sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Eder Jofre e a melancolia do boxeur

A Força do Sucesso - Em novembro de 1960, o pugilista Éder Jofre tornava-se campeão mundial dos pesos-galo, em Los Angeles

Por Eduardo Ohata, do Estadão

Presente em todas as listas dos maiores boxeadores da história, o bicampeão mundial Eder Jofre rememora os 50 anos de seu título peso-galo sem desfrutar de real popularidade no Brasil. Desconhecido pelas novas gerações e recolhido à vida doméstica, Jofre defende seu legado e clama pela valorização do esporte no país.

O MEXICANO OLHA o brasileiro de alto a baixo. Em silêncio, o público do Olympic Auditorium, em Los Angeles, nos EUA, fita as três figuras no centro do ringue: os dois pugilistas e o árbitro, que lhes passa as instruções finais. Estão previstos 15 assaltos para decidir de quem será o título mundial da categoria galo, que reúne lutadores com até 53,5 kg.
Eles não demoram a começar a troca de sopapos: primeiro, um golpe forte, de esquerda, atinge a cabeça do mexicano, que revida com dois ganchos no corpo do brasileiro; mais um "jab" -golpe preparatório de esquerda- e acaba o assalto.
O mexicano volta para o seu corner com o lábio superior cortado. A caminho do ringue, o brasileiro ouve a pior vaia de sua carreira: 10 mil mexicanos tinham atravessado a fronteira com os Estados Unidos para torcer contra ele. A seu lado, os brasileiros são apenas 500, se tanto.
Apesar da recepção hostil, o brasileiro cumprimenta a plateia. Lá estão os atores Kirk Douglas e George Raft. O melhor pugilista da história, "Sugar" Ray Robinson, também está lá.
O mexicano começa o segundo assalto ainda mais agressivo. Procura o corpo a corpo, a troca franca de golpes. Em dois minutos, "acusa" o direto de direita do brasileiro, mas revida com dois ganchos no corpo do rival.
A partir do terceiro assalto, o brasileiro força o ritmo. Evita o corpo a corpo, ora no centro do tablado, ora com as costas contra as cordas, bombardeando sem trégua o mexicano. O barulho do público é ensurdecedor.
No quarto assalto, fica patente o domínio do brasileiro, que castiga, alternadamente, corpo e rosto do adversário. Sem querer, o mexicano acerta-lhe um golpe baixo. O brasileiro não se incomoda e prossegue com a saraivada de golpes. Finaliza o assalto com um potente golpe de direita.
Ali perto, o pai e técnico do brasileiro sente que o fim está próximo. Antes do quinto assalto, berra para o filho: "Capricha na direita que ele desce!".
E assim é. Com uma direita, ele faz o mexicano estremecer no centro do ringue. Então desfere duas esquerdas: o mexicano se ajoelha.
No assalto seguinte, desesperado, o mexicano tenta o nocaute. Sob os gritos alucinados do público, a dupla troca golpes em um dos corners.
O nocaute vem na forma de uma combinação de gancho de esquerda, no fígado, e um cruzado de direita que acerta em cheio a mandíbula do mexicano.
Fim da luta. É a consagração do clã Jofre-Zumbano, que produziria, nos próximos 50 anos, 28 pugilistas.

50 ANOS Naquele 18 de novembro de 1960, quase meio século atrás, em apenas seis dos 15 assaltos previstos, Eder Jofre conquistou o título galo da Associação Mundial de Boxe (AMB).
Eloy Sanchez, o mexicano, surpreendera o mundo do pugilismo ao colocar na lona o grande campeão mundial Joe Becerra, em Ciudad Juárez, no México. Até então, não passava de um desconhecido.
Nocauteado pela primeira vez, Becerra abriu mão do cinturão e se aposentou. A AMB, então, incluiu Sanchez no ranking e anunciou que o vencedor de seu confronto com Eder seria reconhecido como campeão mundial.
Nem mesmo um presidente da República jamais teve a recepção que Eder recebeu ao voltar ao Brasil. Só foi inferior, em número, à recepção que os paulistanos fizeram para os heróis da Copa do Mundo de 1958. No aeroporto, 20 mil pessoas o esperavam; cerca de 100 mil o assistiram no caminho do saguão de Congonhas até o Parque Peruche, onde morava.
Como prêmio pelo título mundial, Eder ganhou do promotor do combate, George Parnassus, um luxuoso Impala que acabou vendendo. Achou que seria constrangedor entrar no Peruche com aquele carrão e preferiu ficar com o seu Simca Chambord.

EMBARAÇO A cena de constrangimento tem se tornado cada vez mais frequente para Eder Jofre. Quando alguém reconhece o bicampeão mundial de boxe -títulos conquistados antes da proliferação de entidades que controlam o boxe e de categorias de peso, na rua, na padaria, no supermercado, no banco, na lanchonete ou em qualquer outro lugar, tornou-se comum a pessoa o cumprimentar e comentar para o filho, o amigo ou o conhecido:
- Olha, é o Eder Jofre!
- Quem? - respondem.
- É o Eder, o Eder Jofre. Ele foi campeão mundial...
- Ah, é? De quê?
É a senha para Eder dar de ombros.
Resignado, pensa: "Esse cara é desse mundo? Sou um bicampeão mundial, representei o país no mundo inteiro. Isso deveria valer alguma coisa".
No dia a dia, Eder Jofre, 74, sempre muito bem-humorado, é um mestre dos trocadilhos. Quando lhe perguntam se está "tudo joia", ele corrige: "Não, metade é roupa".
Quando um funcionário da Câmara de Vereadores de São Paulo, onde ocupou o cargo de vereador entre 1982 e 2000, o reconhece e diz que sempre vê seu filho, Marcel, que trabalha lá, Eder responde: "É, e por enquanto ele continua sendo meu filho".
Descendente de japoneses, sempre que encontro Eder sou saudado com cumprimentos em japonês. Ele aprendeu palavras no idioma nos três combates que fez no Japão, e também sabe dizer algo na linha de "espere um pouco, por favor".

MEMÓRIA Mas a falta de memória, especialmente das gerações mais novas, acaba com o seu proverbial bom humor.
"Não passam para os mais jovens o que os atletas do passado fizeram", diz Eder em tom sério, melancólico, durante a entrevista. "O que não dá para aceitar é gente com mais de 30 anos não saber quem fui", reclama o "Galo de Ouro", gesticulando.
"Sou bicampeão, porra, e o cara não sabe? Vai se ferrar! Esses caras tão no mundo?"
Ele desabafa: "Daqui a 50 anos vão perguntar: 'Quem é esse Guga?', 'Quem é esse Cielo?'".
"Todo ano morre atleta. Em alguns anos, ninguém vai se lembrar deles. O Brasil é futebol e acabou. Pelé, Garrincha... Fazer o quê?", se exaspera, abrindo os braços.
"Não me entenda mal. É bom o Brasil ser conhecido pelo futebol, mas não é só o futebol que existe", afirma Eder, que, na adolescência, fez teste no futebol do São Paulo -atuava como ponta-esquerda.
Eder acha que todo ano, em determinada data, o governo deveria fazer uma campanha para lembrar os atletas nacionais que se destacaram no passado.

LÁ FORA "Ah, então você é da terra do Eder Jofre?"
Não é incomum ouvir a pergunta, quando ligo para jornalistas, promotores ou profissionais do pugilismo no exterior, em países como o Japão e os EUA.
Certa vez, liguei para Herb Lambeck, especialista em bolsas de apostas que tinha uma coluna na publicação "Boxing Update". Ele fez exatamente esse comentário e acrescentou: "Escrevi um texto sobre o Eder há pouco tempo. Qual é seu endereço?".
Poucas semanas depois, recebi uma cópia. Procurei Eder, pedi uma dedicatória para Lambeck e mandei de volta.
Joe Koizumi, o jornalista de boxe mais conceituado no Japão, sabia de episódios da vida de Eder ocorridos décadas após sua aposentadoria, como a sua eleição para vereador em São Paulo.
Até hoje, quase anualmente, Eder é lembrado em publicações especializadas como a "Boxing Illustrated", que publica o ranking dos melhores galos da história, organizado pelo historiador Herbert Goldman. Eder foi considerado o melhor de todos os tempos.
No ranking dos melhores boxeadores dos últimos 50 anos, em qualquer categoria, compilado em edição especial da tradicionalíssima "The Ring", fundada em 1922, Eder ficou em nono, competindo até com pesos-pesados (acima de 90,7 kg), a grande paixão dos norte-americanos.
Numa lista mais abrangente, que engloba os últimos 80 anos, ficou em um respeitabilíssimo 19º lugar. Numa espécie de ringue eletrônico, um torneio por computador que o pôs frente a frente com os melhores galos da história, Eder foi o vice-campeão.
Na lista do CMB (Conselho Mundial de Boxe), Eder é apontado como o melhor de seus campeões dos galos. A entidade, no entanto, apresentou o mexicano Ruben Olivares e Eder como os melhores em sua convenção de 2000, no México, onde o CMB está sediado.
Quando perguntei quem foi o melhor galo para o CMB, o presidente da entidade, Jose Sulaiman, foi salomônico: "Os dois estão empatados em primeiro".
É questionado sobre quem foi o melhor galo da história, se ele, Olivares ou Zarate, Eder dispara a resposta objetiva e autoexplicativa: "Eles não lutaram comigo".

VOLTA Não fosse por um incômodo comentário de seu filho, Marcel, ainda aos seis anos, a interrupção na carreira em 1967 seria definitiva. Ao ver o pai dormir por três horas após o almoço e perceber que ficava o dia inteiro em casa, exceto quando saía para treinar para manter a forma, Marcel disparou, inocente:
- Pai, você não trabalha?
- O papai já trabalhou muito, mas não foi em fábrica nem nada disso. Foi de um jeito diferente. O papai aplicou o dinheiro, comprou casas, ganha dinheiro de aluguel -procurou justificar.
- Mas pai... Você não trabalha? Os pais de todos os meus amigos trabalham...
E seguiu mirando o pai.
O comentário de Marcel mexeu com os brios de Eder, que decidiu voltar ao ringue.
Marcel afirma não se lembrar do episódio. "Eu era muito pequeno, sei porque me contaram", diz. "Mas tenho orgulho por ter participação no segundo cinturão mundial do país", sorri.
"Não tinha certeza de que ia dar tudo certo", diz Eder. "Mas queria tentar. Estava me sentindo um verdadeiro leão sem ter de passar pelo sacrifício de perder o excesso de peso." Para se manter no limite máximo de cada categoria, os boxeadores são obrigados a fazer extenuantes treinamentos de perda de peso.
Ao retomar os treinamentos de forma competitiva, ele explicou ao filho:
- Agora você vai entender de que jeito seu pai trabalha.

HARADA Até pendurar definitivamente as luvas em 1976, Eder venceria todos os que se colocaram à sua frente, até pegar o japonês Masahiko "Fighting" Harada, que, lutando em casa, o superou por duas vezes, em 1965 e 1966.
O pugilista ficou entusiasmado quando lhe informei que é possível assistir a seus combates no YouTube. Foi quando reconheceu que "gostaria de rever a luta com o Harada".
Ele quer provar que, no primeiro e polêmico duelo entre ambos, o japonês o castigou a cabeçadas. Pediu para anotar o endereço do site. Queria conferir, quase 45 anos depois, como se saiu contra o rival. Ele acredita que, com o acesso aos seus combates, o público poderá ter uma ideia melhor sobre sua carreira.
Voltou a dar socos em 1969, e, aos 37 anos, ganhou o cinturão dos penas (até 57,1 kg) do CMB -a segunda entidade do boxe após dissidência da AMB.
Fez sua primeira e última defesa do cinturão contra Vicente Saldivar, perdeu o título no tapetão e se aposentou em 1976, depois da morte de Dogalberto, seu irmão, que ele pretendia que assumisse seu corner. Encerrou a carreira com impressionantes 72 vitórias, 50 nocautes, 4 empates e 2 derrotas por pontos.
Foi o bastante para que a ressurreição de Eder voltasse a ser lembrada: entrou na lista dos editores da revista "The Ring", compilada há poucos anos, dos melhores retornos da história do boxe.

TAREFAS DOMÉSTICAS Foi difícil marcar a entrevista com Eder. Toda vez que concordava em falar "amanhã" com a reportagem, era possível ouvir ao fundo sua mulher, Cidinha, reclamando que no dia seguinte ele já tinha o que fazer. O ex-campeão logo se desculpava e pedia para mudar a data.
"Ajudo nas tarefas domésticas", diz, meio sem jeito. "Vou fazer compras de mercado e demoro mais de uma hora. Também tenho de ir ao banco para pagar contas, receber dinheiro etc."
O ex-bicampeão mundial acrescenta que precisa cuidar da mulher, que sofre de artrite reumatoide e diabetes. Como são vários medicamentos, Eder quer sempre estar perto, para ter certeza de que ela toma os remédios certos.
Cidinha funciona como uma espécie de enciclopédia da carreira do marido. Eder volta e meia pede ajuda a ela para lembrar alguma coisa, seja um dado sobre sua carreira ou o paradeiro de um personagem dos velhos tempos.

POPÓ Perto do fim, a entrevista com o "Galo de Ouro" retomou, em diversos tópicos, o assunto inicial da memória. Está fresco em sua lembrança, por exemplo, o episódio no qual Popó, ex-campeão superpena (até 58,9 kg) e leve (até 61,2 kg), anunciou ao público que já se via maior do que o "Galo de Ouro". "Não dá para a imprensa ir na onda e dizer que esse ou aquele foi maior que o Eder em termos de boxeadores nacionais", protesta Marcel.
O pai concorda, mas em termos mais incisivos.
"O Popó é um bundão. Campeão que é campeão não desiste, a não ser que esteja com o nariz ou a mão quebrada. Eu mesmo caí num combate, levantei e venci", criticou Eder, lembrando que Popó desistiu de uma luta contra Juan Diaz sem ter sofrido uma queda sequer. Contra Diego Corrales, também fez sinal com a mão de que não queria continuar.
"Quem foi melhor? Se você puser o Eder no ringue hoje, ele é capaz de vencer esse 'Póp'", comentou comigo, durante o auge de Popó, o argentino Abraham Katzenelson, ex-promotor de Eder, com quem o "Galo de Ouro" rompeu no fim da carreira.
Eder não discorda da avaliação de Katzenelson.
"Olha, é que ultimamente não tenho treinado todos os dias. Mas sou mais eu", disse Eder, sério, ao tomar conhecimento dos comentários.

DINASTIA O nome da dinastia Jofre-Zumbano segue vivo com Raphael Zumbano, primo em segundo grau de Eder e um peso-pesado de modesto talento.
Eder sai em sua defesa.
"É um bom lutador. É que no Brasil não tem espaço para pesos-pesados", diz, ao aludir à falta de grandalhões nos ringues do país.
Apesar de ser conhecido como o melhor galo da história, foi a conquista do título mundial dos penas, em 1973, aos 37 anos, que definiu a sua estatura.
Há cerca de dois anos e meio, a proposta para a filmagem de sua biografia animou Eder. Ironicamente, a ideia surgiu do ator Thomas Stavros. Ele reconhece que não conhecia bem o ex-bicampeão antes de, "inspirado por um sonho", começar a alinhavar o projeto do filme. Pretende lançá-lo no final de 2011.
Ultimamente, Eder carrega um pedaço de papel no qual escreveu uma espécie de discurso, que pretende que seja incluído no filme.
Nele, lembra todos os boxeadores que fizeram parte do clã Jofre-Zumbano, além de outros parentes que não subiram no ringue, como a tia Olga, que se apresentou em outra categoria de luta, o "telecatch", popularmente conhecido como "marmelada".
A história começou com seu pai, o argentino Kid Jofre, que havia se engraçado com a namorada de um pugilista.
Desafiado a decidir a contenda no braço, Kid topou, mas para ganhar tempo disse que precisava de uma semana não só para treinar, mas para aprender a lutar boxe.
O rival do pai do"Galo de Ouro" beijou a lona.

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