quinta-feira, 31 de março de 2011

Inimigos da Internet


Por Yuliya Melnyk, da Rede de Jornalistas Internacionais (IJNET)


Ao mesmo tempo que governos, incluindo o Egito e Camarões, destacam-se por fechar o acesso à Internet, o grupo Repórteres Sem Fronteiras divulgou um novo relatório expondo outros países onde o acesso online também está em risco.

O relatório foi divulgado no Dia Mundial Contra a Ciber-Censura. O Repórteres Sem Fronteiras criou uma lista atualizada dos governos, desde a Austrália ao Uzbequistão, que estão restringindo ou censurando a Internet.

A lista atualizada de "Inimigos da Internet" inclui: Burma, China, Cuba, Irã, Coreia do Norte, Arábia Saudita, Síria, Turcomenistão, Uzbequistão e Vietnã. Burma, por exemplo, entrou na lista depois que o governo tomou medidas drásticas em 2010, para reorganizar a Internet do país e se armar de meios para cortar o acesso de sua população na Internet, sem afetar as conexões oficiais.

Uma lista de "Países sob Vigilância" inclui Austrália, Bahrein, Belarus, Egito, Eritreia, França, Líbia, Malásia, Rússia, Coreia do Sul, Sri Lanka, Tailândia, Tunísia, Turquia, Emirados Árabes Unidos e Venezuela. A Austrália está na lista porque o governo não abandonou seu plano perigoso de filtrar o tráfego online, mesmo que isso seja difícil de acontecer sem a aprovação parlamentar.

"Um em cada três usuários da Internet no mundo não têm acesso a uma Internet sem restrições", disse o secretário-geral do Repórteres Sem Fronteiras, Jean-François Julliard. "Cerca de 60 países censuram a internet, em diferentes graus e intimidam os internautas. Pelo menos 119 pessoas estão atualmente na prisão apenas por usar a Internet para expressar suas opiniões livremente. Estes números são preocupantes".

O potencial da Internet em divulgar informações assusta os governos e torna menos eficaz a censura tradicional. Em muitos países, as autoridades estão tentando usar a Internet para fazer propaganda oficial e aumentar o controle sobre os cidadãos.

Por exemplo, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, anunciou na televisão que "a Internet não pode ser algo aberto, onde tudo pode ser feito e dito. Não, cada país tem que impor as suas regras e regulamentos".

quarta-feira, 30 de março de 2011

Entrevista com Braulio Tavares, que publicou a "Nuvem de Hoje" pela EDUEPB

Por Juliana Marques, da ASCOM/UEPB

Ocorreu na tarde de ontem (29) o lançamento do livro "A Nuvem de Hoje" do escritor campinense Braulio Tavares. A obra foi publicada pela Editora da Universidade Estadual da Paraíba (EDUEPB), através do Selo Latus. Confira na íntegra a entrevista realizada com o autor, na ocasião:


UEPB - Como surgiu a ideia desse projeto do livro "A Nuvem de Hoje" e a publicação pela Editora da Universidade Estadual? 

Braulio Tavares - Na verdade eu tenho uma relação antiga com a UEPB desde o tempo da Universidade Regional do Nordeste. Fui funcionário da URNe, entre 1967 e 1969. Meu pai foi chefe de gabinete de vários reitores da URNE, então tenho uma relação afetiva com essa instituição. Também já passei muitos anos da minha vida mexendo com cinema aqui nesse museu de arte, nessa sala aqui eu já projetei muitos filmes no tempo que a gente tinha cineclube, no tempo que o diretor do museu era José Umbelino Brasil, grande amigo meu, antes dele Chico Pereira, outro grande amigo meu. Então a minha relação com a UEPB é antiga e quando recebi uma proposta do diretor da EDUEPB, Cidoval, pra fazer uma coletânea das minhas crônicas, fiquei muito satisfeito porque pensei: “vai sair não por uma editora do Rio ou São Paulo, mas sim por uma editora de Campina Grande, não só de Campina, mas da UEPB”. Meu objetivo foi justamente fazer um livro que fosse destinado aos estudantes universitários, campinenses, paraibanos e ao público em geral.

O que o leitor vai encontrar nesta obra?

Eu fiz uma mistura de crônicas onde tentei colocar metade  voltada à cultura nordestina, paraibana e campinense, falando de cordel, de forró, de cantadores, histórias antigas, personagens folclóricos de Campina Grande, o futebol de Campina, mas ao mesmo tempo tratando de cinema em geral, ficção científica, viagens espaciais, ciências contemporâneas, todos assuntos que me interessam, então acho que tá uma mistura interessante com um pouco de tudo para todos.

Você é uma pessoa conhecida por desenvolver vários trabalhos como escritor, compositor, teatrólogo, roteirista, mas qual destas vertentes lhe dá mais satisfação, em qual área você prefere atuar?

Gosto mais de escrever e falar, também gosto de cantar, mas cantar dá mais trabalho. Na verdade eu me considero escritor, escrevo artigos, roteiros, peças, romances, letras de música, assim por diante, então diria que a minha atividade principal, a que me dá mais prazer é escrever. Eu gostaria de ganhar dinheiro só escrevendo que é o que me dá mais prazer.

Seu primeiro livro foi “A pedra do meio-dia, ou Artur e Isadora”, uma obra em cordel. Qual a sua relação com esse tipo de literatura?

Pesquisei muito cordel no tempo em que morava aqui em Campina, meados da década de 70. Estudava Ciências Sociais na UFPB, em Bodocongó, e convivia muito com os cantadores e cordelistas daqui, eu conheci grandes cordelistas, então pela convivência com esse pessoal resolvi escrever meu primeiro folheto, “A pedra do meio-dia, ou Artur e Isadora”. Esse folheto foi publicado em 1975 e meu objetivo era que quem lesse sem conhecer o meu nome, sem conhecer o autor, pensasse que era um cordelista tradicional, das antigas, quando na verdade eu era um estudante universitário, cabeludo, meio hippie de aparência, roqueiro e tudo mais, mas que também gostava de cordel. Então esse livro foi publicado aqui em forma de folheto, e em 1998 ele foi republicado em São Paulo pela Editora 34, e curiosamente ele é o meu livro mais vendido até hoje, dos mais de vinte livros que publiquei. Esse cordel já passou de 30 mil exemplares vendidos, com ele já ganhei um prêmio de melhor livro do ano da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), já fiz palestras, viajei, falei pra milhões de crianças principalmente em São Paulo, falando sobre esse cordel. É uma coisa interessante porque não escrevi com a intenção de que fosse um livro infantil, eu tava escrevendo um folheto de cordel, que não é propriamente literatura infantil, só que mais de vinte anos depois, acabou tendo sucesso com esse público. Na esteira dele eu fiz outros, “O Flautista Misterioso e os Ratos de Hamelin”, depois fiz um outro livro infantil que não é cordel, mas é uma coisa que eu sempre achei interessante, porque o que é literatura de cordel pra todas as idades no Nordeste, lá em São Paulo acabou tendo sucesso  como literatura infantil.

Como é que você analisa o cenário atual da literatura nordestina e paraibana?

Eu acho que a literatura nordestina, mais especificamente a paraibana, está num momento bom, talvez porque literatura é uma das formas de arte que você faz a custo zero. Com caneta e papel você escreve um conto, um romance, o custo é mínimo se você for comparar ao custo de montar um show completo de música,  o custo de fazer um filme, montar uma peça de teatro com vários atores, trilha sonora, iluminação. O custo da literatura é pequeno e por isso essa talvez seja uma das formas de expressão mais espontâneas que existem, porque qualquer sujeito com um pedaço de carvão e um muro branco escreve poema e se ele não tiver nada disso ele  faz o poema na cabeça, decora, e fica recitando aquele poema por anos e poema existe desde que ele possa recitar. Então eu sempre acho que o melhor termômetro de uma comunidade de uma juventude é a literatura e eu acredito que o momento atual tem sido positivo para a literatura nordestina.

Qual o seu principal desejo daqui pra frente?

Continuar escrevendo até cair o elevador!!!

terça-feira, 29 de março de 2011

Eles são gente como a gente, mas pendem para o século XIX


Por Bruno Moreschi, da Revista Piauí

O grupo de dezoito pessoas achava muito pertinente que o primeiro encontro oficial de steampunks brasileiros tivesse se realizado no Memorial do Imigrante, em São Paulo. De fato, estava-se à vontade naquele prédio antigo, entre milhares de documentos sobre a imigração para o Brasil no século XIX. O problema era o calor daquele sábado. Vestidos com dois ternos, perneiras, chapéus e gravatas apertadas, os homens suavam. As mulheres, com até três saias e os devidos espartilhos, pareciam a ponto de desmaiar como moças de antigamente. Todavia, apesar do bafo, a conclusão era uma só: o sarau estava supimpa, daqui, ó.

O primeiro foi em 2008. De lá para cá, houve outras quinze reuniões no Memorial. Nem todo mundo gosta: “Não temos nada contra eles”, diz o segurança José Guimarães, “mas que eles são estranhos, são. O dia de entrada gratuita mudou de sábado para domingo, mas não adiantou. Eles passaram a vir no domingo.”

O termo steampunk surgiu na década de 1980, quando os escritores americanos Bruce Sterling e William Gibson lançaram livros de ficção científica ambientados no século XIX. Durante uma entrevista, quando lhe perguntaram se havia criado um novo subgênero literário, Sterling concordou e, de brincadeira, juntou as palavras steam (“vapor”) e punk (referência, no caso, ao cyberpunk, uma vertente nostálgica da ficção científica) – era assim que definia sua escrita.

A coisa pegou rápido nos Estados Unidos e na Europa. Já no Brasil, a estética steampunk só chegou em 2007, quando o carioca Bruno Accioly, de 39 anos, criou o steampunk.com.br, o primeiro site em português sobre o tema. Bruno é categórico: “Steampunk é, acima de tudo, literatura.” Os integrantes do grupo costumam citar de memória textos de H. G. Wells, Júlio Verne, Edgar Allan Poe, Bram Stoker e Mary Shelley. “A Mary”–  assim mesmo, íntimo – “renovou o terror e a ficção científica. Ela criou um monstro com a ajuda da energia elétrica! Não é maravilhoso?” Para Bruno,  Frankenstein é tudo.

Antes que o questionem, tolamente, sobre o motivo de os steampunks usarem celulares, computadores e outras maravilhas dos séculos XX e XXI, Bruno explica: “Não achamos que vivemos no século XIX. Somos pessoas de hoje fascinadas por um tempo que já passou.” Alguns steampunks resolvem de maneira criativa a suposta contradição. Por exemplo: customizam o teclado do computador para ter a impressão de que usam uma velha máquina de escrever.

Comparecer aos encontros vestido a caráter é prática sempre bem-vinda, mas não obrigatória. No entanto, se a pessoa decide se fantasiar, precisa usar a criatividade. Bruno explica: “Ninguém aparece de Darth Vader, um produto já inventado. Cada um é estimulado a criar seu próprio personagem, com suas características particulares.”

Jéssica Soares, de 24 anos, é um bom exemplo. Ela é Lady Jesse, mulher corajosa que luta contra a opressão masculina no século XIX. Seu figurino se compõe de uma saia preta longa, coturno, camisa branca e espartilho bem apertado. Para não enjoar da personagem, Jéssica às vezes aparece como Alice, a do País das Maravilhas.

Em contato telefônico, Lady Jesse explicou o lado bom de ser uma steampunk mulher: “O senhor há de concordar comigo”, diz ela, a um repórter de 28 anos, “pelo menos publicamente, os senhores do século XIX eram muito mais educados com as senhoras e as senhoritas.” A Jéssica do século XXI toma a palavra: “É tão mais legal um homem beijar a minha mão, dar passagem e me convidar para um chá das cinco...” No dia a dia, Jéssica e seu povo não adotam a moda do século retrasado, mas normalmente, quando vão às reuniões, saem de casa já caracterizados e, de preferência, usam transporte público, para chamar mais atenção. Não raro, os rapazes ouvem um comentário simpático: “Que lindo! Meu pai/avô/antepassado se vestia assim!”

Em São Caetano do Sul, no ABC paulista, mora um dos mais ativos steampunks do Brasil. Hoje com 24 anos, Cândido Ruiz era um moleque de 8 anos quando leu O Homem de Areia, um conto de 1815 do alemão E. T. A. Hoffmann. É a história de um rapaz, Nathanael, que encontra o suposto assassino do pai. Nascia ali uma paixão pelo século XIX. Quando se deparou com o site criado por Bruno, Cândido viu que outras pessoas também flertavam com o passado. Não teve dúvida: mandou um e-mail para Bruno e, dali a pouco, estavam bolando um plano de expansão do steampunk no Brasil.

A ideia era criar um conselho amplamente democrático, do qual qualquer um poderia participar sem maiores enrolações formais. Em pouco tempo, o movimento já contava com membros por todo o Brasil. Veio então uma segunda ideia: criar lojas regionais. Não, não se tratava de barraquinhas para vender relógios de bolso ou polainas. Como na maçonaria, lojas seriam os locais de encontro.

Atualmente existem lojas em doze estados, todas com site próprio. Cada uma tem sua especialidade. São Paulo, a mais ativa, revela talentos literários e conta com membros que produzem vestuário do século XIX à perfeição. Rio de Janeiro cuida mais de conteúdo para a internet. Minas anda parada, mas é famosa pela produção de ilustrações segundo os cânones da estética steampunk. Rio Grande do Sul é bamba na confecção de joias com cara de priscas eras.

Cândido Ruiz adora quando lhe perguntam se, no Brasil, não é meio fraquinho o catálogo de grandes vultos históricos ao gosto steampunk: “Engano! Os brasileiros têm, sim, ídolos steampunks nacionais!” Ele recita: Santos Dumont, Barão de Mauá, José do Patrocínio, o fictício Brás Cubas... Um nome, porém, merece dele uma explicação emocionada. Vocalizando os sentimentos da maioria, afirma: “Dom Pedro II – esse era um legítimo steampunk. Foi um homem incrível, que incentivou a cultura e as inovações tecnológicas no Brasil.”

Quem precisa de Napoleão? Quem precisa de rainha Vitória? Quem precisa de vultos estranhos aos nossos costumes, à nossa história, à nossa índole? Já insinuava Pero Vaz de Caminha: nesta terra, em se plantando, dá. Eles estão entre nós, e crescendo. Já passam de 200 os steampunks nacionais.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Morre José Comblin, da Teologia da Libertação

Do Estadão

Morreu no último domingo (28), em Salvador, o padre belga José Comblin, 88 anos, um dos mais importantes e polêmicos teóricos da Teologia da Libertação, e autor de vários livros, entre os quais A Teologia da Enxada, sobre a vivência cristã e teológica nas comunidades rurais.

Padre Comblin estava em tratamento médico na capital baiana. Foi encontrado morto, sentado, em seu quarto, quando era esperado para a oração da manhã e não apareceu na capela. Ele tinha problemas cardíacos e usava marcapasso. Apesar da doença, parecia bem disposto e estava trabalhando.

Nascido em Bruxelas, em 22 de março de 1923, padre Comblin veio para o Brasil em 1958, atendendo a apelo do papa Pio XII, que no documento Fidei donum (O Dom da Fé) pedia missionários voluntários para regiões com falta de sacerdotes.

Depois de trabalhar em Campinas e, em seguida, passar uma temporada no Chile, foi para Pernambuco, em 1964, quando d. Helder Câmara foi nomeado arcebispo de Olinda e Recife. Perseguido pelo regime militar, foi detido e deportado, em 1972, ao desembarcar no aeroporto de volta de uma viagem à Europa.

José Comblin: Perfil biográfico
José Comblin era o mais velho de 3 irmãos e 2 irmãs. Seus pais Alice e Firmino criaram os 5 filhos com os tradicionais valores da religião, da austeridade da época e valorizando sempre o trabalho.

Frequentou o curso primário na escola paroquial e fez o curso secundário no Colégio São Pedro. Em 1940, entrou no Seminário Leão XIII, em Lovaina (Bélgica). Fez estudos de Ciências Biológicas e Filosofia de 1940 a 1942. Ingressou no Seminário São José em Malinas (Bélgica), em 1943 e fez o 1º ano de Teologia. Em 1944, entrou no Seminário Maior de Malinas e cursou o 2° e o 3° ano de Teologia.

De 1946 a 1950, cursou a Faculdade de Teologia em Lovaina, tornando-se Doutor na área. Sua ordenação sacerdotal se deu em 9 de fevereiro de 1947, em Malinas. Como sacerdote, exerceu a função de vigário cooperador na paróquia Sagrado Coração de Jesus, em Bruxelas, de 1950 a 1958. Além disso, foi professor de teologia no CIBI (Centro de Formação para Seminaristas em Serviço Militar), Bélgica, durante o ano de 1951.

Impulsionado pelos apelos missionários para países da África e da América Latina, solicitou ao seu cardeal, ser enviado para a América Latina. Atendendo à solicitação do Bispo de Campinas que desejava sacerdotes doutores para contribuir na formação de seu clero, foi enviado para o Brasil, onde chegou em 30 de junho de 1958. De 1958 a 1962, em Campinas (SP), foi professor no seminário diocesano e na Universidade Católica de Campinas. Além disso, foi convidado para ser assistente diocesano da JOC (Juventude Operária Católica). Em 1959 foi professor no Studium Theologicum dos Dominicanos em São Paulo.

Novos apelos levaram o padre José Comblin ao Chile. De 1962 a 1965 foi professor na Faculdade de Teologia da Universidade Católica de Santiago (Chile). Também o Brasil vivia sob a ditadura militar, mas no Nordeste florescia uma Igreja comprometida com o mundo dos pobres e Comblin ouviu o chamado de  Dom Hélder Câmara e foi estabelecer-se em Pernambuco.

De 1965 a 1968 foi professor no Seminário regional do Nordeste em Camaragibe e professor no Instituto de Teologia do Recife. No início dos anos 70 passou a orientar uma experiência de formação de seminaristas que buscavam um estudo mais comprometido com a realidade e adequado ao exercício do ministério no mundo rural. José Comblin criou, então, um modo de estudo que depois ficou conhecido como Teologia da Enxada.

Ao mesmo tempo foi convidado a dar aulas no Equador e assim, de 1968 a 1972, foi professor de Teologia no IPLA (Quito, Equador). Passou a dar assessoria a diocese de Riobamba, cujo bispo, Dom Leônidas Proaño foi um símbolo do compromisso com a causa indígena no Equador. Até 1985 passava duas quinzenas por ano em Riobamba e continuou frequentando a diocese até a morte de Dom Leônidas Proaño, em 1988.

Passou, ainda, a lecionar Teologia Pastoral na Faculdade de Teologia da Universidade Católica de Lovaina (depois, Louvain-la –Neuve), cargo que exerceu de 1971 a 1988. José Comblin estava fortemente inserido na Igreja de Dom Hélder que marcava o cenário nordestino e nacional pelo seu compromisso com as causas populares. Dava assessoria a Dom Hélder na elaboração de posicionamentos, documentos e intervenções. A Igreja de Recife e Olinda era uma grande esperança para os pobres. Considerado subversivo e ameaçador ao sistema, José Comblin foi expulso do Brasil em 24 de março de 1972.

Decidiu, então, retornar ao Chile, onde já tinha atuado por 4 anos e contava com um círculo de amigos. Assim, estabeleceu-se em Talca onde residiu de 1972 a 1980. No entanto, pouco tempo depois, em 1973, ocorreu o golpe militar no Chile com a deposição e o assassinato de Allende. Diante disso, deixou o ensino para evitar chamar a atenção. Dava suas contribuições intelectuais inclusive ao Vicariato da Solidariedad de Santiago, única instituição que enfrentou o ditador Pinochet na questão das torturas e dos desaparecimentos durante o regime militar.

Para o Vicariato da Solidariedad, José Comblin escreveu o seu estudo sobre a Ideologia da Segurança Nacional, a doutrina dos ditadores militares da América Latina. Durante o tempo que permaneceu no Chile, suas contribuições foram muitas.

A Fundação do Seminário Rural, em 1979, em Alto de Las Cruces, Talca, uma experiência de formação ao sacerdócio de jovens do meio rural respeitando a sua cultura camponesa, foi uma delas. Outra colaboração foi o curso de formação para professores de religião: fundamentos bíblicos e teológicos para uma clientela de professores e lideranças populares. Em 1980, ocorreu a sua expulsão do Chile. Conseguiu retornar ao Brasil, com visto de turista que exigia renovação a cada 3 meses, o que o obrigava a sair do país a cada 3 meses durante 6 anos, para renovar o visto. Finalmente, em 1986 foi anistiado e recebeu novamente o visto permanente.

Com o grupo da Teologia da Enxada e o apoio do Arcebispo Dom José Maria Pires, de João Pessoa, fundou, em 1981 no Avarzeado, PB, o Seminário Rural. Posteriormente denominado Centro de Formação Missionária, a experiência estabeleceu-se em Serra Redonda. Teve o objetivo de formar sacerdotes e missionários populares para a evangelização da população rural, com uma metodologia adequada e levando em consideração e cultura camponesa.

A partir de então, passou a dedicar-se prioritariamente à formação de lideranças populares. Em 1981 foi professor no Seminário Rural do Avarzeado (Pilões, PB), depois em Serra Redonda (PB), depois Centro de Formação Missionária. Em 1987 participou da fundação das Missionárias do Meio Popular, com o mesmo objetivo. Neste ano surgiu também o Programa da Árvore – formação de Animadores de CEBs na Arquidiocese da Paraíba com sua orientação.

Em 1989 fundou o Instituto de Formação Pastoral de Juazeiro (PB) com núcleos em Mogeiro (PB) e em Miracema (Tocantins).

sexta-feira, 25 de março de 2011

Para Capes, países ricos querem transformar educação em negócio

Por Dayanne Sousa, do Portal Terra

Cansado dos rankings que colocam universidades brasileiras atrás de centros de pesquisa da China e da Índia, o presidente da Capes, Jorge Almeida Guimarães, ataca: "Há um esforço internacional de transformar a educação em comércio". Para ele, universidades de países desenvolvidos querem vender a ideia de que o melhor é exportarmos alunos. "Estão querendo que a gente mande estudantes pra lá a custos exorbitantes".

A Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) é o órgão responsável por gerir a pós-graduação no Brasil. No último ranking internacional divulgado pela organização inglesa Times Higher Education, o País ficou de fora das 200 primeiras posições. A instituição brasileira melhor colocada foi a Universidade de São Paulo (USP), no 232ª lugar e atrás de centros de pesquisa dos países BRIC - o bloco de economias emergentes integrado por Brasil, Rússia, Índia e China.

Guimarães é duro ao reconhecer que o Brasil não se encaixa em padrões internacionais.
- Esses grupos que ganham Prêmio Nobel tem 30, 40 pessoas com PhD trabalhando num único grupo. Nós não temos isso. Não vamos ter tão cedo.

Para o presidente da Capes, as universidades brasileiras só alcançarão excelência em pesquisa quando se tornarem mais inclusivas. Para isso, ele diz que a educação básica deve melhorar primeiro. "Se não tiver muito futebol de várzea, não vamos ter os Pelés", compara.

Leia a entrevista

Num ranking das cem melhores universidades do mundo, feita pela inglesa THE, nenhuma universidade brasileira apareceu, embora instituições de outros países BRIC tenham sido listadas. O senhor acredita que isso seja um sinal importante?
Jorge Almeida Guimarães - Eu acho que não. Há um esforço internacional de transformar a educação em comércio. A Europa perdeu jovens e os países ricos passaram a ver a educação como um negócio. É por isso que aparecem esses rankings. Eles estão querendo que a gente mande estudantes pra lá a custos exorbitantes. Quando a USP, nossa universidade mais antiga, foi criada, Harvard já tinha 300 anos. Como você quer que em cinquenta anos nos igualemos? Esses rankings são estranhos.

O senhor acha que faltam critérios para avaliar as nossas universidades?
Quantas universidades no mundo são melhores (em agronomia) do que Viçosa, Lavras, ESALQ (Escola Superior de Agricultura Luis de Queiroz)? Isso não aparece porque isso não interessa pra eles. A quantidade de prêmios Nobel é um critério. Está cheio de país cheio de Prêmio Nobel e o país está quebrado. Nós perdemos várias chances de ganhar Prêmio Nobel: Carlos Chagas, Cesar Lattes... Na literatura, então, deus me livre! Então, esses indicadores que eles usam são intencionalmente escolhidos.

Trata-se de um aspecto cultural? Por exemplo, estudos mais voltados à realidade brasileira - como sobre doenças tropicais - não são tão valorizados?
 É verdade. Um artigo do professor Flávio Grynszpan compara a nossa universidade com a de outros países do BRIC e conclui que estamos muitíssimo bem. Temos muito o que melhorar, mas nós temos quinze vezes menos doutores per capta do que a Suiça, por exemplo. Não é uma desculpa, mas é o fato de que nós temos caminhos a percorrer e não será por meio desse modelo europeu.

Este mês, a reitora de Harvard esteve no Brasil buscando alunos e professores para levar aos Estados Unidos...

Exatamente. Que país pode servir de modelo para a nossa educação? Só nós mesmos. Temos que tirar leite das pedras. Temos que melhorar a educação básica e consequentemente vamos melhorar as universidades num próximo passo. Mandar centenas de jovens para a Inglaterra, isso nós já fizemos no passado. Geramos uma elite que não está desenvolvendo o país. Houve um político que falou em colocarmos as universidades brasileiras entre as 20 maiores. Sinto muito, isso vai demorar.

O senhor falou em Prêmio Nobel, não temos pesquisas inovadoras o suficiente para receber prêmio?
Nós não fazemos ciência para Prêmio Nobel. Essa é a grande diferença. Nós estamos formando gente, estamos capacitando. Esses grupos que ganham Prêmio Nobel tem 30, 40 pessoas com PhD trabalhando num único grupo. Nós não temos isso. Não vamos ter tão cedo, falta gente para muitas áreas de estudo.

A USP chegou a reportar que aumentou o número de pessoas aprovadas no vestibular que desistiam da Universidade na primeira chamada. Como o senhor vê isso? Existe uma contraposição entre a universidade ser de elite e disputada e ser mais inclusiva? Ela perde renome?

Ciência e educação é que nem futebol. Se não tiver massa, não dá. Se não tiver muito futebol de várzea, não vamos ter os Pelés. Precisamos aumentar muito o número de pessoas nas universidades. Enquanto não atingirmos isso, não temos a expectativa de tirar dessa massa os melhores cérebros. A pós-graduação se beneficiou disso, o Brasil está entre os países em que a pós mais cresceu. Mas isso foi feito à custa de um sacrifício social muito pesado. Muitos Pelés da educação e da ciência ficaram sem ter chances na vida. Se corrigirmos os furos na educação básica, certamente vamos chegar a posições de destaque.

Mas fazer pesquisa para Nobel se opõe a investir em inclusão?
Não, de forma alguma. Tem que investir. Vai chegar uma hora em que teremos uma massa de doutores e poderemos formar grupos de trinta pessoas.

quinta-feira, 24 de março de 2011

O mundo de Ota: O lendário editor da Revista Mad

Soterrado - Colecionador obsessivo, Ota vive em casa cheia de gibis

Por Ivan Finotti, da Folhapress
Crédito da foto: Luciana Whitaker
   

Ota anda bem preocupado esses dias. Sua reputação de maluco, nojento e grosseirão que não toma banho, duramente construída após 30 anos à frente da edição brasileira da revista de humor "Mad", está em jogo. Tem gente achando que ele está virando bonzinho.
É que, recentemente, o velho e bom Ota, 56, deu para abandonar as melecas, as piadas infames e o politicamente incorreto para se dedicar a um singelo joguinho para crianças. Pior: trata-se de uma brincadeira on-line que quer ensinar história do Brasil de um jeito divertido às crianças a partir dos 5 anos.
Fãs se revoltam no Facebook (onde tem 638 amigos) e no Twitter (possui 4.714 seguidores). Na manhã de anteontem, um deles deu para xingar o Ota de "velho carola, beato e certinho".
Ota respondeu à altura: "Vai tomar no c*, seu filho da p&%$", para logo depois emendar que era uma brincadeira e explicar suas razões.
"Estou gostando desse negócio de trabalhar com crianças. Mas é uma fase. Depois eu volto a ser o velho Ota."
O velho Ota, quem já foi um adolescente conhece. Ele foi o responsável pela edição da revista "Mad" desde o seu primeiro número, em 1974, pela editora Vecchi.
Foi o responsável pela "Mad" quando ela trocou de casa para ser lançada pela Record, em 1984. Foi o responsável quando ela veio para São Paulo, pelas mãos da editora Mythos, em 2000. E também quando passou a ser lançada pela Panini, em 2008 (ainda em circulação).
Foi, enfim, o responsável por incutir na cabeça de milhões de adolescentes brasileiros -em seu auge, em meados dos anos 1970, a revista vendia quase 200 mil exemplares mensais- sátiras de diversos aspectos da vida, do entretenimento, da política, das celebridades e da cultura popular em geral.
Orgulhoso, Ota considera que, nesses 30 anos à frente de "Mad", ele ensinou "as pessoas a pensar". Mas, demitido da revista pela quarta vez (todas as editoras acima o demitiram; a última foi há dois anos), precisou correr atrás de outras coisas. Aí surgiu a ideia de fazer o tal do joguinho infantil.
É por isso que Ota anda preocupado. E resume: "Hay que enternecer, pero sin perder la grossura jamás".

Editor da "Mad" guarda desde gibis que fez aos seis anos de idade até páginas de quadrinhos de diversos jornais

No ano passado, Otacílio d'Assunção foi procurado para ser objeto de um documentário. "Ota, The Movie", em pré-produção, vai contar histórias engraçadas de sua vida, como o dia em que colocou fogo no próprio pé na redação do "Jornal do Brasil", ou quando, demitido da editora Vecchi, passou a vender camisetas no Rio com a inscrição "desempregado".
Mas a chegada do documentário desencadeou uma espécie de processo de revisão dos arquivos de Ota. Agora ele quer encontrar tudo: seus primeiros gibis, feitos aos seis anos, a revista que lançou em 1993, os santinhos da campanha em que se lançou para vereador em 1988 (com o lema "menos cocô nas praias") e muitas outras coisas que só ele lembra.
O problema é que ele vive no meio de um arquivo, em constante risco de despencar sobre sua cabeça. Ota é um colecionador compulsivo e seu apertado apartamento na zona central do Rio é um infindável corredor com jornais, revistas, caixas e uma papelada amarelada que mais parece um lote de pergaminhos alexandrinos.
Ota tem em sua sala, por exemplo, todas as cartas que leitores da "Mad" enviaram para a editora Record entre 1984 e 2000. "Não sei se tenho as da época da Vecchi, nos anos 1970", comenta.
Ota tem, em seu quarto do meio, coleções da "Mad" brasileira, americana, australiana etc, etc, etc. Sem falar nos quadrinhos de terror, de caubói, de super-heróis, de ficção científica, de aventuras na selva. "Vendi recentemente parte das réplicas, quero dizer, as que eu possuía duas ou três edições idênticas", esclarece.
No escritório, Ota tem cem CDs com fotos de mulheres peladas (não pornôs) que baixa todas as manhãs da internet e organiza em pastas. "Acho bonito", diz.

VHS

No quarto de dormir, há apenas um colchão no chão. E prateleiras com 800 fitas VHS, apesar de não ter um videocassete que possa reproduzi-las. "Quando o Cartoon Network apareceu, comprava uma caixa de fitas por semana para gravar todos os desenhos da Hanna Barbera", esclarece.
A obsessão de Ota é assim: "Hoje, é fácil baixar os desenhos pela rede ou comprar DVDs com temporadas inteiras dos Flintstones ou Pepe Legal. Mas, talvez, nessas fitas, eu tenha uma dublagem diferente e que não está mais disponível." Por isso, o editor aguarda o dia em que tiver dinheiro suficiente para digitalizar seu inestimável acervo.
Por enquanto, ele não dirige, não pinta o cabelo -apesar de muitos acharam que sim-, inveja o iPad que sua mãe de 84 anos comprou e ainda se considera um adolescente: foi casado por três anos, dividiu casa com mais duas mulheres, namorou dezenas de outras. O problema, sempre, é o colete -é que Ota faz questão de andar por aí com um colete de fotógrafo.
Anteontem, carregava em seus seis bolsos: uma caneta hidrográfica preta para desenhar, um fanzine que ganhou de presente, um isqueiro, um guardanapo de papel, um maço de Marlboro, um recibo de banco, um bloco para desenhar, uma reportagem sobre Carlos Zéfiro recortada d'"O Globo", um celular e sete outros papéis indefinidos.
"Disso, elas reclamam. E quando tenho que escolher entre elas ou o colete, fico com o colete. Sei que é difícil conviver comigo", admite.
Nesse momento de reflexão sincera, ele concede: "Se eu voltasse no tempo, acho que seria menos obsessivo. Ainda colecionaria, mas não precisaria ser coleções completas, né?" 

RAIO-X
OTACÍLIO D'ASSUNÇÃO


VIDA
Nasceu no Rio de Janeiro, em 1954, é formado em jornalismo pela UFRJ

REVISTAS
Editou a revista "Mad" entre 1974 e 1981 (editora Vecchi), 1984 e 2000, (Record), 2000 e 2006 (Mythos) e 2008 (Panini). Foi editor de outros gibis, como "Spektro", "Ken Parker" e "Love and Rockets"

LIVROS
Escreveu "O Quadrinho Erótico de Carlos Zéfiro" (1984) e lançou no ano passado "O Relatório Ota do Sexo"

quarta-feira, 23 de março de 2011

O dia em que Tolstói questionou Shakespeare

 Exagero - Para Tolstói as obras de Shakespeare não correspondem às exigências da obra de arte e ao mito formado acerca do autor

Por Luís Antonio Giron, da Revista Época

Inicio pela conclusão: hoje tornou-se quase impossível desgostar dos dramas e comédias do escritor inglês William Shakespeare (1564-1616). Ninguém teria autoridade estética ou moral para refutar a obra do Bardo, de Romeu e Julieta ao Rei Lear, de A Tempestade a Hamlet e Macbeth. Quem o fizesse cairia na execração pública e perderia suas credenciais acadêmicas, caso as tivesse.
O romancista russo Liev Tolstói (1828-1910) teve coragem (ou, para algum, a audácia) de contestar a arte de Shakespeare, quebrando uma unanimidade de pelo menos um século. Tolstói cometeu a “heresia” no texto “Sobre Shakespeare e o teatro (um ensaio crítico”, publicado em 1906 — e agora relançado no Brasil em tradução feita diretamente do russo por Anastassia Bytsenko, dentro do volume Os Últimos Dias de Tolstói, organizado pelo escritor americano Jay Parini, publicado recentemente.

O material de Parini serviu como base para o romance A Última Estação, de 1990, agora adaptado para o cinema, sobre o período final do escritor e conde russo, quando ele rompeu com sua vida de excessos, abandonou suas propriedades e se tornou um beato fundador de uma espécie de nova ortodoxia cristã. Tomado por uma febre de devoção, Tolstói negou também seu passado como ficcionista e dramaturgo. Foi assim que se valeu do exemplo de Shakespeare, em cuja obra se baseou na juventude para escrever seus próprios dramas.

Feitas essas ressalvas, o estudo de Tolstói sobre Shakespeare é um exemplo de demonstração lógica e de força de pensamento em benefício da crítica. Mesmo que o leitor não consiga crer em suas afirmações, ele pode contrair um vírus de desconfiança. Em outras palavras, Shakespeare jamais terá sido o mesmo ao leitor depois que ele compreender as razões de seu detrator russo. A consequência da leitura desse texto de Tolstói é, no mínimo, a desautomatização de alguns hábitos e certezas.

A partir de suas considerações, nos damos conta de que muitas vezes somos condicionados por ideias e valores adquiridos por força da opinião de supostas autoridades. A tendência é curvar-se diante de grandes nomes que impõe a submissão a outros nomes ainda maiores. O passado pesa nas nossas costas, sobretudo no que diz respeito às aquisições artísticas e culturais.

A atitude reverencial diante de Shakespeare atingiu o uníssono perfeito em um processo que se prolonga há mais de dois séculos. O poeta Johann Wolfgang Goethe na Alemanha e os dramaturgos Alexandre Dumas e Victor Hugo na França se esmeraram em coroar Goethe o supremo poeta dramático da Europa.

Os românticos adotaram-no suas peças como modelo e os críticos britânicos se devotaram em disseminar sua fama pelo mundo inteiro. Sua glória só fez crescer, isso depois de seu nome ter sido meio esquecido entre meados do século 17 e quase o século 18 inteiro, não fossem os esforços do crítico inglês James Boswell.

Nos dias atuais, o crítico americano Harold Bloom atribui a Shakespeare a invenção do que entendemos hoje por “humano”. Toda semana são publicados ensaios exaltados seja interpretando a arte poética e dramática do escritor, seja abordando sua vida, aliás escassa em documentos, um quase não fato que permite as mais variadas especulações: para alguns analistas vitorianos, as obras shakespeariana teriam sido de autoria do filósofo Francis Bacon; outros a atribuem a um certo fidalgo que apenas teria pago o empresário do The Globe Theatre para encobrir a real identidade do autor de obras-primas.

E ainda que a autoria seja questionada — inclusive por scholars os mais rigorosos —, seu valor artístico é inquestionado em sua totalidade, como se o monumento não exibisse brechas, emendas e falhas.

O caso de Shakespeare só é comparável na cultura ocidental ao do poeta grego Homero. Ambos os autores foram monumentalizados e convertidos em modelos do ápice da perfeição artística. Shakespeare até perdoa Homero, pelo pioneirismo e por cenas realmente tocantes. Para ele, se a tradição homérica tem um uso pedagógico de formação estética e ética dos povos, a posteridade shakespeariana mais recente se afigura deletéria.

Ele conta que, aos 75 anos, releu as peças de Shakespeare – e voltou a elas ao longo de 50 anos, tentando se convencer de que sua primeira repulsa era injusta. Mas foi em vão, pois “com força ainda maior experimentei a mesma sensação, não mais de perplexidade, mas a firme e indubitável convicção de que aquela fama inquestionável de escritor grande e genial que Shakespeare possui, que obriga escritores do nosso tempo a imitá-lo, leitores e espectadores, falseando sua compreensão estética e ética, a encontrar nele méritos inexistentes, é um grande mal, bem como qualquer mentira”.

Em seu longo ensaio, Tolstói quer demonstrar que não apenas Shakespeare não é um grande gênio, como não pode nem mesmo merecer o título de artista. “Embora eu saiba que a maioria das pessoas acredita tanto na grandeza de Shakespeare que ao ler este meu juízo não irá admitir nenhuma possibilidade de sua justiça e não lhe dará atenção nenhuma, ainda assim tentarei, do jeito que puder, mostrar porque penso que Shakespeare não pode ser reconhecido como autor grande e genial, nem sequer como mediano”, afirma.

Para demonstrar sua tese que a muitos soa ultrajante, ele se detém na análise detalhada de Rei Lear, a peça mais consagrada do autor, tida como perfeita. Abordando cena a cena, fala a fala, ele demonstra que esta obra do autor — o que não dirá as outras menos recomendadas — fere as regras estabelecidas da grande arte teatral. A começar pelo artificialismo da trama: a coerência entre os personagens, suas atitudes, sua personalidade, os acontecimentos que os envolvem e as lutas que eles travam para enfrenta-los.

Shakespeare não consegue, segundo o escritor russo, criar a ilusão teatral, já que a luta dos personagens não resulta do curso natural dos acontecimentos, e sim estabelecida de forma arbitrária. A segunda razão da repugnância de Tolstói reside na incoerência histórica, no anacronismo de seus personagens que falam, agem e vivem de forma inapropriada à época e ao local em que se passa peça. O terceiro defeito está no exagero em que situações são dramatizadas. Citando Goethe, diz: “Você vê a premeditação e isso lhe estraga o estado de espírito”. Assim, alguns recursos, como arrastar cadáveres ao final de muitos dramas shakespearianos, provocam menos compaixão do que gargalhadas.

Ao abordar a linguagem dos personagens, Tolstói observa que o poeta inglês não sabe multiplicar as vozes no palco, mas usar sempre a mesma fala empolada e artificial, sem que cada personagem se comunique com a fala condizente com sua personalidade ou condição social. Os personagens são construídos de forma tosca. Sobrevivem aqueles que foram retirados diretamente de peças de outros autores.

E mesmo assim Shakespeare perde o ponto, como acontece com o personagem de Lear, extraído de uma tragédia anônima. Hamlet, por exemplo, fala como “uma espécie de fonógrafo de Shakespeare”, transmitindo recados do autor ao longo do drama.

“Mas , por ser ponto pacífico que o genial Shakespeare não pode escrever nada ruim, os eruditos direcionam todos os esforços da mente para encontrar a extraordinária beleza naquilo que é um defeito óbvio e salta à vista, que se expressa de forma especialmente aguda em Hamlet, isto é, que o protagonista não tem nenhum caráter. E então os críticos compenetrados declaram que nessa peça, na pessoa de Hamlet, está expresso um caráter completamente novo e profundo, que consiste exatamente no fato de esse personagem não ter caráter, e que nessa ausência está genialidade da criação de um caráter profundo!”

Sim, Tolstói muitas vezes se exalta. Mesmo assim, é capaz de encontrar pelo menos uma virtude em Shakespeare: a capacidade de conduzir cenas em que se expressam os sentimentos. Shakespeare seria um mestre na amplificação, na junção e combinação de vários sentimentos contraditórios – fato que ganha relevo pelo trabalho de grandes atores.

A condenação mais séria de Tolstói a Shakespeare se dá no plano do efeito moral. A arte, segundo o autor russo, tem de provocar no espectador a ilusão do vivido e, com isso, despertar a identificação entre público e personagem, a compaixão, a simpatia, a ilusão de que ele, espectador, vive o drama no palco. Mas nada disso acontece em Shakespeare. “Por mais que se comentem e se admirem as obras de Shakespeare, ou a despeito da qualidades que lhe sejam atribuídas, é indubitável que ele no era um artista e que suas obras não são obras de arte”, afirma Tolstói.

Shakespeare seria um mero montador de espetáculos, sempre em busca do acúmulo dos efeitos espetaculares, em detrimento de qualquer grandeza humana. Para o russo, a teoria moral de Shakespeare consistiria na defesa dos privilégios da aristocracia, no ódio à vulgaridade do povo e o desprezo ao mundo. Shakespeare não vislumbrava a possibilidade de mudança da história.

É preciso entender os critérios que regem as convicções de Tolstói. Ele afirma que o valor de qualquer obra de arte é definido por três aspectos: o conteúdo da obra — quanto mais significativo para a vida humana, maior a obra —; a beleza e as técnicas com que essa é alcançada; e, finalmente, a sinceridade: “o próprio autor deve sentir de forma aguçada o que está sendo representado por ele. Sem essa condição não pode haver nenhuma obra de arte, pois a essência da arte consiste no contágio daquele que percebe uma obra com sentimentos do autor.”

Ora, o conteúdo das peças de Shakespeare, “representa uma visão do mundo mais baixa e trivial, que considera a superioridade aparente dos poderosos uma verdadeira vantagem de pessoas que desprezam a mas, isto é, a classe trabalhadora. Negam quaisquer aspirações não apenas religiosas, mas também humanitária, empreendidas para mudar a ordem vigente”. Assim, as obras de Shakespeare não correspondem às exigências da obra de arte de acordo com Tolstói. O louvor que lhe dedicam é “insano”.

Shakespeare se transformou em um dogma devido ao papel dos intelectuais românticos, que viam em suas peças um modelo para refutar o teatro clássico herdado pelos franceses. É o ceticismo dos românticos e pósteros que converte o teatro em mero entretenimento cruel, como o fizeram os romanos na era antiga com o teatro grego. A atitude “antirreligiosa e amoral” da sociedade atual é próxima à visão de mundo sinistra e depravada de Shakespeare.

Cabe aqui reparar que, para Tolstói, a arte deve possuir uma função restauradora da religião e da moral. Shakespeare encarna tudo o que o escritor russo enxerga nas multidões do novo século. A concepção imoral do mundo dessas multidões é a mesma de Shakespeare.

Examinados em perspectiva, os dois autores encarnam visões de mundo opostas: Shakespeare é profano; Tolstói, religioso. Obviamente, o mundo tornou-se mais parecido com Shakespeare do que com Tolstói. Daí a razão de Shakespeare nos parecer mais moderno, mesmo que sendo duzentos anos mais velho que Tolstói.

No entanto, os artistas não devem ser medidos nem sorvidos por suas visões de mundo, mas pelo que legaram em suas obras. Tolstói não admitia ver humanidade nas profanações e grosserias shakespearianas. Hoje podemos senti-lo mais humano. E algumas obras de Tolstói perderam a atualidade justamente por aquilo que guardam de tediosa pregação religiosa.

Hoje apreciamos mais o monstro divertido que o beato sonolento. Por isso, gosto mais das obras do Tolstói cético, como Guerra e Paz e Ana Karenina. O romance Ressurreição ou a novela Felicidade Conjugal são obras de tese tardias menos afeitas ao nosso paladar por refinadas crueldades.

Concluo, portanto, com o possível início de um artigo. Após todas essas considerações, resta a dúvida: mesmo que a obra de Shakespeare tenha resistido à crítica de Tolstói (como creio que resistiu), ele ainda pode ser considerado um gênio e sua obra, o ápice da perfeição? É a dúvida deixada no ar pelo grande autor russo.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Grandes empresas abrem vagas para estágios

Santander

O Banco Santander abriu seleção para vagas de estágio para alunos universitários de todas as graduações. A bolsa-auxílio oferecida é a partir de R$ 1.074 para jornada de 6 horas e a partir de R$ 716 para jornada de 4 horas. Os principais cursos com demanda são administração, ciências contábeis, economia e engenharias.

Os pré-requisitos são estar cursando a partir do 2º ano/3º semestre da graduação, ter conhecimento em Excel (nível intermediário) e bom raciocínio lógico. Idioma é diferencial e quesito de seleção de acordo com a necessidade de cada área. O estagiário recebe bolsa-auxílio equivalente ao mercado e benefícios como vale-refeição para jornada de 6 horas, vale-transporte, auxílio médico, seguro vida e recesso.

O estudante deve acessar o endereço www.caminhoseescolhas.com.br e completar seu cadastro para participar das vagas de estágio em “Meu perfil”.


Cummins Brasil

A Cummins Brasil, fabricante independente de motores diesel e gás, geradores e componentes, abriu inscrições para programa de estágio país para estudantes que concluirão, em dezembro de 2012, o ensino superior.

Podem se inscrever estudantes de engenharia mecânica, elétrica, civil, mecatrônica, de materiais, administração de empresas e ciências contábeis.

O candidato deve enviar um e-mail para gizelle.lima@cummins.com com nome, endereço, telefone, curso e ano de graduação, até 11 de março.

O contato pode ser realizado também pelo telefone (11) 2186-4585. O início do estágio está previsto para abril, na Cummins Brasil, localizada na Rua Jati, 310, Guarulhos (SP).

A empresa ainda oferece aos selecionados bolsa-auxílio, transporte, benefícios e possibilidade de efetivação. É necessário inglês intermediário.

No dia 18 de março, entre as 8h e as 17h, a Cummins Brasil receberá todos os inscritos para passar um dia na empresa para conhecer o ambiente de um indústria multinacional. Haverá palestras técnicas e sobre carreiras, dinâmicas de grupo para processo seletivo, almoço e visitação à fabrica.


Nube

O Núcleo Brasileiro de Estágios (Nube) está selecionando candidatos para 3.190 vagas de estágio em todo o país. Há oportunidades para estudantes do ensino médio, técnico e superior, período matutino e noturno. As bolsas variam de R$ 400,00 a R$ 1.100,00.

Os interessados em concorrer às vagas devem cadastrar-se gratuitamente no site www.nube.com.br.

Entre os cursos com vagas estão administração, análise de sistemas, agronomia, arquitetura e urbanismo, arquivologia, ciência da computação, controladoria e finanças, comércio exterior, comunicação e marketing, comunicação social, direito, economia, engenharia da computação, engenharia eletrotécnica, engenharia eletrônica, engenharia mecânica, ensino médio, fisioterapia, gastronomia, logística, marketing organizacional, medicina veterinária, nutrição, publicidade e propaganda, pedagogia, psicologia, tecnologia em informática, tecnologia em comunicação empresarial, técnico em vendas, turismo e hotelaria e turismo e lazer.
saiba mais

Outras oportunidades podem ser consultadas diretamente no site www.nube.com.br, acessando o campo "Vagas de Estágio".

sexta-feira, 18 de março de 2011

Os 98 erros mais comuns da língua portuguesa


Da Equipe Grau 10 

Erros gramaticais e ortográficos devem, por princípio, ser evitados. Alguns, no entanto, como ocorrem com maior frequência, merecem atenção redobrada. Veja os noventa e oito (antes eram cem) mais comuns do idioma e use esta relação como um roteiro para fugir deles.

1. “Mal cheiro”, “mau-humorado”. Mal opõe-se a bem e mau, a bom. Assim: mau cheiro (bom cheiro), mal-humorado (bem-humorado). Igualmente: mau humor, mal-intencionado, mau jeito, mal-estar.

2. “Fazem” cinco anos. Fazer, quando exprime tempo, é impessoal: Faz cinco anos. / Fazia dois séculos. / Fez 15 dias.

3. “Houveram” muitos acidentes. Haver, como existir, também é invariável: Houve muitos acidentes. / Havia muitas pessoas. / Deve haver muitos casos iguais.

4. “Existe” muitas esperanças. Existir, bastar, faltar, restar e sobrar admitem normalmente o plural: Existem muitas esperanças. / Bastariam dois dias. / Faltavam poucas peças. / Restaram alguns objetos. / Sobravam idéias.

5. Para “mim” fazer. Mim não faz, porque não pode ser sujeito. Assim: Para eu fazer, para eu dizer, para eu trazer.

6. Entre “eu” e você. Depois de preposição, usa-se mim ou ti: Entre mim e você. / Entre eles e ti.

7. “Há” dez anos “atrás”. Há e atrás indicam passado na frase. Use apenas há dez anos ou dez anos atrás.

8. “Entrar dentro”. O certo: entrar em. Veja outras redundâncias: Sair fora ou para fora, elo de ligação, monopólio exclusivo, já não há mais, ganhar grátis, viúva do falecido.

9. “Venda à prazo”. Não existe crase antes de palavra masculina, a menos que esteja subentendida a palavra moda: Salto à (moda de) Luís XV. Nos demais casos: A salvo, a bordo, a pé, a esmo, a cavalo, a caráter.

10. “Porque” você foi? Sempre que estiver clara ou implícita a palavra razão, use por que separado: Por que (razão) você foi? / Não sei por que (razão) ele faltou. / Explique por que razão você se atrasou. Porque é usado nas respostas: Ele se atrasou porque o trânsito estava congestionado.

11. Vai assistir “o” jogo hoje. Assistir como presenciar exige a: Vai assistir ao jogo, à missa, à sessão. Outros verbos com a: A medida não agradou (desagradou) à população. / Eles obedeceram (desobedeceram) aos avisos. / Aspirava ao cargo de diretor. / Pagou ao amigo. / Respondeu à carta. / Sucedeu ao pai. / Visava aos estudantes.

12. Preferia ir “do que” ficar. Prefere-se sempre uma coisa a outra: Preferia ir a ficar. É preferível segue a mesma norma: É preferível lutar a morrer sem glória.

13. O resultado do jogo, não o abateu. Não se separa com vírgula o sujeito do predicado. Assim: O resultado do jogo não o abateu. Outro erro: O prefeito prometeu, novas denúncias. Não existe o sinal entre o predicado e o complemento: O prefeito prometeu novas denúncias.

14. Não há regra sem “excessão”. O certo é exceção. Veja outras grafias erradas e, entre parênteses, a forma correta: “paralizar” (paralisar), “beneficiente” (beneficente), “xuxu” (chuchu), “previlégio” (privilégio), “vultuoso” (vultoso), “cincoenta” (cinqüenta), “zuar” (zoar), “frustado” (frustrado), “calcáreo” (calcário), “advinhar” (adivinhar), “benvindo” (bem-vindo), “ascenção” (ascensão), “pixar” (pichar), “impecilho” (empecilho), “envólucro” (invólucro).

15. Quebrou “o” óculos. Concordância no plural: os óculos, meus óculos. Da mesma forma: Meus parabéns, meus pêsames, seus ciúmes, nossas férias, felizes núpcias.

16. Comprei “ele” para você. Eu, tu, ele, nós, vós e eles não podem ser objeto direto. Assim: Comprei-o para você. Também: Deixe-os sair, mandou-nos entrar, viu-a, mandou-me.

17. Nunca “lhe” vi. Lhe substitui a ele, a eles, a você e a vocês e por isso não pode ser usado com objeto direto: Nunca o vi. / Não o convidei. / A mulher o deixou. / Ela o ama.

18. “Aluga-se” casas. O verbo concorda com o sujeito: Alugam-se casas. / Fazem-se consertos. / É assim que se evitam acidentes. / Compram-se terrenos. / Procuram-se empregados.

19. “Tratam-se” de. O verbo seguido de preposição não varia nesses casos: Trata-se dos melhores profissionais. / Precisa-se de empregados. / Apela-se para todos. / Conta-se com os amigos.

20. Chegou “em” São Paulo. Verbos de movimento exigem a, e não em: Chegou a São Paulo. / Vai amanhã ao cinema. / Levou os filhos ao circo.

21. Atraso implicará “em” punição. Implicar é direto no sentido de acarretar, pressupor: Atraso implicará punição. / Promoção implica responsabilidade.

22. Vive “às custas” do pai. O certo: Vive à custa do pai. Use também em via de, e não “em vias de”: Espécie em via de extinção. / Trabalho em via de conclusão.

23. Todos somos “cidadões”. O plural de cidadão é cidadãos. Veja outros: caracteres (de caráter), juniores, seniores, escrivães, tabeliães, gângsteres.

24. O ingresso é “gratuíto”. A pronúncia correta é gratúito, assim como circúito, intúito e fortúito (o acento não existe e só indica a letra tônica). Da mesma forma: flúido, condôr, recórde, aváro, ibéro, pólipo.

25. A última “seção” de cinema. Seção significa divisão, repartição, e sessão equivale a tempo de uma reunião, função: Seção Eleitoral, Seção de Esportes, seção de brinquedos; sessão de cinema, sessão de pancadas, sessão do Congresso.

26. Vendeu “uma” grama de ouro. Grama, peso, é palavra masculina: um grama de ouro, vitamina C de dois gramas. Femininas, por exemplo, são a agravante, a atenuante, a alface, a cal, etc.

27. “Porisso”. Duas palavras, por isso, como de repente e a partir de.

28. Não viu “qualquer” risco. É nenhum, e não “qualquer”, que se emprega depois de negativas: Não viu nenhum risco. / Ninguém lhe fez nenhum reparo. / Nunca promoveu nenhuma confusão.

29. A feira “inicia” amanhã. Alguma coisa se inicia, se inaugura: A feira inicia-se (inaugura-se) amanhã.

30. Soube que os homens “feriram-se”. O que atrai o pronome: Soube que os homens se feriram. / A festa que se realizou… O mesmo ocorre com as negativas, as conjunções subordinativas e os advérbios: Não lhe diga nada. / Nenhum dos presentes se pronunciou. / Quando se falava no assunto… / Como as pessoas lhe haviam dito… / Aqui se faz, aqui se paga. / Depois o procuro.

31. O peixe tem muito “espinho”. Peixe tem espinha. Veja outras confusões desse tipo: O “fuzil” (fusível) queimou. / Casa “germinada” (geminada), “ciclo” (círculo) vicioso, “cabeçário” (cabeçalho).

32. Não sabiam “aonde” ele estava. O certo: Não sabiam onde ele estava. Aonde se usa com verbos de movimento, apenas: Não sei aonde ele quer chegar. / Aonde vamos?

33. “Obrigado”, disse a moça. Obrigado concorda com a pessoa: “Obrigada”, disse a moça. / Obrigado pela atenção. / Muito obrigados por tudo.

34. O governo “interviu”. Intervir conjuga-se como vir. Assim: O governo interveio. Da mesma forma: intervinha, intervim, interviemos, intervieram. Outros verbos derivados: entretinha, mantivesse, reteve, pressupusesse, predisse, conviesse, perfizera, entrevimos, condisser, etc.

35. Ela era “meia” louca. Meio, advérbio, não varia: meio louca, meio esperta, meio amiga.

36. “Fica” você comigo. Fica é imperativo do pronome tu. Para a 3.ª pessoa, o certo é fique: Fique você comigo. / Venha pra Caixa você também. / Chegue aqui.

37. A questão não tem nada “haver” com você. A questão, na verdade, não tem nada a ver ou nada que ver. Da mesma forma: Tem tudo a ver com você.

38. A corrida custa 5 “real”. A moeda tem plural, e regular: A corrida custa 5 reais.

39. Vou “emprestar” dele. Emprestar é ceder, e não tomar por empréstimo: Vou pegar o livro emprestado. Ou: Vou emprestar o livro (ceder) ao meu irmão. Repare nesta concordância: Pediu emprestadas duas malas.

40. Foi “taxado” de ladrão. Tachar é que significa acusar de: Foi tachado de ladrão. / Foi tachado de leviano.

41. Ele foi um dos que “chegou” antes. Um dos que faz a concordância no plural: Ele foi um dos que chegaram antes (dos que chegaram antes, ele foi um). / Era um dos que sempre vibravam com a vitória.

42. “Cerca de 18″ pessoas o saudaram. Cerca de indica arredondamento e não pode aparecer com números exatos: Cerca de 20 pessoas o saudaram.

43. Ministro nega que “é” negligente. Negar que introduz subjuntivo, assim como embora e talvez: Ministro nega que seja negligente. / O jogador negou que tivesse cometido a falta. / Ele talvez o convide para a festa. / Embora tente negar, vai deixar a empresa.

44. Tinha “chego” atrasado. “Chego” não existe. O certo: Tinha chegado atrasado.

45. Tons “pastéis” predominam. Nome de cor, quando expresso por substantivo, não varia: Tons pastel, blusas rosa, gravatas cinza, camisas creme. No caso de adjetivo, o plural é o normal: Ternos azuis, canetas pretas, fitas amarelas.

46. Lute pelo “meio-ambiente”. Meio ambiente não tem hífen, nem hora extra, ponto de vista, mala direta, pronta entrega, etc. O sinal aparece, porém, em mão-de-obra, matéria-prima, infra-estrutura, primeira-dama, vale-refeição, meio-de-campo, etc.

47. Queria namorar “com” o colega. O com não existe: Queria namorar o colega.

48. O processo deu entrada “junto ao” STF. Processo dá entrada no STF. Igualmente: O jogador foi contratado do (e não “junto ao”) Guarani. / Cresceu muito o prestígio do jornal entre os (e não “junto aos”) leitores. / Era grande a sua dívida com o (e não “junto ao”) banco. / A reclamação foi apresentada ao (e não “junto ao”) Procon.

49. As pessoas “esperavam-o”. Quando o verbo termina em m, ão ou õe, os pronomes o, a, os e as tomam a forma no, na, nos e nas: As pessoas esperavam-no. / Dão-nos, convidam-na, põe-nos, impõem-nos.

50. Vocês “fariam-lhe” um favor? Não se usa pronome átono (me, te, se, lhe, nos, vos, lhes) depois de futuro do presente, futuro do pretérito (antigo condicional) ou particípio. Assim: Vocês lhe fariam (ou far-lhe-iam) um favor? / Ele se imporá pelos conhecimentos (e nunca “imporá-se”). / Os amigos nos darão (e não “darão-nos”) um presente. / Tendo-me formado (e nunca tendo “formado-me”).

51. Chegou “a” duas horas e partirá daqui “há” cinco minutos. Há indica passado e equivale a faz, enquanto a exprime distância ou tempo futuro (não pode ser substituído por faz): Chegou há (faz) duas horas e partirá daqui a (tempo futuro) cinco minutos. / O atirador estava a (distância) pouco menos de 12 metros. / Ele partiu há (faz) pouco menos de dez dias.

52. Blusa “em” seda. Usa-se de, e não em, para definir o material de que alguma coisa é feita: Blusa de seda, casa de alvenaria, medalha de prata, estátua de madeira.

53. A artista “deu à luz a” gêmeos. A expressão é dar à luz, apenas: A artista deu à luz quíntuplos. Também é errado dizer: Deu “a luz a” gêmeos.

54. Estávamos “em” quatro à mesa. O em não existe: Estávamos quatro à mesa. / Éramos seis. / Ficamos cinco na sala.

55. Sentou “na” mesa para comer. Sentar-se (ou sentar) em é sentar-se em cima de. Veja o certo: Sentou-se à mesa para comer. / Sentou ao piano, à máquina, ao computador.

56. Ficou contente “por causa que” ninguém se feriu. Embora popular, a locução não existe. Use porque: Ficou contente porque ninguém se feriu.

57. O time empatou “em” 2 a 2. A preposição é por: O time empatou por 2 a 2. Repare que ele ganha por e perde por. Da mesma forma: empate por.

58. À medida “em” que a epidemia se espalhava… O certo é: À medida que a epidemia se espalhava… Existe ainda na medida em que (tendo em vista que): É preciso cumprir as leis, na medida em que elas existem.

59. Não queria que “receiassem” a sua companhia. O i não existe: Não queria que receassem a sua companhia. Da mesma forma: passeemos, enfearam, ceaste, receeis (só existe i quando o acento cai no e que precede a terminação ear: receiem, passeias, enfeiam).

60. Eles “tem” razão. No plural, têm é assim, com acento. Tem é a forma do singular. O mesmo ocorre com vem e vêm e põe e põem: Ele tem, eles têm; ele vem, eles vêm; ele põe, eles põem.

61. A moça estava ali “há” muito tempo. Haver concorda com estava. Portanto: A moça estava ali havia (fazia) muito tempo. / Ele doara sangue ao filho havia (fazia) poucos meses. / Estava sem dormir havia (fazia) três meses. (O havia se impõe quando o verbo está no imperfeito e no mais-que-perfeito do indicativo.)

62. Não “se o” diz. É errado juntar o se com os pronomes o, a, os e as. Assim, nunca use: Fazendo-se-os, não se o diz (não se diz isso), vê-se-a, etc.

63. Acordos “políticos-partidários”. Nos adjetivos compostos, só o último elemento varia: acordos político-partidários. Outros exemplos: Bandeiras verde-amarelas, medidas econômico-financeiras, partidos social-democratas.

64. Fique “tranquilo”. O u pronunciável depois de q e g e antes de e e i exige trema: Tranqüilo, conseqüência, lingüiça, agüentar, Birigüi.

65. Andou por “todo” país. Todo o (ou a) é que significa inteiro: Andou por todo o país (pelo país inteiro). / Toda a tripulação (a tripulação inteira) foi demitida. Sem o, todo quer dizer cada, qualquer: Todo homem (cada homem) é mortal. / Toda nação (qualquer nação) tem inimigos.

66. “Todos” amigos o elogiavam. No plural, todos exige os: Todos os amigos o elogiavam. / Era difícil apontar todas as contradições do texto.

67. Favoreceu “ao” time da casa. Favorecer, nesse sentido, rejeita a: Favoreceu o time da casa. / A decisão favoreceu os jogadores.

68. Ela “mesmo” arrumou a sala. Mesmo, quanto equivale a próprio, é variável: Ela mesma (própria) arrumou a sala. / As vítimas mesmas recorreram à polícia.

69. Chamei-o e “o mesmo” não atendeu. Não se pode empregar o mesmo no lugar de pronome ou substantivo: Chamei-o e ele não atendeu. / Os funcionários públicos reuniram-se hoje: amanhã o país conhecerá a decisão dos servidores (e não “dos mesmos”).

70. Vou sair “essa” noite. É este que desiga o tempo no qual se está ou objeto próximo: Esta noite, esta semana (a semana em que se está), este dia, este jornal (o jornal que estou lendo), este século (o século 20).

71. A temperatura chegou a 0 “graus”. Zero indica singular sempre: Zero grau, zero-quilômetro, zero hora.

72. A promoção veio “de encontro aos” seus desejos. Ao encontro de é que expressa uma situação favorável: A promoção veio ao encontro dos seus desejos. De encontro a significa condição contrária: A queda do nível dos salários foi de encontro às (foi contra) expectativas da categoria.

73. Comeu frango “ao invés de” peixe. Em vez de indica substituição: Comeu frango em vez de peixe. Ao invés de significa apenas ao contrário: Ao invés de entrar, saiu.

74. Se eu “ver” você por aí… O certo é: Se eu vir, revir, previr. Da mesma forma: Se eu vier (de vir), convier; se eu tiver (de ter), mantiver; se ele puser (de pôr), impuser; se ele fizer (de fazer), desfizer; se nós dissermos (de dizer), predissermos.

75. Ele “intermedia” a negociação. Mediar e intermediar conjugam-se como odiar: Ele intermedeia (ou medeia) a negociação. Remediar, ansiar e incendiar também seguem essa norma: Remedeiam, que eles anseiem, incendeio.

76. Ninguém se “adequa”. Não existem as formas “adequa”, “adeqüe”, etc., mas apenas aquelas em que o acento cai no a ou o: adequaram, adequou, adequasse, etc.

77. Evite que a bomba “expluda”. Explodir só tem as pessoas em que depois do d vêm e e i: Explode, explodiram, etc. Portanto, não escreva nem fale “exploda” ou “expluda”, substituindo essas formas por rebente, por exemplo. Precaver-se também não se conjuga em todas as pessoas. Assim, não existem as formas “precavejo”, “precavês”, “precavém”, “precavenho”, “precavenha”, “precaveja”, etc.

78. Governo “reavê” confiança. Equivalente: Governo recupera confiança. Reaver segue haver, mas apenas nos casos em que este tem a letra v: Reavemos, reouve, reaverá, reouvesse. Por isso, não existem “reavejo”, “reavê”, etc.

79. Disse o que “quiz”. Não existe z, mas apenas s, nas pessoas de querer e pôr: Quis, quisesse, quiseram, quiséssemos; pôs, pus, pusesse, puseram, puséssemos.

80. O homem “possue” muitos bens. O certo: O homem possui muitos bens. Verbos em uir só têm a terminação ui: Inclui, atribui, polui. Verbos em uar é que admitem ue: Continue, recue, atue, atenue.

81. A tese “onde”… Onde só pode ser usado para lugar: A casa onde ele mora. / Veja o jardim onde as crianças brincam. Nos demais casos, use em que: A tese em que ele defende essa idéia. / O livro em que… / A faixa em que ele canta… / Na entrevista em que…

82. Já “foi comunicado” da decisão. Uma decisão é comunicada, mas ninguém “é comunicado” de alguma coisa. Assim: Já foi informado (cientificado, avisado) da decisão. Outra forma errada: A diretoria “comunicou” os empregados da decisão. Opções corretas: A diretoria comunicou a decisão aos empregados. / A decisão foi comunicada aos empregados.

83. Venha “por” a roupa. Pôr, verbo, tem acento diferencial: Venha pôr a roupa. O mesmo ocorre com pôde (passado): Não pôde vir. Veja outros: fôrma, pêlo e pêlos (cabelo, cabelos), pára (verbo parar), péla (bola ou verbo pelar), pélo (verbo pelar), pólo e pólos. Perderam o sinal, no entanto: Ele, toda, ovo, selo, almoço, etc.

84. “Inflingiu” o regulamento. Infringir é que significa transgredir: Infringiu o regulamento. Infligir (e não “inflingir”) significa impor: Infligiu séria punição ao réu.

85. A modelo “pousou” o dia todo. Modelo posa (de pose). Quem pousa é ave, avião, viajante, etc. Não confunda também iminente (prestes a acontecer) com eminente (ilustre). Nem tráfico (contrabando) com tráfego (trânsito).

86. Espero que “viagem” hoje. Viagem, com g, é o substantivo: Minha viagem. A forma verbal é viajem (de viajar): Espero que viajem hoje. Evite também “comprimentar” alguém: de cumprimento (saudação), só pode resultar cumprimentar. Comprimento é extensão. Igualmente: Comprido (extenso) e cumprido (concretizado).

87. O pai “sequer” foi avisado. Sequer deve ser usado com negativa: O pai nem sequer foi avisado. / Não disse sequer o que pretendia. / Partiu sem sequer nos avisar.

88. Comprou uma TV “a cores”. Veja o correto: Comprou uma TV em cores (não se diz TV “a” preto e branco). Da mesma forma: Transmissão em cores, desenho em cores.

89. “Causou-me” estranheza as palavras. Use o certo: Causaram-me estranheza as palavras. Cuidado, pois é comum o erro de concordância quando o verbo está antes do sujeito. Veja outro exemplo: Foram iniciadas esta noite as obras (e não “foi iniciado” esta noite as obras).

90. A realidade das pessoas “podem” mudar. Cuidado: palavra próxima ao verbo não deve influir na concordância. Por isso : A realidade das pessoas pode mudar. / A troca de agressões entre os funcionários foi punida (e não “foram punidas”).

91. O fato passou “desapercebido”. Na verdade, o fato passou despercebido, não foi notado. Desapercebido significa desprevenido.

92. “Haja visto” seu empenho… A expressão é haja vista e não varia: Haja vista seu empenho. / Haja vista seus esforços. / Haja vista suas críticas.

93. A moça “que ele gosta”. Como se gosta de, o certo é: A moça de que ele gosta. Igualmente: O dinheiro de que dispõe, o filme a que assistiu (e não que assistiu), a prova de que participou, o amigo a que se referiu, etc.

94. É hora “dele” chegar. Não se deve fazer a contração da preposição com artigo ou pronome, nos casos seguidos de infinitivo: É hora de ele chegar. / Apesar de o amigo tê-lo convidado… / Depois de esses fatos terem ocorrido…

95. Vou “consigo”. Consigo só tem valor reflexivo (pensou consigo mesmo) e não pode substituir com você, com o senhor. Portanto: Vou com você, vou com o senhor. Igualmente: Isto é para o senhor (e não “para si”).

96. Já “é” 8 horas. Horas e as demais palavras que definem tempo variam: Já são 8 horas. / Já é (e não “são”) 1 hora, já é meio-dia, já é meia-noite.

97. A festa começa às 8 “hrs.”. As abreviaturas do sistema métrico decimal não têm plural nem ponto. Assim: 8 h, 2 km (e não “kms.”), 5 m, 10 kg.

98. “Dado” os índices das pesquisas… A concordância é normal: Dados os índices das pesquisas… / Dado o resultado… / Dadas as suas ideias…

quinta-feira, 17 de março de 2011

Brasil lê mais blogs que resto do mundo


Por Cris Komesu, da Revista Tempestade & Ímpeto

Enquanto fora do Brasil os blogs dão sinais de estarem ficando sem fôlego, entre os brasileiros a ferramenta goza de popularidade.

Segundo a comScore, 71% dos internautas brasileiros acessaram blogs em 2010. A média mundial é de 50%. O número brasileiro é maior do que o dos sete países latino-americanos (incluindo México e Argentina) aos quais ele foi comparado.

O Brasil também teve média superior à da América do Norte, à da Europa e à da Ásia. O estudo também aponta que, entre 2009 e 2010, os blogs não tiveram crescimento mundial -mantendo a média de 50%.

Os blogs apresentaram popularidade mesmo com o aumento da presença dos brasileiros em redes sociais, um dos fatores apontados como responsáveis pelo declínio da ferramenta. A porcentagem de internautas do país em redes sociais foi de 85,3% -um aumento de cerca de 10% em relação a 2009.

A média global de pessoas em redes sociais foi de 70%.

Uma das causas para a popularidade dos blogs no Brasil em 2010, aponta o estudo, foram as eleições.

Os meses de outubro e novembro tiveram o recorde de internautas (39,3 milhões, em novembro) e de páginas visitadas (2,25 bilhões, em outubro).

Em todas as regiões do Brasil, o número de internautas que visitaram blogs cresceu nesse período. No Nordeste, a porcentagem pulou de 72,8%, em julho de 2010, para 77% em novembro. O Centro-Oeste foi de 70,7% para 74,3%.

O Norte, o Sudeste e o Sul registraram crescimento de cerca de três pontos percentuais.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Sesc Campina Grande promoverá Oficina de Máscaras

Da Ascom/UEPB com a Assessoria do Sesc/CG

O Sesc Paraíba desenvolve em Campina Grande o Projeto Oficinarte, que consiste em oferecer oficinas, com o objetivo de facilitar o acesso dos comerciários e demais interessados, o aprendizado das diversas vertentes da arte. As oficinas acontecerão durante todo o ano. O Projeto tem inicio em 2011 com a oficina de Máscaras e Adereços para fantasia, ministrada pela artista plástica e decoradora Daniela Pessuti. A ação será desenvolvida durante cinco dias na unidade Centro e proporcionará a ampliação do conhecimento sobre a utilização, construção e criação de adereços. 

Os métodos serão simplificados, possibilitando que pessoas com pouca experiência absorvam o conteúdo e produzam peças com desenvoltura, a mesma simplicidade se aplica ao material utilizado, baseando-se no papelão, tesouras, papel Craft e demais componentes como lantejoulas, purpurinas e tecidos.   

A oficina acontecerá de 21 à 25 de março das 14 às 17h e as inscrições podem ser efetivadas no setor de cultura com a doação de três quilos de alimentos não perecíveis que será repassado ao Banco de Alimentos Sesc. O Sesc unidade Centro fica localizado na Rua Giló Guedes, 650 – Santo Antonio – 3341-5800.

 Muito utilizadas no período do Carnaval, as máscaras dão um toque de mistério e glamour aos que aderem a este estilo de adereço que surgiu na Grécia, durante as festas dedicadas ao Deus Dionísio, na esperança que ele se encontrasse entre os convidados. As máscaras também estão presentes no teatro e na religião, quando são utilizadas em cerimônias em culturas primitivas.

terça-feira, 15 de março de 2011

"Um bom entrevistador tem estilo de James Bond"

Por Vaguinaldo Marinheiro, de Londres para o Caderno Ilustríssima

O Reino Unido tem uma tradição de entrevistadores duros com seus convidados, como Jeremy Paxman, do "Newsnight", ou Stephen Sackur, do "Hardtalk", ambos da BBC inglesa.
Paxman é capaz de repetir uma mesma pergunta mais de dez vezes se o entrevistado enrola e não responde. Esse não é o estilo de Piers Morgan, que estreia em janeiro na norte-americana CNN.
"Muitos jornalistas gostam de dizer que você tem sempre que ser duro, mas se for muito duro com todos, vai acabar falando com uma cadeira vazia. Numa boa entrevista, você age como um assassino charmoso. Como James Bond. Quando o entrevistado acha que você é amigo dele, você vai lá e dá um tiro em sua cabeça."
Morgan também já tem resposta na ponta da língua para aqueles que vão acusar seu programa de ser frívolo.
"Se for para contentar parte da mídia, você terá que entrevistar só o Julian Assange [fundador do WikiLeaks]. Aí dirão que você é sério. Mas isso tornaria o programa chato. Eu tenho muita experiência em editar tabloides no Reino Unido, quando é preciso misturar assuntos sérios e celebridades. É o que quero fazer na CNN. Não quero ser excessivamente sério, nem fútil. Quero ser relevante."

ESCÂNDALO E DEMISSÃO

Experiência com tabloides ele tem mesmo e também uma demissão muito comentada quando era editor-chefe de um dos jornais de maior circulação do país.
Morgan começou na profissão aos 19 anos numa espécie de jornal de bairro no sul de Londres. Aos 24, foi contratado como editor de show business do "Sun" (2,9 milhões de exemplares durante a semana).
Foi quando iniciou a aproximação com celebridades. Em muitos dias publicava fotos suas ao lado de cantores e atores. Aos 28 anos, Rupert Murdoch o convidou para ser o editor-chefe do "News of the World", jornal dominical mais vendido no país (2,8 milhões de exemplares). É outro tabloide que repete um pouco a receita do "Sun": celebridades e crimes.
Um ano depois, foi editar o "Daily Mirror", jornal que ainda hoje vende mais de 1,2 milhão de exemplares/dia. Foi lá que aconteceu o escândalo e a demissão. O "Mirror" resolveu colocar em sua primeira página, em 2004, fotos que seriam de soldados britânicos torturando iraquianos.
O problema é que o Exército garante que as fotos são falsas. O jornal não conseguiu provar que eram verdadeiras, publicou uma manchete pedindo desculpas, e Morgan foi demitido.
"Ainda não estou convencido de que eram falsas. Quem diz que elas são falsas é o governo britânico, que mentiu para a opinião pública para nos levar à guerra. Não há dúvidas de que soldados britânicos cometeram atrocidades contra iraquianos. Então, continuo orgulhoso do que fizemos no "Daily Mirror". Eu fui demitido por causa dessas fotos, mas nunca me desculpei por tê-las publicado e nunca me desculparei. Faria a mesma coisa de novo amanhã."
Depois da demissão, partiu para a televisão com a ajuda de amigos. Foi jurado do "Britain's Got Talent", onde apareceu Susan Boyle, e até hoje continua no "America's Got Talent", exibido na TV americana.
"Se eu levar para a CNN parte das pessoas que assistem a esses programas, e hoje estão longe da TV a cabo, terei alcançado meu objetivo." É o que a CNN espera.

quarta-feira, 9 de março de 2011

MEC renovará educação indígena

 
Por Mariana Mandelli , de O Estado de S.Paulo

A educação indígena vai ganhar novas diretrizes de ensino neste ano. O Ministério da Educação (MEC) prepara um documento, com previsão de ser aprovado em maio, que contém a revisão das metas específicas para as escolas indígenas, focando principalmente na questão do currículo e na formação do professor.

A ideia é que as novas diretrizes estejam articuladas entre si, abrangendo da educação infantil ao ensino médio. "Renovar essas metas é emergencial", afirma o coordenador-geral da educação escolar indígena da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad) do MEC, Gersem Baniwa.

As diretrizes que estão em vigor são de 1999 e se referem essencialmente aos primeiros anos do fundamental. De acordo com o Censo Escolar 2010, o Brasil tem hoje 246.793 matrículas na educação básica, número que representa 0,5% do total.

Segundo Baniwa, a renovação das diretrizes é o primeiro passo para a criação de um sistema de educação escolar indígena, que inclui financiamento, avaliação, estrutura e órgão normatizador próprios. Se aprovado na Comissão Nacional de Educação Escolar Indígena, o documento deve ser homologado pelo Conselho Nacional de Educação (CNE).

A Secad considera a reunião um grande passo para o progresso da educação indígena, um dos maiores gargalos do sistema atualmente. Até 1991, o tema estava sob a responsabilidade da Fundação Nacional do Índio (Funai), e não do MEC. Para especialistas, o tema sempre foi tratado de forma secundária e só ganhou espaço nas discussões educacionais nos últimos 16 anos.

Grandes obstáculos 
 
Segundo a Funai, vivem hoje no País cerca de 460 mil índios, distribuídos em 225 sociedades indígenas que representam 0,25% da população. Para que eles tenham acesso à educação, as escolas devem seguir uma série de requisitos: localizar-se na área das aldeias, oferecer ensino bilíngue (em língua portuguesa e na língua do povo em questão), respeitar o calendário indígena da comunidade, apresentar conteúdo que tenha ligação com a cultura deles e, principalmente, dialogar com a comunidade, entre outros.

Para educadores e ativistas, a educação indígena avançou bastante na última década, mas ainda existem questões de extrema complexidade - como a discussão do currículo, que deve acompanhar os anseios e projetos de cada povo. Como cada um deles tem sua cultura, costumes e língua, fica praticamente impossível criar um conteúdo único a ser ensinado.
 
Pesquisadores defendem que as comunidades sejam protagonistas da escola. "Os índios devem aprender o que é necessário ao desenvolvimento dos seus projetos de vida. Eles não são isolados da sociedade. Ao contrário, precisam dela", ressalta Judite de Albuquerque, assessora pedagógica para formação de professores da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro.

Segundo defensores da educação indígena, o papel do professor é muito complexo. "A tarefa é muito mais complexa que a de um professor ocidental", explica a pesquisadora Onilda Sanches Nincão. "O professor indígena é um articulador entre a aldeia, a comunidade e a sociedade, e um articulador entre os conhecimentos locais e universais, estes cada vez mais demandados pelas comunidades locais."

Alunos aprendem costumes, mas rotina é de escola comum
 
 
Cheiro de mato, zumbido de insetos e ruído de água correndo próximo dali. No meio da Mata Atlântica de Sete Barras, a 250 quilômetros de São Paulo, uma clareira abriga uma casa grande e térrea, com salas arejadas. As paredes são preenchidas por cartazes rabiscados com letra de criança.

Num deles, de caligrafia madura, lê-se: "A educação escolar indígena guarani é como uma árvore: hoje tem folhas onde antes não tinha nada. Os troncos são os caciques; os galhos são lideranças; as folhas são os professores e as frutas são os alunos". O texto é de autoria de Celso Aquiles, professor da Escola Estadual Indígena Aldeia Peguao-Ty.

Com 35 alunos e 3 professores, a escola oferece ensino fundamental à aldeia guarani, que fica ao lado - no primeiro ano, as aulas são ministradas em guarani. "Os alunos aprendem história, geografia, matemática, artes e nossos costumes", conta o vice-diretor Odair Eusébio.

A escola tem uma rotina como outra qualquer: intervalo, provas e lição de casa. "Até os pequenos, que não estão na idade de estudar, gostam das aulas", diz o professor Leonardo da Silva.

sábado, 5 de março de 2011

UNESCO e ABC abrem vagas para estagiários brasileiros em Guiné-Bissau


Da Unesco, em Brasília


Vagas de estágio, nas áreas de arquitetura, engenharia civil, comunicação social, administração, serviço social e pedagogia estão abertas até o dia 13 de março para candidatos que queiram atuar em ações de mobilização e organização comunitária no Bairro de São Paulo, em Bissau (Guiné-Bissau).

O estágio integra o projeto "Jovens Lideranças para a Multiplicação de Boas Práticas Socioeducativas", no âmbito da Parceria Brasil - UNESCO para a Promoção da Cooperação Sul-Sul. Trata-se de uma iniciativa da Agência Brasileira de Cooperação (ABC), em parceria com a UNESCO, o Instituto Elos, a Fundação Gol de Letra e o Ministério da Educação.

O projeto visa o fortalecimento de lideranças locais, o desenvolvimento comunitário e a promoção de educação integral para crianças e jovens da comunidade do Bairro de São Paulo na Cidade de Bissau. Para tanto, prevê a construção de um centro educacional; a transferência das práticas sócio-educativas desenvolvidas pela Fundação Gol de Letra e da metodologia do Programa Escola Aberta, desenvolvido pelo Ministério da Educação e pela UNESCO.

Os estagiários selecionados apoiarão não somente o projeto de construção de uma escola no bairro, como também deverão estar comprometidos com a transferência de metodologias sócio-educativas. Os aprovados deverão obrigatoriamente residir em Guine-Bissau, durante o período do estágio que será de quatro a seis meses.

Inscrições

Apos o cadastramento do currículo no site, os candidatos devem enviar um e-mail para estagio.bissau(at)unesco.org.br, indicando a área de interesse. Mais informações sobre a parceria no endereço http://stageweb.unesco.org/

sexta-feira, 4 de março de 2011

Projeto de Arte Contemporânea ocorrerá em Campina neste mês

 "Eu e Maria Vasconcelos"- Obra de Gil Vicente um dos mais destacados artistas da atualidade

Da ASCOM/UEPB com Isa Paula Morais,  do PB1

Campina Grande receberá de 15 a 19 de março o Projeto Arte na Contemporaneidade: Pensamento, Criação e Ato, que tratá  à cidade o 1º Simpósio Internacional de Arte Contemporânea e o 1º Festival de Arte, reunindo artistas, professores e críticos de arte brasileiros e portugueses. A iniciativa acontecerá no Palácio das Artes Suellen Carolini, no bairro do Catolé.

O evento é organizado pela diretora de Arte e Mídia, Camila Geracelly Xavier, mestranda em Estudos Artísticos - Teoria e Crítica de Arte da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, em Portugal. Natural de Campina Grande, Camila se formou em Arte e Mídia pela UFCG. A organizadora contou que a motivação para realizar o evento na cidade adveio do desejo de contribuir com a formação de artistas, alunos e professores da área, além de fazer a população conhecer mais sobre arte contemporânea. “O projeto busca incrementar o movimento das atividades artísticas na cidade de Campina Grande fomentando assim o diálogo, a práxis artística e o desenvolvimento intelectual”, explicou.

O projeto tem parceria com a Funarte – Fundação Nacional das Artes e o Ministério da Cultura, participando do programa Rede Nacional Funarte Artes Visuais 7ª Edição. Dos 20 projetos selecionados em todo o Brasil, o ‘Arte na Contemporaneidade’ foi um dos seis aprovados na região Nordeste, sendo o único na Paraíba.

Mais informações no portal http://www.maquinarama.com.br/artecontemporanea/.

quinta-feira, 3 de março de 2011

O fetiche do Carnaval e os arlequins do capital


Por Aurelio Munhoz, da Revista Carta Capital

Recebi do companheiro Antonio Eduardo Loureiro Duarte um novo texto, brilhante, sobre um assunto do qual você talvez nunca tenha ouvido falar, mas que tem tudo a ver com seu cotidiano: a obsolescência planejada. Trata-se da estratégia de marketing, orquestrada por indústrias de bens de consumo, cujo propósito é induzir as pessoas a consumirem seus produtos continuamente, no menor intervalo de tempo possível.

Isto é feito com o emprego de um álibi sofisticado: a tecnologia. Alegando a necessidade de aprimorá-la continuamente e de baixar os custos das mercadorias, as fábricas produzem-nas com data de validade curta, mas jamais declarada ao freguês.

Se você já teve contato com mercadorias produzidas há 50 anos, quando o caldeirão de maldade das empresas ainda não havia incluído esta molecagem no cardápio dos brasileiros, sabe do que estou falando. Duravam décadas.

O problema é que a obsolescência planejada invadiu, há muito tempo, o campo da cultura. Por mais legítimas, ricas e populares que sejam, certas práticas culturais ganharam também uma aura exageradamente comercial, descartável, e se renderam ao pragmatismo do capital.

O Carnaval é uma delas. Não é apenas nossa maior manifestação cultural; é também um grande negócio, conduzido pela batuta da mídia, dos clubes e das escolas de samba. Estas, por sua vez, não são somente produto da aspiração popular; tornaram-se grandes empresas do entretenimento, engrenagens acionadas pelo lucro.

Em sua grande maioria, o Carnaval continua sendo feito por gente honesta, humilde, trabalhadora – foliões de alma e coração. Embalada por sua paixão, esta turma vara madrugadas nos barracões das escolas ensaiando seus sambas-enredo e confeccionando adereços e fantasias. Mas as escolas ganharam um ar mais artificial, caricato, teatral. Converteram-se também em vitrine para toda sorte de aventureiro do samba.

Não há nada de errado no fato de as escolas visarem lucros. O problema é outro: terem convertido os desfiles de Carnaval em passarelas para o brilho de celebridades midiáticas sem nenhuma vinculação com o samba, que muitas vezes pagam para mostrar suas curvas na TV, em detrimento dos verdadeiros e únicos heróis dos barracões: o povão.

Os donos das grandes escolas transformaram o Carnaval em um fetiche, no sentido marxista do termo: mercadoria que oculta a desigualdade pela aparência de igualdade. Afinal, as celebridades não vivem em favelas. O fato de estes personagens distintos dividirem a mesma avenida torna o Carnaval democrático, sem dúvida, mas, também, cínico.

Neste grande teatro criado em torno de uma das nossas maiores  festas populares, os mass media atuam ainda como arlequins do capital, personagens da commedia dell’arte cujo propósito era faturar um troquinho divertindo a massa nos intervalos das apresentações. Como hoje em dia.

“Para tudo se acabar na quarta-feira” é o nome de um samba de Martinho da Vila, um dos grandes do gênero. Assim como o Carnaval que ele homenageia na música, os personagens famosos da festa também desaparecem, depois do desfile das escolas. Pena que, alavancados pelo dinheiro e pela grande mídia, estes foliões de fachada ressurgem das cinzas da quarta-feira, no ano seguinte.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Florbela Espanca, um amar perdidamente


Por Gustavo Ranieri, da Revista Cult


Florbela Espanca trancou-se no quarto. Já passava das 2 da manhã. Que presente poderia querer ela naquele 8 de dezembro de 1930, seu 36º aniversário? Ninguém sabe. Ao marido, Mário Lage, deixou a recomendação de que não fosse incomodada até a manhã seguinte. E de fato nenhuma pessoa o fez, nunca mais. Naquela madrugada, deitada na cama, sem “haver gestos novos nem palavras novas” – como dias antes escrevera pela última vez no que havia intitulado de Diário do Último Ano – a poeta portuguesa suicidou-se ingerindo dois frascos do barbitúrico Veronal.

Desde então, ela é alvo de extensos estudos e biografias. A fama de transgressora, por ter desafiado os preceitos da sociedade – casou-se três vezes e frequentava a boemia, fumando e bebendo, por exemplo – transformou-se nas nomenclaturas precursora e feminista. E, se o reconhecimento, justamente por ser mulher, foi inferior ao que tiveram seus contemporâneos Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, hoje ocupa imenso destaque nos círculos literários.

Uma flor

Dores e dúvidas, às centenas, sobre díspares perspectivas da existência são tão recorrentes na vida e na obra de Florbela que até norteiam seu primeiro poema, “A Vida e a Morte”, escrito com precoces 8 anos de idade. Em outra frente, engano é reduzir a sofrimentos sua história. A menina miúda, de olhos negros e mente inquieta, experimentou as pequenas e grandes alegrias reservadas a qualquer ser humano.

Quando pequena, compartilhou com satisfação a vida em família, período em que vivia em Vila Viçosa, cidade onde nasceu. Mãe tinha duas: Antónia da Conceição Lobo e Mariana Toscano. A primeira, de sangue; a segunda, de criação.

Acontece que Mariana, a mulher legítima de João Maria Espanca, não podia engravidar. Para ser pai, ele recorreu a uma regra medieval, muito aceita pela sociedade portuguesa da época, que permitia ao homem, nesse tipo de situação, ter com outra os descendentes que seriam adotados pela esposa. A escolhida foi Antónia, empregada da residência, com quem João teve também outro fruto, Apeles Espanca, dois anos mais jovem que Florbela.

Embora trabalhasse na mesma casa, o contato íntimo entre mãe biológica e filha só existiu nos primeiros meses de vida, quando era amamentada. Para a docente e pesquisadora Renata Soares Junqueira, autora do livro Florbela Espanca – Uma Estética da Teatralidade, tal fato contribuiu muito para o direcionamento artístico da escritora. “Ela transpôs para os seus poemas a imagem da mulher triste, abandonada pela sorte desde o nascimento”, enfatiza ao mesmo tempo em que adverte para não se cometer o equívoco, todavia, de pressupor que seus relatos são invariavelmente biográficos. “Durante muitos anos a crítica se assenhoreou, com poucas exceções, em identificar nas entrelinhas de toda a poesia eventos da biografia de Florbela. Criou-se, assim, uma enorme confusão entre realidade e ficção. Temos de tomar cuidado para não confundirmos a vida com a obra.”

Primeiros passos

Para a escritora portuguesa, nunca importou se a mulher era vista com inferioridade pela sociedade machista. Se para a maior parte delas cabia apenas concluir a escola primária, Florbela aspirava por mais. Em 1908, aos 11 anos, foi uma das primeiras a ingressar no curso secundário do Liceu de Évora, cidade alentejana para onde seus pais se mudaram a fim de facilitar os estudos da filha.

Nesse mesmo ano, recebeu a notícia da morte de sua mãe Antónia da Conceição, de quem, mais do que características físicas, herdou a doença que viria a lhe perturbar todos os próximos anos: a neurastenia, causadora de transtornos psicológicos e muitas dores de cabeça.

Ainda adolescente, três eram as suas paixões: o irmão, com quem mantinha profundos laços fraternos; o pai, com quem dividia o gosto pela fotografia; e o colega de estudo Alberto Moutinho, um ano mais velho e o primeiro marido, em cerimônia oficializada em 1913, na data do aniversário de 19 anos da escritora.

Amar perdidamente

De matrimônio estabelecido, não é surpresa que Florbela não fosse a esposa subserviente. Dona de um temperamento forte, só fazia o que lhe agradava, principalmente escrever. “Ela era incapaz de viver submissa a um homem, por mais que o amasse. Não aceitava que o amor fosse o confinamento da mulher. E, mesmo casada, sempre lutou para publicar seus versos, atividade condenada por seus maridos”, destaca o brasileiro Fabio Mario da Silva, autor de Da Metacrítica à Psicanálise: a Angústia do “Eu” Lírico na Poesia de Florbela Espanca  e doutorando em literatura pela Universidade de Évora, Portugal, onde reside.

Mas amar, justamente, era o motor propulsor da escritora. Seja o que demonstrou nos versos, no esforço para publicar o primeiro título, Livro de Mágoas, em 1919, seja o carnal propriamente dito. Certo é que as maiores transformações de sua vida vieram à tona a partir dos 23 anos.

Em Lisboa, onde ingressou na Faculdade de Direito, viveu com intensidade a boemia e travou contato com outros autores, como José Schimidt Rau e Vasco Caméliet. Mas foi lá, todavia, que sofreu um grande dissabor: um aborto espontâneo. O acontecimento, seguido de uma profunda crise neurastênica e a instabilidade emocional da autora, resultou no fim do casamento, em 1921.

Recuperada, Florbela apaixonou-se por António Guimarães, oficial de artilharia da Guarda Republicana. Foi com ele que se casou em junho do mesmo ano. Mais uma vez, o amar a alimentava. Sentimento este que é agudo em sua obra e inato nas publicações subsequentes, Livro de Soror Saudade (1923) e Charneca em Flor (1930), em versos como: “Eu quero amar, amar perdidamente! / Amar só por amar: Aqui… além… / Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente… / Amar! Amar! E não amar ninguém!”.

Mas o novo casamento durou pouco mais de três anos, até 1925, período marcado por um segundo aborto involuntário e novas crises de saúde. O amar, embora contido em toda a obra, revelava-se na vida real mais turbulento do que nos versos.

Antes mesmo de oficializar o segundo divórcio, porém, Florbela passou a dividir uma casa com sua mais nova paixão: o médico Mário Lage. Em sua companhia, sofreria a maior perda: a morte do irmão, Apeles, em 1927, em um acidente com o hidroavião que ele pilotava.

Sou eu!

Florbela está entregue às graves crises da doença que lhe acomete desde a adolescência. E, se não bastasse, é diagnosticada com edema pulmonar. Mesmo assim, fuma e emagrece demais. Alegra-se com flores e livros. O ano é 1930, o último.

Sem querer pertencer a qualquer estilo literário, continua a produzir incessantemente contos, traduções de romances franceses, e a colaborar em revistas femininas. Em seus versos, deixa perpassar o erotismo que revoluciona ao trazer a mulher ao domínio da relação. O que também provoca um olhar de desconfiança e preconceito da crítica.

Todavia, a Florbela Espanca de carne e osso não se importa com mais nada. É dela a melhor definição de quem foi e ainda existe: “O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades… sei lá de quê!”