quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Construa seu tempo em 2011


Por Iara Biderman
Ilustração sobre foto de Eduardo Knapp/Folhapress

   
Preciso fazer uma entrevista sobre o tempo. E tem que ser hoje. Para encaixar minha urgência nas agendas alheias, as conversas são marcadas por e-mail e feitas por telefone.
Do outro lado da linha, uma entrevistada comenta que, enquanto conversa, aproveita para arrumar a bagunça em cima da mesa. Mais uma dessas pessoas multitarefas, que fazem mil coisas ao mesmo tempo e vivem lamentando a falta dele?
Não. Sem lamentos e sem dispersão mental, quem fala comigo é a monja Coen, primaz da Comunidade Zen Budista. "Se você estiver presente no que está fazendo, tem tempo. Se a mente está voltada para outras coisas, não", afirma.

ATENÇÃO DIVIDIDA
Mas, então, não é para fazer só uma coisa de cada vez? "Tem coisas que dá para fazer ao mesmo tempo. Não posso conversar com você e ler os papéis em cima da minha mesa, mas posso arrumar os objetos. Se for algo que não exige divisão da minha mente, por que não aproveitar?", pergunta.
Com esse pequeno exemplo, a monja mostra que estar inteiramente presente no que faz e ter tempo não são coisas tão estratosféricas quanto podem parecer para a maioria de nós, mais acostumada à sensação cotidiana de ansiedade pelas tarefas ainda não cumpridas.
Parar de pensar em coisas que não existem ou não podem ser resolvidas no momento é uma forma de usar melhor o tempo.
"Não dá para brigar com o tempo, porque ele não é algo separado de nós, que está nos escapando. Nós somos tempo, ele é nossa vida. O que importa é o que fazemos com ela", afirma.
A coisa fica um pouco complicada porque nossa vida se passa nesse mundo que está sempre nos acelerando, segundo a terapeuta corporal Andréa Bonfim Perdigão, autora do livro "Sobre o Tempo" . "Queremos existir com a velocidade da tecnologia, que é rápida e dá a ilusão de que podemos fazer tudo simultaneamente", diz.
Perdigão conta que começou a refletir sobre o assunto ao observar como as pessoas que chegavam ao seu consultório tinham pressa para se livrar da dor, desprezando o tempo natural da cura.

RITMOS DO CORPO
Para ela, as pessoas querem existir na velocidade da tecnologia, mas os ritmos do corpo continuam os mesmos: precisamos das mesmas horas para fazer a digestão ou dormir, dos mesmos nove meses para dar à luz .
"É possível viver pressionando a saúde desse jeito? Acredito plenamente que dá para lidar com o tempo, mas temos que fazer escolhas, abrir mão não de uma, mas de dez coisas. Isso é um exercício de resistência diário, porque as demandas externas vão continuar te pressionando a fazer tudo."
Se a escolha for errada, paciência, aconselha a monja Coen. "Não é para se lamentar, isso seria perda de tempo. Quem sempre acha que entrou na fila errada e fica mudando para a outra não chega a lugar nenhum."
Uma forma para equacionar melhor as horas a partir de escolhas (e renúncias) é olhar mais longe.
Planejamento estratégico, diriam os mais pragmáticos. Nada contra, muito pelo contrário. Organizar e planejar não tira o sentido da vida, pode dar mais tempo para ela.
"Saber usar o tempo é saber viver a vida. Estar no "aqui e agora" não é essa coisa mágica de fluir com o cosmos e deixar todo mundo te esperando porque você sempre chega atrasado aos compromissos", ensina a monja.
Simples e óbvio: para fluir com o tempo e deixar de brigar com ele, compre uma agenda. E use.

TEMPO PSICOLÓGICO

Além do limite de velocidade corporal, o tempo psicológico que levamos para assimilar, entender ou apreciar qualquer coisa também não acompanha a rapidez das informações e dos estímulos contemporâneos.
"Somos solicitados a experimentar diferentes tempos simultaneamente. Isso é como viver várias noções de tempo sobrepostas, e ainda não aprendemos a lidar com isso, porque subverte as noções clássicas de temporalidade", diz o psicanalista Bernardo Tanis, editor da Revista Brasileira de Psicanálise.
O físico André Ferrer Martins, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, lembra que a noção de tempo não é única para todas as civilizações, épocas ou culturas.
"O senso comum do tempo, na nossa sociedade, está muito mais próximo da perspectiva histórica e linear do cristianismo e do conceito do século 18 do físico Issac Newton, que afirmou que o tempo tem existência própria e é igual para todos."

MULTIPLICIDADE
As definições dos novos tempos, múltiplos e ultrarrápidos, ainda estão sendo elaboradas, segundo o psicanalista BernardoTanis. "Estamos aprendendo a lidar com essa multiplicidade, mas ainda não sabemos que tipo de pessoa está sendo criada com isso."
O psicanalista e filósofo Marcio Tavares D'Amaral, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, acredita que o sujeito dessa época hiperacelerada vive o futuro -que é um tempo virtual, aquilo que ainda virá ou não. "É irreal, mas nos enxergamos nele. O tempo que interessa hoje, em que vale a pena investir, é o futuro."
E isso é ruim? "A ideia de voltar a outro tempo é reativa, ressentida. Nada disso é para ser eliminado, nem será. Mas talvez devêssemos nos empenhar na procura do equilíbrio entre as dimensões reais e virtuais da vida. Podemos passar menos horas consumindo tecnologia, sem abrir mão dela."
O caminho pode ser aprender a discriminar as infinitas ofertas do mundo e se esquecer delas de vez em quando.
"Com a roda viva de estímulos, perdemos a barreira que nos ajuda a discriminar o que é necessidade, vontade pessoal e o que vem de fora, e nunca nos saciamos. O mundo nos convida a ficar sempre ligados, mas o psiquismo humano também precisa se desligar de tempos em tempos", diz Tanis.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Nelson Rodrigues é o farol que nós temos

Marca paradoxal - Escritor pernambucano fixou um patamar de excelência para a literatura dramática brasileira

Por Antunes Filho - Diretor Teatral

Nelson Rodrigues foi um poeta, foi gênio. Começou o teatro brasileiro, praticamente. Existe o pré-Nelson e o pós-Nelson. Mesmo o pós ainda é Nelson muito forte.
Ele trabalhou com coisas com as quais ninguém lidava. Quando estava todo mundo em Freud, ele já estava em Jung, sabe? Trabalhava com a mitopoesia, com o inconsciente coletivo.
Por meio desse inconsciente, trouxe à tona uma linha desejante de luz nas utopias de seus personagens. E quanto mais utópicos, mais eles se afundavam no lamaçal. É bonita a trajetória de correr atrás da luz e cair no abismo, ser engolido por areias movediças.
Nelson vem das cavernas, vem do homem primitivo e de suas necessidades, angústias e recalques.
No teatro atual, a sintaxe dramática é insuportável. E o Nelson resiste a isso, como resiste ao pós-dramático, à desconstrução, ao Lacan e sua historicidade do outro.
Hoje, não se entende muito as coisas. Só sabemos que o teatro está muito chato, sem saída. Há um certo tédio.
Como sair disso e ir para novos caminhos, como encontrar outras vertentes de luz?
Estamos num momento de transição violenta, e nisso Nelson é sempre útil, porque é poeta. E é isso o que o salva.
Ele é a referência, a luz, o farol que nós temos. E, se é o melhor, vamos tentar superar o melhor. Acontece que é impossível superá-lo, seja por sua vida trágica, seja porque ele foi um jornalista de fatos sanguíneos terríveis.
Ele teve essa sorte, podemos dizer, ironicamente. A tragicidade sempre o rondou.
Quem faz teatro está desesperado. Ao mesmo tempo em que está terrível, a situação é propícia para que estoure algo. O novo está na incubadeira. Pode surgir alguém que supere tudo, dê um caminho ao teatro.


Conheça um pouco mais de Nelson

23-8-1912, Recife (PE)
21-12-1980, Rio de Janeiro (RJ)

Nelson Rodrigues foi o mais revolucionário personagem do teatro brasileiro, abrindo as portas à moderna dramaturgia do país. Percorreu, contudo, um árduo itinerário, marcado pelas tragédias familiares e pela crítica contraditória. Desde seu primeiro texto, A Mulher Sem Pecado (1942), foi considerado ao mesmo tempo um imoral e um moralista, reacionário e pornográfico, um gênio e um charlatão, escandalizando, como nunca, o público e a imprensa especializada da época com seu teatro desagradável. Explorando a vida cotidiana do subúrbio do Rio de Janeiro, preencheu os palcos com incestos, crimes, suicídios, personagens beirando a loucura, inflamadas de desejos e agindo apaixonadamente, até matando, e diálogos rápidos, diretos, quase telegráficos, carregados de tragédia e humor. Quando lançou Vestido de Noiva (1943), montado pelo grupo Os Comediantes, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, renovou o teatro do país, quer pelo texto quer pela direção de Ziembinsky, e obteve sucesso. Nos anos seguintes, no entanto, teve suas peças interditadas pela censura, passou a ser sinônimo de obsceno e tarado e ficou conhecido como autor maldito. Nascido à beira-mar no Recife, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, para o pai tentar a vida como jornalista, em 1916. Foi o filho, no entanto, que brilhou na profissão. Aos 13 anos já era repórter policial do jornal A Crítica. Seu talento estendeu-se a todos os grandes jornais do Rio. Fanático torcedor do Fluminense, foi um grande cronista esportivo, ao mesmo tempo que escrevia reportagens policiais e folhetins romanescos. Obsessivo, escreveu 17 peças, centenas de contos e nove romances. Entre as peças, destacam-se A Falecida (1953), Os Sete Gatinhos (1958), Boca de Ouro (1959), Beijo no Asfalto (1960) e Toda Nudez Será Castigada (1965).

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Cerco a Assange deixa jornalismo vulnerável, afirma especialista

Quebra de Paradigma – Fundador do Wikileaks ultrapassa as fronteiras da imprensa formal e vai além do legalismo na defesa do direito à informação

Por Janaina Lage

O escritor e advogado constitucionalista norte-americano Glenn Greenwald afirma que, caso os EUA consigam processar o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, jornalistas ficarão mais vulneráveis a ações judiciais.
Colunista da revista digital Salon.com, Greenwald tem sido uma das vozes de defesa do WikiLeaks na imprensa americana.
Para ele, não há base legal para processar o site porque é uma organização dissociada de qualquer Estado e só existe na internet.
Jornais norte-americanos já citaram como possíveis bases legais para um processo contra Assange a lei de espionagem, de 1917, e a lei de fraude e abuso de computadores, de 1986.
O escritor, que vive no Rio de Janeiro há quase seis anos, concedeu entrevista após palestra no Iesp-UERJ (Instituto de Estudos Sociais e Políticos).
A seguir, trechos da entrevista.

O que os documentos vazados pelo WikiLeaks revelam sobre a diplomacia americana?

Glenn Greenwald - Não existe uma diplomacia americana à parte dos demais objetivos do governo. Os diplomatas são usados para espionar outros países e para levantar dados de inteligência da mesma forma que a CIA seria usada.
O papel da diplomacia é evitar guerras, mas muitos documentos mostram tudo menos isso. Há diplomatas tentando convencer outros países a deixar que os EUA participem de ações militares em seus territórios.

Na semana passada, a Força Aérea dos EUA bloqueou o acesso às páginas de veículos que publicam vazamentos. A polêmica em torno do WikiLeaks pode trazer de volta a discussão sobre censura na internet?
Isso vai justificar na cabeça de muita gente que seja criado algum tipo de repressão ou censura na internet, o que é um retrocesso. As pesquisas com o público americano mostram que a maioria acredita que o WikiLeaks causou mais danos do que benefícios e que Assange deve ser encarcerado.
Os governos sempre querem controlar a internet. A razão pela qual não podem fazer isso é a oposição pública. O compromisso do WikiLeaks com a transparência pode aumentar o apoio público ao controle da internet.

Como o sr. compara os governos de Barack Obama e George W. Bush em relação à liberdade de imprensa?
Quando Obama concorreu à Presidência, criticava Bush por sua guerra contra a transparência. A realidade é que não só ele continuou a maioria destas políticas como, em alguns casos, elas até pioraram.
O governo Bush ameaçou mover ações contra jornalistas que publicaram informações secretas e processar pessoas do governo responsáveis pelos vazamentos, mas quase nunca fez isso. O governo Obama já trouxe cinco diferentes ações contra pessoas do governo que vazaram informações.

O sr. citou um artigo do professor Jay Rosen, da New York University, que afirma que parte da repercussão do WikiLeaks é resultado da morte do jornalismo americano...
Depois do 11 de Setembro, a grande imprensa se tornou completamente identificada com o governo.
Eles cobriram a Guerra do Iraque embarcados com o Exército e começaram a ver o mundo pela perspectiva do governo.
A maior desgraça é que nosso governo levou o país a uma das mais terríveis guerras dos últimos cem anos baseado integralmente em mentiras, e a classe jornalística não se deu ao trabalho de submeter as informações a qualquer escrutínio.

Quais as consequências de um eventual processo dos EUA contra Assange?
Isso vai tornar os processos contra jornalistas muito mais prováveis. Se você criar uma teoria legal que permita um processo contra o WikiLeaks, isso dará poder ao governo de processar jornalistas por revelar seus segredos.
Revelar segredos de governo representa o corpo e também a alma do jornalismo investigativo.

Por que o sr. afirma que o WikiLeaks não está sujeito às leis americanas?
O WikiLeaks não é brasileiro ou americano. É uma organização sem Estado, não pertence a nenhum país e não existe fisicamente em lugar algum, apenas na internet. Não há mecanismo para definir qual lei se aplica a ele. Não se pode levá-lo à Justiça e obrigá-lo a revelar suas fontes. A maioria das pessoas não consegue pensar dissociada do Estado.
Parte do caráter único do WikiLeaks vem do fato de Assange ter sido criado de forma transnacional.
Ele se mudou centenas de vezes e foi criado de forma a não confiar ou seguir nenhuma autoridade.

Por que a "Time" elegeu Mark Zuckerberg personalidade do ano quando os leitores escolheram Assange?
Muitas pessoas usam o Facebook e Mark Zuckerberg ganha muito dinheiro com isso, mas se ele não existisse, nada iria mudar. A "Time" já elegeu Adolf Hitler e Joseph Stalin como personalidades.
Quando as pessoas perguntam zangadas: "Mas como vocês fizeram isso"? Eles sempre dizem que não é a opção de que gostamos, mas a que teve maior impacto.
Em 2001 a pessoa de maior impacto foi Osama bin Laden, mas eles tiveram muito medo e escolheram Rudolph Giuliani [ex-prefeito de Nova York]. Agora, é claro que Assange tem mais impacto do que Zuckerberg.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Inventário vai identificar diversidade linguística

Do Portal Vermelho

Instituído na última semana, o Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL) é um meio de identificação e documentação das línguas portadoras de referência à identidade, ação e memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira.
 
O objetivo é mapear e dar visibilidade às diferentes situações relacionadas à pluralidade linguística brasileira, para permitir que as línguas sejam objeto de políticas patrimoniais que colaborem com a continuidade e valorização.

As línguas inventariadas receberão o título de Referência Cultural Brasileira, que será expedido pelo Ministério da Cultura (MinC).

No Brasil são faladas, atualmente, cerca de 210 línguas. Segundo estimativas, os grupos indígenas falam aproximadamente 180 línguas e as comunidades de descendentes de imigrantes, cerca de 30 línguas.

Além disso, usam-se, pelo menos, duas línguas de sinais de comunidades surdas, línguas crioulas e práticas linguísticas diferenciadas nas comunidades remanescentes de quilombos, muitas já reconhecidas pelo Estado e em outras comunidades afrobrasileiras. Há também uma ampla riqueza de usos, práticas e variedades da língua portuguesa falada no Brasil.

O inventário será coordenado pelo MinC, por meio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), e os ministérios da Educação, Justiça, Ciência e Tecnologia e Planejamento, Orçamento e Gestão.

Esta nova política de reconhecimento das línguas faladas no Brasil é resultado das atividades desenvolvidas pelo Grupo de Trabalho da Diversidade Linguística (GTDL), constituído em 2006.

Fazem parte dele os representantes dos ministérios envolvidos e da sociedade civil, que formaram o Instituto de Desenvolvimento em Política Linguística (Ipol), da comunidade acadêmica, representada pela Universidade de Brasília (UnB) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Para a efetiva implantação, foram realizados projetos-piloto com línguas de categorias ou situações sociolinguísticas diferentes, com o objetivo de permitir uma melhor previsão de custos, prazos e metodologias adequadas.

Esses projetos, que estão em fase de conclusão, foram selecionados por meio de editais do Conselho Federal Gestor do Fundo de Defesa de Direitos Difusos, do Ministério da Justiça, e do Programa Nacional do Patrimônio Imaterial, do Ministério da Cultura.

No Brasil são faladas, atualmente, cerca de 210 línguas: 180 línguas utilizadas por grupos indígenas, 30 línguas utilizadas por comunidades de descendentes de imigrantes.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Por que o sistema público de Saúde no Brasil é tão ruim?


Por Dráuzio Varella

Desde que sou criança, os doentes formam fila na porta dos hospitais. O fato é tão corriqueiro que ninguém mais liga; foi incorporado à cultura brasileira.

No meu tempo de faculdade, a maioria dos professores falava num tom educado com os alunos e elevava a voz para fazer perguntas ao doente, na cama. As mulheres todas eram dona Maria e os homens, seu Zé, sem exceção. No início, os alunos ficavam chocados, mas, com o passar do tempo, boa parte adotava a estupidez dos mais velhos como norma de conduta.

Naquele tempo, as mocinhas que chegavam ao pronto-socorro do Hospital das Clínicas com sangramento ginecológico provocado por abortos clandestinos eram submetidas à curetagem uterina sem anestesia. Os chefes de serviço justificavam esse procedimento, por meio do qual o colo do útero é pinçado, tracionado com uma garra de metal e raspado por dentro com um instrumento em forma de pequena colher, dizendo que, se dessem anestesia, o pronto-socorro ficaria mais lotado ainda. Pareciam imaginar que, se deixassem de sentir dor, as moças engravidariam por prazer, só para fazer curetagem nas Clínicas.

Nós, daquela geração de universitários rebeldes dos anos 60, obedecíamos como cordeiros às ordens superiores de curetar a sangue-frio. Não deve doer tanto assim, pensávamos resignados.

Os doentes que vinham ao ambulatório eram obrigados a chegar antes das oito da manhã. Todos! Quem chegasse mais tarde voltava para casa sem atendimento. Como os médicos não podiam examinar todo mundo ao mesmo tempo, havia gente que ia ser atendida às 13h. Os que tinham sorte esperavam sentados num banco de pau; os outros, em pé, horas e horas. Eram comuns os desmaios de fome e fraqueza na fila.

Apesar de hoje existirem exceções - passaram-se mais trinta anos – pouco mudou: horas na fila para os que dependem de postos de saúde, ambulatórios ou hospitais públicos federais, estaduais e municipais é a rotina. Esperam e, ainda de sobra, têm de aturar má-criação.

Ninguém seria ingênuo a ponto de supor que é fácil organizar o atendimento médico à população de baixa renda no território nacional e que os governantes não o fazem por simples desinteresse. É lógico que se trata de um problema de enorme complexidade.

Podemos até justificar a persistência teimosa das filas argumentando que são conseqüência inevitável do excesso de demanda por serviços gratuitos; afinal, a população não pára de crescer e a pobreza, de aumentar.

Da mesma forma, a falta de educação, que tantas vezes vai do porteiro ao médico, pode ser explicada pelos baixos salários, que inviabilizam a contratação de pessoal qualificado para lidar com o público. O "senta aí e espera", o "não posso fazer nada" e o "volta amanhã, que hoje não dá mais" seriam mero reflexo da proletarização do funcionalismo.

Vamos ao primeiro argumento: o número de doentes. Se é humanamente impossível atender todos às 8h, por que até hoje se faz uma pessoa doente acordar no escuro e pegar duas ou três conduções para ser vista pelo médico ao meio-dia? Como é que algumas empresas de saúde abarrotadas de conveniados conseguem atender tanta gente com hora marcada e mandá-los depressa de volta para a fábrica? Já pensaram no futuro que um médico teria se adotasse esse sistema em seu consultório particular e pedisse que dez doentes chegassem às 14h? Não é possível que não exista jeito de organizar melhor o horário de atendimento nos postos públicos. Um pouco que seja, pelo menos: deixar a pessoa esperar no máximo duas horas em vez de cinco ou seis, por exemplo.

O segundo argumento apresenta os maus-tratos como inseparáveis dos salários baixos pagos aos funcionários da área de saúde. De fato, a categoria ficou gradualmente empobrecida, mas existem exceções: alguns recebem do Estado muito mais do que alcançariam na iniciativa privada, tendo de trabalhar o dobro do número de horas. Outros têm salário de príncipe pelo pouco, ou nada, que fazem. Se valesse a desculpa do salário, pelo menos esses privilegiados deveriam dar exemplo de dedicação.

Depois, se fosse assim, como explicar os casos dos funcionários que moram em favela e, no trabalho, tratam dos doentes com dedicação comovente? A atendente de enfermagem que, abandonada pelo marido, acorda às 4h para cozinhar, deixar as crianças na creche e chegar ao hospital pontualmente às 7h para dar banho nos doentes, tudo com um sorriso nos lábios e palavras de conforto? Se a culpa fosse apenas do salário, essa minoria de servidores que dignificam a condição humana estaria extinta há anos.

Talvez a explicação mais sensata para o tamanho das filas e do sofrimento humilhante imposto aos pacientes constrangidos a utilizar o sistema público de saúde no Brasil seja outra: os responsáveis pela organização do atendimento médico gratuito não dependem dele. As pessoas influentes da sociedade, que poderiam pressioná-los se quisessem, também não.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Cinema nacional bate recordes em 2010

Tropa de Elite 2 - Produção da Zazen que traz o Capitão Nascimento foi uma das mais vistas  pelos espectadores nos últimos anos

Do Portal Vermelho

Apesar de comemorados, os sucessos do cinema brasileiro da chamada era da retomada, iniciada com a Lei do Audiovisual, deixavam um travo de incômodo em parte do mercado. É que todos eram fruto de uma vitória comercial, sob certo aspecto, mais estrangeira do que nacional. Explique-se.

Um artigo que permite que distribuidoras estrangeiras apliquem, em filmes brasileiros, parte de imposto que deveriam pagar ao remeter o lucro para a matriz, fez com que quase todas se associassem a produtores locais.

Foi a Fox que lançou "Se Eu Fosse Você 2", foi a Sony que coproduziu e distribuiu "Carandiru" e "Dois Filhos de Francisco", foi a Warner que colocou nas salas de cinema os sucessos da Xuxa.

Foi, porém, a brasileira Zazen que produziu e distribuiu "Tropa de Elite 2" e que respondeu por cerca de 44% dos ingressos vendidos pelo cinema nacional até aqui. A segunda no ranking de 2010, a Sony/Disney, aparece com 21,33% de participação.

"Pós-retomada, é a primeira vez que a liderança fica com uma empresa brasileira", diz Manoel Rangel, presidente da Agência Nacional de Cinema (Ancine).

Em 2002, a brasileira Lumière, que distribuiu "Cidade de Deus" e "Abril Despedaçado", mordeu 52,1% do market share do filme nacional. Mas a empresa trabalhava em parceria com a Miramax internacional.

E, neste ano, levadas em conta as associações, outras distribuidoras brasileiras se deram bem no negócio. A Downtown, por exemplo, partilhou com a Sony o lançamento de "Chico Xavier".

"Esse movimento veio para ficar", aposta Rangel, tomando por base a carteira de lançamentos de 2011, indicativa de que os filmes com potencial de público deixaram de ser monopólio das distribuidoras estrangeiras.

A ultrapassagem da Zazen se deu num ano forte não só no cinema nacional, mas no mercado como um todo, comprovando, de uma vez por todas, que o filme nacional não tira público do estrangeiro: soma.

A Ancine estima que, até o final do ano, os filmes brasileiros terão vendido de 24 a 25 milhões de ingressos.

O público total deve ficar entre 136 e 138 milhões, batendo o resultado de 2004, quando foram vendidos 117 milhões de ingressos - até então, recorde da década. Em 2009, foram 112,7 milhões de espectadores.

Se foi grande o aumento no número de ingressos, maior ainda foi o aumento na renda. A arrecadação, neste ano, deve ser cerca de 30% maior que a de 2009. Além de refletir o crescimento do público, o índice chama a atenção para a força do 3D que, apesar de mais caro, tem sido um ímã poderoso.

Essa cifra fará, inclusive, com que o mercado brasileiro supere o mexicano em renda e saia da 15ª para a 14ª posição no ranking mundial.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Parabéns, Oscar Niemeyer!

Amigo Fiel - Arquiteto  colaborou para o sustento do líder comunista Luís Carlos Prestes que não dispunha de renda própria na velhice

Com pelo menos 15 desenhos em sua mesa de trabalho, um samba lançado na internet e a edição do próximo número de sua revista "Nosso Caminho" a ser divulgada, o arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer  - nascido no dia 15 de dezembro de 1907 - completou hoje 103 anos de vida em plena atividade.

Autor dos palácios e outros edifícios de Brasília e de numerosas obras pelo mundo todo, o arquiteto também marcará Campina Grande com sua genialidade, em breve, por meio do Museu de Arte Popular da Paraíba, o mais novo projeto cultural da UEPB. Já conhecida como Museu dos Três Pandeiros, devido às estruturas circulares que a compõe e que lembram o instrumento de percussão, a obra começou a ser erigida este ano e adornará as margens do Açude Velho. 

"Ele (Niemeyer) gosta de manter a cabeça ocupada o tempo todo e por isso nunca pensou em parar de trabalhar", explicou Vera Lucia Niemeyer, a mulher que o arquiteto se casou às escondidas aos 98 anos e que foi sua principal auxiliar por mais de 10 anos.

Nem a idade nem os problemas que o levaram ao hospital por várias vezes nos últimos anos impedem que Niemeyer trabalhe normalmente.

"Por que seria diferente com o trabalho? Ele vive tranquilamente, tem uma dieta normal e segue tomando seu vinho. A única mudança é que parou de fumar há três meses", garantiu Vera Lucia.

O gênio das curvas em concreto e considerado um dos pais da arquitetura moderna permanece ativo após mais de um século de vida e comparece diariamente ao escritório com vista privilegiada para a praia de Copacabana, buscando sempre desafios para a criatividade.

O último projeto foi a composição de um samba, cuja versão digital foi lançada no portal de uma gravadora e na qual fez parceria com o enfermeiro Caio Almeida e com o músico Edu Krieger.

A letra de "Tranquilo com a vida", uma música sobre a simplicidade do carioca que vive na favela sem perder a esperança do fim das injustiças sociais, reflete o humanismo de um ativista que se manteve fiel ao comunismo inclusive depois da queda do Muro de Berlim e do desaparecimento da União Soviética.

O arquiteto escreveu a letra no ano passado, quando estava hospitalizado após uma cirurgia de intestino, enquanto a melodia ficou por conta de Almeida, que era seu enfermeiro na ocasião. O samba saiu do anonimato depois que Krieger a ouviu e pediu autorização para finalizá-la.

"Não é que ele queira se dedicar à música. Só a compôs porque ele estava à toa no hospital", explicou Vera Lucia ao ser questionada se o arquiteto tinha intenções de iniciar uma carreira musical tardia.

"Mas não foi sua primeira composição", avisou a esposa. "Há muito tempo (em 1962) ele lançou uma canção que chegou a ser conhecida como o samba do arquiteto", revelou Vera Lucia.

Seu aniversário foi marcado pela inauguração de um dos edifícios que projetou para o Centro Cultural Internacional Oscar Niemeyer em Avilés (Espanha).

O artista, que não costuma participar destes atos e sempre preferiu passar seu aniversário incógnito, aceitou o convite para assistir a uma festa em Niterói, vizinha do Rio de Janeiro.

"Ele não gosta de participar de festividades em seu aniversário, mas também não nega quando vale a pena", explicou Vera Lucia, que é a editora da revista "Nosso Caminho", adiantando que a próxima edição incluirá os desenhos de outros cinco projetos inéditos do arquiteto.

Na edição anterior já tinham sido publicados quatro projetos inéditos: a Câmara Municipal de Poços de Caldas, a Universidade da Música e de Artes de Araraquara, o Memorial a Ulysses Guimarães em Rio Claro e o Tribunal de Contas de Roraima.

O arquiteto também trabalha atualmente na catedral de Cristo Rei em Belo Horizonte, o Museu Pelé em Santos, o Aquário de Búzios, uma igreja na cidade de Petrópolis e na reforma do Sambódromo do Rio de Janeiro.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A árvore que floresce no inverno

Por Rubem Alves
Ilustração: Vincent Van Gogh - Amendoeira Florescendo (1890)

Os sinais eram inequívocos. Aquelas nuvens baixas e escuras... O vento que soprava desde a véspera, arrancando das árvores folhas amarelas e vermelhas. É, o inverno estava chegando. Deveria nevar. Viriam então a tristeza, as árvores peladas, a vida recolhida para funduras mais quentes, os pássaros já ausentes, fugidos para outro clima, e aquele longo sono da natureza, bonito quando cai a primeira nevada, triste com o passar do tempo...
Resolvi passear, para dizer adeus às plantas que se preparavam para dormir, e fui, assim, andando, encontrando-as silenciosas e conformadas diante do inevitável, o inverno que se aproximava. E foi então que me espantei ao ver um arbusto estranho. Se fosse um ser humano certamente o internariam num hospício pois lhe faltava o senso da realidade, não sabia reconhecer os sinais do tempo.
Lá estava ele, ignorando tudo, cheio de botões, alguns deles já abrindo, como se a primavera estivesse chegando.
Não resisti e, me aproveitando de que não houvesse ninguém por perto, comecei a conversar com ele, e lhe perguntei se não percebia que o inverno estava chegando, que os seus botões seriam queimados pela neve naquela mesma tarde.
Argumentei sobre a inutilidade daquilo tudo, um gesto tão fraco que não faria diferença alguma. Dentro em breve tudo estaria morto... E ele me falou, naquela linguagem que só as plantas entendem, que o inverno de fora não lhe importava, o seu era um ritmo diferente, o ritmo das estações que havia dentro.
Se era inverno do lado de fora, era primavera lá do lado de dentro dele, e seus botões de flor eram um testemunho da teimosia da vida que se compraz mesmo em fazer o gesto inútil. As razões para isso? Puro prazer.
Ah! Há tantas canções inúteis, fracas para entortar o cano das armas, para ressuscitar os mortos, para engravidar as virgens, mas não tem importância, elas continuam a ser cantadas somente pela alegria que contêm...
E há os gestos de amor, os nomes que se escrevem em troncos de árvores, preces silenciosas que ninguém escuta, corpos que se abraçam, árvores que se plantam para as gerações futuras, lugares que ficam vazios, à espera do retorno, poemas inúteis que se escrevem para ouvidos que não podem mais ouvir, porque alguma coisa vai crescendo por dentro, um ritmo, uma esperança, um botão pela pura alegria, um gozo de amor. E me lembrei de um pôster que tenho no meu escritório, palavras de Albert Camus: "No meio do inverno eu finalmente aprendi que havia dentro de mim um verão invencível".
E aí a alucinação teológica tomou conta da minha cabeça e me lembrei de uma velha tradição de Natal, ligada à árvore. As famílias levavam arbustos para dentro de suas casas. E ali, neve por todas as partes, elas os faziam florescer, regando-os com água morna. Para que não se esquecessem de que, em meio ao inverno, a primavera continuava escondida em alguma parte.
Inverno: o frio, a neve, o silêncio, a morte.
Quando as plantas florescem na primavera, ali os homens escrevem os seus nomes. Mas quando as plantas florescem no inverno, ali se escreve o nome do Grande Mistério...

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Carlos Ginzburg: "Não é possível ser audaz e prudente ao mesmo tempo"

Por Leandro Souza

O historiador italiano Carlo Ginzburg, 71, autor de "O Queijo e os Vermes" e um nome central da vertente chamada micro-história, defendeu em recente visita ao Brasil, uma postura combativa ao lidar com pesquisas históricas.
Para ele, o historiador deve agir como um advogado do diabo, apresentando questões difíceis às hipóteses. "Nenhuma afirmação pode ser considerada definitiva", disse. "Mas o ônus [da prova] é de quem suspeita."
Na ocasião, Ginzburg sugeriu uma leitura detida de fatos e circunstâncias, que chamou de "olhar lento, mas não tedioso", em contraposição a uma sociedade mergulhada em "imagens inflacionadas".
Ginzburg foi entrevistado pelo crítico literário e diretor de programação da Feira Literária de Parati (Flip), Manuel da Costa Pinto, e pela professora de história da USP, Laura de Mello e Souza. A mediação foi do jornalista Paulo Werneck. 

Leia a seguir os principais trechos da conversa

Provas
Quando é que podemos dizer ter provado algo? Seria útil que a linguagem nos oferecesse uma escala de provas -algo como prova de força quatro, cinco-, que pesasse o ônus da prova. O ônus é de quem suspeita. Mas nenhuma afirmação histórica pode ser considerada definitiva: toda afirmação é verdadeira até que se prove o contrário.

Advogado do diabo
A prova é como o advogado do diabo. Não é possível ser audaz e prudente ao mesmo tempo, só se você se desdobrar, uma parte formulando hipóteses com audácia, e a outra, apontando dificuldades e requerendo provas.
O advogado deve fazer as perguntas más, como se houvesse uma prova correta, criando um antagonismo.
Lévi-Strauss foi um advogado do diabo. Quando li pela primeira vez seu "Antropologia Estrutural", foi um encontro com um mundo muito distante. Foi esse desafio à história que me fascinou em Lévi-Strauss. Nos anos 70, o diálogo era intenso entre historiadores e antropólogos.
A antropologia, para mim, foi muito importante. Existe ainda hoje isso do antropólogo como figura inquisitiva.

Micro-história
Insisto que o termo micro não tem a ver com pequenez, com aquilo que esteja à margem dos objetos. Diz respeito a um olhar analítico, microscópico. É possível ver a perna de uma mosca no microscópio ou a textura da pele de um elefante. Esse elemento me é caro. Busco o excepcional, aquilo que nos dá um quadro da anormalidade.
A anomalia, por definição, contém a norma, é mais rica do que a norma do ponto de vista cognitivo. Mas eu não busco exaltar a anomalia.

Filologia
A superfície do texto registra tensões subterrâneas, como um sismógrafo. [Usar a técnica da leitura lenta] É como encostar a orelha no chão, como um índio que sente o barulho que vem de longe. Dentro de um texto, há sempre uma pluralidade de vozes e situações. É possível colher ali traços da realidade que está fora dele.

Google
[Os historiadores] Robert Darnton e Roger Chartier se preocupam com as implicações políticas e legais associadas a projetos do Google, que preveem a digitalização de uma quantidade enorme de livros que pertencem a bibliotecas públicas por uma instituição privada.
Eles veem no Google ferramentas de controle do usuário. Mas acho que ele pode ser usado contra as intenções de quem o domina. Na Revolução Francesa, o livro foi usado como instrumento de luta contra o controle. A possibilidade de um uso imaginativo, subversivo do Google não deve ser descartada.

Anomalia contemporânea
Não devemos partir das boas velhas coisas, dizia [Bertolt] Brecht, mas das malvadas coisas novas. Precisamos usar aquilo que nos ataca e nos enoja. Ver o horror, a feiura da realidade é difícil, mas devemos tentá-lo.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Basta tirar os sapatos

Por Michael Kepp (escritor norte-americano radicado há 27 anos no Brasil)
Ilustração: Vincent Van Gogh - Shoes (1888)


"GENTE INTERESSANTE" não é um clube exclusivo.
Qualquer um pode entrar, porque todos são interessantes para alguém. O grau de interesse depende do que a pessoa revela de si, e não do quanto ela mostra. Não precisa fazer um striptease. Basta tirar os sapatos e esperar os resultados.
Sim, tirar os sapatos traz riscos: chama a atenção para os buracos nas nossas meias.
Mas ser vulnerável humaniza e pode convencer o outro a também tirar os sapatos. A maioria precisa de um empurrãozinho para fazer isso.
Nas minhas crônicas, tiro bem mais do que os sapatos, porque o público está distante e normalmente é simpático.
Por isso, aos leitores já revelei minha transa com uma prostituta, a vez que botei no jornal um classificado amoroso, minhas dificuldades de lidar com a adolescência dos meus enteados, meu derrame e alguns dos meus defeitos (mas não os piores). Eu já escrevi até sobre meu pelo corporal. Mas, mesmo assim, eu nunca tiro tudo.
Todas essas confissões têm o propósito de provocar alguma reação: risos, lágrimas, raiva ou reflexão. Enfim, comover aqueles que conseguem se identificar comigo e se sentir menos alienados, menos solitários. Às vezes, essa cumplicidade se confirma em um e-mail que diz: "Sua crônica expressou algo que sempre senti e queria dizer, mas nunca consegui"."
Há pouco tempo, eu contei a um amigo que, durante uma viagem recente à minha cidade natal, visitei, pela primeira vez, o túmulo da minha mãe, que morreu quando eu tinha dez anos. E quando vi a lápide me emocionei tanto que a abracei como se fosse seu corpo. Daí ele me contou que há dois anos, no Peru, ele visitou a montanha onde ocorreu o acidente aéreo que matou seus pais quando ele tinha 13 anos. Quando viu uma cruz enorme fincada no lugar do desastre, ele se debruçou no solo diante dela e abriu os braços para dar nos seus pais o mesmo abraço simbólico que dei em minha mãe. Foi uma das raras vezes que ele se abriu comigo.
Ele tirou os sapatos porque eu tirei também. E quando duas pessoas começam a se expor, ambas ficam mais interessantes.
Uma pessoa pode ser interessante antes de abrir a boca. Pode ser também que ela nunca tire os sapatos e só revele que prefere se esconder.
Mas quem não corre o risco de se expor também paga um preço. Afinal, uma pérola só tem valor fora da ostra.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Casa de Fernando Pessoa na web


Por Jair Rattner, do Estadão

Conhecer o que lia Fernando Pessoa, as anotações que fazia nos seus livros, como ideias para poemas surgiam durante suas leituras. Isso é possível a qualquer pessoa. É que está disponível na internet a biblioteca digital do poeta português, no site da casa-museu dedicada a ele (http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt).

Os livros são os que acompanharam o poeta desde a adolescência - na época em que ele ainda morava na África do Sul. "O livro mais antigo é do século 19, quando Pessoa tinha 12 a 14 anos. São livros que vão desde essa época até sua morte, com 47 anos", conta o professor Jerônimo Pizarro, responsável pelo trabalho. O último livro foi parar na biblioteca do escritor em outubro de 1935, um mês antes de sua morte.

No total, o espólio de Fernando Pessoa que está na casa-museu reúne 1.312 títulos. No entanto, apenas pouco mais de 1.100 estarão disponíveis para consulta. "Não podemos colocar na internet todos os livros, por motivos de direitos autorais, porque alguns ainda não caíram no domínio público. Por exemplo, a família do poeta Antônio Boto não autorizou que os livros dele estivessem na rede, mas ainda vou falar novamente com eles", relata Pizarro. A legislação portuguesa prevê que os livros caiam no domínio público 70 anos após a morte do autor.

Pyp. 
 
Uma parte dos livros tem anotações feitas por Pessoa. Pizarro conta que nas margens dos livros aparecem os pré-heterônimos, o primeiro deles em um livro de quando Pessoa tinha perto de 15 anos. "Num livro de latim de 1904 aparece o nome de F. Pyps. Um dos primeiros heterônimos a assinar um poema em português é Pyp."

Ele conta que o acesso à biblioteca também permite entender como Pessoa construía seu pensamentos. Pizarro diz que os livros com mais anotações de Pessoa são os que ele leu durante a adolescência.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Violência contra homossexuais


Por Dráuzio Varella

A homossexualidade é uma ilha cercada de ignorância por todos os lados. Nesse sentido, não existe aspecto do comportamento humano que se lhe compare.
Não há descrição de civilização alguma, de qualquer época, que não faça referência a mulheres e a homens homossexuais. Apesar de tal constatação, esse comportamento ainda é chamado de antinatural.
Os que assim o julgam partem do princípio de que a natureza (leia-se Deus) criou os órgãos sexuais para a procriação; portanto, qualquer relacionamento que não envolva pênis e vagina vai contra ela (ou Ele).
Se partirmos de princípio tão frágil, como justificar a prática de sexo anal entre heterossexuais? E o sexo oral? E o beijo na boca? Deus não teria criado a boca para comer e a língua para articular palavras?
Se a homossexualidade fosse apenas uma perversão humana, não seria encontrada em outros animais. Desde o início do século 20, no entanto, ela tem sido descrita em grande variedade de invertebrados e em vertebrados, como répteis, pássaros e mamíferos.
Em alguma fase da vida de virtualmente todas as espécies de pássaros, ocorrem interações homossexuais que, pelo menos entre os machos, ocasionalmente terminam em orgasmo e ejaculação.
Comportamento homossexual foi documentado em fêmeas e machos de ao menos 71 espécies de mamíferos, incluindo ratos, camundongos, hamsters, cobaias, coelhos, porcos-espinhos, cães, gatos, cabritos, gado, porcos, antílopes, carneiros, macacos e até leões, os reis da selva.
A homossexualidade entre primatas não humanos está fartamente documentada na literatura científica. Já em 1914, Hamilton publicou no "Journal of Animal Behaviour" um estudo sobre as tendências sexuais em macacos e babuínos, no qual descreveu intercursos com contato vaginal entre as fêmeas e penetração anal entre os machos dessas espécies. Em 1917, Kempf relatou observações semelhantes.
Masturbação mútua e penetração anal estão no repertório sexual de todos os primatas já estudados, inclusive bonobos e chimpanzés, nossos parentes mais próximos.
Considerar contra a natureza as práticas homossexuais da espécie humana é ignorar todo o conhecimento adquirido pelos etologistas em mais de um século de pesquisas.
Os que se sentem pessoalmente ofendidos pela existência de homossexuais talvez imaginem que eles escolheram pertencer a essa minoria por mero capricho. Quer dizer, num belo dia, pensaram: eu poderia ser heterossexual, mas, como sou sem-vergonha, prefiro me relacionar com pessoas do mesmo sexo.
Não sejamos ridículos; quem escolheria a homossexualidade se pudesse ser como a maioria dominante? Se a vida já é dura para os heterossexuais, imagine para os outros.
A sexualidade não admite opções, simplesmente se impõe. Podemos controlar nosso comportamento; o desejo, jamais. O desejo brota da alma humana, indomável como a água que despenca da cachoeira.
Mais antiga do que a roda, a homossexualidade é tão legítima e inevitável quanto a heterossexualidade. Reprimi-la é ato de violência que deve ser punido de forma exemplar, como alguns países o fazem com o racismo.
Os que se sentem ultrajados pela presença de homossexuais que procurem no âmago das próprias inclinações sexuais as razões para justificar o ultraje. Ao contrário dos conturbados e inseguros, mulheres e homens em paz com a sexualidade pessoal aceitam a alheia com respeito e naturalidade.
Negar a pessoas do mesmo sexo permissão para viverem em uniões estáveis com os mesmos direitos das uniões heterossexuais é uma imposição abusiva que vai contra os princípios mais elementares de justiça social.
Os pastores de almas que se opõem ao casamento entre homossexuais têm o direito de recomendar a seus rebanhos que não o façam, mas não podem ser nazistas a ponto de pretender impor sua vontade aos mais esclarecidos.
Afinal, caro leitor, a menos que suas noites sejam atormentadas por fantasias sexuais inconfessáveis, que diferença faz se a colega de escritório é apaixonada por uma mulher? Se o vizinho dorme com outro homem? Se, ao morrer, o apartamento dele será herdado por um sobrinho ou pelo companheiro com quem viveu por 30 anos?

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Quem é o estagiário do STJ demitido grosseiramente pelo presidente da corte?


Por Ivan Marsiglia, do Estado de S. Paulo
Crédito da foto: Pablo Valadares

A testemunha descreve a cena tal qual a vítima fez constar no boletim de ocorrência. Por volta das 16h do dia 19 de outubro, o estagiário, após entregar um processo na seção de documentos administrativos, que fica no subsolo do Superior Tribunal de Justiça (STJ), em Brasília, dirigiu-se para a agência do Banco do Brasil no complexo de prédios da corte a fim de fazer um depósito por envelope para uma amiga. Vestindo camisa polo, calça jeans e sapato social, foi informado por um funcionário da agência de que em apenas um dos caixas eletrônicos poderia ser feita a transação. Justamente aquele, em uso por um homem de terno e gravata, aparentando 1,60 metro, que ele inicialmente não reconheceu. Postou-se atrás de linha de espera, traçada no chão da agência. O diálogo que se seguiu foi o seguinte:

- Quer sair daqui? Estou fazendo uma transação pessoal - disse o senhor, após voltar-se duas ou três vezes para trás, "de forma um tanto áspera", como relataria o jovem, em seu português impecável.
- Senhor, eu estou atrás da linha de espera. - foi a resposta, "em tom brando", como contou, ou "de forma muito educada", na confirmação da testemunha.
- Vá fazer o que tem que fazer em outro lugar! - esbravejou o homem em frente ao caixa eletrônico.
- Mas, senhor, minha transação só pode ser feita neste caixa...
- Fora daqui! - o grito, a essa altura, chamou a atenção de pessoas que passavam e aguardavam na agência.
E foi completada pelo veredicto, aos brados:
- Eu sou Ari Pargendler, presidente deste tribunal. Você está demitido, entendeu? Você está fora daqui, isto aqui acabou para você. De-mi-ti-do!

Assim terminou a carreira do estudante de administração Marco Paulo dos Santos, de 24 anos, na segunda mais alta corte do País. Ele entrara no STJ no início do ano, após passar por um processo seletivo do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), na capital federal, do qual participaram mais de 200 candidatos. Marco ficou entre os dez primeiros. Todos os dias, saía do apartamento onde mora com a mãe e o irmão em Valparaíso de Goiás, cidade-satélite a 35 km de Brasília, e levava uma hora de ônibus até chegar ao estágio. Dava expediente das 13h às 19h, pelo que recebia R$ 600 por mês, mais R$ 8 por dia de auxílio-transporte. Pouco importa. Martelo batido.

"Foi uma violência gratuita", avalia a brasiliense Fabiane Cadete, de 32 anos, que estava sentada com uma amiga na fila de cadeiras ao lado dos caixas eletrônicos naquele dia. "Ele (Pargendler) gritava, gesticulava e levantava o peito na direção do Marco." Chamou-lhe especialmente a atenção a diferença de estatura - literal, no caso - dos dois protagonistas. Marco tem 1,83 metro. "O juiz puxou tanto o cordão do crachá para ler o nome do menino, que as orelhas dele faziam assim, ó", mostra ela, empurrando as suas próprias como se fossem de abano.

Batalha difícil
Fabiane conta que ficou receosa antes de decidir depor em favor de Marco - que, no dia seguinte, registrou queixa por "injúria real" contra o presidente do STJ na 5ª delegacia da Polícia Civil do Distrito Federal. Funcionária de uma empresa que presta serviços ao tribunal, ela jura que nunca tinha visto Marco antes na vida, mas ainda assim se dispôs a contar o que viu. A amiga, que tem mais anos de casa no STJ, preferiu se preservar. "Eu não me sentiria em paz comigo mesma se não falasse", explica Fabiane, que cursa direito no Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb). "Como futura advogada, fiquei decepcionada com o ministro."

Como Ari Pargendler só pode ser julgado em instância superior no Judiciário, o delegado Laércio Rossetto encaminhou o caso ao Supremo Tribunal Federal (STF), onde o processo corre em segredo de Justiça. Remetido inicialmente para a ministra Ellen Gracie, esta se declarou impedida por manter relações de amizade com Pargendler. Redistribuído pelo presidente do Supremo, Cezar Peluso, caiu nas mãos do ministro Celso de Mello, jurista que não tem por hábito "sentar em cima" dos casos mais polêmicos.

O depoimento de Fabiane animou o até então cauteloso advogado de Marco, preocupado em não expor seu cliente a uma contraofensiva judicial. "Não tenho vocação nenhuma para Policarpo Quaresma", diz Antonielle Julio, que teve uma prévia das dificuldades que vai enfrentar quando solicitou à gerência do Banco do Brasil no STJ as imagens do circuito interno de segurança, que revelariam facilmente quem está com a razão. Ouviu que o sistema apresentou falha técnica e "não há imagem alguma".

A Bíblia e os 'policiais'
Marco Paulo dos Santos é negro, filho de brasileira com africano e nascido na Grécia. Vista de perto, sua história de vida é tão espantosa quanto o diálogo supostamente travado na agência bancária do STJ. Sua mãe, a doméstica Joana D’Arc dos Santos, de 56 anos, natural de Raul Soares (MG), passou como ele por um concurso que mudaria o rumo de sua existência. Ainda solteira, na década de 80, leu um anúncio no jornal Estado de Minas em que a esposa de um diplomata mineiro procurava uma empregada para acompanhar a família em seu novo posto no exterior. Quando chegou a Belo Horizonte para a entrevista, uma centena de candidatas já havia passado pelo crivo da patroa, mas foi Joana quem levou. "Ela agradou mais de mim", conta, na construção típica da zona da mata mineira.

Em Atenas, Joana conheceu o marinheiro cabo-verdiano José Manoel da Graça, que trabalhava em um navio petroleiro. O namoro deslizava em mar de rosas, quando o patrão recebeu ordens do Itamaraty para se transferir para a Embaixada do Brasil no Chile. E lá se foi Joana D’Arc de volta para a América. Mas, com banzo de seu africano, em pouco tempo abandonava o emprego para voltar a sua odisseia grega. Amigou-se com Manoel em Atenas e teve com ele dois filhos: Daniel David e Marco Paulo.

Cinco anos depois, foi a saudade do Brasil que bateu e Joana embarcou de volta com os meninos. Primeiro, para Minas; depois, Brasília. Manoel foi navegar outros mares. "Fiquei esperando, porque ele nunca disse que não vinha. Os telefonemas foram rareando, só Natal, aniversário... E Manoel acabou não vindo", dá de ombros. Hoje, é com a tormenta jurídica do caçula que ela se preocupa. "Sabe como é, a gente foi criada no negócio do ‘deixa pra lá’. Mas ele decidiu assim, entrego nas mãos de Deus."

Em casa, o primogênito Daniel, hoje com 27 anos, é o voluntarioso e bem-humorado. Já Marco sempre foi introvertido e responsável. A mãe conta que, enquanto faxinava nas casas de família, o garoto dava um jeito de se enfurnar na biblioteca dos patrões. "Sempre foi menino de ler. Passava duas, três horas... eu até esquecia dele." Daí a facilidade, talvez, com que passou em todos os testes que fez até hoje, inclusive o do Prouni - programa de bolsas de estudos do governo, que lhe permite cursar administração no Iesb.

vangélico, como toda a família, Marco traz sempre a Bíblia debaixo do braço. E algum romance policial de Agatha Christie e Conan Doyle. Mas também passeou por leituras mais substanciosas, como O Príncipe, de Nicolau Maquiavel. "É uma aula de vida. Ele juntou todo o conhecimento de como se governar, lidar com as pessoas, a política e o poder. É muito útil para um administrador", ensina o estagiário defenestrado do STJ.

Na melodia do Supremo

Outro dos talentos de Marco é a música. Na igreja, deu seus primeiros acordes. E logo conseguiu uma bolsa no tradicional Clube do Choro de Brasília, onde estuda violão de sete cordas. O professor, o instrumentista carioca Fernando César, de 40 anos, é só elogios: "Ele é um cara supertranquilo, aplicado e musical. Lê muito bem partitura". Empreendedor precoce, escreveu e lançou em junho, por uma editora evangélica, um método de ensino de violão para os fiéis sem condições de pagar por um curso. Agora, ainda desempregado, dedica-se com mais afinco à execução de clássicos como Vou Vivendo, de Pixinguinha, cujos versos finais são: "Vou vivendo assim/ Porque o destino me fez um vadio/ Novo endereço ele vai traçar/ E virei para te avisar/ Quando à noite uma toalha de estrela/ Tiver para me cobrir".

Mesmo apreensiva, Joana D’Arc não esconde o orgulho pela coragem do filho em enfrentar o presidente de uma das instituições mais poderosas do País. "Antes de ir para a Grécia eu era um bicho assustado. Achava que por ser negra e pobre era normal ser humilhada e maltratada. Mas lá, a gente entrava num restaurante ou em qualquer lugar chique e era recebido como todo mundo. Então, não deixei meus filhos crescerem com esse pensamento meu."

Procurado pela reportagem para dar sua versão dos fatos, o ministro Ari Pargendler disse por intermédio da assessoria que não vai se manifestar. No telefone da corte, em chamada de espera, ouve-se a seguinte mensagem: "Ter acesso rápido e fácil à Justiça é um direito seu. STJ, o Tribunal da Cidadania".

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Artistas se apresentam hoje no Parque do Povo em favor das pessoas que vivem com o HIV/Aids

Estrela confirmada - Val Donato integra o grupo de artistas 
que abrilhantará o evento

Por Severino Lopes, do Diário da Borborema

Artistas campinenses que representam os diversos estilos musicais, como o forró, a MPB e até música internacional, unem-se no mesmo palco para formar uma corrente de solidariedade na luta contra a AIDS. O show beneficente será realizado hoje, a partir das 20h, na pirâmide do Parque do Povo. Com título "Um encontro marcado com a vida", o show terá a participação de artistas como Tan, Val Donato, Janine, Sandra Medeiros, Roberta Silvana, Ranniery Gomes, Pepysho Neto, Tony Dumond, entre outros. O show acontece dentro da programação do Dia Mundial de Luta Contra a Aids, que tem como tema "Somos iguais, preconceitos não". A entrada será 2 kg de alimentos que serão doados para pessoas que vivem com HIV/Aids e portadores de tuberculose.
Um dos primeiros artistas a pisar no palco será o cantor campinense Alexandre Barros (Tan). O cantor preparou um repertório com músicas de intérpretes consagrados da MPB, como Caetano Veloso, Emílio Santiago, Cazuza, Tom Jobim, Cauby Peixoto e Roberto Carlos. Tan, que no ano passado lançou o DVD Bolero & Canções, garante que a música tem o poder de levar alegria e estimular a solidariedade.

Depois de Tan será a vez da cantora campinense Sandra Medeiros soltar a sua voz. Entre o show de Tan e o de Sandra Medeiros, a cantora, compositora e instrumentista campinense Roberta Silvana subirá ao palco. A artista está divulgando o seu quarto trabalho.

O CD faz uma releitura de músicas de MPB gravadas por artistas consagrados. Roberta faz viagem por Zeca Baleiro, passando por Adriana Calcanhoto, Ana Calorina até Nando Reis. Com uma voz afinadíssima e melodiosa, passeia pela MPB, o pop e a música internacional de boa qualidade. Com mais de 20 anos de carreira, Roberta Silvana já gravou quatro CDs, sendo que o mais recente trabalho reúne músicas da MPB. Roberta também está preparando um CD com músicas internacionais.

Val Donato: eclética

Recentemente ela abriu o show de Oswaldo Montenegro. Vivendo um momento especial de sua carreira, a cantora Val Donato não poderia ficar de fora dessa corrente de solidariedade. Ela sobe para dividir com os amigos esse momento novo.

Val é uma das melhores intérpretes da nova geração da música campinense. Aos 27 anos já gravou um CD, denominado Versões, com músicas de vários artistas nacionais, e está se preparando para gravar o primeiro DVD com canções inéditas. Em seu eclético repertório estão principalmente MPB e pop rock. É o que ela promete mostrar hoje.

Com sangue de nordestino correndo nas veias, o sanfoneiro Ranniery Gomes vai levar o forró pé de serra para o show. Desde 2005, ele vem conquistando espaços privilegiados nos palcos de Campina Grande e da Paraíba. Na mala, possui quatro CDs gravados, a maioria com composições próprias e um DVD recém lançado, gravado no Maior São João do Mundo. Outros artistas do cenário local confirmaram presença.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

"A grande literatura do século vem da América Latina", diz Francis Ford Coppola

Fonte da Juventude - "Me sinto com 20 anos", diz Coppola, 71

Por Bruno Yutaka Saito, da Folha Ilustrada

Está longe o tempo em que Francis Ford Coppola era o "chefão" de Hollywood. Mas, ainda assim, quando entra na sala para a coletiva de imprensa, o respeito que impõe é digno de Don Corleone em "O Poderoso Chefão" (1972).
Mas logo a tensão se desfaz. O diretor norte-americano conversou calmamente com jornalistas ontem, na Faap, para divulgar seu mais recente filme, "Tetro".
"Estou em um momento da vida em que posso fazer o filme que quiser, desde que esteja dentro do meu orçamento", diz Coppola.
Aos 71 anos, o cineasta diz começar a segunda fase de sua carreira. Alçado ao estrelato nos anos 70, foi à falência com o fracasso de "O Fundo do Coração" (82). Passou boa parte dos anos 80 fazendo filmes sob encomenda para pagar dívidas e, nos anos 90, fez apenas três filmes.
Acabou se reinventando como empresário. Com os lucros de vinícola na Califórnia e outros empreendimentos, Coppola hoje financia seus próprios filmes. "Tetro" é o segundo filme nesse modelo. "Velha Juventude" (2007) marcou o retorno às telas após hiato de dez anos.
Pouco antes de chegar ao Brasil havia finalizado o terceiro, "Twixt Now and Sunrise", com Val Kilmer. "Veja, ainda tenho lama nos meus pés", disse para o jornalista, sobre o filme que, segundo ele, marca um retorno às suas origens no terror, quando trabalhava para o produtor e diretor Roger Corman.
"Tetro", drama sobre uma família fraturada por traumas, foi filmado na Argentina. "A grande literatura do século vem da América Latina: Cortázar, Borges, Bolaño, Jorge Amado...Esperava que, indo lá, seria inspirado por essa tradição."
O diretor não descarta a possibilidade de, um dia, filmar no Brasil. "O real tem se valorizado e há uma ótima prosperidade. Mas parece que filmar aqui é tão caro quanto em outros países. Romênia e Argentina são mais vantajosos por causa da cotação da moeda local em relação ao dólar. Você sabe se é muito caro filmar no Brasil?"
Não seria o primeiro envolvimento do diretor com o país. Em 1998, Coppola veio ao Brasil e participou de eventos relacionados a "Chatô", filme não concluído até hoje por Guilherme Fontes.
"Ele queria a tecnologia moderna da Zoetrope [estúdio de Coppola e George Lucas]. Mas, quando cheguei ao Rio, ele queria que eu dirigisse o filme."
"Eu falei: "Bem, não sei se é algo que quero fazer, mas te darei os todos os conselhos que você precisar. Fiquei surpreso depois quando disse que ele mesmo iria dirigir. Por que você não escolhe Hector Babenco ou Bruno Barreto, perguntei (...) Ele chegou a terminar o filme?"


RAIO-X COPPOLA

VIDA
Nasceu em 1939, em Detroit, mas cresceu em um subúrbio nova-iorquino que serve de referência para alguns filmes. A família é de artistas: o pai é músico e a mãe, atriz. É pai da também cineasta Sofia ("Encontros e Desencontros")

CARREIRA

Com uma trajetória de cerca de 50 anos, produziu, escreveu e dirigiu dezenas de filmes. Em 1972, assinou a direção e o roteiro, ao lado do autor Mario Puzo, de "O Poderoso Chefão", sucesso de público e de crítica

PRÊMIOS

Recebeu cinco Oscars. Três em 1975, por "O Poderoso Chefão 2": melhor filme, diretor e roteiro adaptado. Também ganhou duas vezes a Palma de Ouro em Cannes, por "Apocalypse Now" (1979) e "A Conversação" (1974)

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Ginzburg e o enigma da "Flagelação de Cristo"

Controvérsia - Historiador italiano fez investigação obssessiva engrossando o debate em torno da obra

Por Bernardo Carvalho  

RESUMO
Em ensaio já clássico, o historiador Carlo Ginzburg procura, nas circunstâncias políticas de cidades italianas como Roma, Arezzo e Florença e na oposição entre igreja do Oriente e do Ocidente no século 15, os sinais que o levaram à atribuição do quadro "A Flagelação de Cristo" ao mestre da pintura Piero della Francesca.
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UM DOS MAIORES ENIGMAS da história da pintura tem 81 por 58 centímetros. E permanece até hoje no palácio renascentista que um duque zarolho mandou construir, em meados do século 15, com o dinheiro de seu exército mercenário (depois de perder o olho direito num torneio), determinado a fazer de sua pequena cidade, encarapitada no alto de uma colina, um centro humanista e artístico à altura de Florença.
O esforço acabou dando algum resultado. Tanto que foi no palácio ducal de Urbino que Castiglione se inspirou para escrever, décadas depois, um dos grandes clássicos do Renascimento italiano e da literatura ocidental, o best-seller "O Cortesão", manual de comportamento na corte. E é lá, numa das salas espartanas com paredes caiadas, que está exposto o pequeno "A Flagelação de Cristo", uma das maiores obras-primas da história da pintura e "um dos casos mais controversos da hermenêutica artística", como o define o historiador Carlo Ginzburg em seu arrebatador "Investigando Piero", ensaio escrito à maneira de um romance policial, sobre um quadro em relação ao qual a única certeza (graças ao detalhe de uma inscrição que faz referência explícita ao local de nascimento do pintor) é a autoria de Piero della Francesca.

MISTÉRIO Quase nada se sabe sobre Piero -como é conhecido o mestre de Borgo Sansepolcro, vilarejo nos arredores de Arezzo, onde ele nasceu, entre 1415 e 1420, e onde morreu, em 1492, enquanto era descoberto o Novo Mundo.
"A Flagelação de Cristo" nunca facilitou descoberta nenhuma. Ao contrário, o mistério do quadro é inversamente proporcional à modéstia de suas dimensões -o que não impede que as proporções internas da cena representada na pintura correspondam (segundo a "mística da medida" perfeitamente dominada por Piero, teórico e inovador notável da perspectiva) à suposta altura de Cristo, "modelo da perfeição física do Homem-Deus", deduzida de relíquias transferidas de Jerusalém para a cidade de Roma.
Em 1981, Carlo Ginzburg, hoje professor da Escola Normal Superior, em Pisa, e um dos expoentes da chamada "micro-história" (escola que privilegia as anomalias, as especificidades e os casos particulares na composição do contexto histórico), resolveu dar a sua contribuição à controvérsia. E foi mexer logo na cronologia.
Baseado em toda uma teoria que combina os poucos dados biográficos conhecidos do pintor com a conjuntura política e religiosa da Itália depois da queda de Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente, em 1453, Ginzburg contestou a data atribuída à obra por especialistas da estatura de Roberto Longhi -autor de uma "Breve mas Verídica História da Pintura Italiana" e de um estudo seminal sobre Piero, de 1927 (ambos também publicados pela Cosac Naify). E propôs uma ousada reinterpretação dos personagens em cena, chegando a uma explicação espetacular da obra.

DISPUTAS Tudo gira em torno das disputas e dos esforços de reconciliação entre a igreja do Oriente, sediada em Constantinopla (atual Istambul) antes da invasão turca, e a igreja de Roma. Tudo se resume às disputas e troca de favores entre as cortes italianas -e entre estas e a igreja.
Boa parte da igreja do Oriente se opunha à reconciliação com a igreja de Roma, enquanto os humanistas de ambos os lados, zelosos do que a Antiguidade grega representava para o Ocidente, não poupavam esforços em favor da unidade.
Ginzburg sustenta a tese de que "A Flagelação de Cristo" seria uma encomenda enviada ao duque de Urbino, Federico da Montefeltro, como forma de pressioná-lo a levantar seu Exército contra os turcos, em defesa do último bastião do cristianismo no Oriente, depois da queda de Constantinopla, que marca o fim da Idade Média.
O duque resistia à ideia de uma cruzada para salvar o pouco que restava do Império Bizantino -o Despotado da Moreia, na Grécia, que viria a cair de qualquer jeito, sete anos depois de Constantinopla. E o mais extraordinário nesse quebra-cabeças romanesco montado por Ginzburg é o argumento de que, para convencê-lo a ir à guerra, o quadro vai associar simbolicamente a grande história à anomalia e à tragédia de sua vida privada.

ENCOMENDA O primeiro passo da investigação é saber quem encomendou o quadro. A resposta depende da articulação entre os dois planos representados na pintura. À esquerda, e ao fundo, Cristo é espancado, amarrado a uma coluna, sob o olhar impassível de Pilatos, sentado num trono. Ginzburg o identifica, pelos trajes, com o imperador bizantino, João 8º Paleólogo, que, em sua inércia, refém do movimento contrário à união das duas igrejas, acabou sendo cúmplice dos martírios infligidos aos cristãos pelos turcos. A arquitetura da cena alude a edifícios específicos e relíquias mantidas em Roma, dando munição ao historiador para situar o quadro cronologicamente à altura da passagem de Piero pela cidade, em 1458-59, e refutar as datações anteriores.
No primeiro plano, à direita, estão três personagens. É a cena principal, a despeito do nome da obra. Diante da dificuldade de identificação, Ginzburg resiste a entendê-los apenas como alegorias ou representações de tipos anônimos. São retratos. O historiador vai identificar o personagem mais à direita com figuras recorrentes em outras obras de Piero, sobretudo no célebre ciclo de Arezzo, sua obra-prima.
Quando esteve em Florença, ainda jovem, Piero frequentou os humanistas toscanos, com os quais também mantinha relações de amizade, como o comerciante aretino Giovanni Bacci, futuro protetor do artista. É Bacci quem vai encomendar os afrescos da igreja de San Francesco, em Arezzo, que contam a "lenda da verdadeira Cruz" (a história da madeira na qual Cristo foi crucificado). É um homem do poder, que terá um papel importante dentro da igreja. É ele o personagem à direita.
O da esquerda, identificado pela indumentária e pela barba de estrangeiro, é o bispo grego Bessarion, ilustre representante da igreja do Oriente e militante da causa da unidade entre as duas igrejas, que depois Roma vai nomear cardeal. É ele quem faz a ligação entre os dois planos da pintura. Seus lábios estão entreabertos. E o que ele conta é o sofrimento dos cristãos nas mãos dos turcos, que a cena secundária, da flagelação de Cristo ao fundo, representa como alegoria.

PONTO CEGO Graças a uma investigação obsessiva, recorrendo às provas sempre que possível (mas também incorporando ao relato os próprios percalços da pesquisa), Ginzburg faz o leitor imaginar o encontro entre Piero, seu protetor aretino e o cardeal grego, em Roma, com o objetivo de exortar o duque de Urbino à Cruzada, por meio de uma pintura. E o principal argumento para convencê-lo será esse ponto cego da iconografia que é a terceira figura angelical e misteriosa entre os dois personagens em primeiro plano.
O rapaz, que lembra os anjos de outras obras de Piero, como o "Batismo de Cristo", está descalço, ao contrário dos que o cercam, e olha para fora do quadro, para o além -para o mundo do espectador, talvez, e de Federico da Montefeltro, a quem a encomenda se dirige.
É uma figura que não está na mesma dimensão das outras. "Os olhos do misterioso jovem louro fitam algo que não vemos", insinua Ginzburg. Era preciso falar ao coração do duque. E é esse apelo, na interpretação do historiador, que revela afinal a identidade do jovem, figura-chave do mistério, que aqui vai permanecer incógnito para não estragar a surpresa e o encanto do leitor.

OBJETOS DA NATUREZA Federico da Montefeltro chegou ao poder em 1444, substituindo o irmão assassinado numa emboscada da qual não está excluída a sua participação. Piero della Francesca pintou um díptico famoso, hoje no museu dos Uffizi, em Florença, composto pelos retratos de Federico (de perfil, para evitar a visão sinistra da face direita, desfigurada pela lança que lhe arrancou o olho durante um torneio) e de sua mulher, Battista Sforza, recém-falecida. Sobre o díptico, o crítico Bernard Berenson escreveu: "Os retratos do duque e da duquesa de Urbino foram concebidos como se ambos fossem objetos da natureza, rochas, colinas". E sobre Piero: "Parece ter sido contrário à manifestação do sentimento, disposto a tudo para evitá-la. Hesitava até mesmo em reproduzir a reação natural acarretada pela investida de uma força contra um objeto inanimado, como por exemplo o ricochete de um tronco golpeado por um machado".
Uma impassibilidade capaz de levar um duque zarolho às lágrimas e à guerra.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

"Bach é o início e o fim de toda a música", diz regente

Exímio Organista - Bach dirigiu a  Orquestra Gewandhaus, de Leipzig, até sua morte

Por Marcos Flamínio Peres
Bach não daria um filme. Não tem a precocidade e a leveza encantadora que salta aos ouvidos em Mozart nem a potência das massas sonoras e a sina do gênio perturbado de Beethoven.
Mas esse exímio e pacato organista de província de uma provinciana Alemanha, "foi o início e o fim de toda a música". Assim o define Georg Christoph Biller, regente do coro da igreja de St. Thomas e da Orquestra Gewandhaus, de Leipzig.
Com 800 anos de existência, ela foi dirigida por 27 anos pelo próprio Bach (1685-1750), até sua morte.
No programa do concerto, promovido pelo Mozarteum e Instituto Goethe-SP, uma só peça: a "Missa em Si Menor" (BWV 232) -"o testamento musical de Bach, no qual reúne toda a força de sua criação", diz Biller.


Por que Bach é tão importante ainda hoje? A grandiosidade de sua produção seria possível fora do contexto da religião luterana? 

Georg Christoph Biller - Ele é importante porque fascina pessoas dos mais diferentes credos e culturas. De fato, o protestantismo, com sua ideia de "música para honrar a Deus", era uma importante fonte de composições para Johann Sebastian Bach. Mas sua genialidade também teria se desenvolvido dentro de quaisquer outros credos.

A que se deveu o ostracismo de sua obra até a "redescoberta", pelo músico Mendelssohn, no século 19?  

Bach foi quase esquecido após a sua morte, porque nesse período não se dava tanto valor ao cultivo da música mais antiga, como hoje. Não somente Mendelssohn, mas também outros de sua época foram, no início do século 19, considerados como música de tempos passados.

Como definiria a importância, para a história da música erudita, dos "três grandes" -Bach, Mozart e Beethoven?

Em cada um deles, alguma coisa sobressai. Mozart tem como ponto alto a leveza do clássico vienense; Beethoven é o marco do período romântico; já Bach é o início e o fim de toda a música.

As gravadoras dizem que música erudita não vende bem. Ela é um gênero em declínio?

Estará em perigo se os jovens não forem atraídos, e só se sentirão atraídos se já tiverem conhecimento prévio.

O que fazer, então, para ampliar seu público?

Para atrair o público jovem, deveria haver, por exemplo, concertos "lounge" -parecidos com "jam sessions", mas que, ao mesmo tempo, mantêm a literatura clássica. Concertos "participativos" também podem levar a aumento de público.

Qual sua maior obra?

No momento, a "Missa em Si Menor". 

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Taperoá promoverá 1º Festival Cariri Mostra Artes do Povo

Ariano Armorial - Ícone do movimento que criou uma arte erudita a partir da cultura nordestina, um dos filhos mais festejados de Taperóa abrirá o evento


A cidade de Taperoá se prepara para a realização do 1º Festival Cariri Mostra Artes do Povo e para o 1º Seminário Cariri Paraibano: Território Articulado como Espaço de Cultura, Desenvolvimento e Cidadania. Os eventos serão realizados entre os dias 9 a 12 de dezembro. A palestra de abertura será com o escritor paraibano (natural de Taperoá), Ariano Suassuna.

Os eventos estão sendo organizados pelo Pontão de Cultura Cariri Território Cultural, Prefeitura de Taperoá e Fórum de Cultura e Turismo do Cariri Paraibano, em parceria com Sebrae e Governo do Estado da Paraíba, entre outros órgãos e entidades.

Durante três dias, grandes nomes e pensadores da cultura brasileira, mestres da cultura, artesãos e representantes de pontos de cultura, ONGs e manifestações da cultura popular participarão das discussões em Taperoá.

Além do escritor Ariano Suassuna, que abrirá o encontro no dia 10, artistas de renome nacional como os cantores e compositores paraibanos Zé Ramalho, Vital Farias e Chico César, devem participar do evento, que discutirá a identidade cultural da população do Cariri da Paraíba. É possível que o encerramento, no dia 12, seja feito pelo ministro da Cultura, Juca Ferreira. A inciativa reunirá secretários de cultura de vários estados do Nordeste.

As ações incluem um conjunto de atividades de caráter cultural, econômico, educacional, turístico, social, ambiental e promocional, constituindo-se num espaço referencial de debates, reflexões, exposições e deliberações em torno de um programa de desenvolvimento sustentável da região através da cultura.

Serão apresentadas experiências e intercâmbio do Cariri paraibano com regiões do Rio Grande do Sul, Vale do Jequitinhonha, Cariri Cearense, Agreste pernambucano, Seridó do Rio Grande do Norte , Região Amazônica, entre outras regiões do país.

Todas essas iniciativas vão contribuir para a formação de redes de promoção das atividades culturais de forma articulada para transferências de tecnologias e metodologias construídas pelo Pacto Novo Cariri, que vem tornando a região do Cariri Paraibano em referência nacional em gestão compartilhada e espaço de cultura, desenvolvimento e cidadania.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Arte sem arte

Igual a todo mundo - Escritor não acredita que todas as pessoas possam ter talento semelhante ao de Vincent van Gogh

Por Ferreira Gullar

Não tenho a pretensão de estar sempre certo no que escrevo, nas opiniões que emito, muito embora acredite seriamente nelas.
Não foi à toa que, de gozação, me apelidaram de profissional do pensamento, por tanto atazanar os amigos com minhas indagações e tentativas de explicação. Por isso também volto a certos temas, desde que descubra, ao repensá-los, modos outros de enfocá-los e entendê-los.
Se há um tema sobre o qual estou sempre indagando é a situação atual das artes plásticas, precisamente porque exorbitaram os limites do que -segundo meu ponto de vista- se pode chamar de arte. Sei muito bem que alguém pode alegar que arte não se define e que toda e qualquer tentativa de fazê-lo contraria a natureza mesma da arte.
Esse é um argumento ponderável e muito usado ultimamente, mas acerca do qual levanto dúvidas. Concordo com a tese de que arte não se define, mas não resta dúvida de que, quando ouço Mozart, sei que é música e, quando vejo Cézanne, sei que é pintura. Logo, a dificuldade ou mesmo a impossibilidade de definir o que é arte não elimina o fato de que as obras de arte têm qualidades específicas que as distinguem do que não o é.
Do contrário, cairíamos numa espécie de vale-tudo, numa posição insustentável mesmo para o mais radical defensor do que hoje se intitula de arte contemporânea.
Isto é, o sujeito teria de admitir que uma pintura medíocre tem a mesma qualidade expressiva que uma obra-prima e que ele mesmo teria de se obrigar a gostar indistintamente de toda e qualquer coisa que lhe fosse apresentada como arte. Por mais insensato que possa ser alguém na defesa de uma tese qualquer, não poderia evitar que esta ou aquela coisa que vê ou ouve ou lê tenha a capacidade maior ou menor de sensibilizá-lo, emocioná-lo ou deixá-lo indiferente.
Creio não haver dúvida de que, seja ou não possível definir o que é arte, há coisas que nos emocionam ou nos fascinam ou nos deslumbram e outras que nos deixam indiferentes.
Se se der ou não a tais coisas a qualificação de arte, pouco importa: é inegável que a "Bachiana nº 4" é belíssima e que um batecum qualquer não se lhe compara, não nos dá o prazer que aquela obra de Villa-Lobos nos dá.
Do mesmo, um desenho de Marcelo Grassmann me encanta e um desenho medíocre me deixa indiferente. Mas um artista conceitual -ou que outras qualificação se lhe dê- responderá que esta visão minha é velha, ultrapassada, pois ainda leva em conta valores estéticos, enquanto a nova arte não liga mais para isso. Mas pode haver arte sem valor estético? Arte sem arte?
Essa pergunta me leva à experiência radical de Lygia Clark (1920-1988), sob muitos aspectos antecipadora do que hoje se chama arte conceitual.
Dando curso à participação do espectador na obra de arte -elemento fundamental da arte neoconcreta-, chega à conclusão de que pode ele ir além, de espectador-participante a autor da obra, bastando, por exemplo, cortar papel ou provocar em si mesmo sensações táteis ou gustativas. Assim atingimos, diz ela, o singular estado de arte sem arte.
De fato, esse rumo tomado por alguns artistas resultou da destruição da linguagem estética e na entrega a experiências meramente sensoriais, anteriores portanto a toda e qualquer formulação.
Descartando assim a expressão estética, concluíram que se negar a realizar a obra é reencontrar as fontes genuínas da arte. E, se o que se chama de arte é o resultado de uma expressão surgida na linguagem da pintura, da gravura ou da escultura, buscar se expressar sem se valer dessa linguagem seria fazer arte sem arte ou, melhor dizendo, ir à origem mesma da expressão.
Isso nos leva, inevitavelmente, a perguntar se toda expressão é arte. Exemplo: se amasso uma folha de papel, o que daí resulta é uma forma expressiva; pode-se dizer que se trata de uma obra de arte? Se admito que sim, todo mundo é artista e tudo o que se faça é arte.
Já eu considero uma piada achar que todas as pessoas têm o mesmo talento artístico de Leonardo da Vinci e de Vincent van Gogh ou que esse talento seja apenas mais um preconceito inventado pelos antigos. As pessoas são iguais em direitos, mas não em qualidades.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Despedidas Virtuais


Por Contardo Calligaris - Psicanalista italiano radicado no Brasil, é doutor em Psicologia Clínica pela Universidade da Provença (França) e autor de diversos livros

No sábado passado, no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, Xico Sá, Bebel Bertuccelli e eu comentamos os resultados de uma pesquisa, realizada pela Nokia, sobre a relação dos brasileiros com as ferramentas sociais da era digital.
Uma das perguntas da pesquisa dizia: "Você já terminou ou já terminaram um relacionamento com você via internet ou por mensagem de celular?".
Responderam positivamente 15% dos entrevistados. Já antes do debate, essa história de namoros terminados com uma mensagem virtual fez que eu fosse repetidamente consultado: o que achava desse horror tecnológico, hein?
Pois é, tendo a considerar esse tipo de despedida virtual com uma certa simpatia.
1) Em geral, aceitamos que, para muitos homens e mulheres, seja mais fácil encontrar alguém no mundo virtual do que no mundo real. Entendemos, por exemplo, que, na hora de seduzir, os tímidos, retraídos, acanhados ou inibidos soltem mais facilmente os dedos no teclado do que a palavra num encontro cara a cara.
Nota: seria injusto contrapor os que preferem o virtual aos que preferem o real como se os primeiros fossem mentirosos e, os segundos, honestos e sinceros. Virtual ou real, o encontro inicial é quase sempre um jogo em que se trata de convencer o outro de que somos alguma coisa que nem nós acreditamos ser. Quem prefere teclar talvez se esconda graças à distância, mas quem prefere falar ao vivo não abre sua alma: apenas desprende a lábia.
2) Se aceitamos que o virtual facilite a abordagem e as primeiras trocas, por que não deixaríamos que o virtual facilite também as despedidas? De fato, o virtual permite que os tímidos, os retraídos etc. declarem sua vontade de se separar, e isso sem medo de encarar torneios verbais que eles perderiam e que produziriam tentativas culpadas, penosas e infinitas de "reatar mais uma vez".
3) No começo de uma relação amorosa, o virtual talvez sirva para mentir melhor; no fim de um amor, ele pode ajudar a dizer a verdade, ou seja, a reconhecer, enfim, que uma relação está continuando apenas como mentira compartilhada.
4) Em média, a dificuldade em "encontrar alguém" não é maior do que a dificuldade em se separar quando uma relação não vale mais a pena.
5) Os tempos de solidão, durante a procura frustrada de um parceiro ou de uma parceira, são tão longos quanto os tempos de solidão de parceiros que vivem sem paixão, sem amizade e, às vezes, no rancor.
6) A insatisfação de quem procura um amor é esperançosa, enquanto a vida dos que não conseguem se separar é resignada.
7) Um SMS ou um e-mail de despedida podem surpreender quem os recebe, mas só como a revelação de algo que ele já sabia e, por alguma covardia, não confessava nem a si mesmo: ninguém termina virtualmente um amor que não esteja realmente morto.
8) Às vezes, sobretudo (mas não só) nas mulheres, a reação de quem recebe a mensagem de despedida é um pensamento delirante: o outro se separa de mim por SMS porque, se aparecesse na minha frente, ele teria que se render ao amor que ele ainda sente por mim (ele não sabe, mas eu sei que ele sente). Nesse caso, salve-se quem puder.
9) Toda separação é, no mínimo, a perda de um patrimônio comum de experiências e memórias. A dor dessa perda é frequentemente projetada no outro: digo que não posso ou não ouso me separar por e-mail ou SMS porque não quero machucar o outro, enquanto, de fato, é minha dor que quero evitar -com isso, eternizo o declínio da relação e o sofrimento do casal.
10) A convivência numa relação morta é um limbo confortável: para ambos, uma espécie de trégua do desejo. A separação apavora com a perspectiva de voltar a desejar. Antes de mandar um fatídico SMS, alguém hesita: "Vai ser difícil voltar à ativa com a minha idade" -e vai ser mesmo. Ou, então, pergunta: "E se eu ficar sozinho?"; resposta: "Mas você já está sozinho, há tempos".
Moral da história. É bom tentar tudo o que der para que uma relação vingue. Quando ela não vinga (mais), é bom ousar se separar. E deveríamos agradecer os parceiros que nos mandam um SMS lacônico e brutal, "Valeu, beijão e sorte". Pois, desprendendo-se, eles nos libertam e encurtam um processo no qual poderíamos perder anos da vida.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Folha seleciona projetos versando sobre a História do Jornalismo


A Folha deu início à segunda edição de seu concurso de incentivo a pesquisas sobre a história do jornalismo brasileiro.
Como em sua primeira edição, encerrada em abril deste ano, o concurso Folha Memória vai selecionar três projetos de pesquisa e premiar os seus autores com uma bolsa para cada um.
Nos seis meses em que receberão a bolsa, de R$ 2.400 mensais, os candidatos deverão conduzir sua pesquisa com rigor acadêmico e transformá-la em um texto de interesse geral e caráter jornalístico. O melhor dos três textos será publicado em livro editado pela Publifolha, e seu autor ganhará um laptop.
A seleção dos três bolsistas e a do melhor trabalho ficará a cargo de duas bancas distintas, cada uma composta por um jornalista da Folha, um especialista convidado e um representante da Pfizer, que patrocina o concurso.
Os projetos inscritos podem ter como tema a investigação de fenômenos de qualquer época do jornalismo do país e não precisam ficar restritos a um meio específico -podem ser estudados veículos impressos, on-line etc.
A inscrição deve ser feita na internet, até 17 de dezembro (www.folha.com.br/1028819). No site está disponível o regulamento do Folha Memória.

PRIMEIRA EDIÇÃO
A primeira edição do concurso, lançada em maio do ano passado, recebeu a inscrição de 461 projetos.
A vencedora foi a jornalista Flávia Péret, 31, com o trabalho, "Imprensa Gay no Brasil - Entre a Militância e o Consumo".

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A turbulenta vida familiar do casal Tolstói


Por Bernardo Carvalho, do Caderno Ilustríssima
Ilustração: Marcelo Comparini

 A "beatificação" do autor de "Anna Kariênina" e o estigma de "megera" de sua mulher reforçaram a mística em torno do casal Tolstói. Em textos de Liev, contra o casamento e a hereditariedade, e nos diários de Sofia, marcados pelo ciúme e pela devoção, aflora a peculiar visão de amor, sexo e vida familiar do mestre russo.
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O CASO FAZ PARTE do anedotário da literatura universal: na madrugada de 28 de outubro de 1910, aos 82 anos (48 deles casado), Liev Tolstói (1828-1910) abandona para sempre a propriedade rural da família, Iásnaia Poliana, onde nasceu e onde será enterrado dias depois, a 200 km a sudoeste de Moscou. Como o protagonista de sua novela "Padre Sérgio" (1898), pensa em se refugiar num mosteiro distante ou numa ermida e lá, longe da mulher, Sofia Andrêievna, viver finalmente em paz.
Não é a primeira vez que foge (ou ameaça fugir) de casa. Vinte e seis anos antes, quando a mulher entrava em trabalho de parto (pela 15ª gravidez), o escritor saiu de casa para fazer a vida na América. E voltou horas depois, a tempo de ver a criança nascer.
"Ele estava passando por sua conversão -para o Cristianismo! Só que nesse Cristianismo, o martírio era meu", escreve Sofia Andrêievna nos diários recém-publicados em inglês, pela Harper Perennial, com tradução de Cathy Porter e prefácio de Doris Lessing.
 
ATO PATÉTICO Ao acordar e ler a carta de despedida (desta vez, definitiva) do marido, ela decide se afogar. Está com 66 anos. Atira-se num tanque. O ato patético e intempestivo lembra mais uma cena do filme "A Última Noite de Bóris Grushenko", de Woody Allen, do que um texto do autor de "Anna Kariênina". Não é a primeira vez que ela tenta o suicídio. Nas anteriores, além do tanque, recorreu à inanição, à overdose por ópio e à morte por congelamento, indo deitar-se na neve depois de uma briga conjugal.
Retirada das águas pela filha mais jovem, Aleksandra, de 26 anos, e pelo secretário do marido, ela passa dias delirando, aos prantos, até receber o telegrama de um jornalista caridoso que revela enfim à família o paradeiro do escritor - conhecido até então apenas pela caçula, que tinha razões de sobra para escondê-lo da mãe.
"Serei grata até a morte ao correspondente do jornal 'A Palavra Russa'", escreverá anos depois a filha mais velha, Tatiana, num opúsculo publicado em francês, em 1928 ("Sur Mon Père", Editions Allia), para salvar a reputação dos pais - na verdade, mais do pai do que da mãe: "Se hoje saio do silêncio, é porque apareceram certos livros [...] que pintam um quadro falso das relações entre meus pais e, de minha mãe, um retrato deformado pela parcialidade". Ainda assim, não vai se conter em sentenciar sobre a mãe: "Esse ser doente, profundamente infeliz e moralmente só, me causava a maior piedade. [...] A culpa da solidão era dela".
 
DEMÔNIO Informada pelo telegrama, Sofia parte às pressas, com os filhos, para Astapovo, onde uma pneumonia obrigou o marido a abortar a fuga -e onde ele agoniza, com febre de 40º C, na casa do chefe da estação de trem. Só vai conseguir vê-lo quando ele já estiver inconsciente. Como se escoltassem o demônio, os próprios filhos preferem mantê-la longe do pai, ao qual reservam tratamento de santo. "Retiveram-me à força, trancaram a porta, atormentaram meu coração", ela desabafa ao diário dias depois, já viúva.
As circunstâncias da fuga de Tolstói são conhecidas (em seu diário, ele exprime a revolta e a repugnância de pegar a mulher vasculhando entre seus papéis pessoais, na véspera, às escondidas - não é a primeira vez, é claro, nem o pior que ela já fez).
A julgar pelo testemunho da filha Tatiana, Sofia vai passar os nove anos que lhe restam depois da morte do marido preocupada em limpar o nome: "A calma veio para ela nesses últimos anos. [...] Era menos estrangeira às ideias de meu pai. Tornou-se vegetariana. [...] Mas conservou uma fraqueza: [...] temia por sua reputação. E assim não perdia a oportunidade de justificar suas palavras e seus atos". Não obstante, ainda terá forças para, pouco antes de morrer, durante a guerra civil que sucede à Revolução de 1917, encantar-se com os rapazes mais prestativos do Exército bolchevique acampados em suas terras.
 
RAZÃO Contra tudo o que já se disse, a voz convincente dos diários vem dar alguma razão a essa figura condenada pela história a não ter razão nenhuma, megera histérica e intratável, principal estorvo na vida do santo escritor e de seu projeto de despojamento dos valores burgueses e dos interesses materiais.
A publicação simultânea, na França, da autobiografia inédita, "Minha Vida" (Editions des Syrtes), e de uma nova tradução do único romance que Sofia Andrêievna escreveu, "De Quem é a Culpa?", relançado pela editora Albin Michel como "uma resposta a Liev Tolstói e a 'A Sonata a Kreutzer'" (novela na qual o escritor apresentava uma visão idiossincrática sobre as mulheres casadas e o sexo), faz pensar no sentido de oportunidade revisionista dessas edições como um efeito de certo modo tardio e desesperado dos estudos culturais e de gênero.
Como se, além de pôr em dúvida a canonização do autor por ocasião dos cem anos de sua morte, já não restasse nenhuma outra forma possível de resistência ou dissonância ao consenso natural que vai se formando em torno do realismo da obra de Tolstói como paradigma absoluto para uma literatura que precisa superar os questionamentos pós-modernos e se massificar para sobreviver.
 
MOÇA INEXPERIENTE Quando ele se apaixona por Sofia Behrs, filha de um médico do Kremlin cuja família vai lhe servir de modelo para os Rostov de "Guerra e Paz", tem 34 anos e ela é uma moça inexperiente de 18. Antes de se assentar na propriedade rural de 1.600 hectares e 300 servos, o jovem conde levou uma vida de prazeres em Moscou e São Petersburgo (à qual a mulher vai se referir como "as abominações do seu passado"), viajou pelo Cáucaso e participou como oficial do Exército russo na Guerra da Crimeia (1854-56).
Mesmo antes de escrever as obras-primas "Guerra e Paz" e "Anna Kariênina", já era um escritor respeitado. Quando se encontram, Sofia está acompanhando a mãe e os irmãos numa visita ao avô, vizinho de Tolstói. Dois meses depois, estarão casados. Duas semanas depois de casados, ele lhe dirá que já não confia no seu amor. E em dois meses, ela estará grávida.
A primeira gravidez é o batismo de fogo. Sofia passará por outras 15 até os 44 anos. E a provação só vai aumentar conforme também forem se agravando as contradições do ascetismo cristão prescrito pelo marido. Um ascetismo que, embora não lhe impeça o sexo fora do casamento (Tolstói teve um filho, Timofei, com uma camponesa, Aksínia, que vivia em suas terras) nem as crises de ciúmes, condena a contracepção e restringe o sexo matrimonial a fins reprodutivos, banindo-o durante a gravidez: "Ele não me deixa entrar em seu quarto [...]. Tudo o que é físico o enoja. [...] A verdade cruel é que a mulher só descobre se o marido realmente a ama quando está grávida".
 
CIÚME Sofia se martiriza lendo o diário do marido às escondidas. É um costume incontrolável, que ela manterá até o fim: "Procuro com avidez [...] alguma referência ao amor, e fico tão atormentada pelo ciúme que já não consigo ver nada claro". Vai acabar encontrando: "Não existe amor, apenas a necessidade física do sexo e a necessidade prática de uma companheira de vida", ela lê no diário do marido. E responde no seu: "Quem me dera tivesse lido isso há 29 anos, então nunca teria me casado com ele".
Os diários de Sofia revelam o escritor como a maior vítima dos próprios instintos: "Liovochka (diminutivo de Liev) me acordou esta manhã com beijos apaixonados [...]. Sucumbi à libertinagem mais imperdoável - na minha idade! [47 anos] Estou tão triste e envergonhada! [...] Que homem estranho é o meu marido! Na manhã seguinte a uma cena terrível entre nós dois, ele diz que me ama de paixão. Diz que está completamente sob o meu domínio e que nunca imaginou serem possíveis tais sentimentos. Mas é tudo físico".
Em outra ocasião, referindo-se à filha Aleksandra, ela comenta: "Se ao menos ela soubesse como o 'papai' dela ficava animado depois de desfrutar do amor que ele nega!".
Com 18 anos, Sofia ainda esperava que o nascimento do primeiro filho pudesse resgatá-la do martírio. Era só o início de um ciclo. Quando nasce Sergei, ela não consegue amamentá-lo, por causa de uma inflamação nas mamas. Tolstói se recusa a chamar uma ama de leite; acha que é dever da mãe amamentar a criança. Dois anos depois, tendo dado à luz a filha Tatiana, ela desabafa ao diário: "Agora estou bem de novo e não grávida -fico aterrorizada só de pensar na frequência em que estive nesse estado".
E, alguns anos mais tarde: "Pensar nesse novo bebê me enche de tristeza; meus horizontes se estreitaram tanto e meu mundo é um lugar tão pequeno e lúgubre". Dos 13 filhos do casal que sobreviverão ao parto, 11 serão amamentados pela mãe.
 
MANUSCRITOS Logo, entretanto, ela vai encontrar uma função além de procriar, amamentar, educar os filhos e administrar a propriedade: passa a datilografar os manuscritos do marido, obsessiva e incessantemente. É outra maneira de dar sentido ao casamento. "Liovochka estava mais carinhoso hoje. Chegou a me beijar pela primeira vez em dias. Estou copiando sem parar e fico feliz por ser de alguma utilidade."
Quando Tolstói termina "Guerra e Paz", ela relata: "Liovochka passou o inverno escrevendo, irritadiço e excitado, muitas vezes com lágrimas nos olhos". A depressão, o temor da morte e a crise espiritual vão ganhando a alma do escritor. Ele abre uma escola para os camponeses, começa a escrever "Anna Kariênina", o filho Nikolai morre de meningite com apenas 10 meses e Sofia perde uma filha no parto.
É inevitável ver na equação conflituosa e contraditória do ascetismo cristão defendido pelo autor da célebre abertura de "Anna Kariênina" ("Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira") um círculo vicioso e uma explicação possível para a sua inaptidão à vida familiar: o horror da iminência da perda, a ameaça de um sofrimento potencial que o maior número de filhos só faz renovar e que será confirmada pela morte prematura, em 1895, do temporão Ivan, adorado pelo casal, marcando com tintas trágicas os últimos 15 anos da vida do escritor. "A cada nova criança, sacrificamos um pouco mais de nossa vida e aceitamos um ônus ainda mais pesado de aflições e doenças", Sofia escreve no diário.
 
HUMILHAÇÃO PÚBLICA É difícil não pensar também nesse horror como o que está por trás da visão tão peculiar e paradoxal que ele vai acabar exprimindo sobre o casamento, a mulher e o sexo em "A Sonata a Kreutzer" - e que Sofia receberá como uma humilhação pública. O amor é insuportável, porque é a iminência da perda. É a própria perspectiva do amor individual (e de suas consequências) que o leva ao cúmulo de prescrever a abstinência sexual no casamento, contradição que só se resolve no ideal do amor universal.
O conflito se torna insustentável conforme Tolstói vai percebendo a incompatibilidade entre seus ideais e a realidade da vida familiar, que a mulher, cuidando dos filhos e da propriedade, passa a representar. Realidade que ele associa aos valores burgueses e, em última instância, à injustiça e à desigualdade social da Rússia czarista. O escritor passa a pregar o amor desinteressado pela humanidade, sem objeto definido, sem família. É o momento da "conversão".
Quanto mais a mulher assume as responsabilidades da casa (ocupando-se das doenças e da educação dos filhos, da administração da propriedade e dos direitos autorais das obras do marido), mais ele rejeita tudo o que é material. Aos poucos, também a literatura vai dando lugar aos panfletos e artigos de cunho religioso e social, a ponto de fazer o autor renegar os próprios romances como moralmente irresponsáveis.
Contra a truculência e a corrupção do Estado e da Igreja Ortodoxa, ele propõe um ascetismo incompatível com sua posição de proprietário de terras, tendo que sustentar mulher e uma prole que não para de crescer: "Hoje ele gritou [...] que o seu maior desejo é abandonar a família".
PAPEL INGRATO Num cabo de guerra progressivo e silencioso, o escritor vai lutar para impor à mulher seu desejo de abrir mão dos direitos de propriedade, inclusive intelectual, condenando-a ao papel ingrato de matriarca insanamente apegada aos bens materiais em nome do futuro dos filhos. Ao principal discípulo e interlocutor, Vladimir Tchertkov, ele descreve a relação com Sofia como "uma luta até a morte".
E ela se queixa ao diário: "Todos nesta casa - especialmente Liev Nikoláievitch, que as crianças seguem como um rebanho de ovelhas - me impingiram o papel de carrasco. [...] Pergunto-me por que já não acredito cegamente nele como escritor. [...] Liovochka tem agora apenas dois assuntos extremos de conversa: contra a hereditariedade e a favor do vegetarianismo".
Aos poucos, Iásnaia Poliana se transforma em centro de peregrinação dos discípulos do escritor que Sofia identifica a fanáticos e aos quais chama "obscuros": "Não há entre eles um único normal. E a maioria das mulheres é histérica" (ironicamente, será o principal deles, Tchertkov, que, levando a obra do mestre para o exílio inglês, vai salvá-la da sanha destruidora do obscurantismo czarista).
 
SONATA É nessa época que Tolstói ouve o filho Sergei ao piano, tocando a "Sonata a Kreutzer", de Beethoven, acompanhado pelo professor de música ao violino. Em 1890, a novela homônima é publicada, sendo em seguida censurada e oficialmente proscrita. Humilhada pela condenação veemente que o marido faz da vida matrimonial, Sofia reage, escrevendo o romance "De Quem é a Culpa?", publicado postumamente.
"A Sonata a Kreutzer" conta a história de um homem que assassina a mulher, por ciúme. O personagem desfere um ataque radical ao casamento: "O inferno terrível, em consequência do qual aparecem bebedeiras, assassínios, o envenenamento de si mesmo ou do cônjuge [...] Insisto: todos os maridos que vivem como eu vivia têm que se entregar à devassidão, divorciar-se ou matar a si mesmo ou a esposa, como eu fiz".
E sobre o sexo: "Observe o seguinte: os animais unem-se unicamente quando podem engendrar uma descendência, e o imundo rei da natureza, sempre que lhe apraz. E, como se fosse pouco, eleva essa ocupação simiesca a pérola da criação, a amor".
Ainda assim, é Sofia quem vai tomar a iniciativa de pedir uma audiência ao czar, em São Petersburgo, para pleitear a suspensão da censura à novela do marido. Quando o czar lhe pergunta se ela deixaria os filhos lerem um livro como aquele, ela responde: "A história tomou infelizmente uma forma demasiado radical, mas a ideia fundamental é que o ideal da castidade absoluta é inatingível". E lhe assegura que o marido está disposto a deixar de lado os textos religiosos e filosóficos e voltar à literatura. "Seria ótimo! É um grande escritor!", o czar responde. E a publicação de "A Sonata a Kreutzer" é liberada.
 
IMPASSE Os textos doutrinários de Tolstói fazem crer que o escritor abriu mão da literatura por um ideal moral superior e ascético de justiça para o mundo. O que se depreende dos diários de Sofia é, ao contrário, que a descrença do escritor na literatura era resultado do impasse ao qual fora condenado pela própria loucura. Nas últimas semanas antes da fuga, ele andava lendo "Os Irmãos Karamázov" e achando os diálogos ruins.
"Acredito em bons e maus espíritos. O homem que eu amo foi possuído por maus espíritos, mas não sabe disso. Sua influência é perniciosa: seu filho está sendo destruído, suas filhas estão sendo destruídas, assim como todos os que entram em contato com ele", ela desabafa num dos instantes de maior desalento. E, sem perceber, descreve o que está na base do desespero do escritor.
"Um cristão só pode contrair matrimônio sem cometer pecado no caso de saber que todas as crianças que existem têm a vida assegurada", Tolstói escreveu no comentário a "A Sonata a Kreutzer". Estava falando da miséria do mundo, é claro.
Mas não é preciso chegar ao extremo de reduzir sua imagem pública de santidade e ascetismo a mera vaidade e egoísmo, como faz Sofia Andrêievna em sua exasperação cega, para entender que, se ele chegou à verdade terrível e autopunitiva dessa frase, foi porque também amou e viu a morte dos próprios filhos, dentro de casa.