quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Amós Oz - Pacifista Militante



Por José Eduardo Barella, da Revista Veja


Amós Oz, 62 anos, dezoito livros traduzidos em 22 idiomas, é o tipo de intelectual que provavelmente só pode existir em Israel. Pacifista militante, já combateu em duas guerras. Defensor de um Estado palestino, fala com dureza sobre os vizinhos árabes e os responsabiliza pela atual situação de violência permanente, que deverá favorecer, nas eleições desta semana em Israel, o linha-dura Ariel Sharon. Oz é o principal expoente da literatura israelense. Sua obra explora a complexidade de uma sociedade formada originalmente por pessoas provenientes dos mais distantes rincões do planeta e seus dramas cotidianos, traduzidos em personagens marcados pela tensão da guerra interminável.

Filho de judeus poloneses, nascido em Jerusalém com o nome de Amós Klausner, adotou o sobrenome Oz, que em hebraico significa coragem. Fundador do movimento Paz Agora, Oz pegou em armas em 1967, na Guerra dos Seis Dias, e seis anos mais tarde, na Guerra do Yom Kippur. O conflito não tem solução militar, acredita. A paz só virá com concessões mútuas, dolorosas mas inevitáveis, como acontece num divórcio litigioso. Desde 1986, o escritor mora com a mulher e os filhos em Arad, pequena cidade no Deserto de Negev, de onde, por telefone, deu a entrevista abaixo.

As pesquisas mostram que Ariel Sharon, o candidato da linha dura mais radical, deve vencer as eleições desta terça-feira. Por que o primeiro-ministro Ehud Barak perdeu o apoio dos israelenses?
Oz – Porque o senhor Yasser Arafat deu um tapa na cara de Barak. Tudo o que os palestinos poderiam pedir Barak ofereceu; mas, quanto mais concessões ele fez, mais violência recebeu em troca. Numa situação dessas, que reação esperar do eleitorado israelense? O apoio a Sharon é natural.

Com a vitória de Sharon o processo de paz será enterrado de vez?
Não gostaria de fazer profecias porque aqui é a terra dos profetas e já existe muita competição nessa área. É difícil prever como será uma negociação envolvendo Sharon e Arafat, dois homens igualmente intransigentes. É claro que tudo pode mudar. Ao longo da História, cansamos de ver heróis nacionalistas fazendo concessões e líderes radicais tomando atitudes moderadas.

Arafat não fez a maior das concessões ao reconhecer o direito de existência do Estado de Israel na terra originalmente pertencente a seu povo?
Quem fez a maior concessão? Arafat realmente fez uma grande concessão ao reconhecer Israel. Mas os judeus também cederam muito ao abrir mão da Faixa de Gaza e da Cisjordânia. O que temos são dois povos reivindicando o mesmo território. Ambos têm razão e argumentos fortes. A única solução para a tragédia que vivemos é um compromisso. Os judeus terão de renunciar à metade de sua terra natal e os palestinos, também. Não existe outro país para onde os palestinos ou os judeus possam ir, temos de dividir este. É duro, mas as soluções de compromisso são assim mesmo: nunca satisfazem plenamente as duas partes, seja na separação de um casal ou na dissolução de uma sociedade.

Israel não ficou com a melhor parte do território?
Não sei. Israel ficou com o deserto de Negev, que é uma terra inóspita e desabitada, e a costa mediterrânea. Os palestinos ficaram com as montanhas e lugares santos como Belém, a Samaria e Jerusalém Oriental. A divisão é dolorosa para todos. Cada lado sente como se tivesse sofrido a amputação de um membro do corpo.

Por quais razões um palestino deveria concordar com a existência do Estado de Israel?
Entendo a dificuldade dos palestinos em aceitar a existência de Israel, mas os judeus não são extraterrestres que vieram de outro planeta. Eles vivem aqui há mais de 2.000 anos. Como pacifista, tenho lutado para que os palestinos tenham seu Estado, vizinho a Israel, mas não no lugar de Israel.

A ocupação militar dos territórios palestinos por Israel, com toda a violência que implica, não compromete o patrimônio moral da civilização judaica?
A ocupação e a repressão contra os palestinos são repugnantes e precisam acabar. Mas o ciclo de violência, terrorismo, opressão e ocupação só vai acabar por meio de um acordo de paz que contemple a criação do Estado palestino. O que está faltando é o reconhecimento mútuo.

O senhor acusa os palestinos pela atual onda de violência, mas não foi Ariel Sharon que detonou as agressões ao visitar a área mais venerada pelos muçulmanos em Jerusalém?
Esse senhor agiu como se fosse um elefante numa loja de cristais. Mas a visita de uma pessoa a um lugar santo, por mais provocadora que seja, não dá para justificar tanta violência. Não acredito que os israelenses sairiam matando palestinos se um líder deles visitasse um lugar de culto dos judeus.

O acordo de Oslo, que deu início ao processo de paz, foi assinado há oito anos, mas parece que a situação, em vez de evoluir, retrocedeu. O que saiu errado?
Perdemos uma boa oportunidade no começo das conversações, quando havia entusiasmo de ambas as partes para chegar a um acordo definitivo. Mas ainda acho que a paz é viável, já que nenhum dos dois lados deixará de existir.

Por que ainda não foi possível chegar a um acordo?
Porque está ocorrendo uma considerável radicalização das posições palestinas, principalmente por motivos religiosos. Eles reivindicam soberania exclusiva sobre os lugares santos disputados pelos dois lados. Há ainda a questão da volta dos refugiados e a insistência em querer abolir o Estado de Israel. Enquanto esse radicalismo persistir, as chances de paz serão mínimas.

Israel não adota posições igualmente radicais?
Israel assumiu posições mais moderadas sob a liderança do primeiro-ministro Ehud Barak. Pela primeira vez em trinta anos, os israelenses admitem a possibilidade de existir um Estado palestino, estão dispostos a devolver todo o território da Cisjordânia e até a dividir Jerusalém. É uma mudança dramática de posição. Barak fez tantas concessões que perdeu a maioria no Parlamento e, seguramente, a possibilidade de ganhar as eleições.

É o máximo que Israel pode conceder?
Ir além disso significa um suicídio. A volta dos 3,5 milhões de refugiados reivindicada pelos palestinos seria mortal para Israel. Porque significa mais que a existência de dois Estados, um palestino e outro judeu. Significa que teremos, mais cedo ou mais tarde, dois Estados palestinos e nenhum judeu.

O problema dos refugiados palestinos não é conseqüência direta da criação de Israel?
Na época de sua criação, o Estado de Israel recebeu 1 milhão de judeus que viviam em países árabes. Enquanto isso, 60.000 palestinos que moravam onde hoje é Israel tiveram de se mudar para países vizinhos. Com a criação do Estado palestino, é justo que os refugiados palestinos possam estabelecer-se no novo país, mas não em Israel.

Como convencer os refugiados palestinos e os países árabes que os abrigam a aceitar essa solução?
Israel tem um território equivalente a 1% da área dos países árabes. É preciso fazer um acerto no qual os refugiados recebam uma indenização financeira equivalente ao valor das terras que eles deixaram para trás em 1948. Os judeus que abandonaram suas propriedades naquela época também devem ser indenizados.

Qual a solução para outras questões fundamentais, como a situação de Jerusalém e o futuro dos assentamentos israelenses em áreas palestinas?
No caso de Jerusalém, acho que a parte judaica deveria ser administrada pelos judeus e a parte árabe pelos palestinos. Israel reconheceria a soberania palestina sobre o Monte do Templo e os palestinos respeitariam as ligações religiosas, históricas e afetivas dos judeus com esse lugar santo. Sobre os assentamentos judeus, em sua maioria os colonos deveriam ter o direito de continuar onde estão, com autorização das autoridades do futuro Estado palestino, e ser tratados como cidadãos palestinos.

Existe alguma chance de israelenses e palestinos conviverem pacificamente?
Vão ter de conviver de uma forma ou de outra. A solução é estipular as fronteiras e fazer com que vivam como vizinhos decentes. Agora, não dá para imaginar israelenses e palestinos juntos, dividindo a mesma cama numa lua-de-mel. Seria o mesmo que propor a unificação de Brasil e Argentina: vocês acham que formariam uma nação feliz?

No caso de palestinos e israelenses, meio século de conflitos demonstrou que não se trata de uma questão de felicidade, mas de total impossibilidade de convivência.
Os países da Europa Ocidental passaram 800 anos em lutas cruentas antes de chegar à realidade do mercado comum e das fronteiras abertas. Pode demorar 800 anos, mas, a exemplo do que ocorreu na Europa, o que hoje parece impensável vai acabar acontecendo: algum dia, os povos do Oriente Médio vão viver como uma família.

Os palestinos vão aceitar paz pela via da negociação?
Acredito que muitos palestinos apoiam uma solução negociada com Israel. A maioria dos conflitos do mundo é resolvida por meio de negociações e de concessões de lado a lado. Israelenses e palestinos já estão cansados da guerra, e eu chamaria essa fadiga de síndrome da paz.

Mas os palestinos parecem menos cansados e mais dispostos a seguir lutando por seus direitos.
Eles não têm um Estado independente, que nós israelenses já temos. Muitos ainda vivem sob ocupação estrangeira. Tudo isso os motiva ainda mais a continuar lutando. Quando tiverem seu Estado, o ímpeto nacionalista tenderá a diminuir.

Como é viver num país em estado de guerra permanente?
Terrível. Eu nasci em Jerusalém em pleno conflito e tenho memórias amargas de minha infância. Até hoje nunca pisei em certos bairros de Jerusalém porque, se for lá, me passam a faca. Na época da independência, em 1948, o setor judeu sofreu um cerco igual ao de Sarajevo. Fui para o campo de batalha em 1967 e em 1973. Apesar de ser pacifista militante há mais de trinta anos, sei que um perigo mortal paira sobre Israel e nos faz viver constantemente encostados na parede. Tenho consciência de que os palestinos vivem em condições semelhantes. É uma tragédia, mas me recuso a pintar o quadro de preto e branco. A situação não é como na África do Sul do apartheid, onde era possível saber quem era mocinho e quem era bandido. O conflito aqui é entre o certo e o certo.

Como o conflito árabe-israelense interfere em sua obra literária?
Meus livros falam do povo israelense, das pessoas que vivem aqui e sofrem uma influência dramática do conflito árabe-israelense. Mas nunca usei meus romances para transmitir uma idéia política. Quando quero divulgar minhas posições, uso ensaios ou artigos.

O senhor lê obras de autores árabes?
Sim, mas infelizmente leio apenas obras traduzidas. Meu autor favorito é meu amigo Naguib Mahfouz (escritor egípcio, ganhador do Nobel de Literatura em 1988).

Muitos árabes nasceram em Israel, falam o hebraico e estão integrados ao país. Isso não cria um conflito interior insuportável?
Ser palestino nascido em Israel é uma condição ambígua e dolorosa. Como disse um deles, "é duro ver meu povo em guerra com meu país". Eles estão no meio da discussão. Uma das características mais interessantes dos israelenses é que você não encontra duas pessoas que concordem sobre todos os assuntos. É difícil até mesmo que um israelense concorde consigo mesmo, porque aqui todos têm a mente e a alma divididas. Os palestinos nascidos em Israel têm opiniões diferentes das dos judeus e vice-versa. E temos ainda os imigrantes judeus que vieram de vários países.

Esse conflito pode afetar a unidade da sociedade israelense?
Oz – Não acredito. Os israelenses têm uma expressão verbal exacerbada: eles conversam, falam, gritam e discutem, mas não costumam matar-se uns aos outros. Talvez por causa da memória do holocausto, ou até mesmo por causa da história do povo judeu, existe um tabu sobre a possibilidade de uma guerra civil entre judeus. O que temos é uma guerra civil verbal o tempo todo. A divisão é complexa: não se trata apenas de judeus de origem européia e de origem oriental, ou de religiosos e seculares. Trata-se de um mosaico que abriga diversos grupos e subgrupos. Isso, curiosamente, é bom para Israel: não temos uma sociedade dividida por causa de um assunto, mas de vários.

O senhor acha que vai viver para ver a paz no Oriente Médio?
Está muito claro que vamos acabar tendo, infelizmente, a criação de dois Estados. Digo infelizmente porque nenhum dos dois lados vai ficar satisfeito com a paz que será alcançada. Não será uma cena de Dostoievski, de irmãos se abraçando. Não haverá uma reconciliação, mas um acordo mais parecido com um divórcio do que com uma lua-de-mel. Não posso dizer quanto tempo vai demorar, mas sei que vai acontecer. Simplesmente porque não há alternativa.


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