quinta-feira, 26 de maio de 2011

Inscrições para festival de cinema de Patos encerram no próximo dia 10 de junho


Por Juliana Rosas, com informações da Assessoria do Festival

O audiovisual paraibano vem crescendo. E muito. A prova disso é o maior número de festivais e mostras, incluindo o Comunicurtas - Festival Audiovisual de Campina Grande, promovido pela Universidade Estadual da Paraíba. Os produtores e realizadores brasileiros, especialmente da Paraíba, terão até o próximo dia 10 de junho para enviar seus vídeos para a quinta edição do Festival Cinema com Farinha, que acontece em Patos-PB. Estão abertas as inscrições para as mostras competitivas nas categorias ficção, documental e animação, e para as mostras não competitivas de longa-metragem, vídeo minuto e a mostra sertão. As informações sobre o processo de inscrição estão disponíveis no portal www.cinemacomfarinha.com.
O 5º Festival Cinema com Farinha - Festival Audiovisual do Sertão Paraibano - ocorrerá entre os dias 04 e 07 de agosto de 2011. No próximo mês de junho, serão divulgadas as novidades do festival, entre elas, os filmes da mostra internacional, os fóruns de discussões, os lançamentos e os nomes dos convidados.
O Festival é um evento que visa proporcionar um espaço de encontro para discussão e exibição da produção audiovisual brasileira, e ainda, continuar atendendo à demanda existente para esse tipo de manifestação cultural no sertão paraibano. Busca também divulgar a cena cultural oculta da região, detectando produções audiovisuais no sertão paraibano, contribuindo ao mesmo tempo para a divulgação imediata, como para a formação de um banco de memória acessível.
A programação apresentará uma grande multiplicidade de tendências e movimentos culturais, o que atrairá um elevado número de participantes. A realização do festival se dividirá, basicamente, em mostras de vídeos de curta e longa duração e oficinas de produção audiovisual. O evento pretende ainda trazer diversas intervenções artísticas em seus locais de exibição e festa de encerramento, com música e exposições.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

As viagens de Foucault ao Brasil

Por Rafael Cariello, da Ilustríssima


RESUMO
Nos anos 1960 e 70, Michel Foucault veio diversas vezes ao Brasil, tendo exercido forte influência em jovens filósofos e psicanalistas, não sem questionar em debates as convicções ideológicas locais. Embora tenha feito laços afetivos e tenha se divertido na Lapa carioca, não manteve uma relação duradoura com o país.
Foucault corrompe a juventude?", pergunta o título de um dos capítulos do livro de Paul Veyne sobre Michel Foucault, ecoando, não sem ironia, a acusação feita pela cidade-Estado de Atenas ao pensador grego Sócrates, quatro séculos antes de Cristo. No auge de sua produção intelectual, Michel Foucault esteve por cinco vezes no Brasil. Entre 1965 e 1976, "corrompeu a juventude" do país com suas ideias, em cursos e palestras nas universidades brasileiras.
Sobretudo nas visitas a partir de 1973, quando já era uma estrela da vida intelectual francesa, o impacto de sua presença no Brasil ultrapassou a simples exposição de ideias em sala de aula. Ele próprio se disse impressionado, mais tarde, pelos estudantes brasileiros, "famintos por aprender". As discussões prosseguiam nas festas, nos almoços, na praia.
Ao filósofo Roberto Machado, que se tornou seu amigo nas visitas ao Rio e o acompanhou em sua viagem ao Nordeste do país, Foucault dizia nunca ter trabalhado tanto, falado tanto, nunca ter sido tão requisitado.
Ao mesmo tempo, tanto quanto Sócrates nos diálogos de Platão, era por vezes implacável com seus interlocutores brasileiros, derrubando impiedosamente certezas pré-estabelecidas. Isso não impediu que, assim como o protagonista do "Banquete", despertasse paixões, motivadas tanto por suas ideias quanto por sua personalidade.

DESCONFORTO
O ceticismo de Foucault provocou desconforto num país em que se discutia "Freud e Marx ao infinito", como constatou o próprio filósofo, em carta ao companheiro Daniel Defert. Durante suas palestras na PUC-Rio, em 1973, o pensador francês chegou a ouvir acusações, proferidas da plateia, de "ingenuidade" e "idealismo". Estudantes, pesquisadores e professores lotavam um dos auditórios do campus da Gávea.
Roberto Machado, hoje professor aposentado de filosofia da UFRJ, lecionava à época na universidade católica. "O auditório ficava cheiíssimo. Não me lembro bem, mas parece que era pago. Houve até uma manifestação de estudantes para poderem entrar de graça. Mesmo assim, as palestras ficavam abarrotadas de gente."
Na mesma semana, Foucault participou de uma mesa redonda com professores da PUC e alguns convidados, entre eles o psicanalista Hélio Peregrino (1924-88), com quem debateu sobre o complexo de Édipo. Para Pellegrino, a relação da criança com os pais é determinante para toda experiência de desejo posterior daquele indivíduo. O palestrante principal argumentava que não há um fundamento único do desejo, que a mãe é um "objeto primeiro" para a criança apenas no sentido cronológico, mas nem por isso "primordial, essencial, fundamental".
O psicanalista brasileiro citou então a pesquisa de um colega. "Ele mostra o fenômeno 'hospitalício'", disse Pellegrino, em referência a bebês criados em hospitais, desde o nascimento. "As crianças que não têm maternização simplesmente perecem, morrem por falta de mãe".
"Compreendo", respondeu Foucault. "Mas isso só prova uma coisa: não que a mãe seja indispensável, mas que o hospital não é bom."

DITADURA
Há poucos registros de críticas públicas do autor de "Vigiar e Punir" à ditadura militar brasileira, que vigorou por todo o período em que Foucault fez visitas ao Brasil. "Ele nunca foi um provocador inconsequente", argumenta o psicanalista Jurandir Freire Costa, que acompanhou o filósofo no Rio de Janeiro na década de 70. "Sabia que estava sob uma ditadura, cercado de pessoas que eram vulneráveis. Havia um acordo tácito de que só falaríamos do que era possível."
Mas, em outubro de 1975, enquanto dava um curso na USP, uma onda de prisões foi deflagrada pelos agentes do regime militar na cidade. A Folha do dia 24 daquele mês relata um protesto de estudantes da universidade "contra a prisão, ocorrida nas últimas semanas, de estudantes, professores e jornalistas". A reportagem registra que o "professor Michel Foucault, psicólogo francês" compareceu à assembleia e fez "um pronunciamento de solidariedade aos estudantes". Anunciou, em seguida, que suspenderia seu curso antes do fim.
Dois dias depois, o país tomava conhecimento da morte do jornalista Vladimir Herzog, preso e torturado por agentes da repressão.
Foucault também fez, ainda em São Paulo, declarações de repúdio à ditadura brasileira para a imprensa internacional, lembra Heliana Conde, professora do departamento de psicologia social da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), que realiza pesquisa sobre as visitas do filósofo ao Brasil.

PROVOCAR
Roberto Machado afirma que o objetivo das declarações era provocar os militares, tentar ser expulso do país e assim chamar a atenção da opinião pública internacional para o que se passava no Brasil. Como não conseguiu, acreditou que poderia ser barrado ao tentar entrar novamente em território brasileiro, no ano seguinte, mas sua visita, organizada pela Aliança Francesa, foi autorizada. Em 1976, proferiu palestras em Salvador, Recife e Belém. Acreditava estar sendo seguido pelos militares enquanto viajava pelo país.
Em Belém, deu um curso a estudantes e pesquisadores da Universidade Federal do Pará, a pedido do filósofo Benedito Nunes (1929-2011). "Menos de uma semana depois que Foucault foi embora, fui chamado pelo diretor, cujo nome não vou mencionar, me dizendo que o SNI estava pedindo a relação dos frequentadores" das aulas, relatou Nunes em 2008 à revista "Transformação", da Unesp (Universidade Estadual Paulista).
"Eu disse: 'Não dou a relação'. Saí de lá e fui diretamente falar com o reitor, que foi muito correto, e até corajoso. Ele me disse para não dar a lista. Havia uma vigilância até nesse ponto. Não era uma invenção dizer que o SNI estava infiltrado".

À VONTADE
Uma relação de "afinidade eletiva" ligava Foucault ao Brasil, segundo estudantes e professores que o acompanharam em suas visitas, como os psicanalistas Chaim Samuel Katz e Jurandir Freire Costa. Avesso à formalidade francesa, o filósofo se sentia à vontade no Rio de Janeiro, conta Machado.
O professor brasileiro se lembra de uma carona que ofereceu, logo na primeira visita, em 1973, ao colega francês. O destino era a Lapa, bairro "para onde a garotada da zona sul ainda não ia", no início dos anos 70, conta Machado. Recém-chegado à cidade, após os anos de doutorado na Bélgica, o professor brasileiro parou seu Fusca ao lado de um táxi, ao sair de Copacabana, e pediu informações sobre o caminho. Foucault brincou: "Você mora no Rio de Janeiro e não conhece o bairro mais interessante da cidade?".
As visitas ao centro da cidade se repetiram em todas as suas estadas no Rio. Ia sempre se encontrar com um certo Hamilton, enfermeiro brasileiro que morara em Paris.
Chaim Katz conta que, certa vez, a pedido de Foucault, foi levar uma encomenda ao amigo do filósofo francês. Era o pagamento de uma palestra feita no Brasil, que deveria ser entregue a Hamilton. Num edifício enorme e pobre, com centenas de apartamentos, Katz se encontrou rapidamente com um sujeito que descreve como "mulato, relativamente bonito".
Pouco antes de deixar o Brasil pela última vez, Foucault chamou Machado e Katz para uma conversa. Disse que seu amigo estava doente e que iria procurá-los. Pediu que o ajudassem da melhor forma possível. Hamilton nunca pediu a ajuda dos amigos de Foucault.

CALIFÓRNIA
E o filósofo nunca mais voltou ao Brasil. No final dos anos 70, foi descoberto, com relativo atraso, pela universidade norte-americana. Ao mesmo tempo em que ele próprio descobriu a Califórnia, ou melhor, San Francisco.
Mesmo as conversas por carta com seus admiradores mais próximos no Brasil cessaram. Novos convites de visita foram feitos, mas Foucault não se mostrou interessado. "Acho que foi o encontro com os Estados Unidos", explica Machado.
"Ele ficou deslumbrado. Encontrou por lá um debate mais afinado com as pesquisas que estava fazendo no momento, as trocas intelectuais foram intensas. Também encontrou nos Estados Unidos movimentos organizados, como o dos homossexuais e dos negros, que já usavam ideias que ele valorizava muito. Uma coisa é ser admirado no Brasil. Outra é ser acolhido nas grandes universidades americanas."

terça-feira, 24 de maio de 2011

Salete Cobra - A história que virou filme na UEPB



Por Juliana Rosas, da ASCOM/UEPB, com informações da assessoria da produção


Salete Cobra é um vídeo-documentário produzido por alunos do curso de extensão de Produção de Documentários, oferecido pelo Departamento de Comunicação Social da Universidade Estadual da Paraíba, ministrado pelo premiado cineasta André da Costa Pinto. O documentário, que ainda está em fase de pré-produção, pretende atender ao gênero curta-metragem de até 15 minutos de duração e será gravado no dia 04 de junho, na cidade de Guarabira-PB. Além da casa da protagonista, o curta terá como cenários lugares comuns da cidade, como o cemitério antigo, a igreja matriz e algumas ruas principais.
O documentário conta a história da viúva de Antônio Cobra, Salete, de 50 anos e funcionária da Secretaria de Educação do município de Guarabira. A personagem se destaca pelo seu gosto curioso e peculiar de frequentar funerais. Costume esse que começou em sua juventude e surpreende pelos grandes números de enterros que ela já frequentou.
A equipe é formada por profissionais experientes no audiovisual paraibano e também aposta em nomes novos do cinema. Direção e roteiro são de Ailton Francisco, produção executiva de Allan Dantas e Anne Emanuelle, fotografia de Renato Hennys. O filme será lançado no final do mês de junho, na cidade de Campina Grande e posteriormente em Guarabira, quando também será inscrito em festivais de cinema de todo o Brasil.

Ficha técnica
 
Direção geral: Ailton Francisco
Direção de produção: Maria de Fátima Ramalho
Assistente de direção: Anne Emanuelle
Produção executiva: Allan Dantas e Anne Emanuelle
Assistentes de produção: Aridelson Oliveira, Tereza Helena e Roberta Lucena
Fotografia: Renato Hennys
Still: Roberta Lucena
Assessoria de imprensa: Roberta Lucena

segunda-feira, 23 de maio de 2011

ONU – Programa de Bolsas para Afrodescendentes

Com informações da Coordenadoria de Assuntos Institucionais e Internacionais da UEPB
 
No contexto do Ano Internacional dos Afrodescendentes, a Unidade Anti-Discriminação do escritório do Alto Comissariado de Direitos humanos das Nações Unidas está lançando um programa de Bolsas para descendentes de africanos de 10 de outubro a 4 novembro de 2011.

O programa de bolsas proporcionará a oportunidade de aprofundar a compreensão do Sistema de Direitos Humanos das Nações Unidas e de seus mecanismos, com foco em questões de particular relevância as pessoas de ascendência africana.

Isso permitirá aos bolsistas contribuir de forma mais efetiva à proteção e a promoção dos Direitos civis, políticos, econômicos, sociais e cultural dos Afrodescendentes em seus respectivos países e comunidades.

Quem pode se candidatar?

* O candidato deve ser afrodescendente
* O candidato deve ter no mínimo 4 anos de experiência no tratamento de questões relativas aos afro-descendentes ou minorias.
* O candidato deve ser fluente em inglês.
* Uma carta de apoio de uma organização afrodescendente ou da comunidade

Processo de Seleção


Na seleção dos bolsistas, as questões de gênero, e um equilíbrio regional serão levados em conta. Os documentos apresentados deverão estar em Inglês.

Direitos

O candidato selecionado tem direito a uma bolsa para cobrir alojamento, as despesas básicas em Genebra, seguro básico de saúde, bem como um retorno de avião com bilhete de classe econômica.

Aplicação

Os candidatos interessados são convidados a apresentar o seu pedido por e-mail para: africandescent@ohchr.org, ou por fax para: 004122-928 9050 com uma carta de apresentação indicando claramente “Application to the 2011 Fellowship Programme for People of African Descent”, com os seguintes documentos:

* Application form:

Conferir o endereço:
http://www.ohchr.org/Documents/Events/IYPAD/ApplicationFormIYPAD.pdf

* curriculum vitae;
* carta de motivação (máximo de 1 página) onde o candidato explicará sua motivação para a candidatura, o que ele/ela espera alcançar através da bolsa e como ele/ela usará o que aprendeu para promover os interesses e os direitos dos afro-descendentes;
* uma carta de apoio de uma organização /entidade parceira.

O prazo para recepção de aplicações é 15 de junho de 2011. Somente os candidatos pré-selecionados serão contatados.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

“Sociedade precisa dar valor aos cientistas”, diz coordenador do CNPQ e ex-assessor da UEPB


Por Joana Rozowykwiat, Do Portal Vermelho

Em entrevista ao Portal Vermelho, o coordenador do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, Olival Freire [*que também assessorou a Universidade Estadual da Paraíba por muitos anos], fala sobre os desafios do setor no país. Para ele, é preciso investir mais em inovação, incentivar a participação de empresas privadas nessa área, ampliar o peso da produção com maior conteúdo tecnológico na indústria brasileira e, principalmente, fazer com que a sociedade valorize a ciência e a tecnologia.

“Se o Brasil pretende ter uma inserção soberana na área internacional, é preciso alterar o perfil da indústria brasileira, para ampliar o peso da produção com maior conteúdo tecnológico”, avalia Olival Freire, que aponta ainda uma clara assimetria no desenvolvimento científico e o tecnológico no Brasil.

Segundo ele, fazer com que este setor avance ainda mais é uma questão que depende não só do governo, mas também do Congresso Nacional e, mais ainda, da sociedade. Olival defende que os parlamentares precisam rever a nova legislação do pré-sal, que terminou por pulverizar recursos antes destinados especificamente ao desenvolvimento científico e tecnológico.

Olival Freire também chama a atenção para o fato de que não há, no país, uma cultura de valorização dos cientistas. “A sociedade precisa valorizar seus engenheiros e cientistas da mesma forma que valoriza seus jogadores de futebol, suas atrizes e seus cantores, para chegar a uma comparação extremada”, diz.

Questionado sobre o contingenciamento de recursos da pasta de Ciência e Tecnologia, definido no início da gestão da presidente Dilma Rousseff, Olival afirmou que ele não será um problema para os projetos em curso. Mas advertiu que, caso essas restrições permaneçam ao longo do governo, a situação será grave, porque significaria limitar uma expansão necessária. “Limitar a expansão no Brasil hoje seria um quadro seríssimo”.

Como o senhor avalia o cenário da Ciência e Tecnologia no país hoje? 
Nós temos um cenário que, por um lado, é marcado por um grande progresso da ciência brasileira, que resulta do esforço acumulado nos últimos 50, 60 anos, mas, em particular, de um esforço concentrado a partir da década de 1970 e, mais em particular ainda, de um esforço de apoio a partir do ano 2000, especialmente nos dois governos Lula.

Temos vários indicadores desse avanço. O Brasil forma hoje quase 12 mil doutores por ano, ocupa, no ranking das nações com números de publicações indexadas em revistas qualificadas, uma posição muito boa, é o 13º.

Em alguns setores da economia há uma clara interação positiva entre desenvolvimento científico e tecnológico e desenvolvimento econômico. Como exemplo, temos o caso da indústria do petróleo, da aeronáutica. Nós não podemos conceber a Embraer que existe hoje sem a criação do ITA, no início dos anos 1950. E há razoável consenso de que, sem a Embrapa, não teríamos chegado à posição que temos hoje em relação ao agronegócio.

Por outro lado, esse cenário não pode nos levar a uma posição de acomodação, de tranquilidade. Porque temos desafios para o desenvolvimento do país, que dependem crucialmente do desenvolvimento em ciência, da tecnologia e da melhoria das condições de educação.

Que desafios são esses?
O principal deles diz respeito ao seguinte: a força econômica do Brasil hoje está muito concentrada na produção de commodities, em mercadorias como petróleo, minerais, agricultura e pecuária. E, em geral, nossa produção não incorpora um volume muito significativo de conhecimento tecnológico.

Então, se o Brasil pretende ter uma inserção soberana na área internacional, e esse é o projeto do governo, nós temos que alterar o perfil da indústria brasileira, de modo a aumentar o peso daquela produção com maior conteúdo tecnológico.

Aqui no Ministério (de Ciência e Tecnologia) se costuma utilizar um número que ajuda a ilustrar essa questão: pra importar uma tonelada de circuitos integrados – todos esses computadores e aparatos de informática que o Brasil importa – o valor disso é basicamente o equivalente ao valor de 21 mil toneladas de minério de ferro ou 1,7 mil tonelada de soja.

Esse cenário é agravado por um desequilíbrio que o Brasil passa a ter nas contas, na medida em que os valores que temos gasto com importação nos últimos anos, em produtos de alta tecnologia, tem aumentado consideravelmente.

E, normalmente, os setores que exigem maior conteúdo tecnológico são setores da economia que oferecem empregos mais qualificados. Costumo sempre comparar dois extremos, os trabalhadores da construção civil, com os da Embraer. É evidente então que temos interesse em um número maior de empregos mais qualificados.

Quais os principais problemas na gestão de Ciência e Tecnologia?
Olival Freire: Nós temos um problema crucial que diz respeito à inovação. O número que normalmente chama a atenção é o de que, em qualidade da pesquisa, a gente está em 13ª posição no cenário internacional. Mas, quando olhamos, por exemplo, o número de patentes, a gente vai lá para trás. Vamos para a 40ª posição, coisa desse tipo.

Então temos uma clara assimetria no desenvolvimento científico e tecnológico no Brasil. Vários fatores têm contribuído para isso. Um deles é o fato de que o investimento privado em ciência e tecnologia no país é extremamente limitado.

Temos 1,2% do PIB investido em Ciência e Tecnologia. Mas, quando a gente desagrega esse número e o compara com outros países em desenvolvimento, vemos que o investimento público e estatal no Brasil não é um problema absolutamente crucial, ainda que precise ser ampliado. É no investimento privado que nós perdemos feio.

E como resolver essas questões?
Temos que aumentar o investimento privado, por exemplo, com a criação de centros de pesquisa, com atração de centros de pesquisa estrangeiros para o Brasil. A GE, por exemplo, está construindo um centro de pesquisa na ilha do Fundão, junto à UFRJ.

O ministério está trabalhando também a ideia de criação de novos fundos setoriais, fundos de captação de recursos de setores da economia para financiar o desenvolvimento tecnológico daqueles setores. Estamos propondo fundos dos setores automotivo, financeiro, da construção civil e da mineração. Essa é uma fórmula que foi muito positiva nos últimos dez anos, por exemplo, com o fundo do petróleo, que tem sido essencial no desenvolvimento científico e tecnológico da área da cadeia do petróleo.

Outra questão que já tinha sendo tratada e que o ministério pretende enfatizar é que as dificuldades não são só do lado das empresas, mas no mundo acadêmico brasileiro. Nós temos ainda uma cultura avessa, na academia, à interação com as empresas.

Já nas gestões anteriores, o governo tomou uma série de providências no sentido de colocar bolsas de pesquisas para a colocação de doutores em empresas e medidas desse tipo. Outra medida que está sendo analisada é a transformação da Finep em um banco de inovação, de modo que ela possa ter uma estrutura mais robusta de financiamento à inovação, com mais recursos e mais flexibilidade.

Também há a expectativa de um plano pró-engenharia, que envolve desde a oferta de bolsas para formar engenheiros, alguns estímulos para atrair e manter os estudantes nas escolas de engenharia, quanto a reformulação do ensino de engenharia, de modo que esse conjunto de esforços possa fazer face a um gargalo que há nessa área.

Qual o papel da Ciência e Tecnologia no governo Dilma? Quais as expectativas para esta área?
A sinalização é, no mesmo sentido do governo interior, de incremento na área. O assunto foi tema de campanha, foi tema do primeiro discurso da presidente Dilma e um aspecto importante é que ela tem colocado a ciência e tecnologia na agenda da diplomacia brasileira. Por exemplo, nos entendimentos com a China e os Estados Unidos, o componente ciência e tecnologia teve papel muito importante.

Então, certamente, todos nós temos uma elevada expectativa quanto a esse compromisso. O que não significa que não existam dificuldades, especialmente momentâneas, relacionadas a esses ajustes que o governo vem promovendo no início da gestão.

O contingenciamento de recursos pode afetar projetos em andamento?
Eu acho que o problema desse corte no orçamento não é tanto comprometer os projetos em curso. O problema é que vivemos uma fase de expansão, e uma expansão absolutamente necessária. E é claro que, se prevalecessem essas restrições ao longo de todo o governo, nós estaríamos diante de um quadro problemático, porque estaríamos limitando a expansão. Limitar a expansão no Brasil hoje seria um quadro seríssimo.

Então a nossa expectativa e luta é por uma modificação nesse cenário. Agora é uma luta que é do ministério, certamente a presidente Dilma tem uma posição favorável, mas é uma posição que depende também do Congresso Nacional e da sociedade brasileira.

Depende do Congresso porque, por exemplo, antes, havia um percentual do fundo do petróleo que era destinado especificamente para ciência e tecnologia. E, depois que a legislação do pré-sal foi aprovada,a distribuição desse percentual está descrita de forma genérica entre o que se chamou de obrigações sociais, e distribuído também com estados e municípios.

Temos consciência de que, com isso, não enfrentamos uma apagão de ciência e tecnologia em 2011 porque o presidente Lula, no último dia do governo, baixou um decreto, sustando por um ano a aplicabilidade desse aspecto da legislação do pré-sal. Então nós temos que modificar essa legislação.

E como sensibilizar para essa mudança?
O ministro esteve na Câmara e no Senado, aparentemente a reação inicial foi positiva, mas, em minha opinião, a ciência e tecnologia ainda são pouco valorizadas no cenário da cultura brasileira.

A sociedade precisa valorizar seus engenheiros e cientistas da mesma forma que valoriza seus jogadores de futebol, suas atrizes e seus cantores, para chegar a uma comparação extremada. De maneira mais específica, me chamou a atenção, por exemplo, que na composição do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, não tenha nenhuma central sindical.

O que significa isso? Não interessa ao trabalhador brasileiro a política de ciência e tecnologia? Eu acho que interessa. Agora por que não tem central sindical? Certamente isso é um vício do decreto que regulamentou esse conselho há muito tempo, mas expressa também pouco empenho das centrais em interferir nas questões de ciência e tecnologia.

Então tem que convencer o Congresso a reformar a lei, e tem a questão cultural. E a questão cultural às vezes está em uma camada do nosso imaginário que é mais profunda do que a questão política. Ninguém vai dizer que ciência e tecnologia não é um gasto tão relevante, mas no fundo age como se não fosse.

O CNPq está fazendo 60 anos. Que contribuição o senhor avalia que o conselho tem dado à ciência brasileira?
Eu comecei esta entrevista dizendo que temos um progresso nessa área que é resultado de um esforço de 50, 60 anos. E nesse período, nós tivemos marcos fundamentais, como a criação do CNPq.

No pós-guerra o mundo compreendeu claramente o papel da Ciência e Tecnologia. O radar e a bomba atômica tiveram papel crucial na guerra. Então o mundo saiu da 2ª Guerra entendendo que não pode ter país desenvolvido ou independente se não tiver desenvolvimento científico e tecnológico.

Nesse espírito, o Brasil criou o CNPq e a Caps, no mesmo ano, e também foi criado o ITA. Muito do que temos hoje de positivo na ciência brasileira tem uma fórmula simples: se você leva 60 anos apoiando uma atividade, com incentivos e bolsas, essa atividade vai frutificar.

O povo brasileiro não é nem mais nem menos inteligente que qualquer outro povo. Nesses 60 anos, com o CNPq dizendo que quem produzir e publicar vai ter incentivo, a sociedade brasileira passou a encarar a atividade científica como uma atividade importante. O CNPq, mais que uma agência financiadora, é um símbolo, um ícone.


* Nota da ASCOM/UEPB

quinta-feira, 19 de maio de 2011

1º Encontro de Blogueiros e Redes Sociais da Paraíba ocorrerá amanhã (20)

Nesta sexta-feira (20), João Pessoa sediará o 1º Encontro de Blogueiros e Redes Sociais da Paraíba. O evento ocorrerá a partir das 9h, na Empresa Paraibana de Turismo (PBTUR), localizada na Avenida Almirante. Tamandaré, 100,  em Tambaú.  A programação conta com debates, oficinas para blogs e redes sociais e assessoria jurídica para blogueiros.

O evento conta com mais de 400 blogs já inscritos e a participação do advogado Harrison Targino, do presidente da Associação Nacional para Inclusão Digital, Percival Henriques, além do governador do estado da Paraíba, Ricardo Coutinho, entre outros.

Para maiores informações, acesse o portal do encontro: http://www.blogueiros.net.br/

quarta-feira, 18 de maio de 2011

A sabedoria da insegurança


Por Michael Kepp [jornalista norte-americano radicado há 28 anos no Brasil], da Revista Equilíbrio


Alguns consideram minha mudança para o Brasil, uma viagem sem volta para um país que nunca havia visitado, um ato de coragem, um pulo gigante. Não foi. Foi um passo gradativo, uma extensão de uma década errante.
Entre meus 20 e 30 anos, passei muito tempo pegando caronas pelos EUA com a placa: "Qualquer lugar menos este". Vir para cá foi uma separação de um lugar onde nunca me senti em casa.
Meus dias na estrada me fizeram sentir seguro sobre como viver no presente. Ao me colocar em uma situação aparentemente insegura por um tempo indefinido e aceitando suas consequências, aprendi a desenvolver uma segurança interior.
O filosofo inglês Allan Watts disse: "O desejo de segurança é uma dor e uma contradição e, quanto mais nós o perseguimos, mais doloroso fica".
Quer dizer, renunciar à compulsão por se sentir seguro torna você mais seguro.
Na época das caronas, eu vivia de bicos construindo casas, colhendo maçãs, trabalhando como barman e garçom e lia Watts. Essa jornada incluiu pausas maiores em cinco cidades americanas e europeias antes de chegar ao Rio, o refúgio ideal.
O jeito descontraído dos cariocas ajudou a me recuperar de uma cultura mais estressante e competitiva. E, quando vi que podia sobreviver como jornalista freelancer, a pausa virou permanência. Eu tinha 33 anos. Agora, 28 anos depois, ainda sou freelancer. E viver à margem de uma profissão, como viajar à beira de uma estrada, ensina que a segurança vem de ter fé em si mesmo.
Os jovens de hoje não são aventureiros como no início dos anos 70.
Era uma época em que os jovens faziam viagens sem destino, fossem psicodélicas ou quilométricas, para abrir as portas da percepção e da autodescoberta.
Hoje, poucos jovens fazem essas odisseias. Uma economia global instável e mais competitiva acelerou as tentativas de entrar no mercado de trabalho. Muitos conhecem o terno e a gravata antes de conhecerem a si mesmos.
Para alguns, esse processo é um constante e imprevisível ato de autorreinvenção. Eu estudei zoologia e cinema, virei jornalista e depois cronista. E descobri que você encontra segurança não quando a procura, mas quando aceita os mistérios e as incertezas da vida. Não é uma busca externa, mas uma entrega interna. É a diferença entre passar pela vida e deixar a vida passar por você.