sexta-feira, 10 de maio de 2013

Natureza exuberante

Por Severino Lopes (jornalista)


Quem pensa que a Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) é um terreno fértil e pródigo apenas no conhecimento científico que torna seus estudantes aptos para enfrentarem o mercado de trabalho, está enganado. Além de instituição pública comprometida com o desenvolvimento social e econômico do Estado, a UEPB ainda tem como preocupação garantir, preservar e desenvolver ações relacionadas ao meio ambiente.

Assim acontece, por exemplo, no Campus I, em Bodocongó. No local, cercado por um verde convidativo, a natureza surge com beleza exuberante que enche os olhos de quem frequenta o local. Dentro e ao redor do campus, o verde predomina, transformando-se numa reserva preservada em plena área urbana da Rainha da Borborema. Nela, a natureza viva se manifesta e pode ser vista em todos os lugares.

No Campus de Bodocongó, homem e meio ambiente convivem harmoniosamente. Sem agressão ou depredação ambiental. Basta ver a beleza e a confiança dos micos saguins tranquilos, pulando de galho em galho. Em todas as árvores plantadas ao redor do CCBS, eles brincam certos de que, naquele território, o homem não lhe ameaça. Quem testemunha a cena apenas aprecia e se encanta.

Árvores das mais variadas espécies, coqueiros, flores, folhas e frutos mostram que o Campus tem vida em toda a parte. Cajarana, mangueira, juazeiro, cajueiro e figos são algumas das árvores que, generosamente, geram frutos que podem ser alcançados por todos que entram no local. Muitos não resistem e colhem os frutos. Tudo natural.

O Campus I respira natureza. No Centro de Integração Acadêmica, o cenário é de cartão postal. Plantas florindo nas cores vermelha e amarela, relva verde, um pé de juazeiro e um beija flor pousando, embelezando ainda mais o local. A arquitetura da Central de Aulas ganhou uma paisagem ainda mais bonita, com os canteiros de flamboyant floridos e exibindo suas cores. O flamboyanzinho da UEPB já floriu e tem atraído beija-flores, borboletas e abelhas.

Em outros compartimentos do Campus, os muros e cercas de arame foram substituídas pela “Cerca Viva”, que proporciona beleza e segurança à comunidade acadêmica. O plantio das cercas vivas foi iniciado na entrada principal da UEPB, próximo à guarita, e depois se estendeu para o prédio das Três Marias e outros espaços do Campus.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Uma das raras cordelistas contemporâneas da Paraíba

Por Severino Lopes (jornalista)
 

No mundo das letras e da poesia, o território da literatura de cordel ainda é predominantemente machista. O homem ainda dita os versos e a prosa e leva essa literatura milenar para as feiras livres, livrarias e bibliotecas. Na Paraíba, o cenário não é diferente. Boa parte dos cordéis produzidos no Estado é assinada por homens de talento reconhecido, como o poeta Manoel Monteiro.

Só que aos poucos essa cultura vai se transformando e as mulheres ganhando espaço em um campo ainda demarcado pelos homens. Uma das mulheres que tem rompido com mais essa barreira e transformado inspiração em poesia popular, é a professora da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Fátima Coutinho.

Atualmente pertencente ao grupo de professores que atuam nos cursos de especialização da UEPB, no projeto Educação a Distância, Fátima começou a escrever cordel justamente para mostrar que as mulheres também são capazes de enveredar por esse rico reino da literatura popular. Ela conta que se sentiu “desafiada” pelo cordelista Manoel Monteiro, que afirmara que a participação feminina na produção dos folhetins ainda estava aquém do potencial que elas dispõem.

Uma das primeiras obras da professora foi “A vida da mulher”, um poema popular que enalteceu o valor da mulher. A partir daí, ela passou a compor os seus primeiros cordéis e logo ganhou reconhecimento do próprio mestre Manoel Monteiro. Entre os cordéis assinados pela professora cordelista estão “As oito propostas para acabar com a fome no mundo”, “A luta de um povo na sua escola em Santa Rosa” e “De cordel de mulher muito se tem a dizer”.

Fátima Coutinho revela que escrever cordel é uma arte e o cordelista tem que obedecer critérios e regras. “O cordel tem ritmo e tem rima”, diz. A cordelista garante que mesmo com o advento da modernidade, ainda existe espaço para o chamado cordel vendido nas feiras livres. “O cordel nunca vai se acabar”, garante.

Ela observa que o território do cordel ainda é machista. No entanto, as mulheres aos poucos vão ditando as normas, rimas e prosas. A professora cita algumas mulheres que têm se destacado nesse campo de fazer poesia popular, como Célia Castro, Junita Nunes, Elvia Calú, entre outras. A convite de Manoel Monteiro, a professora passou a integrar a Academia Paraibana de Literatura de Cordel (APLC), Casa Manoel Camilo dos Santos, o seu patrono.

A entidade, criada há cerca de dois anos, teve como primeiro presidente o poeta, cordelista e pesquisador Iranir da Silva Medeiros, tendo Manoel Monteiro como vice-presidente; Maria de Fátima Coutinho como tesoureira e José Laurentino secretário. O presidente de honra é o idealizador da APLC, o poeta, dramaturgo e pesquisador de folclore João Dantas.

Fátima Coutinho foi a primeira mulher a integrar a entidade já no seu nascedouro. “Para mim foi uma honra fazer parte dessa entidade”, comentou. A APLC é composta de 25 cadeiras, cujos patronos foram escolhidos entre os nomes mais expressivos da cultura paraibana, como Leandro de Barros, Francisco das Chagas Batista, Manoel Camilo dos Santos, Manoel de Almeida, Átila Almeida, Zé Camelo, Zé da Luz e outros nomes que marcaram época como precursores do cordel no formato em que se desenvolveu na Paraíba.

terça-feira, 19 de março de 2013

Oportunidade para alunos de Comunicação Social da UEPB

A Organização Não Governamental Centro de Ação Cultural (CENTRAC) está com inscrições abertas para estágio voluntário na área de Comunicação. Os interessados devem estar regularmente matriculados nos cursos de Comunicação Social da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) e da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), cursando entre o 4º e o 7º período.

As inscrições seguem até o dia 28 de março e podem ser feitas pelo e-mail centrac@centrac.org.br ou pessoalmente, na sede do CENTRAC, localizada à Rua Rodrigues Alves, 672, Prata. Os documentos exigidos são: currículo, comprovante de matrícula e cópias de RG e CPF.

O processo de seleção ocorrerá em duas etapas: análise de currículo, entre os dias 30 de março e 3 de abril, e entrevista com prova subjetiva (produção de texto) que será marcada por telefone, no dia 3 de abril, com os aprovados na primeira etapa. 

O estágio terá duração mínima de seis meses e máxima de dois anos. Os estudantes terão direito a vale-transporte, seguro saúde e cobertura de despesas decorrentes das ações desempenhadas no estágio.

O CENTRAC é uma entidade da sociedade civil que se define como uma organização não governamental, sem fins lucrativos, fundada em 1987, com sede em Campina Grande, Paraíba. Enquanto instrumento a serviço da cidadania, o CENTRAC tem buscado estimular à reflexão e procurado facilitar a capacitação dos novos atores sociais, visando à conquista da democratização do poder local.

Mais informações pelo telefone (83) 3341-2800.

Critérios para a escolha do estagiário
  • Estar regularmente matriculado/a em um dos dois cursos citados;
  • Ter cursado, ou estar cursando, a disciplina de Assessoria de Imprensa (para os alunos de Comunicação da UEPB)
  • Estar cursando entre o 4º e o 6º período do curso;
  • Ter habilidade para trabalhar em equipe;
  • Ter habilidade para produzir textos;
  • Ser comprometido/as com as causas sociais;
  • Ter habilidade em informática (word, power point, internet, redes sociais, corel draw [este último, desejável]);
  • Dispor de 20 horas semanais.

 


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Exemplo de estudo e determinação

Por Juliana Marques (Comunicóloga)

“A educação modela as almas e recria os corações. Ela é a alavanca das mudanças sociais”. Estas palavras de Paulo Freire retratam de forma fidedigna a vida do professor da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Ênio Wocyli Dantas, que mesmo diante das maiores adversidades da vida recusou o rótulo de nordestino pobre, ergueu a cabeça e foi em busca de seus sonhos.

Nascido em Parelhas (RN), ainda criança Ênio foi morar em Nova Floresta, região do Curimataú paraibano, distante 120 km da capital, João Pessoa. Filho de uma professora e um agricultor, sonhava em ser padre e botânico. Gostava de assistir programas de Ecologia e fazer experimentos com as plantas de casa, chegando a criar flores com cores diferentes, a partir de experiências que pesquisava em livros.

E foi por meio dos livros que ele conheceu o padre Gregor Mendel, considerado o pai da genética, em quem passou a inspirar-se. A trajetória de Mendel tinha muitas semelhanças com a vida do estudante nordestino. Além da identificação com a área de atuação de Mendel, nessa época, Ênio também sonhava em ser padre.   

Seguiu estudando à noite e trabalhando na plantação de dia. Apesar na rotina cansativa, era um bom aluno. As horas vagas eram dedicadas ao estudo na Biblioteca Municipal de Nova Floresta. Os familiares, que sempre o viam estudando, achavam que seria um desperdício tentar outra profissão que não fosse de médico e se voltaram contra o menino que tinha convicção que seguiria a profissão de biólogo. “Havia um preconceito com a profissão de biólogo, diziam que era coisa de gente que não presta”, relembra.

Contrariando a vontade de parentes e amigos, Ênio resolveu prestar vestibular para Ciências Biológicas na UEPB, sendo aprovado para o primeiro período. Vencido esse primeiro desafio, vinha mais um obstáculo: se manter em Campina Grande. Tinha uma tia na cidade, mas a mesma não o queria em casa por não aceitar sua escolha acadêmica.

Nessa época, um casal de conhecidos que trabalhavam em Cuité queria colocar o filho para estudar em Campina Grande, como forma de dar mais oportunidades de desenvolvimento ao garoto, que tinha cinco anos de idade, e passaria a viver em uma cidade maior, mas precisavam de alguém que pudesse cuidar da criança. Então, Ênio passou a fazer a comida, lavar roupa e cuidar da criança em troca da hospedagem e da comida. Foi a forma que ele conseguiu para se manter.

Um mundo novo

A vinda para Campina Grande trouxe muitas novidades para a vida do jovem interiorano, que comeu o primeiro pedaço de pizza aos 18 anos de idade, que ficava fascinado ao ver uma escadaria, elevador ou escada rolante à sua frente e aprendia aos poucos a viver em uma realidade bem diferente da qual estava acostumado.

Com o tempo, o “emprego” de babá não deu mais certo, porque a criança era diabética e começou a apresentar problemas em seus exames, o que fez com que o acordo firmado entre os pais da criança e Ênio fosse desfeito e mais uma vez o estudante ficou sem moradia. Passou a dormir nas prateleiras da biblioteca da UEPB, escondido dos funcionários. Rotina que não durou muito, porque foi logo descoberto.

Ênio apelou para a tia, que o aceitou em sua casa, porém não o tratava como sobrinho, deixando claro que o mesmo teria direito apenas à hospedagem. Recebia R$ 10 por semana do pai, para bancar apostilas, transporte e alimentação. Para conseguir mais algum dinheiro, arranjava bicos como balconista de farmácia, apostava pratos de comida, comia folhas enquanto caminhava quilômetros de distância até chegar ao seu destino a pé, pegava caronas em ônibus de prefeituras que levavam estudantes à universidade. “O motorista já me conhecia e sempre parava pra que eu subisse, mas às vezes me mandavam descer e eu tinha que prosseguir meu caminho a pé mesmo”, relata Ênio.

Passou por momentos de aflição. Um deles foi quando ao voltar da faculdade à noite, foi confundido com um médico, por estar trajando jaleco branco, e foi obrigado a fazer o parto da mulher de um criminoso em numa casa que ficava no seu trajeto de retorno pra casa. “Mesmo com uma arma apontada para minha cabeça eu procurei manter a tranquilidade e como no interior eu já tinha visto alguns partos, tentei lembrar como era e consegui realizar o procedimento”, relembra. Ao se deparar com a emoção de carregar um bebê no colo, sob sua guarda e proteção, deixou de lado o sonho de ser padre, o substituindo pelo desejo de um dia viver novamente essa sensação e ser pai.

A rotina de aperto financeiro e dificuldade passou a mudar quando o estudante foi aprovado no Programa de Bolsa de Iniciação Científica (PIBIC), no qual desenvolveu pesquisas na área de ecologia de algas, visando o Mestrado em Botânica. Estava no 5º período do curso, época em que contou com o apoio do atual vice-reitor da UEPB, professor Ethan Barbosa, hoje colega de trabalho de Ênio, na época professor e orientador. “Nesse período, o orçamento melhorou. Dava pra pagar café, almoço e jantar, além de bancar as necessidades básicas, mas sem luxos”, conta Ênio.

O então estudante lia muito e dentre os textos preferidos se destacava os de autoria de Ariadne do Nascimento Moura, pós-doutora em Biologia Molecular de Cianobactérias pela USP, com a qual se identificava e tinha o sonho de conhecer pessoalmente. Pôde realizar tal desejo no Congresso Brasileiro de Limnologia, em Minas Gerais, evento que participou depois de, sem dinheiro, batalhar para conseguir arcar com os custos de passagem, hospedagem e taxa de inscrição.

“Eu e alguns amigos rifamos de tudo. Saímos pedindo ajuda de um e outro até juntarmos uma quantia suficiente para pagar a hospedagem e passagem de ida. Ao chegar lá nos alimentávamos com o café da manhã da pousada onde estávamos e os lanches do evento e fizemos uma campanha para custear nossa volta. No fim deu tudo certo”, relembra. Apresentado pelo orientador, professor Ethan, à pesquisadora Moura, Ênio aproveitou a oportunidade e criou coragem para convidá-la para orientá-lo a chegar ao mestrado.

Mais estudos e desafios

Quando estava próximo de concluir a graduação, resolveu participar da seleção do Mestrado na UFPE. Após ser aprovado, outro desafio surgiu na vida do estudante, quando a casa simples de sua família foi destruída e ele teve que ajudar a reconstruí-la, ficando sem saber ao certo se poderia deixar a família nesse momento de dificuldade para cursar o mestrado. Encorajado pelo pai, ele resolveu seguir sua carreira acadêmica.

Sem conhecer quase nada de Recife, partiu com uma sacola de roupa na mão, pouco dinheiro no bolso e uma grande vontade de vencer. Foi aprovado entre os primeiros lugares e conseguiu uma bolsa, que o ajudou a custear suas despesas enquanto estudava. Passou a desenvolver suas pesquisas em um sítio do município de São João do Cariri, onde passava cerca de 50 dias isolado.  Nessa época também teve que superar muitos obstáculos, desde picada de cobra, andar de 50 a 100 km de bicicleta diariamente, até ser enganado por um colega com o qual deixou uma procuração para administrar suas contas enquanto se ausentava e fez empréstimos, deixando várias dívidas em nome do estudante.
“Tive meus experimentos sabotados, ganhei a inimizade de colegas e até da minha orientadora. Tive que mudar meu projeto de última hora, mas continuei a estudar e me dedicar às minhas pesquisas, até que com o tempo ficou provado que eu não tive culpa de nenhum dos problemas ocorridos”, recorda Ênio. Ao encerrar com êxito, em 2006, o Mestrado em Botânica pela Universidade Federal Rural de Pernambuco, surgiram convites para o doutorado na mesma área e o estudante cursou na sequência, também com a orientação de Ariadne do Nascimento Moura.

Com tamanha dedicação à vida acadêmica, era natural que a vida pessoal fosse deixada de lado por um tempo, até que em uma missa na cidade de Carpina (PE), Ênio apaixonou-se e começou a namorar a professora da UFPE e terapeuta ocupacional Cibele Dantas. Algum tempo depois, já com o título de doutor, ficou sabendo da seleção de professores da UEPB, na qual se inscreveu e foi aprovado.

Por coincidência do destino, dois órgãos públicos da Paraíba também realizaram seleção para terapeuta ocupacional e a noiva de Ênio foi selecionada em 1º e 2º lugar nos concursos. Com a vida profissional encaminhada, os dois marcaram o casamento, mas no dia da cerimônia um tiroteio na frente da casa de festas onde ocorria a comemoração resultou na morte de dois filhos de um grande amigo do casal e dono do sítio onde os noivos se conheceram. Uma tragédia marcava um dos dias mais especiais da vida de Ênio.

Após uma série de dificuldades, hoje Ênio Wocyli pode ser considerado um vencedor. Superou todos os preconceitos e barreiras que a vida impôs e realizou seus maiores sonhos, tornando-se biólogo, coordenador do curso de Ciências Biológicas do Campus V da Universidade Estadual da Paraíba, em João Pessoa, formando uma família, sendo pai de duas filhas e tornando-se um cidadão respeitado por sua postura digna e honrada.

Ao considerar o pensamento de Abraham Lincoln, que afirma que “o êxito da vida não se mede pelo caminho que você conquistou, mas pelas dificuldades que superou no caminho”, pode-se dizer que o professor Ênio conquistou êxito em tudo que fez. Graças a seu esforço, chegou mais longe do que qualquer um podia imaginar, com esforço e determinação. Um exemplo a ser seguido.



quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A marca da genialidade de Niemeyer na UEPB


Por Tatiana Brandão (jornalista)


O Brasil e o mundo se despedem do homem que foi o nome mais influente da arquitetura moderna: Oscar Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares, que faleceu nesta quarta-feira (5), aos 104 anos. O renomado arquiteto carioca foi pioneiro na exploração das possibilidades construtivas e plásticas do concreto armado e, por este motivo, teve grande fama nacional e internacional desde a década de 1940.

A genialidade de Oscar Niemeyer está em importantes obras em todo o mundo e esta marca também está na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). O Museu de Arte Popular da Paraíba (MAPP), construído às margens do Açude Velho, em Campina Grande, e que será inaugurado na próxima semana, reflete a visão macro do homem que sempre soube que arquitetura é invenção e ousadia, tem que causar impacto e ter desafio.

Apelidado de Museu dos Três Pandeiros, o MAPP é a última obra do arquiteto concluída com ele em vida, em todo o mundo. E era vista por Niemeyer com um carinho especial. “Ele não pensou a obra como três pandeiros, mas como mais uma ousadia arquitetônica, com um prédio ‘flutuando’ acima das águas do cartão postal da cidade. Quando ele soube que o povo paraibano apelidou a obra de ‘Museu dos Três Pandeiros’, assimilando a obra com artistas da região, isso foi motivo de grande alegria para Oscar, porque ele sempre gostava quando o povo gostava se suas obas”, Luiz Marçal, arquiteto da equipe de Oscar Niemeyer que trabalha diretamente nos projetos da UEPB.

Marçal destaca, ainda, que o Museu de Arte Popular da Paraíba era motivo de orgulho do maior arquiteto brasileiro. “O que mais ele sempre gostou de ressaltar era que o MAPP foi construído, totalmente, com mão de obra paraibana, com trabalhadores locais. Ele amava essa coisa de uma obra maravilhosa como é este museu ser fruto do trabalho de gente da terra, de gerar emprego e renda para a cidade. Isso o encantava e o fazia olhar com um carinho especial para esta que é a última obra concluída que ele deixa para o mundo”.

Além do MAPP, a Universidade Estadual tem a marca do gênio em outros projetos que se encaminham para sua execução, a exemplo, do projeto da nova Biblioteca Central da Instituição, que faz parte de um Plano Diretor para o Campus de Bodocongó, envolvendo, inclusive, toda uma estrutura de urbanização da região do entorno da UEPB, que engloba a recuperação do Açude de Bodocongó.

O projeto da nova Biblioteca Central da UEPB, aliás, foi doado por Niemeyer para a Universidade. Em um encontro da reitora Marlene Alves e do pró-reitor de Planejamento, professor Rangel Junior, com o arquiteto, em seu escritório, no Rio de Janeiro, Oscar ouviu a professora Marlene descrever as ideias que tinha para a UEPB e diante do entusiasmo que percebeu nas palavras da reitora, ele decidiu fazer o projeto gratuitamente.

“Recordo que quando comentei sobre o projeto grandioso que eu sonhava para a Universidade, de um espaço funcionando 24 horas, com estrutura para várias atividades para a comunidade acadêmica e a sociedade como um todo, mas disse que era ousadia demais, porque não tínhamos condições de pagar por um projeto tão grande assim, ele disse que iria fazer o projeto e doá-lo para a UEPB por ter visto entusiasmo no que queríamos para a Instituição. Foi um momento marcante, onde ele deu mais uma grande demonstração de como o cidadão Oscar Niemeyer era tão ou mais grandioso quanto o arquiteto Oscar Niemeyer”, destaca a professora Marlene.

Também são projetos de Oscar Niemeyer e sua equipe para a Universidade Estadual, o Centro de Vivência do Campus I; o Memorial de Cultura Popular do Campus de Patos e o novo Campus de Monteiro. Obras que ainda não saíram do papel, mas estão desenhadas com o magnífico traço de Oscar e se transformarão em mais um legado deixado pelo arquiteto carioca na UEPB.

Reconhecimento

Para a reitora Marlene Alves, Oscar foi um cidadão do mundo. “Ele era um dos grandes homens que existia no planeta. A obra dele, o seu legado, não se resumia em genialidade arquitetônica. Cada obra tinha a alma dele, a alma de um cidadão que era contra as injustiças sociais, que sempre defendeu que o pobre tem direito a ter uma vida digna. Para mim, é o grande homem do século. É difícil dizer quem era maior: se o Niemeyer cidadão ou se o Niemeyer arquiteto. De uma forma ou de outra, ambos são genialmente inesquecíveis”, ressalta a reitora.

O carinho que Oscar Niemeyer teve com a UEPB foi reconhecido com a outorga da Medalha do Mérito Universitário, concedida ao arquiteto como forma de agradecimento pelo auxílio prestado à Instituição. A honraria foi aprovada pelo Conselho Universitário (Consuni) e entregue ao arquiteto em seu escritório, no Rio de Janeiro. “Tive a honra de fazer a entrega e o mestre Oscar a colocou no peito com alegria e fazendo brincadeiras, sempre. Ele fez a doação para a Universidade do projeto para a Biblioteca Central da UEPB, um complexo urbanístico que envolve biblioteca, anfiteatro, praça e teatro de arena, posteriormente incluído um Museu da Ciência”, lembrou o pró-reitor de Planejamento, Rangel Junior.

A relação da UEPB com Oscar Niemeyer e dele com a Universidade era afetuosa e foi representada com gestos que foram além da concretização de obras. Foi alicerçada em amizade e admiração mútua. Tanto que no aniversário da reitora Marlene Alves, em outubro do ano passado, ele fez questão de presenteá-la com a imagem de uma flor segurada por uma mão, feita de próprio punho. O presente está guardado com carinho pela professora Marlene e simboliza, mais uma vez, a grandiosidade do coração de um homem que, como disse certa vez, não se sentia importante e não queria nada além do que a felicidade geral.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Dom José Maria Pires e os quilombolas



Imagine um bispo da igreja católica dançando ciranda com um grupo de cirandeiras remanescentes de um dos quilombos da Paraíba. A apresentação, realizada de forma surpreendente pelo arcebispo Emérito da Paraíba Dom José Maria Pires e um grupo de Ciranda do Quilombo Caiana dos Crioulos, aconteceu no último dia 20 de novembro, no Museu Assis Chateaubriand (MAC) da Universidade Estadual da Paraíba (MAC), onde está sendo realizada a exposição “Quilombos da Paraíba – a realidade de hoje e os desafios para o futuro”, com fotografias do fotógrafo italiano Alberto Banal e dos 52 alunos quilombolas do projeto “Fotógrafos de Rua”.

O momento fez parte das comemorações alusivas ao Dia da Consciência Negra e foi incentivado pela Associação de Apoio às Comunidades Afrodescendentes – AACADE, a Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas – CECNEQ, bem como pelo Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEAB-Í).

Cirandeiras do Grilo e da Caiana dos Crioulos, além de outros membros das comunidades Matão, Grilo, Pedra d’Água, Senhor do Bonfim, Negros das Barreiras e Os Rufinos, fizeram uma apresentação cultural e, para surpresa de todos, Dom José Maria Pires, arcebispo emérito da Paraíba, se envolveu com o ritmo dos quilombolas e não se conteve em ser apenas um espectador de tão bela manifestação afro-brasileira.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

90 anos sem Lima Barreto


Por Eliezer Aguiar (Jornalista)


Primeiro de novembro é uma data marcante no calendário cristão. Neste dia é celebrado o Dia de Todos os Santos. As celebrações tiveram início por volta do ano 600 D.C. Muitos anos depois, mais precisamente em novembro de 1922, o dia passou a ser referência na literatura quando do falecimento de Afonso Henriques de Lima Barreto, nascido em 1881.

Negro, neto de escravos, ele era filho de João Henriques de Lima Barreto (negro nascido escravo) e de Amália Augusta (filha de escrava agregada da família Pereira Carvalho). Ironicamente, recebeu nome de rei, mas sempre foi consciente dos preconceitos sofridos. Mais conhecido como Lima Barreto, foi jornalista e um dos mais importantes escritores libertários brasileiros.

Os pontos altos de suas obras partem de sua autoafirmação enquanto negro, visto sempre dizer: nasci pobre, neto de escravos e mulatos. Desenvolveu uma literatura militante de tal forma que eram corriqueiras nos seus escritos as denúncias contra os problemas sociais. Criado e vivido em uma época conturbada, o autor assistiu, emocionado, a abolição da escravidão aos sete anos de idade, em 1888. Também foi testemunha das festas promovidas pelo advento e acompanhou a demissão do pai da Tipografia Nacional, pelo novo governo republicano.

Defendia a função transformadora da literatura, exercendo a literatura de inclusão. Inclusão essa diferente da atual, uma vez que à época a ascensão social era algo raro. Para exemplificar podemos citar a presença do negro em suas obras e também do uso de uma fluência verbal criticada pelas elites da época. A exclusão das baixas camadas sociais acontecia de tal forma que os autores de então ignoravam completamente suas existências.

De acordo com o professor da UEPB, Jomar Ricardo, desenvolvedor de tese de doutorado tomando como base a obra de Lima Barreto, o autor sempre fazia uso de sua forte consciência étnica e, frequentemente, denunciava a visão da mulher negra apenas como objeto sexual da elite branca. Jomar acrescenta que Barreto foi um escritor vanguardista e de visão futurística.

À sua época, criticou o incipiente movimento feminista. Ele acusava as mulheres da classe média de não defender uma causa em busca de justiça e igualdade social, mas sim de ampliar benefícios como o acesso a cargos públicos restritos apenas aos homens de então. Funcionário público concursado, Lima Barreto militou na imprensa de forma independente para complementar sua renda. Em seus escritos defendeu a reforma agrária, no livro Triste Fim de Policarpo Quaresma, e o aborto. Apesar de ter falecido no início do século 20, tinha ideias que geram polêmicas até nos dias de hoje, 90 anos depois de sua morte.

Após nove décadas de seu falecimento, Lima Barreto ainda não obteve seu devido reconhecimento. De acordo com o professor Jomar Ricardo, o fato do autor ainda não constar na lista dos escritores canônicos da literatura brasileira é algo positivo, visto que o elitizaria e descaracterizaria o discurso em prol das camadas inferiores. O entendimento da necessidade de se estabelecer cotas raciais tem seus fundamentos na literatura de Lima Barreto, quando propunha a mesma como ferramenta de promoção de mudanças, tendo em vista ser inspirado em escritores russos que tinham mais compromissos éticos sociais que estéticos, fator que tem contribuído para que o neto de escravos e filho de mulatos tenha se tornado personagem importante nas pesquisas de historiadores brasileiros.