas não falei nada. Até já gravei com eles.

Você ainda fica apreensivo antes de subir ao palco?
Tenho frio na barriga, suo gelado. Antes de começar o show tenho que ficar com uma toalhinha secando a mão.

Já aconteceu de você querer encerrar um show antes do fim?

A única vez que quis, eu encerrei. Foi no curso Objetivo, em São Paulo, na década de 1970. Eles pareciam uns vândalos. Quando eu entrei no palco, começaram a me jogar bolas de papel, a vaiar. Virei de costas, fiquei rebolando uns cinco minutos, depois comecei a cantar. Aí veio um camarada, cuspiu em mim, eu cuspi nele. Ele disse que ia subir para me dar porrada, mas eu estava com uma queixada de burro na minha mão. Eu disse: "Sobe aqui, seu filho da puta, que eu arrebento a sua cara". Aí virei as costas e fui embora.