quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Hoje é aniversário do Rei do Ritmo Jackson do Pandeiro





Por Antônio Vicente Filho, da Redação DiárioPB


Em apenas 29 anos de carreira, o paraibano Jackson do Pandeiro costurou uma das bandeiras mais sólidas da música brasileira. Hoje, quando o calendário registra a data do seu nascimento (em 31 de agosto de 1919, na cidade de Alagoa Grande), seu nome continua sendo venerado e homenageado como um dos maiores ritmistas da Paraíba 28 anos após sua morte (em 10 de julho de 1982).

Na música nordestina, ele está no mesmo patamar que Pixinguinha ocupava no choro entre outros bambas. “Nasci com uma sina de cigarra/Aonde eu chegar, tem farra...”. Talvez o menino de onze anos de idade tenha despertado seu talento quando acompanhava sua mãe Flora Mourão dando o passo no coco sob o comando do zabumbeiro João Feitosa, na região do Brejo paraibano.

Jackson do Pandeiro não limitou-se a mostrar versatilidade para cantar somente no repertório da música nordestina - sua genialidade com malícia, malandragem, suingue das emboladas e do coco, entre outros tipos atestam sua criatividade. Nos anos 50, participou como artista de filmes ao lado de grandes nomes como Dercy Gonçalves, Zé Trindade, entre outros, nas fitas: “Batedor de carteira”, “Cala boca, Etelvina”, “Tira a mão daí”, “Viúvo alegre”, entre outras.

Na década de 60, mostrou que também tinha cadência para marcar o passo no carnaval. Gravou com sucesso a música “Me segura que eu vou dar um troço”. Na sua carreira Jackson conviveu com a nata da música brasileira. Além de canções próprias, ele teve como compositores nomes consagrados, como Rosil Cavalcanti, Antonio Barros, Zé Dantas, Elino Julião, Gordurinha, Edgar Ferreira, Genival Macedo, entre outros. Deixou duas viúvas, Almira Cavalcanti, sua parceira em gravações de discos e shows, e Neusa Flores dos Anjos, que viveu com ele até o último mo.

Sobre sua carreira, Jackson no auge do sucesso declarou: “Eu não queria ser quinto ou quarto baterista. Por causa do suingue, um fox meio ligeiro que tinha antigamente, eu deixei de tocar bateria. Eu queria ser um baterista que todo mundo se admirasse. Eu toda vida gostei de ser assim. Não gostava de ser o último lugar. Eu gostava de ser segundo pra primeiro, e tal. Então era um baterista que só gostava de tocar a nossa música. Então abandonei e fui treinar um pouquinho de pandeiro. E sempre cantando. Cantando samba, cantando marcha de arrasta-pé, cantando coco, essa coisa toda”. A primeira e única biografia foi lançada em 2001, com o livro “Jackson do Pandeiro, o rei do ritmo”, de minha autoria em parceria com o jornalista Fernando Moura. A obra é fruto de uma pesquisa de dez anos colhendo dados com familiares, amigos, parceiro, pesquisadores, artistas e pessoas anônimas.

Todo material se encontra no Memorial Jackson do Pandeiro na cidade de Alagoa Grande. A memória está espelhada em discos, fotografias, chapéus, roupas, pandeiros, documentos, entre outros objetos.

Artistas falam sobre Jackson

Zé Ramalho – “Fui muito influenciado por Jackson do Pandeiro. Tinha uma grande voz, era uma espécie de João Gilberto do forró. Fiz um show ao lado dele em 1976, no Teatro João Caetano, no Rio, e fiquei impressionado com o ritmo e a energia dele em cima do palco. O sobrinho dele, o José Gomes, que herdou o nome do tio, toca na minha banda há muito tempo”.

João Bosco – “Sempre fui fascinado por ele. A gente tinha um projeto de fazer vários shows junto pelo País, mas acabou não dando certo por causa de falta de grana. Tive a oportunidade de dizer ao Jackson o quanto admirava o seu trabalho. Gravei uma música em homenagem a ele – “Batiumbalaio – Rockson do Pandeiro. Coloquei Rockson porque achava que o som dele tinha muito de rock-and-roll”.

Alceu Valença – “Quando criança ouvia muito Jackson do Pandeiro nos alto-falantes da feira de São Bento. A música dele é a trilha sonora da minha infância, tem cheiro de fumo de rolo. |Talvez eu tenha sido o músico que mais se aproximou de Jackson no fim da carreira. Viajei o Brasil inteiro com ele em 1977, com o Projeto Pixinguinha. Depois dessa excursão, fiquei deslumbrado e resolvi compor o meu primeiro forró: “Coração Bobo”.

Elba Ramalho – “Na minha opinião existem duas escolas de canto no Brasil: a de João Gilberto e a de Jackson do Pandeiro. Eu tive o privilégio de conviver com Jackson e ser amiga dele.Foi o meu grande professor ao lado do Gonzagão. Os dois sempre gostaram muito do meu trabalho. O Jackson tocou em quase todos os meus primeiros discos”.




terça-feira, 30 de agosto de 2011

Um novo e revolucionário conceito de tecnologia de informação


Por Millôr Fernandes

Na deixa da virada do milênio, anuncia-se um revolucionário conceito de tecnologia de informação, chamado de Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas - L.I.V.R.O.

L.I.V.R.O. representa um avanço fantástico na tecnologia. Não tem fios, circuitos elétricos, pilhas. Não necessita ser conectado a nada nem ligado. É tão fácil de usar que até uma criança pode operá-lo. Basta abri-lo!

Cada L.I.V.R.O. é formado por uma sequência de páginas numeradas, feitas de papel reciclável e capazes de conter milhares de informações. As páginas são unidas por um sistema chamado lombada, que as mantêm automaticamente em sua sequência correta.

Através do uso intensivo do recurso TPA - Tecnologia do Papel Opaco - permite-se que os fabricantes usem as duas faces da folha de papel. Isso possibilita duplicar a quantidade de dados inseridos e reduzir os seus custos pela metade!

Especialistas dividem-se quanto aos projetos de expansão da inserção de dados em cada unidade. É que, para se fazer L.I.V.R.O.s com mais informações, basta se usar mais páginas. Isso, porém, os torna mais grossos e mais difíceis de serem transportados, atraindo críticas dos adeptos da portabilidade do sistema.

Cada página do L.I.V.R.O. deve ser escaneada opticamente, e as informações transferidas diretamente para a CPU do usuário, em seu cérebro. Lembramos que quanto maior e mais complexa a informação a ser transmitida, maior deverá ser a capacidade de processamento do usuário.

Outra vantagem do sistema é que, quando em uso, um simples movimento de dedo permite o acesso instantâneo à próxima página. O L.I.V.R.O. pode ser rapidamente retomado a qualquer momento, bastando abri-lo. Ele nunca apresenta “ERRO GERAL DE PROTEÇÃO”, nem precisa ser reinicializado, embora se torne inutilizável caso caia no mar, por exemplo.

O comando “browse” permite fazer o acesso a qualquer página instantaneamente e avançar ou retroceder com muita facilidade. A maioria dos modelos à venda já vem com o equipamento “índice” instalado, o qual indica a localização exata de grupos de dados selecionados.

Um acessório opcional, o marca-páginas, permite que você faça um acesso ao L.I.V.R.O. exatamente no local em que o deixou na última utilização mesmo que ele esteja fechado. A compatibilidade dos marcadores de página é total, permitindo que funcionem em qualquer modelo ou marca de L.I.V.R.O. sem necessidade de configuração.

Além disso, qualquer L.I.V.R.O. suporta o uso simultâneo de vários marcadores de página, caso seu usuário deseje manter selecionados vários trechos ao mesmo tempo. A capacidade máxima para uso de marcadores coincide com o número de páginas.

Pode-se ainda personalizar o conteúdo do L.I.V.R.O. através de anotações em suas margens. Para isso, deve-se utilizar um periférico de Linguagem Apagável Portátil de Intercomunicação Simplificada - L.A.P.I.S. Portátil, durável e barato, o L.I.V.R.O. vem sendo apontado como o instrumento de entretenimento e cultura do futuro. Milhares de programadores desse sistema já disponibilizaram vários títulos e upgrades utilizando a plataforma L.I.V.R.O.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Charles Dickens, dono de jornal




Por Tracy McVeigh, do "Guardian"
Tradução de Clara Allain

Em 1866, a atriz vitoriana Ellen Terry disse que uma revista era "'a' coisa que me fazia sentir saudades de Londres".

Durante 20 anos, uma publicação semanal administrada e editada por Charles Dickens e vendida a um valor irrisório era aguardada ansiosamente por leitores. Toda quarta-feira, eles encontravam ali não só relatos ricamente construídos dos fatos da época mas também capítulos avulsos daqueles que mais tarde se tornariam os livros mais famosos do escritor.

Acadêmicos modernos esperam que o apelo popular da revista - cujo título quando foi lançada, em 1850, era "Household Words" (palavras de família), mas que passou a se chamar "All the Year Round" (o ano todo) em 1859, quando Dickens rompeu com o publisher e passou a publicá-la por conta própria - possa ser recuperado.

Voluntários foram convidados para ajudar a levar a íntegra das 1.101 edições da revista para a era digital, tornando-as acessíveis a um público tão amplo quanto os 300 mil vitorianos que compravam o periódico semanalmente.

"O alvoroço provocado nos anos 1860 pela chegada de cada novo Dickens só pode ser entendido por pessoas que o testemunharam na época", escreveu Ellen Terry em sua autobiografia. "Meninos vendiam a revista nas ruas e frequentemente eram perseguidos por uma multidão ansiosa, como se estivessem portando notícias sobre o 'último vencedor' [da corrida de cavalos, presumivelmente]".

Voluntários

O bicentenário do nascimento de Dickens é em 7 de fevereiro de 2012. A pequena equipe da Universidade de Buckingham esperava ter todas as revistas on-line até essa data, mas, embora as páginas já tenham sido escaneadas, elas agora precisam ser revistas para que sejam removidos os inevitáveis erros causados pelos computadores - e isso é algo que apenas o olho humano poderá fazer.

O número enorme de páginas - 30 mil - cria um problema para a conclusão do trabalho no prazo desejado. Por conta disso, foi lançado a todos os editores de texto amadores com acesso a computadores um chamado.

"Todas as transcrições lidas por máquinas precisam ser corrigidas. Nestes tempos de cortes de verbas, o custo seria considerável, de modo que decidimos abrir o trabalho aos interessados", disse o professor sênior de inglês em Buckingham John Drew. "Mas apenas 15% do trabalho com os arquivos foi distribuído [até agora], principalmente entre pós-graduandos e acadêmicos."

Depois de uma carta a esse respeito ter sido publicada pelo "Guardian" na semana passada, mais voluntários se apresentaram, e agora quase 20% das edições estão em processo de revisão.

A revista era extremamente respeitada na época de sua circulação e publicou capítulos de "Grandes Esperanças", "Tempos Difíceis", "North and South" e "A Mulher de Branco", além de poesia, jornalismo investigativo, relatos de viagens, ciência de alcance popular, história e comentários políticos.

Em três bilhões de palavras, há tanto joias históricas que detalham a vida, os problemas sociais e a política dos vitorianos quanto um tesouro literário das obras de Wilkie Collins (1824-89), Elizabeth Barrett Browning (1806-61), George Sala (1828-95) e Elizabeth Gaskell (1810-65).


Talentos desconhecidos também tinham espaço. "Charlie, um irmão de Wilkie Collins, escreveu alguns depoimentos de testemunha ocular extraordinariamente vívidos. Ele é um indivíduo que a história perdeu, apesar de ter se casado com a filha de Dickens e de ter redigido boa parte da revista nos primeiros dez anos", disse Drew.

"Dickens começou como repórter que cobria o Parlamento, e 'The Pickwick Papers' foi originalmente um livro de esquetes divertidos, alguns deles sobre moda. O fato de ter escrito suas obras de ficção para um público semanal de revista ajuda a explicar como Dickens sobreviveu até os tempos modernos. É um trabalho muito visual, repleto de imagens que se traduziram bem para a televisão e o para cinema, de uma maneira que nunca foi o caso de um [William] Thackeray (1811-63), por exemplo."

Mas Dickens também cobriu assuntos de que outros jornais se negavam a tratar: não apenas as condições vigentes nos moinhos, fábricas e - um de seus temas favoritos - prisões mas também notícias do exterior. Ele encarregou Thomas Trollope, irmão do escritor Anthony Trollope (1815-82), de fazer uma cobertura extensa dos massacres da segunda guerra de independência italiana (abril-julho de 1859) contra o império austríaco, no momento em que a Grã-Bretanha, constrangida por lealdades da família real, se abstinha do conflito. Os relatos vivos do enviado contradiziam boa parte da cobertura da época, politicamente neutra. "Eu estava editando esses despachos no mesmo momento em que o noticiário internacional revolvia em torno da intervenção na Líbia, e foi interessante conhecer o contexto histórico [pregresso]", comentou Drew.

Manetas x Pernetas

Um dos textos favoritos dele, entretanto, diz respeito a um evento menos dramático. "É uma reportagem instigante, que, ao mesmo tempo em que se abstém de qualquer condescendência, constitui uma leitura profundamente incômoda. Ela revela tanto sobre nossos valores e atitudes atuais quanto sobre o apreço vitoriano pelo excêntrico e pelo [chamado] grotesco", observou Drew.

Sob o título "A Prática do Críquete sob Dificuldades", Dickens escreveu: "Sei que nós, ingleses, somos um povo angular e excêntrico - um povo cujas rugas e dobras o grande ferro de passar da civilização levará muito tempo para aplainar  - , mas eu não estava preparado para o seguinte anúncio que vi outro dia na vitrine de uma tabacaria nas proximidades do Elephant and Castle: 'No sábado, será disputada uma partida de críquete no Rosemary Branch, em Peckham Rye, entre onze homens manetas e onze homens pernetas'."

"'Bem, já ouvi falar de coisas excêntricas', pensei, 'mas creio que isso supera a todas. Sei que somos um povo robusto e muscular, que requer exercício vigoroso, de modo que preferiríamos combater a não fazer nada'... Tais eram meus pensamentos patrióticos quando percorri a Old Kent Road ... e segui o caminho sinuoso até Peckham. Passando sob presuntos dourados dependurados, grelhas douradas, concertinas balançantes a preços baixos, ao lado de feixes de atiçadores de lareira enferrujados, rolos de tapetes sujos e empoeirados colchões recheados de penas, passando por manjedouras de aparência deserta e estalagens suburbanas, segui meu caminho de peregrino até o não muito florido campo de Peckham."

"Os pernetas eram bastante hábeis com o taco, mas levavam a pior quando se tratava de apanhar a bola. Havia algo de horrivelmente e hogarthiamente [referência ao trabalho do gravurista e pintor inglês do século 18 William Hogarth] divertido na maneira como eles tropeçavam, trotavam e saltavam atrás da bola. Uma fileira convergente de muletas e pernas de pau avançava sobre a bola por todos os lados, enquanto os homens de um braço só, agitando seus ganchos e tocos, corriam loucamente de wicket para wicket, os 'uneiros' rapidamente, os 'doiseiros', mais rapidamente. Um sujeito magro, jocoso, um tanto quanto embriagado, de calças brancas, era o bufão do time dos pernetas. 'Peggy' ('Toquinho') evidentemente se regozijava com o fato de ser o homem mais manco no campo, já que sua única perna era rígida do quadril para baixo."

Dickens não tratou a partida tanto como uma questão de ciência quanto como diversão pura.

Para descobrir suas próprias joias vitorianas, acesse djo.org.uk, onde você pode se cadastrar para editar uma edição de sua escolha (não é necessário ter conhecimentos de Dickens). 


sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Cientistas e engenheiros se voltam para o natural atrás de soluções biomiméticas

Enquanto a crise ambiental avança, cientistas, designers e engenheiros se voltam para o mundo natural em busca de soluções biomiméticas. a criadora do termo, janine benyus, acredita que imitar a genialidade dos animais é a coisa mais racional a ser feita.


Por Bruno Torturra Nogueira, da Revista Trip

Caro macaco bípede, ou leitor, como preferir: já pensou em voar longas distâncias praticamente sem atrito com o ar, gastando quase nada de combustível? Ou em tecidos que mudam de estrutura de acordo com a temperatura e não precisam ser lavados para se manter limpos? Melhor do que isso! Construir prédios, fabricar plástico, comida, gerar energia como forma de despoluir a atmosfera, o solo, a água... Quanto mais a economia cresce, mais limpo o mundo fica. Já pensou? Talvez você não, mas milhões de espécies no planeta só pensam nisso há 3 bilhões de anos. E, desde 1990, uma macaca bípede, que habita o estado de Montana nos EUA, chamada Janine Benyus também. Atrás dela veio uma crescente horda de cientistas, engenheiros, empresários, estudantes que percebeu o poder transformador de uma ideia estranhamente original: copiar outros seres vivos.


Ou melhor: “Buscar inspiração no mundo natural para resolver nossos problemas”, desenvolve doutora Benyus, explicando o que significa na essência o termo que cunhou para batizar seu livro de 1993 e definir de maneira clara uma nova abordagem da relação entre humanos e natureza, Biomimética. O princípio é simples, mas radicalmente oposto à cultura e à base de nossa economia. Consiste em olhar para a natureza como fonte de conhecimento, não de recursos. “Em vez de aprender sobre a natureza, aprender com a natureza. Reconhecer que estamos cercados de gênios”, diz na entrevista que concedeu à Trip de sua casa/escritório nos EUA.


É de lá que Janine comanda seu instituto de biomimética e seu grupo de consultoria. Uma mistura muito bem sucedida de negócios com uma sincera missão ambiental. Para ela a biomimética é bem mais do que uma mera disciplina, mas uma forma de engajar a espécie humana no mesmo projeto das demais espécies: garantir nossa sobrevivência enquanto melhoramos o ambiente a nossa volta. “O que eu acho genial nos demais seres vivos é que eles estão focados em dar mais condições para a vida de um modo geral”, resume. Hoje, qualquer platelminto sabe que nossa civilização está na exata contramão.


Para Janine essa derrapada evolutiva tem a ver com algo simples, no fundo. “As pessoas que pensam o mundo e nossa economia não foram treinadas em biologia. Não percebem que as soluções que procuram já existem.”


É compilando exemplos e elaborando palestras tão inspiradoras quanto os frutos da seleção natural que o instituto vem difundindo essa transformação de paradigma. E criando não apenas soluções econômicas (como a ideia de realocar recursos financeiros para a conservação ambiental, como por exemplo royalties para as espécies “imitadas”), mas possíveis escapatórias tecnológicas para a armadilha climática que está mais do que anunciada.


Para os biomiméticos em ascensão, reconhecer a nossa limitadíssima capacidade e a genialidade dos demais animais pode salvar o mundo. Mas temos tempo? “Eu escolho ser otimista, mesmo diante dos fatos”, Janine suspira. “Certamente vamos passar por uma peneira da evolução. Muitas espécies vão desparecer. A questão é se nós vamos escapar.” A resposta, para ela, depende muito de o ser humano assumir de uma vez por todas que somos apenas mais uma espécie no planeta. E que não temos todas as respostas nem toda a inteligência na natureza. E usar ao máximo um dom que nenhum outro animal tem: somos ótimos imitadores.


Como você se tornou divulgadora da biomimética?
Eu sempre fui uma escritora de história natural. Já havia lançado cinco livros antes do Biomimética, sempre sobre como os organismos se adaptam ao ambiente. Quando olhei para trás, vi que estava fascinada com o que os organismos eram capazes de fazer. E como são capazes de fazer isso de forma tão eficiente, muito mais do que nós, na verdade. E percebi que o mundo natural é um mundo que funciona e é extremamente sustentável e fértil. Eles voam com pouquíssimo combustível, chegam ao fundo do mar com sistemas muito simples. E vi que deveríamos imitar esses processos. Eles estão sendo feitos há mais de 3 bilhões de anos. E isso é muito tempo de pesquisa e desenvolvimento. Essa foi a maior revelação que tive. Comecei a pesquisar isso mais a fundo em 1990. E a procurar especificamente as pesquisas que tinham esse preceito.

E não havia essa mentalidade naquela época?

Veja só. Uma das primeiras pesquisas que encontrei era sobre fotossíntese. Como poderíamos imitar uma folha para criar células de captação solar. E para mim foi um choque perceber que aquele era o primeiro estudo tentando copiar o princípio da fotossíntese naquela circunstância. O primeiro! Ficou muito claro que precisávamos urgentemente fomentar essa forma de pensar.


Então biomimética não é exatamente uma ciência, mas um ponto de vista?
Eu vejo como uma metodologia. É uma prática que parte das seguintes perguntas: “O que eu quero resolver?”. E depois: “Como a natureza lida com esse problema?”. Você pode ser desde um cientista procurando uma maneira menos tóxica de fabricar fibras a um agricultor que quer descobrir uma maneira inteligente de segurar o solo. Ou descobrir como reduzir o atrito em um avião. Sempre há um jeito na natureza que sabe como voar sem fricção, manter o solo estável ou fazer fibras sem toxinas. Não interessa sua disciplina, você sempre pode usar esse método com chances enormes de conseguir respostas.


E como você compara a biomimética ao modo tradicional de pesquisa e relação com a natureza?
A cultura ocidental industrial vê a natureza como um armazém. Que está lá para tirarmos coisas de dentro. Essa mentalidade enxerga a natureza como algo a ser explorado e não compreendido. A economia que nós temos até hoje usa a natureza. E o que a biomimética propõe é uma maneira radicalmente diferente de enxergar isso. Não queremos “usar” nada. Mas aprender como a natureza produz e processa as coisas que queremos. Por exemplo. Em vez de moer conchas para fazermos cerâmica, cal... nós podemos aprender como se formam as conchas, e o organismo continua no oceano. A gente só explorou a ideia.


E hoje, 20 anos depois de você lançar o termo e o livro Biomimética, como está essa metodologia?
Desde que eu escrevi o livro, muita coisa aconteceu nesse ramo. Existem, literalmente, milhares de estudos hoje em dia que estão deliberadamente olhando para o mundo natural em busca de conhecimento. Na tentativa de imitar algo para melhorar nossa própria tecnologia. Há muita gente voltando para escola para aprender isso. Empresas começaram a contratar biológos para seus quadros. Está se tornando uma nova carreira também.

Me soa estranho que não estejamos fazendo isso há muito mais tempo. Porque, no fundo, parece óbvio.

Exato! É verdade que algumas pessoas fizeram isso no passado. Se você olhar estudos do Leonarde da Vinci, de como ele tentava entender o mecanismo pelo qual os pássaros voavam, por exemplo. Ou Buckminister Fuller, que é outro que reconheceu a natureza como o lugar certo para buscar respostas. Sempre houve algumas pessoas. Mas nunca foi uma disciplina.


Você fala em suas palestras que estamos cercados de gênios na natureza. O que você quer dizer com isso?
Os organismos são incrivelmente bem adaptados ao seu ambiente. A razão pela qual eu menciono gênio, ou engenhosidade, é porque eles estão constantemente melhorando as condições para suas crias. Estão extremamente focados no que será bom para a continuidade da vida e encontraram um meio de suprir suas necessidades, manter-se vivos e, ao mesmo tempo, melhorar o ambiente onde os demais organismos vão viver depois. A vida cria condições para a reprodução de mais vida. Isso para mim é genial.


De acordo com essa visão, os humanos seriam uma espécie estúpida.
E isso é o mais importante. Se nós fizéssemos nossas escolhas, o que vamos construir, que materiais escolher, o que comprar, como vamos vender, baseados no que é melhor para a vida... tudo se transformaria, literalmente. E tudo isso vem apenas de uma simples mudança de visão. Hoje nós fazemos nossas escolhas baseados em preço. Claro que temos que pensar em coisas que sejam viáveis economicamente. Mas para mim os preços das coisas também deveriam refletir o que é bom para a vida. Escolher somente pelo preço não mostra todo o CO2 emitido, o aquecimento global. Então não estamos escolhendo pensando no futuro.


Fale de um projeto atual que represente bem a importância da biomimética.
São muitos. Uma empresa chamada Calera está imitando a química que cria corais. Eles capturam CO2 da água, combinam com minerais, cálcio, magnésio, para criar sua estrutura. O que a empresa faz é pegar o CO2 de chaminés de fábricas e combinar com água marinha para criar alternativas para concreto. Hoje, de 6% a 8% de todo o CO2 emitido no mundo vem da fabricação de concreto. Agora poderemos construir prédios e, ao mesmo tempo, retirar esse gás estufa da atmosfera. A mimética dos corais pode, sozinha, inverter o impacto ambiental da construção civil.


Mas em geral são empresas novas investindo nisso. Há interesse das grandes corporações, os gigantes do petróleo e as grandes empreiteras, em biomimética?
Nós temos 250 clientes como GE, Boeing, Kraft, Nike, Levis, Procter & Gamble. Se esses caras estão se interessando é um ótimo sinal. O problema é que essas pessoas que planejam o mundo nunca foram treinadas em biologia. Um cientista de materiais da Shell nunca teve a menor ideia de como uma teia de aranha é elaborada. Veja... Se você notar, existem apenas cinco polímeros fundamentais para a estrutura de quase tudo no mundo natural. E animais fazem designs extremamente interessantes com esses poucos materiais para torná-los rígidos ou flexíveis, elásticos, resistentes, degradáveis etc. Todos facilmente recicláveis no ambiente. Temos mais de 350 polímeros para fazer nossas coisas. Quando precisamos de uma nova função, inventamos outro. Se você pegar um besouro, por exemplo, sua casca é feita de um material simples. Mas quando precisa ser permeável ele fabrica com poros, quando precisa ser duro ele simplesmente arranja o polímero de outra forma. Quando precisa ter alguma cor, ele não fabrica pigmentos, que podem ser tóxicos. Ele apenas muda a estrutura da última camada para criar cores através da refração. Isso com um material apenas. Se um besouro consegue, nós também podemos.


Mas você acha que conseguiremos a tempo? Ainda temos como evitar essa catástrofe ambiental que se anuncia?
Otimismo é uma escolha. Eu escolho ser otimista apesar do que, infelizmente, já sei... Se você ler os relatórios saberá com o que estamos lidando: uma peneira evolutiva, sexta grande extinção em massa no planeta. Vamos certamente perder muitas espécies. Resta saber se a espécie humana vai passar nessa peneira. Se vamos conseguir deixar viva uma parte suficiente da Terra para que nós passemos dessa fase. Hoje a cultura vive uma grande reação imunológica a esse processo, se você observar quanta gente está dedicada a preservar o meio ambiente e mudar nossos hábitos. É uma corrida, na verdade, para reverter o curso dessa catástrofe. A única coisa a fazer, para mim, é acreditar que somos uma espécie com uma incrível capacidade de adaptação. Eu sei que temos capacidade tecnológica e científica para reverter esse processo. As coisas vão certamente ficar loucas no mundo nos próximos anos. Mas eu escolho crer que vamos superar isso.


O problema é que não nos enxergamos como uma espécie?
Isso mesmo. Precisamos urgentemente entender que somos uma espécie, esquecer nossas divisões políticas, nossas fronteiras. Isso não é um esporte, em que estamos competindo uns com os outros. Estamos nesse barco juntos.


E qual nosso papel como espécie nesse sistema?
Essa é uma pergunta muito importante. O que nós sabemos, eu não tenho dúvida, é que somos natureza também. E também sei que temos um dom especial: a habilidade de aprender, de registrar o que aprendemos, para que outras pessoas possam entender isso sem precisar passar por todo o processo de novo. Então podemos olhar o passado e entender o que nos trouxe aqui. E especular com algum grau de certeza o que vai acontecer no futuro. Podemos escolher para onde essa história vai. Outra coisa muito importante é que nós podemos escolher também de onde vamos aprender. Somos grandes imitadores, e por isso não precisamos esperar nossos genes mudarem para mudarmos. Minha sugestão é que a gente olhe para a natureza e tente imitá-la, ser como ela. E começaremos a nos perguntar como uma espécie consegue permanecer viva. Poderíamos pensar cidades inteiras dentro do ecossistema onde ela se instalou. São Paulo, por exemplo, foi construída na mata atlântica. O que essa floresta faz? Ela gera, entre tantas coisas, água limpa que corre para outros lugares, e abastece outro sistemas. Por que uma cidade não pode fazer isso? Criar um modo de captar, limpar, fazer fluir água limpa para fora da cidade, para que facilite a proliferação de vida além daquele lugar. Quando a gente conseguir pensar assim, teremos achado nossa vocação. E hoje estamos em nossa adolescência. Somos egoístas. E nossa função, se quisermos continuar aqui, é amadurecer.


Você vê um lado místico, espiritual nessa missão?
Esse é um universo feito de tijolos simples, seguindo um princípio de seleção rigoroso, focado na evolução da vida. Algo absurdamente consistente, principalmente porque dispensa uma inteligência cósmica criadora. A biomimética muda nossa hierarquia em relação à natureza. Porque você sente na prática o quanto é difícil fazer o que uma folha ou um animal faz. Porque você tenta e falha. Dá muito trabalho copiá-los. E parece tão simples quando eles fazem. E isso me fez ser reverente à natureza. Não a um Deus.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O corpo humano, o mercado de consumo e a ética


Por Rizzatto Nunes, do Terra Magazine

Num de seus filmes, Woody Allen conta a seguinte piada: diz ele que jamais seria sócio de um clube que o aceitasse como sócio. Recentemente, virou notícia um site de relacionamentos do qual só podem participar pessoas consideradas "bonitas". E essa "rede social" como se intitula, ficou famosa porque rejeitou milhões de internautas de vários países que nela gostariam de ter entrado. Parafraseando Woody Allen, é de se perguntar porque alguém quer fazer parte de um clube assim.


Um dado que chama atenção é esse da imposição social que a cada dia mais afeta as pessoas para que elas "pareçam" bonitas. Não como de fato são: a pressão é para que elas se pareçam com aquilo que o "mercado" diz que é belo. Exatamente, como impõe esse site.


Há um quê de artificial nesse modo de se medir as pessoas. Aliás, não só artificial como falso. Na Inglaterra e também na França já há legisladores que pretendem obrigar que os publicitários sejam mais "realistas" na utilização de fotos de modelos. É que a utilização de modernas técnicas de manipulação de fotos, tais como o photoshop, permite a criação de imagens que nem sempre correspondem ao real. Muitas vezes, as próprias modelos têm se surpreendido com sua (falsa) beleza. Os anúncios estão muito distantes do real e, uma vez publicadas as fotos de "mulheres com corpos perfeitos", elas acabam influenciando os consumidores suscetíveis. Esses legisladores querem que as fotos sejam acompanhadas da informação de que se trata de efeito digital. Penso que ainda assim, não mudaria a imposição.


Pois a verdade é que, de um jeito ou de outro, nesta sociedade em que o ter é mais importante que o ser, onde a aparência é mais importante que a essência, o que se percebe é que algumas pessoas são prisioneiras de seus símbolos: roupas de marca, jóias, relógios preciosos, carros último tipo, o corpo idem. O que o mercado acaba vendendo é uma ilusão de segurança e felicidade nos símbolos oferecidos nas vitrines e em anúncios publicitários, e o que o esse tipo de consumidor adquire é uma falsa idéia de si mesmo, muitas vezes gerando frustração e um vazio que o obriga à voltar às compras, às transformações etc num círculo vicioso sem fim.


Na segunda metade do século XX, pudemos assistir ao incrível incremento da tecnologia, do avanço das telecomunicações, da microinformática, do surgimento dos telefones celulares, da internet, enfim, a sociedade capitalista começava a alcançar a ficção científica. Aliás, prometia, um conforto jamais imaginado (pena que ele jamais chegará para a maior parte da população do planeta).


Muito bem. O desenvolvimento das ciências naturais aliada à tecnologia de ponta, se deve em larga medida a existência de um enorme mercado de consumo. A maior parte dos cientistas do final do século XX, início do século XXI não é mais aquele romântico pesquisador que pretende, com suas descobertas, trazer melhores condições de vida às pessoas. O mercado tudo engole e adotou o pesquisador como empregado, ávido por descobertas patenteáveis capazes de enriquecê-lo e a seus patrões com os correspondentes royalties. Se não há mercado, não há pesquisa. Esse é o lema. Para quem duvida, lembro aqui mais uma vez o filme "O óleo de Lorenzo", que conta a história verídica da luta dos pais do menino Lorenzo na tentativa de descobrir uma solução para a sua doença. Eles percebem que a cura não surge por falta de mercado: havia um número insuficiente de crianças doentes na relação com o custo do investimento na pesquisa.


Ou, como disse um famoso médico brasileiro: "No mundo atual está se investindo cinco vezes mais em remédios para virilidade masculina e silicone para mulheres do que na cura do Mal de Alzheimer. Daqui a alguns anos, teremos velhas de seios grandes e velhos de membro ereto, mas eles não se lembrarão para que servem".


A imposição pela beleza e pela estética é tamanha que, um dos aspetos mais evidentes dos avanços da ciência tecnológica é a venda e reforma de partes do corpo humano. Quase como no filme de Franquenstein, existe a possibilidade da ficção virar realidade. Evidente que há muita coisa boa. O avanço da biologia e da medicina permitem os transplantes de órgãos que salvam muitas vidas, que devolvem funções de partes do corpo humano que estavam perdidas ou que dão a visão às pessoas etc. Tudo isso é muito bem vindo. E há mais: as várias próteses, as operações corretivas com ajuda de micro instrumentos e uma numerosa quantidade de procedimentos outrora impensáveis. Isso tudo é muito bom.


Ao lado disso, o mercado passou a oferecer toda sorte de cirurgias estéticas. Não só é possível deixar de usar óculos, fazendo uma fantástica, muito rápida e indolor operação oftálmica (que, aliás, é executada praticamente em série, uma atrás da outra), como homens e mulheres podem literalmente comprar partes do corpo humano, ou fazer trocas no próprio corpo com enxertos.


A busca do corpo perfeito, da forma sempre esguia e jovem, esses produtos tão bem vendidos no mercado de consumo, fez surgir um enorme mercado de reposição de "peças" humanas. Naturalmente, não há nenhum mal em que as pessoas queiram fazer as correções que entenderem necessárias, desde que façam conscientes e com acompanhamento médico adequado. Podem querer fazer lipoaspiração para jogar fora as gorduras indesejáveis e difíceis de perder; ou desejar eliminar as papas dos olhos; as mulheres podem querer aumentar seus seios ou corrigi-los etc. É mero exercício do direito de cada consumidor.


O mercado já cuida desse assunto com alta prioridade e qualquer um pode ver. Basta ligar a tevê para perceber a quantidade de produtos e serviços ligados à forma e à beleza existentes. O marketing, por sua vez, em todas as suas vertentes, o tempo todo, mostra as pessoas de um modo que vai se impondo no imaginário e desejo dos consumidores. Nos filmes do cinema, nos canais de televisão, nas novelas etc são apresentados atrizes e atores magros e "sarados" com formas desenhadas, que depois os consumidores tentam "copiar" adquirindo os produtos e serviços oferecidos.


Há também muita coisa esquisita. No ano passado comentei que alguns canais de tevê e vários sites na internet vinham apresentando mulheres com seios exagerados. Havia, ao que parece, uma "campeã" brasileira, que detinha seu recorde com nada mais nada menos que 5,5 litros de silicone em cada seio. (A recordista mundial, segundo constava, era uma americana que possuía 7 litros em cada mama!). Olhando para aquela recordista brasileira, que, quando se levanta, é obrigada a ficar segurando os litros de silicone, sente-se pena, porque, sua decisão está fora do padrão psíquico das demais pessoas. Até poder-se-ia garantir a ela um eventual direito de fazer o que fez (certamente questionável, como penso).


Quanto ao uso de photoshop e todas as demais formas de enganação do marketing e da publicidade nem preciso referir, pois são conhecidos de todos os métodos utilizados e que não têm fundamento ético: parte desse setor não fala a verdade (e também nem sempre mostra!). Todavia, volto a colocar algo que me parece grave, que é o do procedimento médico subjacente nessa questão: os excessivos seios de silicone foram colocados por um cirurgião médico, acompanhado de sua equipe com outro médico anestesista e seus assistentes. Pergunto: não há limite ético para o médico fazer tal operação? Não deve ele se negar a fazê-la e aconselhar a interessada que procure ajuda psicológica? A mim parece que os órgãos de medicina responsáveis devem cuidar desse tema, estabelecendo esse limites.


Não é só porque a ciência moderna e a incrível tecnologia que a acompanha seja capaz de construir corpos humanos com fantásticas próteses, enxertos e reformas, que se pode fazê-lo. Do ponto de vista ético, a possibilidade real de uma execução não significa necessariamente o direito de exercê-la. Não falo apenas do problema dessa mulher de seios enormes. Refiro a questão em sentido mais amplo, porque se for deixado que o mercado tome a decisão, com o alto faturamento que o segmento gera, poderemos assistir a muitas aberrações. Ao lado dessas doenças típicas da sociedade capitalista, surgirão outras gerando um consumidor cada vez mais alienado e, muitas vezes, infeliz.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Nelson Rodrigues é homenageado com lançamento de portal sobre sua vida e obra




Da ASCOM/UEPB

Há 99 anos, nasceu no Recife Nelson Falcão Rodrigues. Depois de alguns anos ele assinaria apenas como Nelson Rodrigues sua extensa obra formada por crônicas, romances e peças de teatro, e com ela ficaria conhecido em todo o país. O centenário de Rodrigues (1912-80) acontece em agosto de 2012, mas as comemorações já começaram. Um portal sobre o jornalista, escritor e dramaturgo foi criado para homenageá-lo.

Com entrevistas (com e sobre o jornalista); críticas de teatro, literatura, cinema e televisão; vídeos, biografia; e uma breve descrição das obras, o site é ideal tanto para quem já conhece Nelson Rodrigues, como para aqueles que desejam conhecê-lo. Há ainda um espaço destinado às pessoas que estão trabalhando com alguma peça de teatro e projetos ligados a Nelson Rodrigues, bem como colaboradores que trabalharam com ele.

Além da página eletrônica, outros projetos irão festejar o centenário. No carnaval de 2012 a escola de samba Unidos do Viradouro levará a vida e a obra de Nelson Rodrigues para o sambódromo.

O conteúdo ainda é pequeno, mas será incrementado aos poucos, inclusive com a colaboração de escritores, pesquisadores e jornalistas que tenham interesse em contribuir para a preservação da memória e a divulgação da obra de Nelson.


terça-feira, 23 de agosto de 2011

O século da mulher


Por Nizan Guanaes, publicitário


Na noite do dia 13 de setembro, em Nova York, Tina Brown, uma das maiores jornalistas dos Estados Unidos, lança sua Women in the World Foundation. A Fundação Mulheres no Mundo visa mobilizar o mundo em torno dos problemas das mulheres e mobilizar as mulheres em torno dos problemas do mundo.
O que não falta no mundo de hoje são problemas enormes, e em muitos deles a mulher é o caminho mais curto e eficiente para resolvê-los. Como resolver o problema das drogas, da obesidade infantil, da Aids ou da gravidez precoce sem engajar a mulher?
Como expandir o microcrédito ou cobrar a melhora da qualidade de ensino sem o apoio da mãe de família? Como controlar a natalidade, questão fundamental num mundo sufocado, sem envolver a mulher? Dos dez maiores problemas da atualidade, na maioria deles a mulher é a solução. É a mulher quem organiza o lar, a família. Promover o desenvolvimento educacional e social da mulher é injetar desenvolvimento e prosperidade na veia.
Como filho, como marido, como padrasto e como amigo de grandes mulheres, abraço essa causa com absoluta convicção. O desenvolvimento das mulheres no mundo inteiro é o caminho mais rápido para o desenvolvimento do mundo. E a situação da mulher no mundo ainda é de absoluto desrespeito. Tratadas como bichos e escravas, trancadas em quartos e debaixo de burcas, exploradas sexual e economicamente, humilhadas e reduzidas, as mulheres no mundo estão longe das esplendorosas e emancipadas mulheres do cinema, das novelas ou das revistas de moda.
Flagro-me, às vezes, em piadas sexistas que são fruto de 53 anos e da sociedade onde nasci e cresci. E aquele pequeno Carlos Imperial que há dentro da minha idade só não se desenvolve porque, ao primeiro ato falho, ele apanha da Donata. É munido dessa consciência, desse mea-culpa, e dessa imensa fé no potencial transformador da mulher que me engajo na Women in the World Foundation.
Minha mãe, hoje com mais de 80 anos, se formou em engenharia civil em 1957, na Bahia. Foi uma visionária. E seus olhos visionários se tornaram meus.
Mesmo tendo ela nascido no Pelourinho, esses olhos sempre foram globais... E me ensinaram a não ter medo do mundo. Militante de esquerda, minha mãe me ensinou a compreender mais amplamente a história longe do sistema de castas da sociedade aristocrática da Bahia do meu tempo. Ela foi a primeira pessoa a me falar sobre o futuro da China (isso na década de 1970) ou sobre o Peter Drucker, o guru da gestão.
Hoje, ela enfrenta a grande noite do Alzheimer. Mas, se ela já esqueceu de tudo o que ela foi, nunca esquecerei o que ela representa. E, através de mim e de meus filhos, ela deixa sua marca no tempo. Sou eu quem escreve este texto, mas a caligrafia é dela. É por isso que acredito que, cuidando de cada mulher, escrevemos e reescrevemos milhões e milhões de histórias.
Mas, para fazermos isso, é preciso mudar o padrão mental de nossa sociedade. Independentemente da política partidária (virei ateu nessa área), o Brasil já deu um grande passo na política de gêneros ao eleger uma mulher presidente.
E acertarão a publicidade e as marcas que tiverem um entendimento claro da mulher, de seu novo papel e de seu imenso potencial. Dona Maria, a Malu Mulher da base da pirâmide, não quer só os produtos da cesta básica. Dona Maria quer beijar, quer ser jovem, quer unha bonita e o cabelo da Gisele.
E a filha da dona Maria quer falar inglês, trabalhar na Vale ou na Petrobras, ser transferida para uma subsidiária da companhia no exterior e trabalhar num projeto social da empresa para que outros filhos de dona Maria tenham a mesma chance que ela. Entender os anseios da cidadã, da mulher, da mãe, são desafios dos homens públicos, dos empresários, dos homens de marketing e de todos nós, homens em geral.
Tenho certeza absoluta de que, se algo pode mudar radicalmente o mundo e transformá-lo em um lugar mais justo e melhor de viver, esse algo é a mulher.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Audaciosa crítica de Raul Seixas à submissão da elite brasileira


Por Marcos Aurélio Ruy, do Portal Vermelho


Considerado um dos pioneiros do rock brasileiro, o baiano Raúl Seixas passou maus bocados por sua arte contestadora e, por vezes, um tanto mística. Coisas de artista. No último domingo (21), completaram-se 22 anos de sua morte, mas sua legião de fãs não para de crescer.

Com mais de 20 anos de carreira, chamado por muitos de o “pai do rock brasileiro”, Raul Seixas emplacou inúmeros sucessos na música popular brasileira ao misturar baião - inspirado principalmente em Luiz Gonzaga-  e rock, sob inspiração dos anos 1950, principalmente por Little Richard, o som meio anárquico de Frank Zappa e a revolução chamada Beatles, essencialmente John Lennon. Foi muito influenciado ainda pelo místico inglês Aleister Crowley, que pregava “faze o que tu queres, há de ser tudo da lei”.

Nessa miscelânea de sons e temas, Raul lança seu primeiro disco, Raulzito e Os Panteras, em 1968, não emplaca nas paradas, mas já mostra sua cara irreverente e tenaz na crítica ao sistema. Ao aproximar-se da Jovem Guarda, participa de um disco intitulado “Vida e Obra de Johnny McCartney”, com Leno, da dupla Leno e Lilian, que tem as letras censuradas e o disco acabou por não ser lançado. 

Distancia-se da Jovem Guarda com sua arte contestadora, de forte apelo social e crítico à ditadura e ao capitalismo. Sofre forte censura do regime militar de 1964, cria a Sociedade Alternativa, com música homônima, e os militares pensam tratar-se de grupo guerrilheiro. É preso, torturado e obrigado a sair do país, juntamente com o atual escritor místico Paulo Coelho, seu parceiro em inúmeras canções. 

Raul Seixas critica com veemência a escola e diz em entrevista “nunca aprendi nada na escola. Minto. Aprendi a odiá-la” e complementa com a afirmação de que “tudo o que aprendi era nos livros, em casa ou na rua.” Isso numa época em que até a escola estava sob o crivo da ditadura. 

Em 1971 lança, sem autorização da gravadora, o disco “Sociedade Grã-Ordem Apresenta Sessão das Dez”. O disco some misteriosamente do mercado e Raul é expulso da multinacional CBS. No ano de 1982, ao aparecer embriagado e sem documentos para um show em Caieiras (SP), é confundido e torna-se “impostor de si mesmo”, quase é linchado pelo público, preso e espancado pelos policiais.

Esse ar de irreverência esteve presente em toda a sua obra. Com críticas mordazes à falta de liberdade e ao status quo. Na canção “Como Vovó Dizia” ele afirma: “quem não tem colírio usa óculos escuros, quem não tem filé como pão e osso duro, quem não tem  visão bate a cara contra o muro.” Precisa ser mais claro? Também em “Ouro de Tolo” fala da tentativa de “pão e circo”, uma tese propalada pela burguesia para conformar o povo sem contestação.

Também esteve nas paradas canções com “Tente Outra Vez”, “O Dia em que a Terra Parou”, “Mosca na Sopa”, “Metamorfose Ambulante”, “Gita”, “Al Capone”, Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás”, “Sapato 36”, forte crítica ao patriarcalismo, e "Aluga-se”, na qual propõe alugar o Brasil para resolver os dilemas do país, cruciais ao povo brasileiro sob o obscurantismo fascista. Um dos seus maiores sucessos, porém, é “Maluco Beleza”, verdadeiro hino dos hippies brasileiros dos anos 1970.


Lança o disco “A Panela do Diabo”, em 19 de agosto de 1989, dois dias antes de sua morte, juntamente com o discípulo Marcelo Nova. Raul é encontrado morto em seu apartamento em São Paulo aos 44 anos. 

Sucumbiu às drogas, ao alcoolismo e à diabetes. Tem sua arte, no entanto, viva na memória de uma enorme legião de fãs de todas as faixas etárias e sua contestação tornou Raul Seixas sem similar e sem substituto. Apresenta uma visão audaciosa dos costumes e da submissão da elite brasileira aos ditames imperialistas.


Conheça uma das canções mais famosas do artista:

Ouro de Tolo (1973)

Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros
Por mês...
Eu devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso
Na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar
Um Corcel 73...
Eu devia estar alegre
E satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado
Fome por dois anos
Aqui na Cidade Maravilhosa...
Ah!
Eu devia estar sorrindo
E orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa...
Eu devia estar contente
Por ter conseguido
Tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado...
Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto "e daí?"
Eu tenho uma porção
De coisas grandes prá conquistar
E eu não posso ficar aí parado...
Eu devia estar feliz pelo Senhor
Ter me concedido o domingo
Prá ir com a família
No Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos...
Ah!
Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro
Jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco...
É você olhar no espelho
Se sentir
Um grandessíssimo idiota
Saber que é humano
Ridículo, limitado
Que só usa dez por cento
De sua cabeça animal...
E você ainda acredita
Que é um doutor
Padre ou policial
Que está contribuindo
Com sua parte
Para o nosso belo
Quadro social...
Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar...
Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador...
Ah!
Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar...
Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador...






sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Devagar com o andor


Por Bernardo Esteves, da Revista Piauí

O movimento slow science, que defende a pesquisa feita com tempo para pensar e digerir os resultados, sem afobação e longe da pressão para publicar a qualquer preço, voltou a agitar a internet na última semana. A iniciativa foi tema de textos provocadores e ganhou, na França, uma petição on-line que já levantou cerca de mil adesões.

O manifesto Slow Science – ‘ciência lenta’, em tradução literal – foi publicado on-line em 2010 por um grupo de pesquisadores alemães, inspirado em iniciativas similares surgidas em outros domínios. A mais notória delas é a slow food, que prega a fruição demorada de alimentos preparados com esmero, com ingredientes orgânicos e produzidos localmente, em contraponto às refeições ligeiras e produzidas em escala e ritmo industrial nas grandes cadeias de lanchonetes.

Aplicada à ciência, essa filosofia se traduz essencialmente em fazer pesquisa com tempo para pensar, experimentar e quebrar a cara, se for o caso. Tudo num ritmo bem distante da rotina frenética de publicação na internet. “Somos cientistas”, diz o início do manifesto. “Não blogamos. Não tuitamos. Tomamos nosso tempo.” Apesar dessa recusa das redes sociais, o movimento admite que os blogs e todo o aparato de comunicação da ciência fazem parte do jogo e até criou uma página no Facebook. Diz o manifesto:

“Precisamos de tempo para pensar. Precisamos de tempo para digerir. Precisamos de tempo para discordar uns dos outros, especialmente ao promover o diálogo perdido entre as humanidades e as ciências naturais. Não podemos afirmar de forma contínua o que quer dizer ou para que servirá a nossa ciência, simplesmente porque ainda não sabemos. A ciência precisa de tempo.”

A valorização da produtividade dos pesquisadores medida pelo número de artigos que eles publicam (tema já discutido no blog) é um dos principais focos de crítica da slow science. É preciso privilegiar a qualidade em relação à quantidade, como defende a carta de intenções da versão francesa do movimento, que ganhou página própria no fim de julho.

O manifesto ganhou visibilidade esta semana depois que foi citado pelo jornalista John Horgan, titular de um blog da Scientific American que trata novidades da ciência de forma mordaz. “Parte de mim quer aplaudir os apelos pela desaceleração da ciência”, disse ele no post dedicado ao manifesto. “Afinal, muitas – se não a maioria – das afirmações da ciência acabam se mostrando erradas.”

Ao fim do texto, ele revelou, irônico, por que está com um pé atrás em relação à slow science: “Temo que, se de fato os cientistas desacelerarem e começarem a publicar apenas dados de alta qualidade e teorias que passaram por duas ou três checagens, não terei mais nada sobre o que escrever.”

O post de Horgan motivou uma reflexão instigante de Rebecca Rosen, editora associada da revista The Atlantic. Talvez não se trate apenas de um problema de tempo, segundo sua análise. De nada adianta desacelerar a ciência se não forem corrigidos os problemas que existem nos modelos de financiamento, avaliação e divulgação das pesquisas. “Essas razões são sistêmicas”, disse ela, “e um cientista que seguir os conselhos do manifesto corre o risco de frear apenas a sua própria carreira, sem modificar as causas subjacentes”.

A solução talvez esteja num caminho do meio, como sugeriu a pesquisadora Ivana Bentes, diretora da Escola da Comunicação da UFRJ. “Slow e fast têm diferentes encantos”, disse ela, ao comentar o tema no Facebook. Ela apontou a necessidade de uma contraproposta para o manifesto e deu uma sugestão: “o negócio é criar um ambiente de Estudos Avançados do Tempo Distendido e do Tempo Comprimido”.

Diferentes disciplinas, acrescentou Ivana, exigem diferentes tempos de pesquisa, e a intervenção no presente não pode ser deixada de lado. “A falta de ‘urgência’ e a ideia de uma produção de conhecimento ‘a longo prazo’, sem intervenção e preocupação política, me parecem uma demissão em relação ao presente”, afirmou ela numa mensagem eletrônica. “O que enfatizo e defendo é, ao lado dos diferentes tempos e da slow science, o ‘teoriativismo’ para não cairmos no tédio e indiferença da erudição.”

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Os indignados ainda vão botar o planeta de cabeça pra baixo


Marcelo Semer, do Terra Magazine

Desta vez não são os emergentes asiáticos que expõem a risco o sistema econômico internacional, mas os filhos da tradicional família europeia.
Não foi uma república de bananas que teve sua nota rebaixada pela agência de investimentos por um possível calote, mas a toda-poderosa pátria de Tio Sam.

O quebra-quebra urbano depois da violência policial não se deu nas estreitas vielas das favelas do Rio de Janeiro, mas na Londres dos lendários policiais desarmados.

E o terrorista fundamentalista que matou dezenas num acampamento de jovens, em nome da fé e da pureza, é um cristão nórdico, branco e de olhos claros.

Que surpresas mais nos aguardam nesse admirável mundo novo, um planeta de cabeça para baixo?

Revoluções no mundo árabe buscaram abrir alternativas de liberdade que superassem ditaduras e teocracias, mas não comoveram aqueles que sempre pretenderam exportar, à força, seus modelos prêt-à-porter de democracia.

As praças da Espanha se encheram de indignados, descontentes com a falta de perspectivas e de empregos, e os políticos se espantam e desprezam os movimentos espontâneos, apenas por que não os atingem nas primeiras urnas.
Na Grécia, as ruas explodiram de revolta pela contrariedade ao sacrifício de quem já vem sofrendo. Cortes sociais permanecem sendo a única resposta formulada pelos agentes que produziram as crises. Por incrível que pareça, são justamente os alunos reprovados que continuam impondo as regras, que, por óbvio, jamais os atingem.

O documentário Trabalho Externo (Inside Job), vencedor do Oscar, explicou bem porque a maioria dos economistas norte-americanos não foi capaz de enxergar a crise brotando na frente de seus olhos. Boa parte da intelligentsia econômica estava na folha de pagamento do sistema financeiro que a criava.

Quando a imprensa tenta nos alertar desesperadamente sobre os riscos advindos da web, à custa de alguns poucos crackers em ações inexpressivas, eis que a vida real mostra que o perigo mora em cima.

A Inglaterra descortina grampos e desmandos da grande mídia e as relações para lá de incestuosas entre Murdoch e os governos.

Mas nem é preciso tantos crimes expostos, para entender os riscos que o excesso de poder e concentração pode provocar.

Quando a imprensa toma partido e faz políticos reféns, resguardando-se o direito de influir na política com o peso desproporcional de quem cria celebridades, destrói reputações e instaura pânicos, qualquer processo democrático se vicia.

Bom, nem tudo é novidade no globo.

Crianças africanas seguem morrendo escandalosamente de fome expondo a crueldade insensível de uma distribuição injusta de riquezas, enquanto os países ricos encontram mecanismos mais eficientes de fechar suas fronteiras para novos imigrantes. Se for o caso, que eles morram de fome à distância. Cairo, Santiago, Londres, Tel Aviv. Parece cada vez menos crível que a paciência dos indignados se eternize.

Com o tempo, vai ser preciso mais do que comentaristas econômicos de jornais e TVs para convencer o povo que reverenciar o sistema financeiro e seus estratosféricos lucros, é a melhor forma de proteger o planeta e salvar nossas almas.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

“A infância mudou muito”


Por Fernando Vives, da Revista Carta Capital


Em entrevista, Mauricio de Sousa conta como adaptou a Turma da Mônica às novas formas de comunicação e diz que Calvin e Haroldo são personagens que queria ter criado

Já faz mais de 50 anos que o então repórter policial da Folha da Manhã resolveu trocar a vida de jornalista pela produção de histórias em quadrinhos, sua grande paixão desde criança. Poucos casos deram tão certo. Hoje, aos 75 anos, Mauricio de Sousa é o grande expoente desse ramo no Brasil. Os personagens de sua grande criação, a Turma da Mônica, fazem parte do cotidiano – e da lembrança – de crianças, adolescentes e adultos.

Em maio, Mauricio tornou-se o primeiro quadrinista a ser empossado pela Academia Paulista de Letras. O prêmio chega no momento em que o autor passa por um processo de adaptação de seus personagens ao mundo atual das HQs, com a versão adolescente da Turma da Mônica. “A infância mudou muito, está bem mais precoce. Então temos de sofisticar a comunicação junto a esse público”, afirma. A Turma da Mônica jovem, que já ultrapassou 30 edições, é sucesso de venda e tem uma novidade: Mônica e Cebolinha assumem um namoro, depois de um tão esperado beijo. “As pessoas pedem mais, mas vai parar por aí, porque a Mônica é minha filha”, diz, rindo. Mas adianta: “Vai seguir, claro, o que acontece naturalmente com os jovens, mas vai demorar”.

Nesta entrevista, por telefone, Mauricio de Sousa conta como viu as mudanças da infância e adolescência que aconteceram nas últimas décadas e como foi adaptando sua linguagem. Ele sugere também algumas formas de ler quadrinhos na escola e revela, com bom humor, uma de suas aspirações: “Calvin e Haroldo é a história que eu gostaria de ter criado”.

O que mudou entre o leitor de Turma da Mônica há 40 anos e o de hoje?

Bem, a criança está mais apressada em virar adolescente. Antigamente, atingia-se essa fase aos 14-15 anos. Hoje se é pré-adolescente com 8 anos e adolescente aos 10. Consequentemente, você tem de encarar que não podemos mais falar com garotos de 10 anos da maneira como falávamos. É como se fosse um pequeno adulto. Não dá mais para usar uma linguagem que remeta a castelinhos de fadas e princesinhas. Mostramos agora a realidade da vida numa formatação suavizada. E também sofisticaram-se as formas de comunicação, ela chega mais fácil. Então temos de sofisticar a informação e simplificar a comunicação.

Qual foi o ponto da sua carreira em que você percebeu que tudo iria dar certo?

Quando procurei a redação, eu o fiz para desenhar, mas não consegui. Havia vaga para reportagem policial da Folha, onde fiquei por cinco anos. Mas não esquecia os desenhos. Fiz amizade com os chefes do jornal e pedia a eles para me fornecerem todo o material de quadrinhos americanos, para estudá-los. Chegou um tempo em que eu achava que estava com informação suficiente para tentar alguma coisa. Fiz a minha série do Bidu e apresentei ao editor-chefe, que gostou. Virei só desenhista e passei a adaptar tudo o que eu estudava à realidade brasileira.

Quais foram os artistas que inspiraram sua carreira?

Foram muitos. Will Eisner foi meu -mestre na arte de ousar fazer quadrinhos sem a preocupação de respeitar uma lógica de criar sempre a mesma coisa. O personagem dele é sempre bem construído, mas as histórias viravam-no de cabeça para baixo. Havia histórias em que o personagem principal não aparecia. Eu recortava histórias do Eisner, era fanático. Depois tem outros: o Ferdinando (personagem criado por Al Capp-), que fazia uma sátira bem mordaz da sociedade americana por meio de um caipira, uma espécie de Chico Bento adulto. Outro era o quadrinista Tereré, que fazia a caricatura do Príncipe Valente. Havia também o Brucutu (do americano Vincent T. Hamlin), que me inspirou a criar o Piteco. Havia bom material gráfico na década de 1940 na Disney, embora esta fosse um pouco cor de rosa demais. E, posteriormente, houve Calvin e Haroldo (do americano Bill Waterson), que é a história em quadrinhos mais avançada do mundo. É a que eu gostaria de ter feito.

Por quê?

Sim, porque é moderno demais. Eu queria ter essa ideia, mas criaram antes (risos).

Hoje temos o mangá dominando o mercado. Há quem o critique pela estética, mas há quem diga que é impossível ignorá-lo. Qual sua opinião a respeito?

Quando alguma manifestação artística faz sucesso é porque há um nicho. A história em quadrinhos americana a partir dos anos 1970 começou a repetir fórmulas. Os mangás aproveitaram-se disso. Nosso desenho no Brasil é do lado americano. O mangá veio para estabelecer algumas formas gráficas que vão permanecer e se incorporar à história dos quadrinhos. Fizemos a Mônica Jovem, que incorpora os dois estilos.

Podemos dizer que a história em quadrinhos americana está em decadência?

Agora estão em processo de rejuvenescimento. Curiosamente, isso está nascendo de quadrinistas brasileiros, alguns deles estão entre os melhores do mundo. Mike Deodato, da Paraíba, que faz super-heróis, é um deles. O que está havendo é uma mestiçagem entre os estilos japonês e o americano.

Há uma mudança de status nas HQs, com várias edições de clássicos da literatura nessa versão…

Exatamente no Brasil vemos uma mudança de patamar. Se antes você só as encontrava nas bancas, hoje as vê nas livrarias em versões de grandes obras da literatura.

As HQs também podem ser usadas em sala de aula porque têm uma linguagem que junta texto e imagem. Como o senhor enxerga o uso delas nesse ambiente?

Vejo pelo material que dezenas de editoras que nos solicitam, dentro e fora do Brasil, trechos de historinhas para publicar em livros didáticos. Em 2010, estivemos em 480 livros didáticos. Fora o nosso projeto que utiliza a Turma da Mônica na pré-alfabetização chinesa, que deve atingir 180 milhões de estudantes. E com uma particularidade: são muito utilizados via web, uma vez que o governo chinês não quer usar papel com tanta gente. São HQs, pequenos filmes, desenhos, um material completo que estamos começando- a utilizar também aqui no País.

O senhor voltou a investir em novas mídias?

Sim, acabei de criar a Mauricio de Sousa- –Produções Digitais.Trabalhamos em desenhos animados em 3D. Começa com o Penadinho, Horácio e, em seguida, com a Turma da Mônica Jovem em 3D no sistema que foi usado no filme Avatar. Vai ser para a televisão e, posteriormente poderá ir para o cinema. E o importante disso é que pensamos em ter a educação como nosso maior cliente, abrindo caminho para o consumo de livros e de cultura. Tudo o que tiver nosso nome passará por educação daqui para a frente.

A Turma da Mônica Jovem está discutindo- inclusive sexualidade na adolescência. Houve quem o criticasse alegando apelação. Como entendeu as críticas?

Bem, eu tenho dez filhos espalhados por quase 50 anos. Aprendi a conviver, dialogar, enfrentar e ajudar a solucionar os problemas em cada uma das adolescências que passaram por meus olhos e meu coração. Nenhum pai pode ignorar os momentos de dúvida no nascimento da sexualidade dos filhos. O que temos de fazer não é suavizar, mas achar a forma certa de falar sobre o assunto. Hoje uma criança de cinco anos pode fazer perguntas cabeludas que têm que ter uma resposta. Então procurei responder às críticas dizendo que estamos fazendo uma coisa séria com muito conhecimento de causa. Quando coordeno minha equipe, realmente acho que minha vivência e de minha equipe ajudam muito, inclusive de forma educacional, até para adultos que têm dúvidas.

E o mesmo vale para o personagem Caio, de Tina, que tudo indica ser um personagem homossexual…

Aí houve exagero. Ninguém falou nada que havia um personagem homossexual na história. Foi uma interpretação dos leitores ao mesmo tempo que foi uma tateada para ouvir reações. E o público reagiu muito mal, violentamente. Não podemos ainda tratar de alguns assuntos da maneira como gostaríamos. Para evitar problemas, porque temos contratos e não podemos enfrentar uma parte do público, mesmo que minoria, eu digo que não podemos levantar bandeiras em nossos produtos editoriais. Mas se está passando uma bandeira em nossa sociedade, daí vamos. Cada coisa a seu tempo. De vez em quando testamos alguma coisa.

A  homossexualidade será tocada?

Eu diria que o futuro a Deus pertence. Vamos ver como a sociedade caminha e vamos desenhar a sociedade com humor, leveza, entretenimento e educação. Houve transformações no passado. Se há 30 anos falássemos em divórcio, iriam queimar a revista em praça pública. Hoje, o Xaveco é filho de pais divorciados. Houve meia dúzia de reclamações suaves e ele está lá estabelecido, com pais bem resolvidos.

Agora Cebolinha e Mônica estão namorando. Então pararam de brigar?

Não, agora que estão brigando mesmo! A edição 34 da Mônica Jovem tem meio milhão de exemplares de tiragem. O povo sempre pede mais, então agora está aí, estão namorando. Mas vai parar por aí, porque a Mônica é minha filha (risos). Vai seguir, claro, o que acontece naturalmente com os jovens, mas vai demorar um pouquinho.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Esperando Godard


Por Cadão Volpato, da Revista Ilustríssima

MEMÓRIAS QUE VIRAM HISTÓRIAS
São Paulo, 1981

O cineasta Jean-Luc Godard esteve no Brasil em 1981. Visitou a FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo), em cujo auditório fez uma concorrida palestra, lotada de cinéfilos e gente à paisana. Conta-se que as pessoas se abalaram até os bosques da universidade porque o jornal "O Estado de S. Paulo" anunciou a vinda do diretor. Uma aluna da Escola de Comunicações e Artes, futura cineasta e roteirista, preparou um jantar para o diretor.
Naquela noite, havia uma grande impaciência no ar. Um grupo de espectadores acabara de se rebelar, por conta da longa espera. Quando Jean-Luc Godard, usando uma gabardine, chapéu Borsalino e os célebres óculos escuros, entrou pela parte de trás do auditório e seguiu em linha reta pelo caminho que dividia as cadeiras, houve um silêncio compacto, seguido de palmas estrondosas.
Um incidente marcou a chegada do cineasta: um rapaz aparentemente desequilibrado investiu contra o ídolo de "Je Vous Salue Marie", tentando acertar-lhe um soco. Dois seguranças informais, postados ao pé dos degraus que conduziam ao palco, conseguiram controlar o agressor. Jean-Luc subiu, sentou-se na cadeira que o esperava no centro do espetáculo, e começou o seu discurso. Ao lado dele, acomodados em cinco cadeiras alinhadas geometricamente, cinco jovens faziam a tradução simultânea -para inglês, italiano, japonês, alemão e... francês- de tudo aquilo que o criador de "O Demônio das 11 Horas" dizia no mais puro português.
Ódio. Revolta. Consternação. Esses sentimentos só vieram à tona quando as pessoas se deram conta de que o cineasta palestrante que diziam ser o maior nome da nouvelle vague, o homem que àquela altura rivalizava a céu aberto com François Truffaut (1932-84), com quem brigara por carta, e que havia acabado de desembarcar da aventura xiita dos vídeos de combate do projeto Dziga Vertov -esse homem não era Godard. Esse homem era um estudante da ECA bem mais jovem e nem tão parecido assim com ele (tinha mais cabelo e um nariz nada pontudo). O Godard de araque estava mais para Jean-Paul Belmondo, o herói de cara azulada de "O Demônio". O Godard de contrabando era eu.
É preciso voltar o filme um pouco para entender: eu e meus amigos éramos trotskistas. Trotskistas tinham boas relações com os surrealistas. Trotskistas desenhavam dentes de vampiro nas fotos de Stálin. Trotskistas se dividiam em inúmeros agrupamentos minoritários -que, conforme diziam os inimigos, cabiam todos num Fusca.
Meu grupo era barulhento. Éramos da linha lambertista e estávamos para fundir com os morenistas. Os morenistas, no caso, eram argentinos. Esses argentinos eram artistas, de um grupo chamado Taller de Investigaciones Teatrales (TIT). Eram tão barulhentos quanto a gente. Vieram com tudo. Davam aulas de tai chi chuan. Eram meio hippies, não tinham alguns dentes; um deles, bonitão, tinha sido motorista de táxi em Buenos Aires, outro tinha sido operário. E uma militante era tão bonita que parecia uma miss. Tudo isso junto nos seduziu, e o episódio Godard saiu da união dessas forças e de um planejamento passo a passo.
Era o que se chamava de "intervenção urbana", atividade na qual o grupo Viajou sem Passaporte, também daquela época, se tornou especialista: bastava entrar numa peça de teatro, em bando, e ir desmaiando aos poucos, com método.
Foi mais ou menos assim com Godard.
De toda essa irresponsabilidade, sobrou um jantar deixado para os cachorros (como aquele episódio da volta do goleiro Barbosa para casa, em 1950, depois da derrota do Brasil para o Uruguai na final da Copa do Mundo). Também sobrou uma maldição: Godard nunca botou os pés no Brasil. Se você ouviu falar a respeito, desconfie.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O antropólogo dos quadrinhos



Por Marília Kodic, da Revista Cult

Regra número 1: nunca diga à sua família o que vai fazer até que esteja prestes a entrar em um avião”, aconselha Joe Sacco, que, aos 31 anos, embarcava sozinho para um Oriente Médio tomado por conflitos entre palestinos e israelenses, ignorando os protestos dos pais e amigos, para se tornar um dos mais famosos jornalistas de quadrinhos da atualidade.
Foi em 1991, após passar uma década sustentando-se com trabalhos em pequenas editoras e fazendo desenhos de pôsteres para bandas de rock alternativo, como Yo La Tengo e Mudhoney (“queria algo em hard news com que pudesse realmente fazer diferença, e não achei”, diz o cartunista formado em jornalismo  em 1981 pela Universidade de Oregon, EUA), que a veia literária surgiu.
Diferentemente de quando era adolescente, época em que absorvia as “informações superficiais” disparadas pelos noticiários norte-americanos, decidiu partir em busca do outro lado da história, aquilo que os jornais não mostravam.
“Quase por osmose, o que se recebia da mídia era: os palestinos são terroristas. Então, decidi ver como as pessoas viviam na Palestina e pensei: ‘Bem, não devia ir só como turista, posso escrever e desenhar sobre isso’. De repente, virou um projeto jornalístico”, lembra Sacco em entrevista à CULT durante a última edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

Infiltrado
Sem recursos, dividindo quartos em albergues com cinco ou seis pessoas “que roncavam o tempo inteiro”, passava o dia colhendo depoimentos e fotos.
“A falta de dinheiro te leva a conhecer gente nova, dá uma percepção de como as pessoas reais vivem. Você não se isola, pertence”, acredita Sacco. E ele também assinala a hospitalidade estrangeira: “As pessoas te convidam para entrar em casa. Elas ficam felizes com seu interesse por suas vidas”.
Para Sacco, 50, as experiências antropológicas são o aspecto mais interessante de retratar.
Em Notas sobre Gaza (Companhia das Letras), por exemplo, cita o abatimento de um boi. “Apesar de ficar um pouco enjoado assistindo àquilo, percebi que era possível usar os quadrinhos para mostrar os costumes das pessoas, e aquilo foi uma alegria”.
Alegria, porém, não é a palavra que melhor traduz as cenas que presenciou. Com experiências que incluem analisar a posição de corpos jogados no chão, o segredo, conta, é manter um olhar clínico:
“Quando você está lá, precisa ter o coração duro; você está atrás de histórias, e isso o impede de se envolver profundamente; precisa encarar aquilo de forma profissional”.
Após passar cerca de quatro anos entre o Oriente Médio, viajando por Palestina e Bósnia, e os Estados Unidos, onde mora desde os 12 anos, materializou a experiência em dois de seus livros mais conhecidos: Palestina, publicado originalmente em 1996, e Área de Segurança – Gorazde, publicado em 2000, ambos lançados no Brasil pela Conrad.
Seu livro mais recente, Notas sobre Gaza, lançado em 2009, também é fruto da experiência.

Longe da guerra
“É em casa que o bicho pega”, fala, num tom meio sério, meio debochado, e explica: “É o momento de realmente pensar no que aquilo tudo significa. Você precisa habitar as experiências uma segunda vez, só que mais profundamente”.
O local de trabalho do quadrinista, nascido em Malta, é nos fundos de uma casa em Portland, Oregon, onde mora há oito anos com a namorada, Amalie.
“Estilo rancho, de tijolos, construída em 1959, a maior em que já morei. Tem até biblioteca, que era uma das minhas metas de vida”, diz, orgulhoso, sobre as prateleiras que carregam desde Hunter Thompson e George Orwell a Dostoiévski e Tolstói.
Além da literatura, a música também o acompanha – para cada fase de produção, há um som diferente: durante a elaboração da escrita, silêncio total (“Preciso estar lá de corpo e alma”); depois, ao fazer os esboços, música instrumental (“O som está lá, mas não tira a minha atenção”); e, por último, ao preencher e finalizar os desenhos, jazz, blues, country e krautrock (rock alemão experimental do final dos anos 1960).
Num ritmo de uma página a cada dois dias e meio, tendo cada dia entre oito e 12 horas de trabalho – cumpridas após tomar café da manhã com a namorada e passear com o cachorro –, chega a levar até sete anos para finalizar um livro.
“Com o desenho, posso calcular o tempo. Mas, com o roteiro, nunca sei. Uma frase pode levar dois minutos ou duas semanas”, diz.

Novos meios
Meticuloso com sua escrita, Sacco diz ser uma ilusão acreditar que os quadrinhos sejam mais fáceis de ler do que outras plataformas.
“São atraentes por causa das imagens, pois somos criaturas visuais. Mas você pode colocar informações tão complexas em uma HQ quanto em um livro ou documentário, e é por isso que é algo subversivo: as pessoas acham que é simples de ler”, diz.
Apesar disso, acredita que a percepção sobre as HQs vem melhorando e ressalta que, nos Estados Unidos, os quadrinhos são hoje o único gênero em ascensão no mercado editorial.
“Quem ocupa atualmente os cargos mais altos nas editoras tem a mente mais aberta do que as pessoas de antigamente. Acho que Maus (Companhia das Letras), de Art Spiegelman, teve um grande impacto nesse sentido, pois mostrava um assunto extremamente sério em forma de quadrinhos”.
Na obra de Spiegelman, de quem é amigo e admirador, nazistas e judeus são retratados como gatos e ratos, respectivamente.
A maior influência em seu trabalho, contudo, vem do ilustrador Robert Crumb, que publicou desenhos em revistas como a New Yorker e fundou o Zap Comix, um dos mais conhecidos gibis underground – ele emergiu como parte da contracultura dos anos 1960 e acabou em 2005.
“Tudo o que [Crumb] desenha tem vida própria, tem alma. Você sente que aquilo está vivo de algum modo, e isso é realmente inspirador”, diz Sacco.
Em relação à internet, é cético. “Ela não pode produzir um objeto de arte, com uma capa legal, papel bonito. Acho que o homem quer algo palpável, tátil. Por mais que a web seja ótima, você está sentado em frente a um computador o dia todo. O seu entretenimento também vai ser numa tela?”, questiona.

Pós-tudo
“Quanto mais velho fico, mais quero me afastar do trabalho quando o termino”, confessa, apesar de não conseguir fazê-lo.
“Ao finalizar um livro, seguem-se cerca de três meses de pós-produção, em que tenho de lidar com o editor, falar sobre coisas como o tipo de papel e, depois, promover o livro. Você quer esquecer dele, mas ele te persegue”, diz.
Persistente em temas humanitários, Sacco tratará em sua próxima HQ de lugares pobres e abandonados da América do Norte, como a Virgínia Ocidental, onde, conta, montanhas são derrubadas para a extração de carvão.
Mas depois pretende seguir em nova direção. “Quero fazer algo light, que seja também sombrio, que seja também profundo, mas que também seja leve. Algo que nunca fiz”.
Indagado se há algum tema no Brasil que desperte seu interesse, dá uma ideia sobre o que pode ser o novo trabalho:
“Estou interessado em tribos isoladas e vida primitiva. De qualquer modo, isso é parte de um projeto maior que é ainda apenas um pensamento”, adianta, em tom misterioso.