terça-feira, 30 de novembro de 2010

"Bach é o início e o fim de toda a música", diz regente

Exímio Organista - Bach dirigiu a  Orquestra Gewandhaus, de Leipzig, até sua morte

Por Marcos Flamínio Peres
Bach não daria um filme. Não tem a precocidade e a leveza encantadora que salta aos ouvidos em Mozart nem a potência das massas sonoras e a sina do gênio perturbado de Beethoven.
Mas esse exímio e pacato organista de província de uma provinciana Alemanha, "foi o início e o fim de toda a música". Assim o define Georg Christoph Biller, regente do coro da igreja de St. Thomas e da Orquestra Gewandhaus, de Leipzig.
Com 800 anos de existência, ela foi dirigida por 27 anos pelo próprio Bach (1685-1750), até sua morte.
No programa do concerto, promovido pelo Mozarteum e Instituto Goethe-SP, uma só peça: a "Missa em Si Menor" (BWV 232) -"o testamento musical de Bach, no qual reúne toda a força de sua criação", diz Biller.


Por que Bach é tão importante ainda hoje? A grandiosidade de sua produção seria possível fora do contexto da religião luterana? 

Georg Christoph Biller - Ele é importante porque fascina pessoas dos mais diferentes credos e culturas. De fato, o protestantismo, com sua ideia de "música para honrar a Deus", era uma importante fonte de composições para Johann Sebastian Bach. Mas sua genialidade também teria se desenvolvido dentro de quaisquer outros credos.

A que se deveu o ostracismo de sua obra até a "redescoberta", pelo músico Mendelssohn, no século 19?  

Bach foi quase esquecido após a sua morte, porque nesse período não se dava tanto valor ao cultivo da música mais antiga, como hoje. Não somente Mendelssohn, mas também outros de sua época foram, no início do século 19, considerados como música de tempos passados.

Como definiria a importância, para a história da música erudita, dos "três grandes" -Bach, Mozart e Beethoven?

Em cada um deles, alguma coisa sobressai. Mozart tem como ponto alto a leveza do clássico vienense; Beethoven é o marco do período romântico; já Bach é o início e o fim de toda a música.

As gravadoras dizem que música erudita não vende bem. Ela é um gênero em declínio?

Estará em perigo se os jovens não forem atraídos, e só se sentirão atraídos se já tiverem conhecimento prévio.

O que fazer, então, para ampliar seu público?

Para atrair o público jovem, deveria haver, por exemplo, concertos "lounge" -parecidos com "jam sessions", mas que, ao mesmo tempo, mantêm a literatura clássica. Concertos "participativos" também podem levar a aumento de público.

Qual sua maior obra?

No momento, a "Missa em Si Menor". 

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Taperoá promoverá 1º Festival Cariri Mostra Artes do Povo

Ariano Armorial - Ícone do movimento que criou uma arte erudita a partir da cultura nordestina, um dos filhos mais festejados de Taperóa abrirá o evento


A cidade de Taperoá se prepara para a realização do 1º Festival Cariri Mostra Artes do Povo e para o 1º Seminário Cariri Paraibano: Território Articulado como Espaço de Cultura, Desenvolvimento e Cidadania. Os eventos serão realizados entre os dias 9 a 12 de dezembro. A palestra de abertura será com o escritor paraibano (natural de Taperoá), Ariano Suassuna.

Os eventos estão sendo organizados pelo Pontão de Cultura Cariri Território Cultural, Prefeitura de Taperoá e Fórum de Cultura e Turismo do Cariri Paraibano, em parceria com Sebrae e Governo do Estado da Paraíba, entre outros órgãos e entidades.

Durante três dias, grandes nomes e pensadores da cultura brasileira, mestres da cultura, artesãos e representantes de pontos de cultura, ONGs e manifestações da cultura popular participarão das discussões em Taperoá.

Além do escritor Ariano Suassuna, que abrirá o encontro no dia 10, artistas de renome nacional como os cantores e compositores paraibanos Zé Ramalho, Vital Farias e Chico César, devem participar do evento, que discutirá a identidade cultural da população do Cariri da Paraíba. É possível que o encerramento, no dia 12, seja feito pelo ministro da Cultura, Juca Ferreira. A inciativa reunirá secretários de cultura de vários estados do Nordeste.

As ações incluem um conjunto de atividades de caráter cultural, econômico, educacional, turístico, social, ambiental e promocional, constituindo-se num espaço referencial de debates, reflexões, exposições e deliberações em torno de um programa de desenvolvimento sustentável da região através da cultura.

Serão apresentadas experiências e intercâmbio do Cariri paraibano com regiões do Rio Grande do Sul, Vale do Jequitinhonha, Cariri Cearense, Agreste pernambucano, Seridó do Rio Grande do Norte , Região Amazônica, entre outras regiões do país.

Todas essas iniciativas vão contribuir para a formação de redes de promoção das atividades culturais de forma articulada para transferências de tecnologias e metodologias construídas pelo Pacto Novo Cariri, que vem tornando a região do Cariri Paraibano em referência nacional em gestão compartilhada e espaço de cultura, desenvolvimento e cidadania.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Arte sem arte

Igual a todo mundo - Escritor não acredita que todas as pessoas possam ter talento semelhante ao de Vincent van Gogh

Por Ferreira Gullar

Não tenho a pretensão de estar sempre certo no que escrevo, nas opiniões que emito, muito embora acredite seriamente nelas.
Não foi à toa que, de gozação, me apelidaram de profissional do pensamento, por tanto atazanar os amigos com minhas indagações e tentativas de explicação. Por isso também volto a certos temas, desde que descubra, ao repensá-los, modos outros de enfocá-los e entendê-los.
Se há um tema sobre o qual estou sempre indagando é a situação atual das artes plásticas, precisamente porque exorbitaram os limites do que -segundo meu ponto de vista- se pode chamar de arte. Sei muito bem que alguém pode alegar que arte não se define e que toda e qualquer tentativa de fazê-lo contraria a natureza mesma da arte.
Esse é um argumento ponderável e muito usado ultimamente, mas acerca do qual levanto dúvidas. Concordo com a tese de que arte não se define, mas não resta dúvida de que, quando ouço Mozart, sei que é música e, quando vejo Cézanne, sei que é pintura. Logo, a dificuldade ou mesmo a impossibilidade de definir o que é arte não elimina o fato de que as obras de arte têm qualidades específicas que as distinguem do que não o é.
Do contrário, cairíamos numa espécie de vale-tudo, numa posição insustentável mesmo para o mais radical defensor do que hoje se intitula de arte contemporânea.
Isto é, o sujeito teria de admitir que uma pintura medíocre tem a mesma qualidade expressiva que uma obra-prima e que ele mesmo teria de se obrigar a gostar indistintamente de toda e qualquer coisa que lhe fosse apresentada como arte. Por mais insensato que possa ser alguém na defesa de uma tese qualquer, não poderia evitar que esta ou aquela coisa que vê ou ouve ou lê tenha a capacidade maior ou menor de sensibilizá-lo, emocioná-lo ou deixá-lo indiferente.
Creio não haver dúvida de que, seja ou não possível definir o que é arte, há coisas que nos emocionam ou nos fascinam ou nos deslumbram e outras que nos deixam indiferentes.
Se se der ou não a tais coisas a qualificação de arte, pouco importa: é inegável que a "Bachiana nº 4" é belíssima e que um batecum qualquer não se lhe compara, não nos dá o prazer que aquela obra de Villa-Lobos nos dá.
Do mesmo, um desenho de Marcelo Grassmann me encanta e um desenho medíocre me deixa indiferente. Mas um artista conceitual -ou que outras qualificação se lhe dê- responderá que esta visão minha é velha, ultrapassada, pois ainda leva em conta valores estéticos, enquanto a nova arte não liga mais para isso. Mas pode haver arte sem valor estético? Arte sem arte?
Essa pergunta me leva à experiência radical de Lygia Clark (1920-1988), sob muitos aspectos antecipadora do que hoje se chama arte conceitual.
Dando curso à participação do espectador na obra de arte -elemento fundamental da arte neoconcreta-, chega à conclusão de que pode ele ir além, de espectador-participante a autor da obra, bastando, por exemplo, cortar papel ou provocar em si mesmo sensações táteis ou gustativas. Assim atingimos, diz ela, o singular estado de arte sem arte.
De fato, esse rumo tomado por alguns artistas resultou da destruição da linguagem estética e na entrega a experiências meramente sensoriais, anteriores portanto a toda e qualquer formulação.
Descartando assim a expressão estética, concluíram que se negar a realizar a obra é reencontrar as fontes genuínas da arte. E, se o que se chama de arte é o resultado de uma expressão surgida na linguagem da pintura, da gravura ou da escultura, buscar se expressar sem se valer dessa linguagem seria fazer arte sem arte ou, melhor dizendo, ir à origem mesma da expressão.
Isso nos leva, inevitavelmente, a perguntar se toda expressão é arte. Exemplo: se amasso uma folha de papel, o que daí resulta é uma forma expressiva; pode-se dizer que se trata de uma obra de arte? Se admito que sim, todo mundo é artista e tudo o que se faça é arte.
Já eu considero uma piada achar que todas as pessoas têm o mesmo talento artístico de Leonardo da Vinci e de Vincent van Gogh ou que esse talento seja apenas mais um preconceito inventado pelos antigos. As pessoas são iguais em direitos, mas não em qualidades.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Despedidas Virtuais


Por Contardo Calligaris - Psicanalista italiano radicado no Brasil, é doutor em Psicologia Clínica pela Universidade da Provença (França) e autor de diversos livros

No sábado passado, no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, Xico Sá, Bebel Bertuccelli e eu comentamos os resultados de uma pesquisa, realizada pela Nokia, sobre a relação dos brasileiros com as ferramentas sociais da era digital.
Uma das perguntas da pesquisa dizia: "Você já terminou ou já terminaram um relacionamento com você via internet ou por mensagem de celular?".
Responderam positivamente 15% dos entrevistados. Já antes do debate, essa história de namoros terminados com uma mensagem virtual fez que eu fosse repetidamente consultado: o que achava desse horror tecnológico, hein?
Pois é, tendo a considerar esse tipo de despedida virtual com uma certa simpatia.
1) Em geral, aceitamos que, para muitos homens e mulheres, seja mais fácil encontrar alguém no mundo virtual do que no mundo real. Entendemos, por exemplo, que, na hora de seduzir, os tímidos, retraídos, acanhados ou inibidos soltem mais facilmente os dedos no teclado do que a palavra num encontro cara a cara.
Nota: seria injusto contrapor os que preferem o virtual aos que preferem o real como se os primeiros fossem mentirosos e, os segundos, honestos e sinceros. Virtual ou real, o encontro inicial é quase sempre um jogo em que se trata de convencer o outro de que somos alguma coisa que nem nós acreditamos ser. Quem prefere teclar talvez se esconda graças à distância, mas quem prefere falar ao vivo não abre sua alma: apenas desprende a lábia.
2) Se aceitamos que o virtual facilite a abordagem e as primeiras trocas, por que não deixaríamos que o virtual facilite também as despedidas? De fato, o virtual permite que os tímidos, os retraídos etc. declarem sua vontade de se separar, e isso sem medo de encarar torneios verbais que eles perderiam e que produziriam tentativas culpadas, penosas e infinitas de "reatar mais uma vez".
3) No começo de uma relação amorosa, o virtual talvez sirva para mentir melhor; no fim de um amor, ele pode ajudar a dizer a verdade, ou seja, a reconhecer, enfim, que uma relação está continuando apenas como mentira compartilhada.
4) Em média, a dificuldade em "encontrar alguém" não é maior do que a dificuldade em se separar quando uma relação não vale mais a pena.
5) Os tempos de solidão, durante a procura frustrada de um parceiro ou de uma parceira, são tão longos quanto os tempos de solidão de parceiros que vivem sem paixão, sem amizade e, às vezes, no rancor.
6) A insatisfação de quem procura um amor é esperançosa, enquanto a vida dos que não conseguem se separar é resignada.
7) Um SMS ou um e-mail de despedida podem surpreender quem os recebe, mas só como a revelação de algo que ele já sabia e, por alguma covardia, não confessava nem a si mesmo: ninguém termina virtualmente um amor que não esteja realmente morto.
8) Às vezes, sobretudo (mas não só) nas mulheres, a reação de quem recebe a mensagem de despedida é um pensamento delirante: o outro se separa de mim por SMS porque, se aparecesse na minha frente, ele teria que se render ao amor que ele ainda sente por mim (ele não sabe, mas eu sei que ele sente). Nesse caso, salve-se quem puder.
9) Toda separação é, no mínimo, a perda de um patrimônio comum de experiências e memórias. A dor dessa perda é frequentemente projetada no outro: digo que não posso ou não ouso me separar por e-mail ou SMS porque não quero machucar o outro, enquanto, de fato, é minha dor que quero evitar -com isso, eternizo o declínio da relação e o sofrimento do casal.
10) A convivência numa relação morta é um limbo confortável: para ambos, uma espécie de trégua do desejo. A separação apavora com a perspectiva de voltar a desejar. Antes de mandar um fatídico SMS, alguém hesita: "Vai ser difícil voltar à ativa com a minha idade" -e vai ser mesmo. Ou, então, pergunta: "E se eu ficar sozinho?"; resposta: "Mas você já está sozinho, há tempos".
Moral da história. É bom tentar tudo o que der para que uma relação vingue. Quando ela não vinga (mais), é bom ousar se separar. E deveríamos agradecer os parceiros que nos mandam um SMS lacônico e brutal, "Valeu, beijão e sorte". Pois, desprendendo-se, eles nos libertam e encurtam um processo no qual poderíamos perder anos da vida.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Folha seleciona projetos versando sobre a História do Jornalismo


A Folha deu início à segunda edição de seu concurso de incentivo a pesquisas sobre a história do jornalismo brasileiro.
Como em sua primeira edição, encerrada em abril deste ano, o concurso Folha Memória vai selecionar três projetos de pesquisa e premiar os seus autores com uma bolsa para cada um.
Nos seis meses em que receberão a bolsa, de R$ 2.400 mensais, os candidatos deverão conduzir sua pesquisa com rigor acadêmico e transformá-la em um texto de interesse geral e caráter jornalístico. O melhor dos três textos será publicado em livro editado pela Publifolha, e seu autor ganhará um laptop.
A seleção dos três bolsistas e a do melhor trabalho ficará a cargo de duas bancas distintas, cada uma composta por um jornalista da Folha, um especialista convidado e um representante da Pfizer, que patrocina o concurso.
Os projetos inscritos podem ter como tema a investigação de fenômenos de qualquer época do jornalismo do país e não precisam ficar restritos a um meio específico -podem ser estudados veículos impressos, on-line etc.
A inscrição deve ser feita na internet, até 17 de dezembro (www.folha.com.br/1028819). No site está disponível o regulamento do Folha Memória.

PRIMEIRA EDIÇÃO
A primeira edição do concurso, lançada em maio do ano passado, recebeu a inscrição de 461 projetos.
A vencedora foi a jornalista Flávia Péret, 31, com o trabalho, "Imprensa Gay no Brasil - Entre a Militância e o Consumo".

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A turbulenta vida familiar do casal Tolstói


Por Bernardo Carvalho, do Caderno Ilustríssima
Ilustração: Marcelo Comparini

 A "beatificação" do autor de "Anna Kariênina" e o estigma de "megera" de sua mulher reforçaram a mística em torno do casal Tolstói. Em textos de Liev, contra o casamento e a hereditariedade, e nos diários de Sofia, marcados pelo ciúme e pela devoção, aflora a peculiar visão de amor, sexo e vida familiar do mestre russo.
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O CASO FAZ PARTE do anedotário da literatura universal: na madrugada de 28 de outubro de 1910, aos 82 anos (48 deles casado), Liev Tolstói (1828-1910) abandona para sempre a propriedade rural da família, Iásnaia Poliana, onde nasceu e onde será enterrado dias depois, a 200 km a sudoeste de Moscou. Como o protagonista de sua novela "Padre Sérgio" (1898), pensa em se refugiar num mosteiro distante ou numa ermida e lá, longe da mulher, Sofia Andrêievna, viver finalmente em paz.
Não é a primeira vez que foge (ou ameaça fugir) de casa. Vinte e seis anos antes, quando a mulher entrava em trabalho de parto (pela 15ª gravidez), o escritor saiu de casa para fazer a vida na América. E voltou horas depois, a tempo de ver a criança nascer.
"Ele estava passando por sua conversão -para o Cristianismo! Só que nesse Cristianismo, o martírio era meu", escreve Sofia Andrêievna nos diários recém-publicados em inglês, pela Harper Perennial, com tradução de Cathy Porter e prefácio de Doris Lessing.
 
ATO PATÉTICO Ao acordar e ler a carta de despedida (desta vez, definitiva) do marido, ela decide se afogar. Está com 66 anos. Atira-se num tanque. O ato patético e intempestivo lembra mais uma cena do filme "A Última Noite de Bóris Grushenko", de Woody Allen, do que um texto do autor de "Anna Kariênina". Não é a primeira vez que ela tenta o suicídio. Nas anteriores, além do tanque, recorreu à inanição, à overdose por ópio e à morte por congelamento, indo deitar-se na neve depois de uma briga conjugal.
Retirada das águas pela filha mais jovem, Aleksandra, de 26 anos, e pelo secretário do marido, ela passa dias delirando, aos prantos, até receber o telegrama de um jornalista caridoso que revela enfim à família o paradeiro do escritor - conhecido até então apenas pela caçula, que tinha razões de sobra para escondê-lo da mãe.
"Serei grata até a morte ao correspondente do jornal 'A Palavra Russa'", escreverá anos depois a filha mais velha, Tatiana, num opúsculo publicado em francês, em 1928 ("Sur Mon Père", Editions Allia), para salvar a reputação dos pais - na verdade, mais do pai do que da mãe: "Se hoje saio do silêncio, é porque apareceram certos livros [...] que pintam um quadro falso das relações entre meus pais e, de minha mãe, um retrato deformado pela parcialidade". Ainda assim, não vai se conter em sentenciar sobre a mãe: "Esse ser doente, profundamente infeliz e moralmente só, me causava a maior piedade. [...] A culpa da solidão era dela".
 
DEMÔNIO Informada pelo telegrama, Sofia parte às pressas, com os filhos, para Astapovo, onde uma pneumonia obrigou o marido a abortar a fuga -e onde ele agoniza, com febre de 40º C, na casa do chefe da estação de trem. Só vai conseguir vê-lo quando ele já estiver inconsciente. Como se escoltassem o demônio, os próprios filhos preferem mantê-la longe do pai, ao qual reservam tratamento de santo. "Retiveram-me à força, trancaram a porta, atormentaram meu coração", ela desabafa ao diário dias depois, já viúva.
As circunstâncias da fuga de Tolstói são conhecidas (em seu diário, ele exprime a revolta e a repugnância de pegar a mulher vasculhando entre seus papéis pessoais, na véspera, às escondidas - não é a primeira vez, é claro, nem o pior que ela já fez).
A julgar pelo testemunho da filha Tatiana, Sofia vai passar os nove anos que lhe restam depois da morte do marido preocupada em limpar o nome: "A calma veio para ela nesses últimos anos. [...] Era menos estrangeira às ideias de meu pai. Tornou-se vegetariana. [...] Mas conservou uma fraqueza: [...] temia por sua reputação. E assim não perdia a oportunidade de justificar suas palavras e seus atos". Não obstante, ainda terá forças para, pouco antes de morrer, durante a guerra civil que sucede à Revolução de 1917, encantar-se com os rapazes mais prestativos do Exército bolchevique acampados em suas terras.
 
RAZÃO Contra tudo o que já se disse, a voz convincente dos diários vem dar alguma razão a essa figura condenada pela história a não ter razão nenhuma, megera histérica e intratável, principal estorvo na vida do santo escritor e de seu projeto de despojamento dos valores burgueses e dos interesses materiais.
A publicação simultânea, na França, da autobiografia inédita, "Minha Vida" (Editions des Syrtes), e de uma nova tradução do único romance que Sofia Andrêievna escreveu, "De Quem é a Culpa?", relançado pela editora Albin Michel como "uma resposta a Liev Tolstói e a 'A Sonata a Kreutzer'" (novela na qual o escritor apresentava uma visão idiossincrática sobre as mulheres casadas e o sexo), faz pensar no sentido de oportunidade revisionista dessas edições como um efeito de certo modo tardio e desesperado dos estudos culturais e de gênero.
Como se, além de pôr em dúvida a canonização do autor por ocasião dos cem anos de sua morte, já não restasse nenhuma outra forma possível de resistência ou dissonância ao consenso natural que vai se formando em torno do realismo da obra de Tolstói como paradigma absoluto para uma literatura que precisa superar os questionamentos pós-modernos e se massificar para sobreviver.
 
MOÇA INEXPERIENTE Quando ele se apaixona por Sofia Behrs, filha de um médico do Kremlin cuja família vai lhe servir de modelo para os Rostov de "Guerra e Paz", tem 34 anos e ela é uma moça inexperiente de 18. Antes de se assentar na propriedade rural de 1.600 hectares e 300 servos, o jovem conde levou uma vida de prazeres em Moscou e São Petersburgo (à qual a mulher vai se referir como "as abominações do seu passado"), viajou pelo Cáucaso e participou como oficial do Exército russo na Guerra da Crimeia (1854-56).
Mesmo antes de escrever as obras-primas "Guerra e Paz" e "Anna Kariênina", já era um escritor respeitado. Quando se encontram, Sofia está acompanhando a mãe e os irmãos numa visita ao avô, vizinho de Tolstói. Dois meses depois, estarão casados. Duas semanas depois de casados, ele lhe dirá que já não confia no seu amor. E em dois meses, ela estará grávida.
A primeira gravidez é o batismo de fogo. Sofia passará por outras 15 até os 44 anos. E a provação só vai aumentar conforme também forem se agravando as contradições do ascetismo cristão prescrito pelo marido. Um ascetismo que, embora não lhe impeça o sexo fora do casamento (Tolstói teve um filho, Timofei, com uma camponesa, Aksínia, que vivia em suas terras) nem as crises de ciúmes, condena a contracepção e restringe o sexo matrimonial a fins reprodutivos, banindo-o durante a gravidez: "Ele não me deixa entrar em seu quarto [...]. Tudo o que é físico o enoja. [...] A verdade cruel é que a mulher só descobre se o marido realmente a ama quando está grávida".
 
CIÚME Sofia se martiriza lendo o diário do marido às escondidas. É um costume incontrolável, que ela manterá até o fim: "Procuro com avidez [...] alguma referência ao amor, e fico tão atormentada pelo ciúme que já não consigo ver nada claro". Vai acabar encontrando: "Não existe amor, apenas a necessidade física do sexo e a necessidade prática de uma companheira de vida", ela lê no diário do marido. E responde no seu: "Quem me dera tivesse lido isso há 29 anos, então nunca teria me casado com ele".
Os diários de Sofia revelam o escritor como a maior vítima dos próprios instintos: "Liovochka (diminutivo de Liev) me acordou esta manhã com beijos apaixonados [...]. Sucumbi à libertinagem mais imperdoável - na minha idade! [47 anos] Estou tão triste e envergonhada! [...] Que homem estranho é o meu marido! Na manhã seguinte a uma cena terrível entre nós dois, ele diz que me ama de paixão. Diz que está completamente sob o meu domínio e que nunca imaginou serem possíveis tais sentimentos. Mas é tudo físico".
Em outra ocasião, referindo-se à filha Aleksandra, ela comenta: "Se ao menos ela soubesse como o 'papai' dela ficava animado depois de desfrutar do amor que ele nega!".
Com 18 anos, Sofia ainda esperava que o nascimento do primeiro filho pudesse resgatá-la do martírio. Era só o início de um ciclo. Quando nasce Sergei, ela não consegue amamentá-lo, por causa de uma inflamação nas mamas. Tolstói se recusa a chamar uma ama de leite; acha que é dever da mãe amamentar a criança. Dois anos depois, tendo dado à luz a filha Tatiana, ela desabafa ao diário: "Agora estou bem de novo e não grávida -fico aterrorizada só de pensar na frequência em que estive nesse estado".
E, alguns anos mais tarde: "Pensar nesse novo bebê me enche de tristeza; meus horizontes se estreitaram tanto e meu mundo é um lugar tão pequeno e lúgubre". Dos 13 filhos do casal que sobreviverão ao parto, 11 serão amamentados pela mãe.
 
MANUSCRITOS Logo, entretanto, ela vai encontrar uma função além de procriar, amamentar, educar os filhos e administrar a propriedade: passa a datilografar os manuscritos do marido, obsessiva e incessantemente. É outra maneira de dar sentido ao casamento. "Liovochka estava mais carinhoso hoje. Chegou a me beijar pela primeira vez em dias. Estou copiando sem parar e fico feliz por ser de alguma utilidade."
Quando Tolstói termina "Guerra e Paz", ela relata: "Liovochka passou o inverno escrevendo, irritadiço e excitado, muitas vezes com lágrimas nos olhos". A depressão, o temor da morte e a crise espiritual vão ganhando a alma do escritor. Ele abre uma escola para os camponeses, começa a escrever "Anna Kariênina", o filho Nikolai morre de meningite com apenas 10 meses e Sofia perde uma filha no parto.
É inevitável ver na equação conflituosa e contraditória do ascetismo cristão defendido pelo autor da célebre abertura de "Anna Kariênina" ("Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira") um círculo vicioso e uma explicação possível para a sua inaptidão à vida familiar: o horror da iminência da perda, a ameaça de um sofrimento potencial que o maior número de filhos só faz renovar e que será confirmada pela morte prematura, em 1895, do temporão Ivan, adorado pelo casal, marcando com tintas trágicas os últimos 15 anos da vida do escritor. "A cada nova criança, sacrificamos um pouco mais de nossa vida e aceitamos um ônus ainda mais pesado de aflições e doenças", Sofia escreve no diário.
 
HUMILHAÇÃO PÚBLICA É difícil não pensar também nesse horror como o que está por trás da visão tão peculiar e paradoxal que ele vai acabar exprimindo sobre o casamento, a mulher e o sexo em "A Sonata a Kreutzer" - e que Sofia receberá como uma humilhação pública. O amor é insuportável, porque é a iminência da perda. É a própria perspectiva do amor individual (e de suas consequências) que o leva ao cúmulo de prescrever a abstinência sexual no casamento, contradição que só se resolve no ideal do amor universal.
O conflito se torna insustentável conforme Tolstói vai percebendo a incompatibilidade entre seus ideais e a realidade da vida familiar, que a mulher, cuidando dos filhos e da propriedade, passa a representar. Realidade que ele associa aos valores burgueses e, em última instância, à injustiça e à desigualdade social da Rússia czarista. O escritor passa a pregar o amor desinteressado pela humanidade, sem objeto definido, sem família. É o momento da "conversão".
Quanto mais a mulher assume as responsabilidades da casa (ocupando-se das doenças e da educação dos filhos, da administração da propriedade e dos direitos autorais das obras do marido), mais ele rejeita tudo o que é material. Aos poucos, também a literatura vai dando lugar aos panfletos e artigos de cunho religioso e social, a ponto de fazer o autor renegar os próprios romances como moralmente irresponsáveis.
Contra a truculência e a corrupção do Estado e da Igreja Ortodoxa, ele propõe um ascetismo incompatível com sua posição de proprietário de terras, tendo que sustentar mulher e uma prole que não para de crescer: "Hoje ele gritou [...] que o seu maior desejo é abandonar a família".
PAPEL INGRATO Num cabo de guerra progressivo e silencioso, o escritor vai lutar para impor à mulher seu desejo de abrir mão dos direitos de propriedade, inclusive intelectual, condenando-a ao papel ingrato de matriarca insanamente apegada aos bens materiais em nome do futuro dos filhos. Ao principal discípulo e interlocutor, Vladimir Tchertkov, ele descreve a relação com Sofia como "uma luta até a morte".
E ela se queixa ao diário: "Todos nesta casa - especialmente Liev Nikoláievitch, que as crianças seguem como um rebanho de ovelhas - me impingiram o papel de carrasco. [...] Pergunto-me por que já não acredito cegamente nele como escritor. [...] Liovochka tem agora apenas dois assuntos extremos de conversa: contra a hereditariedade e a favor do vegetarianismo".
Aos poucos, Iásnaia Poliana se transforma em centro de peregrinação dos discípulos do escritor que Sofia identifica a fanáticos e aos quais chama "obscuros": "Não há entre eles um único normal. E a maioria das mulheres é histérica" (ironicamente, será o principal deles, Tchertkov, que, levando a obra do mestre para o exílio inglês, vai salvá-la da sanha destruidora do obscurantismo czarista).
 
SONATA É nessa época que Tolstói ouve o filho Sergei ao piano, tocando a "Sonata a Kreutzer", de Beethoven, acompanhado pelo professor de música ao violino. Em 1890, a novela homônima é publicada, sendo em seguida censurada e oficialmente proscrita. Humilhada pela condenação veemente que o marido faz da vida matrimonial, Sofia reage, escrevendo o romance "De Quem é a Culpa?", publicado postumamente.
"A Sonata a Kreutzer" conta a história de um homem que assassina a mulher, por ciúme. O personagem desfere um ataque radical ao casamento: "O inferno terrível, em consequência do qual aparecem bebedeiras, assassínios, o envenenamento de si mesmo ou do cônjuge [...] Insisto: todos os maridos que vivem como eu vivia têm que se entregar à devassidão, divorciar-se ou matar a si mesmo ou a esposa, como eu fiz".
E sobre o sexo: "Observe o seguinte: os animais unem-se unicamente quando podem engendrar uma descendência, e o imundo rei da natureza, sempre que lhe apraz. E, como se fosse pouco, eleva essa ocupação simiesca a pérola da criação, a amor".
Ainda assim, é Sofia quem vai tomar a iniciativa de pedir uma audiência ao czar, em São Petersburgo, para pleitear a suspensão da censura à novela do marido. Quando o czar lhe pergunta se ela deixaria os filhos lerem um livro como aquele, ela responde: "A história tomou infelizmente uma forma demasiado radical, mas a ideia fundamental é que o ideal da castidade absoluta é inatingível". E lhe assegura que o marido está disposto a deixar de lado os textos religiosos e filosóficos e voltar à literatura. "Seria ótimo! É um grande escritor!", o czar responde. E a publicação de "A Sonata a Kreutzer" é liberada.
 
IMPASSE Os textos doutrinários de Tolstói fazem crer que o escritor abriu mão da literatura por um ideal moral superior e ascético de justiça para o mundo. O que se depreende dos diários de Sofia é, ao contrário, que a descrença do escritor na literatura era resultado do impasse ao qual fora condenado pela própria loucura. Nas últimas semanas antes da fuga, ele andava lendo "Os Irmãos Karamázov" e achando os diálogos ruins.
"Acredito em bons e maus espíritos. O homem que eu amo foi possuído por maus espíritos, mas não sabe disso. Sua influência é perniciosa: seu filho está sendo destruído, suas filhas estão sendo destruídas, assim como todos os que entram em contato com ele", ela desabafa num dos instantes de maior desalento. E, sem perceber, descreve o que está na base do desespero do escritor.
"Um cristão só pode contrair matrimônio sem cometer pecado no caso de saber que todas as crianças que existem têm a vida assegurada", Tolstói escreveu no comentário a "A Sonata a Kreutzer". Estava falando da miséria do mundo, é claro.
Mas não é preciso chegar ao extremo de reduzir sua imagem pública de santidade e ascetismo a mera vaidade e egoísmo, como faz Sofia Andrêievna em sua exasperação cega, para entender que, se ele chegou à verdade terrível e autopunitiva dessa frase, foi porque também amou e viu a morte dos próprios filhos, dentro de casa.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Eder Jofre e a melancolia do boxeur

A Força do Sucesso - Em novembro de 1960, o pugilista Éder Jofre tornava-se campeão mundial dos pesos-galo, em Los Angeles

Por Eduardo Ohata, do Estadão

Presente em todas as listas dos maiores boxeadores da história, o bicampeão mundial Eder Jofre rememora os 50 anos de seu título peso-galo sem desfrutar de real popularidade no Brasil. Desconhecido pelas novas gerações e recolhido à vida doméstica, Jofre defende seu legado e clama pela valorização do esporte no país.

O MEXICANO OLHA o brasileiro de alto a baixo. Em silêncio, o público do Olympic Auditorium, em Los Angeles, nos EUA, fita as três figuras no centro do ringue: os dois pugilistas e o árbitro, que lhes passa as instruções finais. Estão previstos 15 assaltos para decidir de quem será o título mundial da categoria galo, que reúne lutadores com até 53,5 kg.
Eles não demoram a começar a troca de sopapos: primeiro, um golpe forte, de esquerda, atinge a cabeça do mexicano, que revida com dois ganchos no corpo do brasileiro; mais um "jab" -golpe preparatório de esquerda- e acaba o assalto.
O mexicano volta para o seu corner com o lábio superior cortado. A caminho do ringue, o brasileiro ouve a pior vaia de sua carreira: 10 mil mexicanos tinham atravessado a fronteira com os Estados Unidos para torcer contra ele. A seu lado, os brasileiros são apenas 500, se tanto.
Apesar da recepção hostil, o brasileiro cumprimenta a plateia. Lá estão os atores Kirk Douglas e George Raft. O melhor pugilista da história, "Sugar" Ray Robinson, também está lá.
O mexicano começa o segundo assalto ainda mais agressivo. Procura o corpo a corpo, a troca franca de golpes. Em dois minutos, "acusa" o direto de direita do brasileiro, mas revida com dois ganchos no corpo do rival.
A partir do terceiro assalto, o brasileiro força o ritmo. Evita o corpo a corpo, ora no centro do tablado, ora com as costas contra as cordas, bombardeando sem trégua o mexicano. O barulho do público é ensurdecedor.
No quarto assalto, fica patente o domínio do brasileiro, que castiga, alternadamente, corpo e rosto do adversário. Sem querer, o mexicano acerta-lhe um golpe baixo. O brasileiro não se incomoda e prossegue com a saraivada de golpes. Finaliza o assalto com um potente golpe de direita.
Ali perto, o pai e técnico do brasileiro sente que o fim está próximo. Antes do quinto assalto, berra para o filho: "Capricha na direita que ele desce!".
E assim é. Com uma direita, ele faz o mexicano estremecer no centro do ringue. Então desfere duas esquerdas: o mexicano se ajoelha.
No assalto seguinte, desesperado, o mexicano tenta o nocaute. Sob os gritos alucinados do público, a dupla troca golpes em um dos corners.
O nocaute vem na forma de uma combinação de gancho de esquerda, no fígado, e um cruzado de direita que acerta em cheio a mandíbula do mexicano.
Fim da luta. É a consagração do clã Jofre-Zumbano, que produziria, nos próximos 50 anos, 28 pugilistas.

50 ANOS Naquele 18 de novembro de 1960, quase meio século atrás, em apenas seis dos 15 assaltos previstos, Eder Jofre conquistou o título galo da Associação Mundial de Boxe (AMB).
Eloy Sanchez, o mexicano, surpreendera o mundo do pugilismo ao colocar na lona o grande campeão mundial Joe Becerra, em Ciudad Juárez, no México. Até então, não passava de um desconhecido.
Nocauteado pela primeira vez, Becerra abriu mão do cinturão e se aposentou. A AMB, então, incluiu Sanchez no ranking e anunciou que o vencedor de seu confronto com Eder seria reconhecido como campeão mundial.
Nem mesmo um presidente da República jamais teve a recepção que Eder recebeu ao voltar ao Brasil. Só foi inferior, em número, à recepção que os paulistanos fizeram para os heróis da Copa do Mundo de 1958. No aeroporto, 20 mil pessoas o esperavam; cerca de 100 mil o assistiram no caminho do saguão de Congonhas até o Parque Peruche, onde morava.
Como prêmio pelo título mundial, Eder ganhou do promotor do combate, George Parnassus, um luxuoso Impala que acabou vendendo. Achou que seria constrangedor entrar no Peruche com aquele carrão e preferiu ficar com o seu Simca Chambord.

EMBARAÇO A cena de constrangimento tem se tornado cada vez mais frequente para Eder Jofre. Quando alguém reconhece o bicampeão mundial de boxe -títulos conquistados antes da proliferação de entidades que controlam o boxe e de categorias de peso, na rua, na padaria, no supermercado, no banco, na lanchonete ou em qualquer outro lugar, tornou-se comum a pessoa o cumprimentar e comentar para o filho, o amigo ou o conhecido:
- Olha, é o Eder Jofre!
- Quem? - respondem.
- É o Eder, o Eder Jofre. Ele foi campeão mundial...
- Ah, é? De quê?
É a senha para Eder dar de ombros.
Resignado, pensa: "Esse cara é desse mundo? Sou um bicampeão mundial, representei o país no mundo inteiro. Isso deveria valer alguma coisa".
No dia a dia, Eder Jofre, 74, sempre muito bem-humorado, é um mestre dos trocadilhos. Quando lhe perguntam se está "tudo joia", ele corrige: "Não, metade é roupa".
Quando um funcionário da Câmara de Vereadores de São Paulo, onde ocupou o cargo de vereador entre 1982 e 2000, o reconhece e diz que sempre vê seu filho, Marcel, que trabalha lá, Eder responde: "É, e por enquanto ele continua sendo meu filho".
Descendente de japoneses, sempre que encontro Eder sou saudado com cumprimentos em japonês. Ele aprendeu palavras no idioma nos três combates que fez no Japão, e também sabe dizer algo na linha de "espere um pouco, por favor".

MEMÓRIA Mas a falta de memória, especialmente das gerações mais novas, acaba com o seu proverbial bom humor.
"Não passam para os mais jovens o que os atletas do passado fizeram", diz Eder em tom sério, melancólico, durante a entrevista. "O que não dá para aceitar é gente com mais de 30 anos não saber quem fui", reclama o "Galo de Ouro", gesticulando.
"Sou bicampeão, porra, e o cara não sabe? Vai se ferrar! Esses caras tão no mundo?"
Ele desabafa: "Daqui a 50 anos vão perguntar: 'Quem é esse Guga?', 'Quem é esse Cielo?'".
"Todo ano morre atleta. Em alguns anos, ninguém vai se lembrar deles. O Brasil é futebol e acabou. Pelé, Garrincha... Fazer o quê?", se exaspera, abrindo os braços.
"Não me entenda mal. É bom o Brasil ser conhecido pelo futebol, mas não é só o futebol que existe", afirma Eder, que, na adolescência, fez teste no futebol do São Paulo -atuava como ponta-esquerda.
Eder acha que todo ano, em determinada data, o governo deveria fazer uma campanha para lembrar os atletas nacionais que se destacaram no passado.

LÁ FORA "Ah, então você é da terra do Eder Jofre?"
Não é incomum ouvir a pergunta, quando ligo para jornalistas, promotores ou profissionais do pugilismo no exterior, em países como o Japão e os EUA.
Certa vez, liguei para Herb Lambeck, especialista em bolsas de apostas que tinha uma coluna na publicação "Boxing Update". Ele fez exatamente esse comentário e acrescentou: "Escrevi um texto sobre o Eder há pouco tempo. Qual é seu endereço?".
Poucas semanas depois, recebi uma cópia. Procurei Eder, pedi uma dedicatória para Lambeck e mandei de volta.
Joe Koizumi, o jornalista de boxe mais conceituado no Japão, sabia de episódios da vida de Eder ocorridos décadas após sua aposentadoria, como a sua eleição para vereador em São Paulo.
Até hoje, quase anualmente, Eder é lembrado em publicações especializadas como a "Boxing Illustrated", que publica o ranking dos melhores galos da história, organizado pelo historiador Herbert Goldman. Eder foi considerado o melhor de todos os tempos.
No ranking dos melhores boxeadores dos últimos 50 anos, em qualquer categoria, compilado em edição especial da tradicionalíssima "The Ring", fundada em 1922, Eder ficou em nono, competindo até com pesos-pesados (acima de 90,7 kg), a grande paixão dos norte-americanos.
Numa lista mais abrangente, que engloba os últimos 80 anos, ficou em um respeitabilíssimo 19º lugar. Numa espécie de ringue eletrônico, um torneio por computador que o pôs frente a frente com os melhores galos da história, Eder foi o vice-campeão.
Na lista do CMB (Conselho Mundial de Boxe), Eder é apontado como o melhor de seus campeões dos galos. A entidade, no entanto, apresentou o mexicano Ruben Olivares e Eder como os melhores em sua convenção de 2000, no México, onde o CMB está sediado.
Quando perguntei quem foi o melhor galo para o CMB, o presidente da entidade, Jose Sulaiman, foi salomônico: "Os dois estão empatados em primeiro".
É questionado sobre quem foi o melhor galo da história, se ele, Olivares ou Zarate, Eder dispara a resposta objetiva e autoexplicativa: "Eles não lutaram comigo".

VOLTA Não fosse por um incômodo comentário de seu filho, Marcel, ainda aos seis anos, a interrupção na carreira em 1967 seria definitiva. Ao ver o pai dormir por três horas após o almoço e perceber que ficava o dia inteiro em casa, exceto quando saía para treinar para manter a forma, Marcel disparou, inocente:
- Pai, você não trabalha?
- O papai já trabalhou muito, mas não foi em fábrica nem nada disso. Foi de um jeito diferente. O papai aplicou o dinheiro, comprou casas, ganha dinheiro de aluguel -procurou justificar.
- Mas pai... Você não trabalha? Os pais de todos os meus amigos trabalham...
E seguiu mirando o pai.
O comentário de Marcel mexeu com os brios de Eder, que decidiu voltar ao ringue.
Marcel afirma não se lembrar do episódio. "Eu era muito pequeno, sei porque me contaram", diz. "Mas tenho orgulho por ter participação no segundo cinturão mundial do país", sorri.
"Não tinha certeza de que ia dar tudo certo", diz Eder. "Mas queria tentar. Estava me sentindo um verdadeiro leão sem ter de passar pelo sacrifício de perder o excesso de peso." Para se manter no limite máximo de cada categoria, os boxeadores são obrigados a fazer extenuantes treinamentos de perda de peso.
Ao retomar os treinamentos de forma competitiva, ele explicou ao filho:
- Agora você vai entender de que jeito seu pai trabalha.

HARADA Até pendurar definitivamente as luvas em 1976, Eder venceria todos os que se colocaram à sua frente, até pegar o japonês Masahiko "Fighting" Harada, que, lutando em casa, o superou por duas vezes, em 1965 e 1966.
O pugilista ficou entusiasmado quando lhe informei que é possível assistir a seus combates no YouTube. Foi quando reconheceu que "gostaria de rever a luta com o Harada".
Ele quer provar que, no primeiro e polêmico duelo entre ambos, o japonês o castigou a cabeçadas. Pediu para anotar o endereço do site. Queria conferir, quase 45 anos depois, como se saiu contra o rival. Ele acredita que, com o acesso aos seus combates, o público poderá ter uma ideia melhor sobre sua carreira.
Voltou a dar socos em 1969, e, aos 37 anos, ganhou o cinturão dos penas (até 57,1 kg) do CMB -a segunda entidade do boxe após dissidência da AMB.
Fez sua primeira e última defesa do cinturão contra Vicente Saldivar, perdeu o título no tapetão e se aposentou em 1976, depois da morte de Dogalberto, seu irmão, que ele pretendia que assumisse seu corner. Encerrou a carreira com impressionantes 72 vitórias, 50 nocautes, 4 empates e 2 derrotas por pontos.
Foi o bastante para que a ressurreição de Eder voltasse a ser lembrada: entrou na lista dos editores da revista "The Ring", compilada há poucos anos, dos melhores retornos da história do boxe.

TAREFAS DOMÉSTICAS Foi difícil marcar a entrevista com Eder. Toda vez que concordava em falar "amanhã" com a reportagem, era possível ouvir ao fundo sua mulher, Cidinha, reclamando que no dia seguinte ele já tinha o que fazer. O ex-campeão logo se desculpava e pedia para mudar a data.
"Ajudo nas tarefas domésticas", diz, meio sem jeito. "Vou fazer compras de mercado e demoro mais de uma hora. Também tenho de ir ao banco para pagar contas, receber dinheiro etc."
O ex-bicampeão mundial acrescenta que precisa cuidar da mulher, que sofre de artrite reumatoide e diabetes. Como são vários medicamentos, Eder quer sempre estar perto, para ter certeza de que ela toma os remédios certos.
Cidinha funciona como uma espécie de enciclopédia da carreira do marido. Eder volta e meia pede ajuda a ela para lembrar alguma coisa, seja um dado sobre sua carreira ou o paradeiro de um personagem dos velhos tempos.

POPÓ Perto do fim, a entrevista com o "Galo de Ouro" retomou, em diversos tópicos, o assunto inicial da memória. Está fresco em sua lembrança, por exemplo, o episódio no qual Popó, ex-campeão superpena (até 58,9 kg) e leve (até 61,2 kg), anunciou ao público que já se via maior do que o "Galo de Ouro". "Não dá para a imprensa ir na onda e dizer que esse ou aquele foi maior que o Eder em termos de boxeadores nacionais", protesta Marcel.
O pai concorda, mas em termos mais incisivos.
"O Popó é um bundão. Campeão que é campeão não desiste, a não ser que esteja com o nariz ou a mão quebrada. Eu mesmo caí num combate, levantei e venci", criticou Eder, lembrando que Popó desistiu de uma luta contra Juan Diaz sem ter sofrido uma queda sequer. Contra Diego Corrales, também fez sinal com a mão de que não queria continuar.
"Quem foi melhor? Se você puser o Eder no ringue hoje, ele é capaz de vencer esse 'Póp'", comentou comigo, durante o auge de Popó, o argentino Abraham Katzenelson, ex-promotor de Eder, com quem o "Galo de Ouro" rompeu no fim da carreira.
Eder não discorda da avaliação de Katzenelson.
"Olha, é que ultimamente não tenho treinado todos os dias. Mas sou mais eu", disse Eder, sério, ao tomar conhecimento dos comentários.

DINASTIA O nome da dinastia Jofre-Zumbano segue vivo com Raphael Zumbano, primo em segundo grau de Eder e um peso-pesado de modesto talento.
Eder sai em sua defesa.
"É um bom lutador. É que no Brasil não tem espaço para pesos-pesados", diz, ao aludir à falta de grandalhões nos ringues do país.
Apesar de ser conhecido como o melhor galo da história, foi a conquista do título mundial dos penas, em 1973, aos 37 anos, que definiu a sua estatura.
Há cerca de dois anos e meio, a proposta para a filmagem de sua biografia animou Eder. Ironicamente, a ideia surgiu do ator Thomas Stavros. Ele reconhece que não conhecia bem o ex-bicampeão antes de, "inspirado por um sonho", começar a alinhavar o projeto do filme. Pretende lançá-lo no final de 2011.
Ultimamente, Eder carrega um pedaço de papel no qual escreveu uma espécie de discurso, que pretende que seja incluído no filme.
Nele, lembra todos os boxeadores que fizeram parte do clã Jofre-Zumbano, além de outros parentes que não subiram no ringue, como a tia Olga, que se apresentou em outra categoria de luta, o "telecatch", popularmente conhecido como "marmelada".
A história começou com seu pai, o argentino Kid Jofre, que havia se engraçado com a namorada de um pugilista.
Desafiado a decidir a contenda no braço, Kid topou, mas para ganhar tempo disse que precisava de uma semana não só para treinar, mas para aprender a lutar boxe.
O rival do pai do"Galo de Ouro" beijou a lona.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

João Pessoa receberá 1º Salão Internacional de Livros da Paraíba

Estrela confirmada - A escritora Marina Colassanti participará do evento


Do jornal O Norte

De 20 a 28 de novembro, João Pessoa vai virar a capital brasileira do livro. Neste período será realizado, o 1º Salão Internacional de Livros da Paraíba, com mais de 80 mil livros expostos.

O evento será realizado no Espaço Cultural José Lins do Rego, em João Pessoa. serão 71 stands, com 400 expositores representando 500 livrarias do Brasil e dos oito países participantes do salão: Estados Unidos, França, Espanha, Venezuela, México, Peru, Argentina e Portugal.

Os escritores nacionais e internacionais virão expor suas obras literárias na Paraíba. Dentre os grandes nomes já confirmados estão Afonso Romano Sant'anna, Marina Colassanti, Anaílde Antunes, Nélida Piñon e Ignácio Loyola Brandão.

Além de conferir as obras clássicas e os lançamentos, o publico que prestigiar o evento ainda poderá participar de oficinas, tanto para crianças quanto para adultos, palestras, workshops, atrações musicais e teatrais. Tudo isso, gratuitamente.

Os visitantes poderão conhecer o salão das 10 às 22h. A organização espera um público de cerca de  250 mil pessoas.

A iniciativa é do Governo do Estado, em parceria com Universidade Federal da Paraíba, Academia Paraibana de Letras, Sebrae e Ministério da Cultura.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O Homem Ideal de Hollywood

"Orelhudo" - A beleza exótica de Clark Gable foi rechaçada por um grande produtor de cinema da época

Por Laís Bodanski (Cineasta)

Na imaginação vale tudo. Vivemos grandes aventuras, brigas, amores. Somos os donos da história, podemos vivê-la várias vezes ou escolher um pedaço para repetir o tempo todo. O mundo ideal se torna quase palpável. Nesse contexto, os galãs se encaixam perfeitamente.
O cinema foi o primeiro veículo a dar corpo à imaginação de meninas sonhadoras. E como os filmes sobrevivem na linha do tempo, hoje podemos olhar para trás e saber o que aquelas meninas sonhavam, ou melhor, quem se encaixava em seus sonhos.
Sem dúvida nenhuma, um dos primeiros galãs da história foi Clark Gable. Seu charme invadiu o terreno fértil da imaginação de toda uma geração. Deu vida a sonhos de garotas que escondiam sua foto debaixo do travesseiro, como no filme "The Broadway Melody of 1938" em que Judy Garland canta para uma foto de Gable, "Mr. Clark Gable: You Made me Love You".
"E o Vento Levou" (1939) foi seu filme mais emblemático. A escalação para o papel de Rhett Butler foi feita porque ele era o mais desejado de Hollywood.
Mas, diferente dos dias de hoje, o público não tinha tanta informação sobre os atores. Os estúdios fingiam que eles eram perfeitos. A mídia dizia que homens ideais existiam de fato e Clark Gable era um deles.
Em um passado mais recente, jovens atores romperam essa máscara. Marlon Brando e James Dean não se deixavam moldar pelos personagens, ao contrário, os personagens é que tinham que se encaixar em quem eles realmente eram.
Hoje temos Brad Pitt, que quando não está filmando deixa a barba crescer, revelando uma personalidade que não tem nada tem a ver com seus personagens. Johnny Depp é um camaleão, ninguém sabe quem ele é.
E quem foi Clark Gable? De família humilde e conservadora, William Clark Gable, ainda adolescente, enfrentou os gritos do pai quando decidiu ser ator. Profissão esta que caia como uma luva para esconder uma personalidade que não se encaixava na sociedade de sua época.
Antes de virar galã, trabalhou duro como figurante até conquistar minúsculos papéis em Hollywood. O grande produtor Darryl F. Zanuck viu seu teste e disse "Não serve para o cinema. As orelhas são grandes e se parece com um macaco".
Finalmente, em 1931, ele se camuflou no homem ideal. Lançou 12 longas metragens esse ano. Seu sex appeal menos romântico e mais cínico combinava com a grande depressão que assolava os EUA.
Sua contratação em o "E o Vento Levou" custou ao produtor Selznick muito dinheiro só para a MGM liberá-lo para filmar. Gable filmou com preguiça, demorou séculos para ler o roteiro. Ele não sabia que o filme que o tornaria imortal.
Longe do olhar do público, da mídia e da família, pôde ser ele mesmo. Homens e mulheres passaram por sua vida, escolhia e descartava seus amores como um menino mimado.
O divisor de águas em sua vida foi a morte de seu grande amor, a atriz Carole Lombard. Eram recém-casados, apaixonados, quando Carole morreu em um acidente de avião.
Decidido a abandonar a carreira, alistou-se na força aérea americana e foi para o front da segunda guerra mundial. Hitler soube de sua presença e exigiu seu resgate, pois era seu fã. Gable conseguiu escapar e voltou aos EUA condecorado.
Com o final da guerra, voltou para as telas. Mas já era o declínio de um grande ator que em 1960 morreu de ataque cardíaco sem conhecer seu filho ainda na barriga de sua última mulher.
Para os paparazzi esfomeados de hoje, Gable teria sido um prato cheio. Mas talvez as meninas sonhadoras daquela época não estivessem preparadas para sonhar com a vida real...

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Primeiro roteiro turístico de moda de Campina Grande será lançado nesta quinta-feira

Da Assessoria do Sebrae

Como território que tem um pólo de moda, o Agreste da Borborema será foco da atuação de um projeto turístico de desenvolvimento da Paraíba. Associado ao território do Cariri, que já possui um roteiro turístico com 14 municípios, o Agreste vai lançar nesta quinta-feira, 18, o Roteiro da Moda, no CTModas – Casa Ecoeficiente, na Avenida Assis Chateaubriand, 4585, no Distrito Industrial de Campina Grande.

O roteiro cria um novo conceito na cidade, de compra coletiva e familiar da produção de moda, com qualidade e preço de fábrica. Funcionará de forma livre, com os turistas visitando as lojas sem guias ou qualquer programação. “É um modelo de turismo urbano, baseado no comércio do Ceará, que ampliou esse conceito. Ofereceremos a pequenos grupos familiares ou lojistas do Agreste a oportunidade de comprar mais e com menor preço”, explicou a gestora do projeto de Turismo do Sebrae, Rosa Maria Correia.

A partir de 2011, o visitante de Campina passará pelo roteiro com 10 lojas, que atrairão mais lojistas, pois, segundo dados da Fiep, a cidade tem mais de 100 empresas de moda. Além do turismo, as regiões terão estrutura, fortalecimento e promoção através de ações inovadoras do Desenvolvimento Integrado da Borborema do Sebrae e parceiros. São 17 cidades unidas em ações de agronegócios e artesanato.

“Vamos melhorar a governança do território, trabalhar mercado, dar visibilidade a uma competência na área de moda própria de Campina e gerar novo fluxo turístico”, disse Rosa. A novidade será lançada no laboratório de energias renováveis. Desde 2006, a Casa Ecoeficiente é um ambiente tecnológico, didático para visitação, cursos e inovações. Ela será ponto de turismo no Roteiro, já que, somente em 2007, o lugar recebeu dois mil visitantes de escolas públicas e particulares de todo o país.

O Centro de Moda Geralda Júlia Régis de Araújo – CTModa conta com 320 m² de área construída, laboratórios de pilotagem, modelagem, salas de aula, de desenho, de computação com máquinas com internet e Núcleo de Informação Tecnológica (NIT), com 113 periódicos e livros. Tem atendimento técnico e tecnológico, promove educação profissional básica e técnica à indústria do vestuário da Paraíba.

Programação

19h30 – Abertura

19h40 - Apresentação do Projeto: Roteiro da Moda / Marca

20h00 – Palestra - Tendências de negócios da Moda - Adão de Souza

21h00 – Coquetel

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Solidão no Facebook

Incapacidade - Sociólogo diz que podemos passar dias na internet e não conseguirmos ter uma verdadeira relação humana com quem quer que seja

Por Marcos Flamínio Peres, do Correio Braziliense


Agora que o Facebook virou filme e as redes sociais parecem ter liberado o homem para toda forma possível de comunicação, vem um intelectual francês dizer que vivemos sob a ameaça da "solidão interativa".

Dominique Wolton, 63, que esteve no Brasil há duas semanas, bate ainda mais pesado. Para ele, a internet não serve para a constituição da democracia: "Só funciona para formar comunidades" -em que todos partilham interesses comuns-, "e não sociedades" -onde é preciso conviver com as diferenças.

Sociólogo da comunicação e diretor do Centro Nacional de Pesquisa Científica (Paris), ele defende na entrevista abaixo que, depois do ambiente, a "comunicação será a grande questão do século 21". Em tempo: "A Rede Social", de David Fincher, estreia nos cinemas brasileiros no início de dezembro.


Como vê a internet?

Dominique Wolton - Faço parte de uma minoria que não é fascinada por ela. Claro, é formidável para a comunicação entre pessoas e grupos que se interessam pela mesma coisa e, do ponto de vista pessoal, é melhor do que o rádio, a TV ou o jornal.

Mas, do ponto de vista da coesão social, é uma forma de comunicação muito frágil. A grandeza da imprensa, do rádio e da TV é justamente a de fazer a ligação entre meios sociais que são fundamentalmente diferentes. Nesse sentido, a internet não é uma mídia, mas um sistema de comunicação comunitário.


Mas e as redes sociais?

Elas retomam uma questão social muita antiga, que é a de procurar pessoas, amigos, amor. São um progresso técnico, sem dúvida, mas a comunicação humana não é algo tão simples.

Porque em algum momento será preciso que as pessoas se encontrem fisicamente -e aí reside toda a grandeza e dificuldade da comunicação para o ser humano.


Então a solidão é um risco nessas redes?

Sem dúvida: a "solidão interativa". Podemos passar horas, dias na internet e sermos incapazes de ter uma verdadeira relação humana com quem quer que seja.


Isso tem a ver com o conceito que criou -o de "sociedade individualista de massa"?

Sim, porque na comunicação ocidental procuramos duas coisas inteiramente contraditórias: a liberdade individual -modelo herdado do século 18- e a igualdade por meio da inserção na sociedade de massa -que é o modelo do socialismo.

Usamos a internet porque ela é a liberdade individual. Na internet, todo mundo tem o direito de dar sua opinião, mas emitir uma opinião não significa comunicar-se.

Porque, se a expressão é uma fase da comunicação, a outra é o retorno por parte de um receptor e a negociação que implica -e isso toma tempo!

Há um fascínio pela rapidez da internet e por sua falta de controle.

Mas essa falta de controle é demagógica, porque a democracia não é a ausência de leis, mas a existência de leis utilizadas por todos.


O Google está nos tornando estúpidos?

Ele está se tornando a primeira indústria do conhecimento, concentrando de forma gigantesca a informação e o saber -o que é um perigo.

Se um grupo de mídia quisesse concentrar toda a distribuição de informação, alguém diria: "Atenção, monopólio!". Mas não se faz isso em relação à internet, tamanho é o fascínio pela técnica na sociedade atual.


O papel está condenado?

Ao contrário! Porque internet é rapidez, livros e jornais são lentidão e legitimidade -informação organizada. A abundância de informações não suprime a questão prévia de que educação é formação.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Pasolini: morto há 35 anos,intelectual deixou obra que vai além do cinema

Inquieto- Sentimento de inadequação é flagrante na vida e na obra do artista

Por Alex Calheiros

Pier Paolo Pasolini, intelectual italiano morto no dia 2 de novembro de 1975, supostamente assassinado por um jovem da periferia romana que poderia muito bem ser um de seus personagens, é mais conhecido entre nós por sua atividade cinematográfica, por vezes por sua obra literária e, mais raramente, por suas ideias. Autor de filmes e romances ainda hoje muito lidos, sua obra, desde sempre múltipla, perpassa o cinema e a teoria do cinema, a literatura e a crítica literária, a poesia, o teatro e a ensaística, alcançando a crítica moral e política.

As atividades de Pasolini, no entanto, vão muito além do âmbito propriamente artístico, como facilmente poderíamos supor, porque ele foi talvez um dos intelectuais mais lúcidos e críticos de nosso tempo. Pasolini foi, acima de tudo, um homem inquieto e incômodo, podendo certamente ser alinhado àqueles que fizeram da crítica radical da cultura, para além dos meios expressivos de que se utilizaram, ponto de partida e ponto de chegada de um projeto intelectual em sentido pleno.

No dia de seu enterro, o escritor Alberto Moravia, diante de amigos e fãs comovidos e chocados pela brutalidade, mas também pela covardia de seu assassinato, disse enfaticamente que naquele dia haviam matado um poeta. Mas poetas, como todos sabem, nascem poucos, no máximo um ou dois durante todo um século, continuou. Diríamos mais; diríamos que um grande intelectual foi morto naquele dia. Intelectual inquieto e incômodo. Mas a inquietação, marca inconfundível de sua vida pública e privada, nunca foi movida por problemas abstratos, tampouco se colocava publicamente por mero narcisismo, transformando sua vida em um espetáculo. Foi, desde sempre, pela realidade, ou melhor, pelo sentimento de inadequação que a realidade lhe impunha.

Pasolini, como ninguém, transformou sua inadequação em argumento contra o fascismo que domina nossa cultura. Movido pelo que chamou de uma paixão desmesurada pela realidade, transformou-se, não por ingênua indignação, mas pelo mais forte sentimento patriótico e humano, num crítico mordaz da cultura italiana que, segundo ele, estava passando por um verdadeiro processo de decadência, uma trágica mutação.


Culpa a ser expiada

Mas é importante notar que o processo de decadência intuído e apregoado por Pasolini não era apenas uma suspeita, já estava plenamente instalado, não somente na cultura italiana, exemplo talvez mais próximo e mais esdrúxulo, mas em toda a cultura ocidental. Pasolini dizia que a vulgaridade da liberdade que nunca fora conquistada, mas concedida pela classe dominante, era o motivo pelo qual, tal como numa tragédia grega, carregávamos uma culpa que deveria ser de todo modo expiada. A decadência que Pasolini viu em nossa cultura era tão radical e violenta – mais radical e violenta que aquela, por exemplo, efetuada pelo fascismo e pelo nazismo –, que ele acreditava talvez já ser muito tarde para que algo ainda pudesse ser feito, para que pudéssemos ansiar por algum tipo de salvação. A decadência de nosso tempo é mais absoluta, diria Pasolini, porque ela não é mais imposta, mas alegremente aceita por cada um de nós.


O esquema pelo qual Pasolini explica a realidade é claramente teológico. Os homens, iludidos por aquele que se põe no lugar de Deus, o dinheiro, vivem e não percebem, como que encantados, aquele que se apossou não somente de seus corpos, mas também de suas almas. Pasolini agitava-se, ainda que no deserto, contra a nova idolatria que se instaurava. Coragem era a virtude desse italiano que, por amar o seu tempo, tornou-se justamente inimigo dele e, como um mártir, foi morto por tudo aquilo que disse e que ainda poderia dizer. A linguagem tornou-se então a mais importante questão de sua trajetória. A impossibilidade de se comunicar com seu tempo, apesar de toda sua lucidez, fez com que ele encontrasse outra forma de estabelecer relação com o mundo. Pasolini mergulhou então numa dimensão mítica, religiosa, sacra, para poder escapar desse monstro que tudo quer possuir. A paixão desmesurada pela realidade foi sua religião. “Tudo é sagrado, tudo é sagrado, tudo é sagrado e a natureza não é natural.”

Assim, já de início, ouvimos na voz do Centauro, no filme Medeia, o problema que de algum modo Pasolini desenvolveria em toda a sua obra, especialmente aquela da maturidade: a época trágica em que vivemos. Medeia, assim como Salò, pontos altos de sua obra, foram pessimamente recebidos na época de sua exibição. A crítica mais engajada disse do primeiro que era arcaísta, evasivo e espetacular; do segundo, como se pode imaginar, disse ser perverso. Mas, para além do fato de Pasolini ter sido sempre mal compreendido, a crítica naquele momento não levou em conta o que ele sempre deixou muito claro e que explicita justamente a lucidez de seu projeto, contra toda evasão e contra toda perversão. Tanto a Grécia quanto a República de Salò, lugares nos quais o autor ambienta seus filmes, não servem à história por um desejo de evasão do tempo presente, como quis a crítica, mas apresentam uma tentativa de representação das questões mais candentes de seu tempo. Representar o tempo para melhor apresentá-lo. Num, o conflito entre dois modelos culturais, um burguês e racional, encarnado por Jasão, e outro antiburguês e irracional, encarnado por Medeia. Noutro, a radicalização desse processo em que não há mais oposições, ao representar um mundo no qual as forças, inclusive toda forma de resistência, já foram subjugadas.


Descrença na razão, na gramática e na história

São essas as premissas da explicação que Pasolini dá ao momento presente italiano. Num e noutro ficou pra trás o que restava ainda de uma vida sadia, e assistimos ao prelúdio da tragédia que se tornou a vida. O itinerário de Pasolini, desde sua obra poética em dialeto friulano, é um itinerário de descrença na razão, na gramática e na história, apostando no irracional, pré-gramatical e pré-histórico. É um adensamento da crítica à cultura ocidental, apresentando um contínuo afastamento da linguagem e uma gradativa aproximação da sacralidade da comunicação arcaica. Curioso, por causa de sua origem literária, o cinema de Pasolini é absolutamente antiliteral, não verbal, notadamente em Medeia, uma das mais belas vozes dos anos 1950, quase muda, de uma mudez em tudo eloquente. Em Salò, mais radical, toda linguagem é normativa, serve apenas para antecipar aquilo a que os prisioneiros devem se submeter.

Sabemos que Pasolini se encantou pelo cinema justamente por seu caráter pré-gramatical, por sua capacidade de produzir uma comunicação primitiva, violenta, bárbara. As formulações mais consistentes de Pasolini acerca do específico cinematográfico encontram-se num livro de ensaios teóricos, Empirismo Herético. Escrito na mesma época em que Christian Metz iniciava suas pesquisas teóricas em semiologia do cinema, dizendo que o cinema seria uma linguagem sem língua, Pasolini irá mais adiante, postulando (e provocando um debate acirrado) que a língua do cinema, ou seja, o código utilizado pelo cinema para comunicar-se, era a própria realidade. A proposta de Pasolini era, portanto, uma radicalização da utopia neorrealista de narração da realidade por um processo basicamente privado de mediação. No cinema, para dizer de uma vez, o espectador decodifica as imagens fílmicas com os mesmos parâmetros com os quais decodifica a realidade.


Barbarizar é pensar contra a racionalidade burguesa

Pasolini, em sua obra e em sua vida, é marcado por esse desejo primitivo, alucinado, violento e pragmático pela realidade. E é nesse amor tornado encontro com a realidade que ele descobre a alienação do mundo. A realidade, ao contrário do que prega nossa cultura racional, é sacra, misteriosa e ambígua; de modo algum é natural. A alienação começa justamente quando se começa a ver a realidade como algo natural. O cinema, de certo modo, se desapega da tentativa de mediar abstratamente a realidade, reintroduz o homem numa dimensão sacra, misteriosa e bárbara do mundo. Assim, para falar brevemente, Pasolini não é um decadente. O barbarismo pasoliniano é uma atitude genuinamente filosófica. Barbarizar é pensar contra a racionalidade da sociedade burguesa. O cinema é uma arma não em favor da cultura, mas contra ela.

Pode soar estranha aos nossos ouvidos a conclusão tirada por esse grande intelectual: temos pouco a fazer, a não ser nos revoltar, e isso é tudo. É isso que intuímos, afinal, quando acompanhamos o desespero de Medeia, que se mata e mata os próprios filhos por sentir na pele sua incompatibilidade com o mundo estabelecido; ou ainda quando vemos o soldadinho fascista de Salò, que, ao tentar resistir, amando justamente uma vítima como ele, uma garota negra, é surpreendido pelos superiores e levanta o braço esquerdo, mesmo sabendo que vai morrer.

Mas isso nós apenas podemos compreender se antes entendermos que, distante do projeto revolucionário daquele que foi o “pai” ou humilde irmão da Itália (como diz no poema Cinzas de Gramsci), restou-lhe somente a revolta, como um herói trágico justamente, que mesmo sabendo o destino reservado, demonstra sua altivez na luta contra o que lhe é imposto. Por isso, mesmo descrente da adesão que poderiam surtir suas palavras, não deixava de gritar em praça pública.

Esse Cristo danado, herético e banido, quase religioso em sua irracionalidade, teria mesmo de morrer. A vida e a morte de Pasolini foram insistentemente marcadas pelo compromisso incondicional com uma verdade que ninguém queria escutar. O compromisso de Pasolini, mortas por sufocamento as esperanças revolucionárias, passou a ser esse amor sem crenças, desesperado e trágico, pela realidade.

O tempo de Brecht e Rossellini, quando ainda era possível aprender e ensinar, acabou, dizia o Corvo em Gaviões e Passarinhos, mas de algum modo Pasolini cumpriu seu papel, porque seu desespero, profético em seu tempo, encontra hoje na sociedade de consumo a mais justa adequação. Ou não é verdade que nossas vidas estão completamente subjugadas pelo mais poderoso dos poderes e seus ritos de morte? Ou não é verdade que nossa vida não é mais vida? Hoje, por isso mesmo, mais do que nunca, talvez seja o momento de voltar ao seu pensamento, não por mera erudição, atitude que certamente pareceria detestável aos olhos do “poeta das cinzas” (já que se trataria de uma atitude tipicamente burguesa; filisteia, para falar com sotaque nietzschiano), mas para pelo menos compreender, quiçá melhor, o mal que nos aflige.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Educação em direitos humanos integrará currículo escolar

Bons Hábitos - Plano almeja incentivar o respeito ao outro



Da Agência Brasil

Uma proposta para criação de diretrizes curriculares nacionais sobre educação em direitos humanos foi apresentada na última terça-feira (9) ao Conselho Nacional de Educação (CNE) pelo ministro da Secretaria de Direitos Humanos (SDH), Paulo Vannuchi. Segundo ele, o objetivo é criar um “novo hábito nacional de respeito ao outro”.

O projeto está sendo discutido e, se for aprovado, será implementado no próximo ano. “O trabalho mais estratégico que existe no país é a educação em direitos humanos. Desde muito cedo, é preciso ensinar a criança a não bater no coleguinha ou não ter preconceito por gênero, cor de pele e condição de pobreza. Isso tem de atravessar todo o sistema escolar, indo para a educação superior”, disse o ministro.

De acordo com o presidente da Câmara de Educação Básica do CNE, Francisco Aparecido Cordão, a educação em direitos humanos não será uma matéria específica, mas estará integrada em todas as disciplinas da grade curricular das escolas.

“Todos os professores devem tratar disso, pois os direitos humanos são uma questão central no cumprimento do currículo escolar e deve ser tratado pelo conjunto da escola, objetivando o desenvolvimento da consciência crítica do aluno cidadão. É algo que interessa ao diretor de escola, aos professores, aos alunos, à comunidade educacional”, disse.

Para o membro da Câmara de Educação Básica do CNE José Fernandes de Lima, o Brasil evoluiu na questão dos direitos humanos. Segundo ele, a adaptação às novas diretrizes curriculares levará algum tempo, pois deve passar por uma mudança de mentalidade das pessoas. “Temos que esclarecer os alunos e providenciar que a vivência na escola funcione como um exemplo de garantia dos direitos humanos”, afirmou.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Prossegue VII Mostra Sesc Ariús de Teatro de Rua em Campina Grande


Da Assessoria do Sesc/CG

 A VII Mostra Sesc Ariús de Teatro de Rua – Aldeia Palco Giratório continua com mais apresentações culturais e oficinas artísticas em Campina Grande. Nesta quarta-feira, 10, dois espetáculos animam a Praça da Bandeira, no Centro da cidade. O evento acontece desde sábado, dia 6, percorrendo vários bairros e distritos vizinhos, promovendo inclusão através do teatro e da dança.

A partir das 10h, a Praça da Bandeira será palco do espetáculo As Aventuras de Pedro Malazartes, da Cia. Teatral Alegria Alegria, do Rio Grande do Norte (RN). Pedro Malazartes, personagem que veio da Península Ibérica, desembarca na América e aventura-se pelo sertão nordestino, onde se depara com personagens estranhos e sempre encontra um jeito de se sair bem. A peça apoia-se no visual colorido e alegre do Bumba Meu Boi.

Já às 17h, no mesmo local, a Cia. Paraibana de Comédia apresenta o espetáculo O Romance do Conquistador. Nascida do imaginário de Lourdes Ramalho, a história apresenta heróis, donzelas e vilões que surgem no caminho de um Dom Juan Nordestino, que ludibria mulheres e vitima a todos com enganos e trapaças.

Além disso, continuarão sendo ministradas as oficinas na PROAMEV do bairro Catingueira. Pela manhã, das 8 às 11h, acontece a Oficina Circense ministrada pela atriz e professora Challena Barros, que ensina técnicas de pernas de pau e acrobacias. Já à tarde, das 14 às 17h, o coreógrafo, dançarino e artesão Sérgio Nascimento ministra a Oficina de Danças Folclóricas.

A VII Mostra Sesc Ariús de Teatro de Rua é realizada pelo Sesc Paraíba em parceria com o Departamento Nacional do Sesc e se estende até o dia 14, levando cultura popular para as diversas localidades de Campina Grande. Mais informações podem ser obtidas através do telefone (83) 3341-5800 ou no endereço eletrônico www.sesccultural.blogspot.com.


Confira a programação:

Dia 10

PRAÇA DA BANDEIRA

10h - Espetáculo “AS AVENTURAS DE PEDRO MALAZARTES” - Cia Teatral Alegria Alegria - Natal (RN)

17h - Espetáculo “O ROMANCE DO CONQUISTADOR” - Companhia Paraibana de Comédia - João Pessoa (PB)


Dia 11

PRAÇA DA BANDEIRA

10h - Espetáculo “ O ROMANCE DO CONQUISTADOR” - Companhia Paraibana de Comédia - João Pessoa (PB) 17h - Espetáculo “O AUTO DO CALDEIRÃO’ - Cia Teatral Alegria Alegria - Natal (RN)


Dia 12

PRAÇA DA BANDEIRA

10h - Espetáculo “O DIA EM QUE JUDAS FOI TRAÍDO” - Grupo de Teatro Aberto – GRUTA – João Pessoa (PB) 16h - Espetáculo “TERREIRO DE HISTÓRIAS” - Grupo Armadilhas Cênicas (CE)



Dia 13

PRAÇA DA BANDEIRA 10h - Espetáculo “SHAKESPARIANO” - Companhia Bagana de Teatro - Mossoró (RN)

BAIRRO DA CATINGUEIRA 10h - Espetáculo “COLCHA DE RETALHOS” - Cia Boca de Cena - João Pessoa - PB CATOLÉ DE ZÉ FERREIRA 16h - Apresentação dos espetáculos de danças folclóricas: Grupo Acauã da Serra, Raízes, Dance Charm, Originis, Boys Crazy Of Dance. DISTRITO DE SÃO JOSÉ DA MATA 17h - Espetáculo “COLCHA DE RETALHOS” - Cia Boca de Cena - João Pessoa – PB

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O imprevisível na arte

Aleatório? Pollock respingava tinta sobre suas imensas telas formando traços harmoniosos

Título da Obra: Convergence (1952)
Por Ferreira Gullar


Talvez a nossa visão da expressão artística se enriqueça se tentarmos mudar a maneira usual de entendê-la. Não há dúvida de que uma compreensão cabal desse fenômeno é quase impossível.

Digo isso porque tendo a achar que não há respostas definitivas para os problemas e, particularmente, quando se trata de matéria tão complexa e ambígua quanto a arte.

Estou convencido de que a obra de arte é resultado de um processo, que tem como fator consubstancial a imprevisibilidade. Isso se tornou mais evidente na época moderna, quando a expressão artística se libertou das normas que surgiram, séculos antes, nas academias de arte.

Uma série de fatores levara ao estabelecimento de regras e princípios a que os artistas deveriam obedecer; regras essas que nasceram da convicção de que a função das artes plásticas era representar a figura humana.

Uma coisa condicionou a outra: se a arte alcançaria sua mais alta expressão representando o corpo humano, era, então, obrigatório estudá-lo objetivamente e buscar, com rigor científico, copiar cada detalhe que o constitui.

E assim surgiu um verdadeiro código capaz de orientar o artista na captação fiel das particularidades do corpo humano. Normas e proporções preestabelecidas possibilitaram conceber a figura humana ideal, representada conforme relações e harmonia que não se encontram em nenhum corpo humano real. Por essa razão, a realização artística tornou-se previsível, ou seja, um procedimento regido de antemão por regras conhecidas.

Se é verdade que o grande artista nunca se submeteu integralmente a tais regras, não resta dúvida de que, quando elas foram abandonadas, o trabalho artístico sofreu uma mudança fundamental: o imprevisível tornou-se um fator essencial da criação artística.

O início se dá no cubismo analítico, quando a representação figurativa é substituída pela construção arbitrária da forma dos objetos. Agrava-se com o abandono dos processos propriamente pictóricos, substituídos pelo uso de papel colado à tela, arame, areia, barbante. Se o artista não tem qualquer compromisso com a imitação das figuras, que fatores passam a reger a realização da obra?

Do meu ponto de vista, com o cubismo, a pintura, que antes nascia das formas naturais, passou a nascer, na tela, da imaginação do pintor. "Cézanne, de uma garrafa fazia um cilindro; eu, de um cilindro, faço uma garrafa", afirmava o cubista Juan Gris (1887-1927). Essa autonomia da linguagem levou a uma exacerbação que ultrapassou os limites: tudo o que se punha na tela virava expressão estética, fosse papel, barbante ou areia.

Em contrapartida a esse tipo de construção arbitrária, surgiu a arte geométrico-construtiva, inicialmente com o neoplasticismo de Piet Mondrian (1872-1944). Regida por linhas verticais e horizontais, limitava a composição a quadrados e retângulos em cores primárias, que se repetem de um quadro para o outro.

O grau de imprevisibilidade foi reduzido, mas não eliminado, mesmo porque não era esse o propósito do artista, uma vez que a composição, como um todo, sem o comprometimento com a representação figurativa, era "arbitrária", ou seja, o resultado possível a partir dos elementos postos em jogo. Na verdade, a arte construtiva buscou tornar necessário o que era casual.

No polo oposto a essa arte, situou-se a arte informal ou tachismo, cuja manifestação mais radical terá sido a "pintura cega", como a do italiano Vêdova, por exemplo.

No entanto, pela despreocupação total com a construção da obra, esse procedimento tentou eliminar a relação dialética entre ordem e desordem, previsibilidade e imprevisibilidade, perdendo-se assim a noção de obra, em que sempre intervém a opção do autor: o acaso criaria a obra, mas é a intervenção do artista que faz dela expressão humana, mesmo porque o puro acaso, assim como a natureza, que produz galáxias, não produz arte.

Esta, por maior que seja o grau de acaso que a constitua, é sempre resultado da intervenção do artista. Mesmo Pollock -que, dançando sobre a tela posta no chão, deixava cair sobre ela respingos de tinta que constituiriam a obra- intervinha, depois, para corrigir o que o acaso criara errado.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Chico Buarque vence Prêmio Jabuti pela terceira vez

Fraseado - Livros de Chico  tem o mesmo acabamento rítmico 
de suas melhores canções

Do Portal Vermelho
O músico e escritor Chico Buarque foi o grande vencedor do Prêmio Jabuti de 2010, o mais prestigiado e importante da literatura brasileira. O seu mais recente trabalho, “Leite Derramado”, foi escolhido como o “Melhor Livro do Ano” na categoria ficção, tanto pelos jurados do prêmio quanto pelos internautas, que este ano passaram a votar pela primeira vez - mais de 5 mil pessoas participaram pela internet.
Chico Buarque desbancou concorrentes das categorias “romance”, “contos e crônicas”, “poesia”, “infantil” e “juvenil”. A cerimônia de entrega aconteceu na Sala São Paulo, no bairro da Luz, região central da capital paulista, na noite da última quinta-feira (4). Foi a primeira vez, em 52 edições da tradicional premiação literária brasileira, que o mesmo escritor vence três vezes na categoria.

Na categoria “não-ficção”, a vencedora foi a psicanalista Maria Rita Kehl, com o livro “O Tempo e o Cão”. A obra foi escolhida entre os três primeiros colocados de 2010 nas categorias “teoria/crítica literária”, “reportagem”, “ciências exatas, “tecnologia e informática”; “economia, “administração e negócios”; “direito”, “biografia”, “ciências naturais e da saúde”, “ciências humanas”, “didático e paradidático”, “educação, psicologia e psicanálise”, “arquitetura e urbanismo”, “fotografia, comunicação e artes”.

Os vencedores do prêmio principal receberam cada R$ 30 mil. A escolha foi feita por um júri formado por profissionais do mercado editorial que teve a tarefa de ler os três melhores livros do ano em diversas categorias e a entrega foi feita na Sala São Paulo, na capital paulista.

Também foi anunciado o vencedor do prêmio “Voto Popular” na categoria “não-ficção”. O título mais votado foi “Linguagens Formais, Teoria, Modelagem e Implementação”, de Marcos Vinicius Midena Ramos, João José Neto e Italo Santiago Vega. Os vencedores da categoria “Voto Popular” receberam, cada um, uma placa como homenagem pela conquista.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Entre o espiritual e o material

 Ilustração:  St. Gerome (Caravaggio)
Por Marcelo Gleiser, professor de física teórica e autor do livro "Criação Imperfeita"
 
Existimos nessa fronteira, não muito bem delineada, entre o material e o espiritual. Somos criaturas feitas de matéria, mas temos algo mais. Somos átomos animados capazes de autorreflexão, de perguntar quem somos.
Devo dizer, de saída, que espiritual não implica algo sobrenatural e intangível. Uso a palavra para representar algo natural, mesmo intangível, pelo menos por enquanto.
Pois, se olharmos para o cérebro como o único local da mente, sabemos que é lá, na dança eletro-hormonal dos incontáveis neurônios, que é gerado o senso do "eu".
Infelizmente, vivemos meio perdidos na polarização artificial entre a matéria e o espírito e, com frequência, acabamos optando por um dos dois extremos, criando grandes crises sociais que podem terminar em atrocidades.
Vivemos numa época onde o materialismo acentuado -do querer antes de tudo, do eu antes do outro, do agora antes do legado-, está por causar consequências sérias.
Lembro-me das sábias linhas do filósofo Robert Pirsig, no clássico "Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas": "Nossa racionalidade não está movendo a sociedade para um mundo melhor. Ao contrário, ela a está distanciando disso".
Ele continua: "Na Renascença, quando a necessidade de comida, de roupas e abrigo eram dominantes, as coisas funcionavam bem.
Mas agora, que massas de pessoas não têm mais essas necessidades, essas estruturas antigas de funcionamento não são adequadas. Nosso modo de comportamento passa a ser visto como de fato é: emocionalmente oco, esteticamente sem sentido e espiritualmente vazio".
O ponto é claro: atingimos uma espécie de saturação material. Para chegar a isso, sacrificamos o componente espiritual. O material é reptiliano: "Eu quero, eu pego. Se não consigo, eu mato (metaforicamente ou de fato). O que quero é mais importante do que o que você quer".
Claro, progredimos muito, dando conforto a milhões de pessoas, mas, no frenesi do sucesso, deixamos de lado o que nos torna humanos. Não só nossas necessidades, mas nossa generosidade, nossa capacidade de dividir e construir juntos.
Quando nossa sobrevivência está garantida, recaímos em nosso modo reptiliano de agir -autocentrado- e esquecemos da comunidade.
A diferença entre nossa realidade e a de Pirsig, que escreveu essas linhas acima em 1974, é que um novo tipo de conscientização está surgindo, em que o senso de comunidade está migrando do local ao global.
Isso me deixa otimista.
Em todo o planeta, um número cada vez maior de pessoas entendeu já que os excessos materialistas da nossa geração precisam terminar. Não é apenas porque o materialismo desenfreado é superficial. É porque é letal, tanto para nós quanto para a vida à nossa volta.
Olhamos para nosso planeta de modo que não olhávamos 20 anos atrás. O sucesso do filme "Avatar" não teria sido o mesmo em 1990.
O momento está chegando para um novo tipo de espiritualidade, que nos levará a uma existência mais equilibrada, onde o material e o espiritual mantêm um balanço dinâmico. O material sem o espiritual é cego, e o espiritual sem o material é fantasia. Nossa humanidade reside na interseção dos dois.