quinta-feira, 6 de maio de 2010

Sugestão de leitura da ASCOM/UEPB: O Martírio dos Viventes, de Paulo Cavalcante



Por Oziella Inocêncio, da ASCOM/UEPB

O Martírio dos Viventes é a história do escritor Paulo Cavalcante, um retirante ruralista que fez da sua vida uma peregrinação pelas feiras literárias brasileiras. Chapéu, alparcatas, bolsa de couro, uma cabaça de água, muitos livros na mão, em cima de um tamanco inusitado, o escritor passeia pelos eventos para mostrar aos leitores a sua criatividade.

Sobrevivente da seca de 1992/93, em Caraúbas, na Paraíba, Paulo criou personagens e enredos fictícios para eternizar a história dos nordestinos que vivem em secas reais no semi-árido. A obra do escritor retrata o sofrimento do solo, dos animais e dos homens, além de abordar temas como religiosidade, mortalidade infantil, exclusão social e resistência.

Ex- aluno da UEPB, Paulo doou, recentemente, exemplares da obra para as bibliotecas da instituição. Assim, o livro pode ser encontrado nas bibliotecas do Centro de Educação (CEDUC) e também na Biblioteca Central da UEPB, localizada no bairro de Bodocongó, em Campina Grande. O Martírio dos Viventes é o primeiro livro de Paulo, sendo que a publicação já está na quarta edição. 

Vestido à caráter das suas tradições naturais, o escritor percorre os maiores eventos de Literatura do país, como a Feira do Livro de Parati, as bienais do Rio de Janeiro, Recife, São Paulo, Natal e Brasília, entre outras. Um dos destaques da indumentária de Paulo é o tamanco, uma plataforma confeccionada por ele, com 35 cm de altura, a base de madeira umburana e oca por dentro, na qual ele usa para guardar objetos pessoais e alimentos, a exemplo de banana, cenoura, castanhas, rapadura e mel.

Nascido em Caraúbas, micro-região do Cariri Paraibano, Paulo mora em Campina Grande desde 1981, quando veio estudar e trabalhar na cidade. Naquela década, graduou-se em Administração pela Universidade Regional do Nordeste (antiga URNe). Já em 1998, concluiu Licenciatura Plena em História e, em 2000, Especialização em Formação do Educador - ambas na UEPB. Assim, atualmente, Paulo divide a verve inventiva para as letras com o ofício de professor.

Niemeyer deve receber alta até sexta-feira, diz hospital




Por Fabiana Marchezi, da Agência Estado

O arquiteto Oscar Niemeyer, de 102 anos, que realizou dois projetos para a UEPB, deve receber alta até sexta-feira, segundo a assessoria de imprensa do Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro, onde ele está internado desde 25 de abril por conta de uma infecção urinária.

Ainda segundo o hospital, o quadro de saúde de Niemeyer evolui bem. O arquiteto está internado em um quarto da Unidade Semi-Intensiva.

Entre setembro e outubro do ano passado, o arquiteto esteve internado em uma clínica por 24 dias, quando foi operado de um tumor no intestino grosso.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Nouvelle Vague e as peripécias de um assessor


Por Juliana Rosas, da ASCOM/UEPB

A expectativa era grande. As perguntas já estavam preparadas. Duas jornalistas da Assessoria de Comunicação da UEPB saem à procura da banda francesa Nouvelle Vague que veio para Recife-PE, no último sábado (01), a fim de entrevistá-los.

A princípio, nós, claro, queríamos curtir o show. A entrevista seria um plus. Como já dito, a expectativa era grande, mas a apreensão também, de não conseguir o contato. Pensávamos no que iriam pensar. Afinal, não tínhamos um crachá de um grande periódico.

Mas fomos à batalha. Primeiro, os seguranças. Um deles disse que banda não falou com ninguém nem iria falar. Cara chato. Ao entrarmos, fomos checar uma local, ‘dar um rolê’. Era imenso. Por onde começar? Avistamos um pessoal num local mais separado, após uma grade. Perguntamos a este outro segurança. Ele chamou a produção. O produtor nos levou ao assessor. Achávamos que ele era o assessor da banda. Assessorava o projeto. Que projeto? Não sei. Provavelmente, de trazer esta banda pra cá.

A primeira banda nem havia começado: a Band Ciné, local. O assessor, Lula Queiroga, disse que eles só chegariam lá pra meia-noite e que o procurasse depois, ele estaria “por ali”. Achamos que ele foi legal. “Olha, nós viemos da Paraíba, somos assessoras lá, da Universidade Estadual, não deu pra falar antes, já que chegamos hoje. Queríamos esta entrevista para um blog cultural...”. Mesmo assim, a volta da impressão: ‘esse cara não tá nem aí para deixar umas assessorazinhas da Paraíba entrevistar a banda...’

Complexo de inferioridade? Nem tanto. Sabemos o nosso valor. Mas não podíamos ser inocentes a ponto de não entender o jogo do mercado, que privilegia os grandes veículos do circuito.

Depois disso, voltamos a curtir a noite, o local, o show de abertura. A Band Ciné toca bem, é bonitinha, tem estilo e bons músicos. Eu, particularmente, conhecia algumas músicas mas não me empolguei tanto. Quiçá porque enquanto eles tocavam, fazíamos outras coisas - sentávamos, olhávamos o local, conversávamos, bebíamos - (água, especialmente!) para agüentar o terrível calor recifense – e não deu para se entrosar tanto no show.

Chega a hora. Olhamos em volta e não vemos o tal do assessor. “E agora?” nos perguntamos. Agora, nada, creio. Agora, nos resta esperar o concerto principal. Enfim, chega Nouvelle Vague, abrindo com a cantora brasileira Karina Zeviani, responsável pela maior interação com a platéia. Porém, sua parceira na turnê pelo Brasil, a bela belga Helena Nogueira não ficava atrás em termos de carisma e talento.

O show, para a jornalista que vos escreve, foi fantástico. Não tenho pretensão de fazer crítica musical, nem tenho tanto conhecimento da banda para tal. O som estava ótimo, a banda prende e cativa. É tudo que posso dizer sem soar falso ou clichê.

Para quem está ainda menos familiarizado com a banda, vou só esclarecer um pouco. Nouvelle Vague é um coletivo musical francês arranjado pelos produtores franceses Marc Collin e Olivier Libaux. O nome deles é um jogo de palavras, referindo-se simultaneamente a sua “francesidade”; ao movimento artístico do cinema francês dos anos 60; à fonte de suas canções (todas são covers de músicas punk e new wave dos anos 80) e ao uso do estilo Bossa nova, também dos anos 60.

Isso já diz muito. A Nouvelle é uma banda sui generis. Via de regra, bandas covers não duram muito. E este estereótipo soa pejorativo. Ela não pretende ser apenas uma ‘banda de cover’. Talvez nem banda seja. Está mais para um projeto que quer se divertir escolhendo canções de outrem e reinterpretando-as a sua particular maneira.

E como disse a cantora belga ao final do show: tudo tem um fim. “A vida, os concertos, Nouvelle Vague”. E o fim foi um êxtase. Karina desce do palco para cantar no meio da platéia. Fiquei surpresa de ela ter saído ilesa, vide a grande adoração. Na volta para o bis, a belga Helena disse que estava encantada com a audiência. Cantou mais uma canção, lindíssima. “Geralmente eu não faço isso, mas deve ser o Brasil”, disse, referindo-se ao bis adicional.

E nós nos vamos. Satisfeitas com o show, e com uma ponta de pena de não termos conseguido a entrevista. Oziella, minha “parceira no crime” (ehehehe) ainda vem dizer que havia visto o tecladista da banda, anteriormente, perto do bar. Ai se soubéssemos que era ele!

C'est tout. Au revoir!

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Entrevista com Chico Buarque

 
Por Daniel Cariello e Thiago Araújo, da revista Brazuca | Foto: Jorge Bispo
 
“Se tiver bola, eu dou a entrevista”. Essa foi a única exigência do nosso companheiro de pelada, Chico Buarque, numa caminhada entre o metrô e o campo. Uma bola. E eu acabara de informar que o dono da redonda não viria à pelada de quarta-feira. Éramos dez amantes do futebol, órfãos.

Sem saber se esse era um gol de letra dele para fugir da solicitação de seus parceiros jornalistas, ou uma última esperança, em forma de pressão, de não perder a religiosa partida, eu, que não creio, olhei para o céu e pedi a Deus: uma pelota!

Nada de enigma, oferenda ou golpe de Estado. Ele estava ali, o cálice sagrado da cultura brasileira, que sucumbiu ao ver não uma, mas duas bolas chegarem à quadra pelas mãos de Mauro Cardoso, mais conhecido como Ganso. A partir daí, nada mais alterou o meu ânimo e o da minha dupla de ataque-entrevista, Daniel Cariello. Apesar de termos jogado no time adversário do ilustre entrevistado, tomado duas goleadas consecutivas de 10 x 6 e 10 x 1, tínhamos a certeza de que ele não iria trair dois dos principais craques do Paristheama, e sua palavra seria honrada.

Mas o desafio maior não era convencer o camisa 10 do time bordeaux-mostarda parisiense a ceder duas horas de sua tarde ensolarada de sábado. O que você perguntaria ao artista ícone da resistência à ditadura, parceiro de Tom Jobim, Vinicius de Morais e Caetano Veloso, escritor dos best sellers “Estorvo”, “Benjamin”, “Budapeste” e “Leite Derramado”, autor de “A banda”, “Essa moça tá diferente”, “O que será”, “Construção” e da canção de amor mais triste jamais escrita, “Pedaço de mim”?

Admirado e amado por todas as idades, estudado por universitários, defendido por Chicólatras, oráculo no Facebook, onipresente nas manifestações artísticas brasileiras – sua modéstia diria “isso é um exagero”, mas sabemos que não é –, sua reação imediata ao ser comparado a Deus foi “em primeiro lugar, não acredito em Deus. Em segundo, não acredito em mim. Essa é a única coisa que pode nos ligar. Então, pra começo de conversa, vamos tirar Deus da mesa e seguir em frente”.

Enfim, ainda não creio que entrevistamos Deus, quase sem falar de Deus. Mas foi com ele mesmo que aprendi uma lição, talvez um mandamento: acreditar em coisas inacreditáveis. [Thiago Araújo]


Você assume que não acredita em Deus, mas existem trechos nas suas músicas como “dias iguais, avareza de Deus” ou “eu, que não creio, peço a Deus”. No Brasil, é complicado não acreditar em Deus?

Eu não tenho crença. Eu fui criado na Igreja Católica, fui educado em colégio de padre. Eu simplesmente perdi a fé. Mas não faço disso uma bandeira. Eu sou ateu como o meu tipo sanguíneo é esse.

Hoje há uma volta de certos valores religiosos muito forte, acho que no mundo inteiro. O que é perigoso quando passa para posições integristas e dá lugar ao fanatismo. O Brasil talvez seja o pais mais católico do mundo, mas isso é um pouco de fachada. Conheço muitos católicos que vão à umbanda, fazem despacho. E fica essa coisa de Deus, que entra no vocabulário mais recente, que me incomoda um pouquinho. Essa coisa de “vai com Deus”, “fica com Deus”. Escuta, eu não posso ir com o diabo que me carregue? (Risos). Tem até um samba que fala algo como “é Deus pra lá, Deus pra cá – e canta – Deus já está de saco cheio” (risos).

Você já foi em umbanda, candomblé, algo do tipo?


Já, eu sou muito curioso. A mulher jogou umas pipocas na minha cabeça, sangue, disse que eu estava cheio de encosto. Eu fui porque me falaram “vai lá que vai ser bom”. Passei também por espíritas mais ortodoxos, do tipo que encarnava um médico que me receitou um remédio para o aparelho digestivo. Aí eu fui procurar o remédio e ele não existia mais. O remédio era do tempo do médico que ele encarnava (risos).

Já tive também um bruxo de confiança, que fez coisas incríveis. Aquela música do Caetano dizia isso muito bem, “quem é ateu, e viu milagres como eu, sabe que os deuses sem Deus não cessam de brotar.” Eu vi cirurgias com gilete suja, sem a menor assepsia, e a pessoa saía curada. Estava com o joelho ferrado e saía andando. Eu fui anestesista dessa cirurgia. A anestesia era a música. O próprio Tom Jobim tocava durante as cirurgias. Eu toquei para uma dançarina que estava com problema no joelho. Ela tinha uma estreia, mas o ortopedista disse “você rompeu o menisco”. Ela estreou na semana seguinte, e na primeira fila estavam o ortopedista e o bruxo (risos).

Uma vez, estava com um problema e fui ao médico. Ele me tocou e não viu nada. Aí eu disse “olha, meu bruxo, meu feiticeiro, quando ele apertava aqui, doía”. Ele começou a dizer “mas essa coisa de feitiçaria…” e atrás dele tinha um crucifixo com o Cristo. Daí eu perguntei “como você duvida da feitiçaria, mas acredita na ressurreição de Cristo?”. Eu acho isso uma incongruência. Gosto de acreditar um pouco nisso, um pouco naquilo, porque eu vejo coisas inacreditáveis. Eu não acredito em Deus, acredito que há coisas inacreditáveis.

De vez em quando você dá uma escapada do Brasil e vem a Paris. Isso te permite respirar?


Muito mais. Eu aqui não tenho preocupação nenhuma, tomo uma distância do Brasil que me faz bem. Fico menos envolvido com coisas pequenas que acabam tomando todo o meu tempo. Aqui, eu leio o Le Monde todos os dias, e fico sabendo de questões como o Cáucaso, os enclaves da antiga União Soviética, que no Brasil passam muito batidos. O Brasil, nesse sentido, é muito provinciano, eu acho que o noticiário é cada vez mais local.

Meu pai, que era um crítico literário e jornalista, foi morar em Berlim no começo dos anos trinta. Foi lá, onde teve uma visão de historiador, de fora do país, que ele começou a escrever Raízes do Brasil, que se tornou um clássico. A possibilidade de ter esse trânsito, de ir e voltar, eu acho boa. É como você mudar de óculos, um para ver de longe e outro para ver de perto.


Nesse seu vai e vem Brasil-França, o que você traria do Brasil para a França, e vice-versa?


Eu traria pra cá um pouquinho da bagunça, da desordem. Os nossos defeitos, que acabam sendo também nossas qualidades. O tratamento informal, que gera tanta sujeira, ao mesmo tempo é uma coisa bonita de se ver. Você tem uma camaradagem com um sujeito que você não conhece. Aqui existe uma distância, uma impessoalidade que me incomoda.

Para o Brasil, eu gostaria de levar também um pouco dessa impessoalidade. Da seriedade, principalmente para as pessoas que tratam da coisa pública. Não que não exista corrupção na França.

Outra coisa que eu levaria pra lá é o sentimento de solidariedade, que existe entre os brasileiros que moram fora. Isso eu conheci no tempo que eu morava fora, e vejo muito aqui através das pessoas com as quais convivo. Eles se juntam. Como se dizia, “o brasileiro só se junta na prisão”. Os brasileiros também se juntam no exílio, na diáspora.

Falando em exílio, tem uma história curiosa de Essa moça tá diferente, a sua música mais conhecida na França.

É. A coisa de trabalho (N.R.: na Itália, onde Chico estava em exílio político, em 1968) estava só piorando e o que me salvou foi uma gravadora, a Polygram, pois minha antiga se desinteressou. A Polygram me contratou e me deu um adiantamento. E consegui ficar na Itália um pouco melhor. Mas eu tinha que gravar o disco lá. Eu gravei tudo num gravador pequenininho. Um produtor pegou essas músicas e levou para o Brasil, onde o César Camargo Mariano escreveu os arranjos. Esses arranjos chegaram de volta na Itália e eu botei minha voz em cima, sem que falasse com o César Camargo. Falar por telefone era muito complicado e caro. Então foi feito assim o disco. É um disco complicado esse.


Você acabou de citar o Le Monde. Para nós, que trabalhamos com comunicação, sempre existiu uma crítica pesada contra os veículos de massa no Brasil. Você acha que existe um plano cruel para imbecilizar o brasileiro?

Não, não acredito em nenhuma teoria conspiratória e nem sou paranoico. Agora, aí é a questão do ovo e da galinha. Você não sabe exatamente. Os meios de comunicação vão dizer que a culpa é da população, que quer ver esses programas. Bom, a TV Globo está instalada no Brasil desde os anos 60. O fato de a Globo ser tão poderosa, isso sim eu acho nocivo. Não se trata de monopólio, não estou querendo que fechem a Globo. E a Globo levanta essa possibilidade comparando o governo Lula ao governo Chavez. Esse exagero.


Você acha que a mídia ataca o Lula injustamente?

Nem sempre é injusto, não há uma caça às bruxas. Mas há uma má vontade com o governo Lula que não existia no governo anterior.

E o que você acha da entrevista recente do Caetano Veloso, onde ele falou mal do Lula e depois acabou sendo desautorizado pela própria mãe?


Nossas mães são muito mais lulistas que nós mesmos. Mas não sou do PT, nunca fui ligado ao PT. Ligado de certa forma, sim, pois conheço o Lula mesmo antes de existir o PT, na época do movimento metalúrgico, das primeiras greves. Naquela época, nós tínhamos uma participação política muito mais firme e necessária do que hoje. Eu confesso, vou votar na Dilma porque é a candidata do Lula e eu gosto do Lula. Mas, a Dilma ou o Serra, não haveria muita diferença.

O que você tem escutado?


Eu raramente paro para ouvir música. Já estou impregnado de tanta música que eu acho que não entra mais nada. Na verdade, quando estou doente eu ouço. Inclusive ouvi o disco do Terça Feira Trio, do Fernando do Cavaco, e gostei. Nunca tinha visto ou ouvido formação assim. Tem ao mesmo tempo muita delicadeza e senso de humor.

A música francesa te influenciou de alguma maneira?

Eu ouvi muito. Nos anos 50, quando comecei a ouvir muita música, as rádios tocavam de tudo. Muita música brasileira, americana, francesa, italiana, boleros latino americanos. Minha mãe tinha loucura por Edith Piaf e não sei dizer se Piaf me influenciou. Mas ouvi muito, como ouvi Aznavour.

O que me tocou muito foi Jacques Brel. Eu tinha uma tia que morou a vida inteira em Paris. Ela me mandou um disquinho azul, um compacto duplo com Ne me quitte pas, La valse à mille temps, quatro canções. E eu ouvia aquilo adoidado. Foi pouco antes da bossa nova, que me conquistou para a música e me fez tocar violão. As letras dele ficaram marcadas para mim.

Eu encontrei o Jacques Brel depois, no Brasil. Estava gravando Carolina e ele apareceu no estúdio, junto com meu editor. Eu fiquei meio besta, não acreditei que era ele. Aí eu fui falar pra ele essa história, que eu o conhecia desde aquele disco. Ele disse “é, faz muito tempo”. Isso deve ter sido 1955 ou 56, esse disquinho dele. Eu o encontrei em 67. Depois, muito mais tarde, eu assisti a L’homme de la mancha, e um dia ele estava no café em frente ao teatro. Eu o vi sentado, olhei pra ele, ele olhou pra mim, mas fiquei sem saber se ele tinha olhado estranhamente ou se me reconheceu. Fiquei sem graça, pois não o queria chatear. Ele estava ali sozinho, não queria aborrecer. Mas ele foi uma figuraça. Eu gostava muito das canções dele. Conhecia todas.

Falando de encontros geniais, você tem uma foto com o Bob Marley. Como foi essa história?


Foi futebol. Ele foi ao Brasil quando uma gravadora chamada Ariola se estabeleceu lá e contratou uma porção de artistas brasileiros, inclusive eu, e deram uma festa de fundação. O Bob Marley foi lá. Não me lembro se houve show, não me lembro de nada. Só lembro desse futebol. Eu já tinha um campinho e disseram “vamos fazer algo lá para a gravadora”. Bater uma bola, fazer um churrasco, o Bob Marley queria jogar. E jogamos, armamos um time de brasileiros e ele com os músicos. Corriam à beça.


Vocês fumaram um baseado juntos?

Não. Dessa vez eu não fumei.


E essa sua migração para escritor, isso é encarado como um momento da sua vida, já era um objetivo?

Isso não é atual. De vinte anos pra cá eu escrevi quatro romances e não deixei de fazer música. Tenho conseguido alternar os dois fazeres, sem que um interfira no outro.

Eu comecei a tentar escrever o meu primeiro livro porque vinha de um ano de seca. Eu não fazia música, tive a impressão que não iria mais fazer, então vamos tentar outra coisa. E foi bom, de alguma forma me alimentou. Eu terminei o livro e fiquei com vontade de voltar à musica. Fiquei com tesão, e o disco seguinte era todo uma declaração de amor à música. Começava com Paratodos, que é uma homenagem à minha genealogia musical. E tinha aquele samba (cantarola) “pensou, que eu não vinha mais, pensou”. Eu voltei pra música, era uma alegria. Agora que terminei de escrever um livro já faz um ano, minha vontade é de escrever música. Demora, é complicado. Porque você não sai de um e vai direto para outro. Você meio que esquece, tem um tempo de aprendizado e um tempo de desaprendizado, para a música não ficar contaminada pela literatura. Então eu reaprendo a tocar violão, praticamente. Eu fiquei um tempão sem tocar, mas isso é bom. Quando vem, vem fresco. É uma continuação do que estava fazendo antes. Isso é bom para as duas coisas. Para a literatura e para a música.

Tanto em Estorvo quanto em Leite derramado o leitor tem uma certa dificuldade em separar o real do imaginário. Você, como seus personagens, derrapa entre essas duas realidades?

Eu? O tempo todo, agora mesmo eu não sei se você esta aí ou se eu estou te imaginando (gargalhadas).

Completamente. Eu fico vivendo aquele personagem o tempo todo. Entrando no pensamento dele. Adquiro coisas dele. Você pode discordar, mas chega uma hora que tem que criar uma empatia ou uma simpatia. Você cria uma identificação. E alguma coisa no gene é roubado mesmo de mim, algumas situações, um certo desconforto, não saber bem se você é real, se você está vivendo ou sonhando aquilo. Por exemplo, agora que ganhamos de 10 a 1 (referência à pelada que jogamos três dias antes), eu saí da quadra e falei: “acho que eu sonhei. Não é possível que tenha acontecido” (risos).

Você é fanático por futebol?


Não sou fanático por nada. Mas eu tenho muito prazer em jogar futebol. Em assistir ao bom futebol, independentemente de ser o meu time. Quando é o meu time jogando bem, é melhor ainda, pois eu consigo torcer. Agora mesmo, no Brasil, tinha os jogos do Santos.

Mas eu vou menos aos estádios. Eu não me incomodo de andar na rua, mas quando você vai a alguns lugares, tem que estar com o cabelo penteado, tem que estar preparado para dar entrevistas. Aqui, eu estou dando a minha última (risos). Aqui, é exclusiva. Fiz pra Brazuca e mais ninguém. Eu quero ver o pessoal jogar bola. Então eu vejo na televisão. E quando não estou escrevendo, aí eu vejo bastante.


É verdade que um dia o Pelé ligou na sua casa, lamentando os escândalos políticos no Brasil, e disse “é, Chico, como diz aquela música sua: ‘se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão’”?
É verdade (risos). Eu falei “legal, Pelé, mas essa música não é minha”. O Pelé é uma grande figura. Nós gravamos um programa juntos. Brincamos muito. Conheci o Pelé quando eu fazia televisão em São Paulo, na TV Record, e me mudei para o Rio. Os artistas eram hospedados no Hotel Danúbio, em São Paulo. O mesmo onde o Santos se concentrava. Então, eu conheci o Pelé no hotel. E sempre que a gente se encontra é igual, porque eu só quero falar de futebol e ele só quer saber de música. Ele adora fazer música, adora cantar, adora compor. Por ele, o Pelé seria compositor.

E você, trocaria o seu passado de compositor por um de jogador?


Trocaria, mas por um bom jogador, que pudesse participar da Copa do Mundo. Um pacote completo. Um jogador mais ou menos, aí não.

Você ainda pretende pendurar as chuteiras aos 78 anos, como afirmou?

Não. Já prorroguei. Tava muito cedo. Agora, eu deixei em aberto. Podendo, vou até os 95 (risos).

O Niemeyer está com 102 anos e continua trabalhando. Aliás, não só trabalhando como ainda continua com uma grande fama de tarado (risos).

Ele me falou isso. Eu fui à festa dele de 90 anos e ele me disse: “o importante é trabalhar e ó (fez sinal com a mão, referente a transar)”. Aí eu falei “é mesmo?” e ele respondeu “é mesmo”.

Falando nisso, o Vinícius foi casado nove vezes. Você acha a paixão essencial para a criação?

Sem dúvida. Quando a gente começa – isso é um caso pessoal, não dá pra generalizar – faz música um pouco para arranjar mulher. E hoje em dia você inventa amor para fazer música. Se não tiver uma paixão, você inventa uma, para a partir daí ficar eufórico, ou sofrer. Aí o Vinícius disse muito bem, né? “É melhor ser alegre que ser triste… mas pra fazer um samba com beleza, é preciso um bocado de tristeza, é preciso um bocado de tristeza, senão não se faz um samba não”.

Quando eu falo que você inventa amores, você também sofre por eles. “E a moça da farmácia? Ela foi embora! Elle est partie en vacances, monsieur!”. E você não vai vê-la nunca mais. Dá uma solidão. Eu estou fazendo uma caricatura, mas essas coisas acontecem. Você se encanta com uma pessoa que você viu na televisão, daí você cria uma história e você sofre. E fica feliz e escreve músicas.

Pra finalizar. Se você fosse escrever uma carta para o seu caro amigo hoje, o que você diria?

Volta, que as coisas estão melhorando!

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Sugestão de leitura da ASCOM UEPB: "Plumagem", de Fidélia Cassandra

Crédito da foto: Sandoval Fagundes

por Oziella Inocêncio, da ASCOM/UEPB

Tarde comum em Campina Grande. Passava das 13h30 e num restaurante  localizado no centro da cidade, à Rua Maciel Pinheiro, chamado Vila Antiga, muitos comerciários almoçavam. Uma mulher, de presença marcante, adentrou o recinto, acompanhada de um rapaz com violão. E o que poderia ser somente um almoço trivial de segunda-feira, tornou-se um espetáculo de beleza. Era Fidélia Cassandra, com batom vermelho e microfone na mão. Para além da voz melodiosa que ecoou no restaurante da cidade, a cantora, bastante conhecida na Rainha da Borborema e também em outras paragens do mundo, dedica-se com esmero ao ofício de poeta. 

Seu último livro, Plumagem, leitura recomendada pela Assessoria de Comunicação da UEPB, foi lançado em novembro de 2008. A obra teve boa receptividade junto ao público, detêm 140 páginas e ganhou a apresentação do poeta e jornalista Astier Basílio que destaca em seu texto: "Fidélia é da família dos simples, prima de Quintana, irmã de Cecília. Transita, cambiando entre o corriqueiro e o milagre." Possuidor de uma poesia madura e bem trabalhada, Plumagem passeia pelos mais variados matizes, a exemplo de erotismo, amor, desencontros, dor e a alegria. 

Das vozes femininas mais representativas da poesia paraibana atual, Fidélia vem transmitir aos leitores, na publicação, escritos que pulsam: desejo, angústia, celebração da vida e do feminino. Boa parte de seus poemas falam do cotidiano, fazendo uso constante de poderosas metáforas, com ecos metalinguísticos.
Plumagem também revela que a mulher, em Fidélia Cassandra, é uma mulher distinta: conhece a si mesma, gosta de si e se respeita, sabe de seus contornos e delizadeza.  

Mas, parodiando Freud, afinal o que deseja Fidélia? A leitura de Plumagem poderá responder, mas a ASCOM UEPB, antecipa uma interpretação: o desvendamento da consciência erótica feminina e, sobretudo, da fantástica sensibilidade que as mulheres posssuem. A mesma sensibilidade que faz Fidélia cantar. A mesma sensibilidade que ela fez brotar nos comerciários, que abandonaram sua refeição,  por um momento, para ouvir sua voz encantadora.

Confira uma das poesias de Plumagem, intitulada Luma:

Corpo nu de mulher...
Densas savanas douradas,
Emaranhadas cabeleiras florestais,
Grutas carnais revelando inscrições
Indecifráveis.

Nua mulher

Contornos de aveludada aurora
Do deserto.
Ardentes dunas,
Úmida concha com pingos de areia.

A mulher nua...

Seios pontiagudos...
Plumas roçando os pelos
De luma
De homem nu.


A poesia está para Fidélia, assim como a Música para Cassandra


A escritora e cantora, Fidélia Cassandra Pereira de Araújo nasceu em Campina Grande, em 1962. Segundo a poeta, quando menina, seu pai sempre lia poemas para ela, antes de dormir. Daí, esse amor sem tamanho pela poesia. Aos doze anos, começou a escrever poemas. Aos dezoito, começou sua trajetória musical. Foi bancária e sindicalista, cursou Jornalismo na UEPB e Letras na UFCG.  Fez ainda o curso de Radialismo pelo Sindicato dos Radialistas da Paraíba. Trabalhou na TV Borborema (local), na Rádio Campina FM e no www.paraibaonline.com.br.
A convivência com grandes músicos, compositores e poetas nordestinos, como Bráulio Tavares, Hildeberto Barbosa Filho, entre outros, consolidou a concretização de mais aprendizado e de parcerias riquíssimas. No início da década de oitenta, participou de vários festivais de MPB. 
Desde então, tem feito shows coletivos e solos autorais. Entre 2004 e 2007, participou do Projeto Sete Notas do SESC - Campina Grande, nas apresentações privilegiou o repertório de grandes nomes da MPB como: Tom Jobim, Chiquinha Gonzaga, Noel Rosa e Ary Barroso. Em 2009, foi convidada para cantar no sul da França, fez show nas cidades de Valbonne e Marselha. 
Em 2002, lançou Amora, o primeiro livro de poemas que traz à tona um exercício poético iniciado aos 12 anos.
Atualmente, além do fazer poético, dedica-se à sala de aula - ministra aulas de inglês – e ao exercício contínuo da leitura. 

quarta-feira, 28 de abril de 2010

"A Rita Como Ela É"

por Marcus Preto, do Caderno Serafina, da Folha de São Paulo
Serafina passa um fim de semana com a artista e assiste à mutação da mulher de 62 anos -noveleira, carente, insegura - na rainha do rock nacional

"Eu devia ter dado outro nome pra ela. Ter separado bem onde começa uma e termina a outra, como fez a Fernanda Montenegro [o nome de batismo da atriz é Arlette Pinheiro]. Não dá pra dizer 'eu sou uma e a Rita Lee é outra' -estamos juntas o tempo inteiro. Eu tenho controle, não é mediunidade. Mas eu não sou 'ela'. Sou boazinha, obedeço, tenho medo de ser rejeitada. E a Rita Lee é o oposto disso. Tem domínio absoluto da situação -o que me mata de inveja. Pra ser sincera, acho que gosto mais dela do que de mim.

Belo Horizonte, 17 de abril de 2010

12h17
Quando abriu os dois olhos azuis, tudo o que viu em volta era nuvem. Esticou a mão até o criado-mudo e, tateando, reconheceu o joguinho eletrônico portátil que lhe fizera companhia na madrugada, a garrafinha d'água mineral, o maço de cigarros e, agora sim, os óculos de grau. Encaixou as lentes no rosto, desbravando os cabelos vermelhos com as hastes de metal. Olhou de novo em volta e percebeu onde estava: a suíte presidencial de um hotel em Belo Horizonte, Minas Gerais. Sentiu imediatamente um frio bem conhecido na barriga. Era dia de estreia e, apesar de ter ensaiado exaustivamente por quase um mês para esse momento, estava, como sempre, muito insegura.

Olhou o relógio na cabeceira: já passava um pouco do meio-dia. Fez as contas e concluiu que ainda carregaria essa sensação desconfortável por pelo menos mais dez horas, até finalmente pisar no palco do estádio mineiro onde faria a estreia de seu show. Já sabe bem como esse processo funciona: sofre sozinha até entrar em cena, o último momento em que é ela mesma. Atrás das cortinas, como uma Cinderela, transforma-se em alguém que sabe exatamente o que fazer dali em diante. Alguém que, ao contrário dela, não tem medo de barata. Não tem muita autocrítica nem sente o fisgar das duas hérnias de disco. O palco pode até desabar. "Alguém dentro de mim é mais eu do que eu mesma", escreveu em uma canção, pensando nisso. Alguém que o Brasil conhece melhor do que ela.

Rita Lee, aquela do palco, gosta de mentir a idade -para mais. Anuncia sempre ter 65 anos, contra os 62 comprovados no documento de identidade da Rita original. Odeia cigarro. Diz que ele lhe rouba o fôlego, que limita o desempenho cênico. Já a outra Rita não se importa com isso. De todos os vícios que já constaram de sua longa lista, o tabaco é o único do qual não pretende se livrar jamais. De todo modo, não fuma no quarto -nem em casa, nem no quarto do hotel.

Calçou os chinelos e levou o maço para o banheiro, onde acendeu o primeiro do dia.

13h13
"Mazinho, já acordei", disse ao telefone para um dos produtores que sempre a acompanham em viagens. Ele encomenda o desjejum. Café com leite, granola, pão de sete grãos, queijo branco e um ovo cozido. Junto, chegam os jornais. Passa o olho nas páginas, roendo as unhas compulsivamente. Até que sangram, e ela ri. Sozinha, já que o quarto está vazio. Viaja em família, mas passa boa parte do tempo longe deles. Roberto de Carvalho, 57, marido e parceiro, dorme em suíte igual, do outro lado do corredor. Beto Lee, 33, o filho e guitarrista, em um hotel mais simples, junto com os outros integrantes da banda.

Volta para a cama. Os lençóis, trouxe de casa. Também as fronhas e dois dos quatro travesseiros que usa -o par que apoia a cabeça é seu. Os controles remotos estão sempre por perto, mas a televisão -como o ar-condicionado- permanece desligada. Ela prefere retomar o livro que estava lendo em casa, um romance policial do americano Harlan Coben. As histórias dele são boas, ela acha. Mas todas sofrem do mesmo problema: o desfecho previsível deixa a desejar. Seu escritor preferido nessa seara é, de longe, Rex Stout, que morreu em 1975. Em seus livros, não há como adivinhar o assassino antes que o autor o revele, e é disso que ela gosta. Mas, pena, já leu a obra completa de Stout. Não ouve música.

"Meu, o [maestro] Rogério Duprat é que estava certo. Um dia, ele me disse: 'Rita, descobri que não gosto de música, mas agora é tarde demais'. Fiquei igualzinha. Não acompanho nada dessas novidades -nem aqui dentro, muito menos lá fora. Os gringos, quando investem num lançamento que, acreditam, irá vender, cercam-se dos melhores produtores, arranjadores, instrumentistas, figurinistas, bailarinos etc. Não dá para sair um trabalho ruim. A Lady FormiGaga -reparou como ela tem cara de formiga?- é fabricada, sim, mas desempenha bem o papel. A piada é se dizer uma mulher contestadora. Alguém tem que lembrar a ela que Sinead O'Connor também se dizia uma mulher guerreira. Afff...

Passados cinco capítulos do livro, Roberto chega para o almoço: comida vegetariana, como é regra. O carro passaria às 17h para levá-los à passagem de som. Comeram e cada um voltou para o seu quarto. Ela acendeu outro cigarro. Ao mesmo tempo, vestiu uma touca plástica (os cabelos tinham sido lavados na noite anterior), arrancou a camiseta e a calcinha que usa para dormir e entrou no banho. A água quente ajudou a relaxar um pouco, mas não deu conta de liquidar com a ansiedade. As toalhas, vale frisar, também vieram de casa.

17h33
Roberto se senta no banco da frente do carro blindado, ao lado do motorista. Ela vai atrás, jogando paciência no Iphone. Outro carro menor os segue, levando o segurança e dois produtores. "Olha, Gungun, tem um monte de gente comprando ingresso para o seu show", diz Roberto quando chegam à porta do ginásio.

A Gungun a quem ele se dirige é outra das personalidades de Rita, "uma órfã de três anos e meio, carente e chatinha", segundo definição da própria. Há outras, que surgem em diferentes ocasiões, cada uma com características bem delineadas. A roqueira vampira Lita Ree, a solteirona Regina Célia ("que, dizem, teve um romance com Ulisses Guimarães"), o corintiano mulherengo Aníbal ("ele morre de tesão na Gal Costa"). Além, é claro, da própria Rita Lee, a principal de todas elas.

"Como você pode ser uma pessoa só? Ninguém é. Mas as pessoas não se dão conta de que estão usando um personagem pra cada situação -um com o marido, um com a sogra, um com o chefe... E uma persona equilibra a outra, elas se cuidam e se provocam o tempo todo. Quer um exemplo? Rompi os tendões do ombro, recentemente -essas coisas de corpo usado, a parte chata da velhice. Estava fazendo aquele papel de vítima, cheia de autopiedade, 'não quero mais nada, é hora de aposentar'. E, como não podia tocar [o violão], fiquei morrendo de medo de fazer show daquele jeito. Mas, quando a Rita Lee se viu no palco com aquela tipoia, tirou vantagem total da situação. Usou o ombro quebrado como piada, charme, riu da própria cara. E depois pra eu voltar pra casa fazendo a coitadinha de novo? Ninguém acreditava mais no meu drama, né?"

18h01
O camarim é espaçoso. Uma geladeira pequena guarda alguns tipos de suco, água mineral e sanduíches naturais. Na mesa ao lado, queijos, frutas, pães de muitos tipos, bebida isotônica, mais água. Em frente ao espelho, está armado uma espécie de "altar", com dezenas de embalagens de cosméticos. Enquanto fala, vai desenhando a boca com um lápis vermelho, que depois será recheado com batom da mesma cor. Passa rímel preto em torno dos cílios e um pouco de sombra azulada nas pálpebras e em volta. Vavá, o camareiro, entra para ajudá-la com a chapinha, que alisa ainda mais os cabelos finos. Ela deita em seguida no sofá forrado de toalhas (também trazidas de casa) e vai pingando, até acabar, um pequeno tubo de soro fisiológico nas narinas. A voz sai com mais facilidade depois desse processo de desentupimento. É agora, na maquiagem, que as duas Ritas começam a se confundir.

"Eu sei a boca que ela gosta, a roupa... É um divãzinho de Freud que ninguém faz ideia. O que às vezes me assusta é a importância que as pessoas dão pra Rita Lee [a do palco]. Vêm me dizer: 'Ah, você mudou a minha vida, escutei 'Ovelha Negra' e resolvi sair da casa do meu pai, por sua causa eu casei, separei...' Fico pensando: será que conto a verdade? Que não sou quem elas pensam que sou, que não tenho a segurança da Rita Lee, que mal sei o que fazer da minha vida e não sirvo pra guiar a de ninguém? Mas acabo nunca falo nada disso.

21h45
Pouca coisa acontece no camarim entre o final da maquiagem e a entrada em cena. Beto entra algumas vezes e puxa conversa. Fala de Ziza, 4, filha dele e neta dela, um dos temas prediletos da família. Sai em seguida. Vavá volta ao camarim e a ajuda a vesti-la de Rita Lee. Está pronta, com uma hora de antecedência. A espera pré-show costuma ser menos cansativa quando a novela das 21h é boa. Mas ela não está achando a menor graça na trama que está no ar agora, "uma chatice". "Até Lilia Cabral está canastrona, como isso é possível?". Mas a TV fica ligada com o volume bem baixo, quase no mudo, e ela dá umas olhadas enquanto não chega a hora. Fuma um cigarro atrás do outro.

22h19
Dez minutos antes de ir para as coxias, chama toda a banda para a "concentração" no camarim. Acende uma vela branca e todos se abraçam. É o único ritual que têm nessas ocasiões. Os músicos saem em direção ao palco, posicionam-se e atacam os primeiros acordes. As cortinas se abrem. O segurança a acompanha até seu ponto de entrada. Ela se senta ali atrás, fazendo caretas para alongar os músculos do rosto -método ensinado pelos professores de técnica vocal. Ainda tem tempo de tragar o cigarro algumas vezes antes que ela o entregue na mão do segurança.

Entra em cena aos pulos. "Um belo dia resolvi mudar/ Fazer de tudo o que eu queria fazer/ Me libertei daquela vida vulgar/ Que eu levava estando junto a você..." O povo delira com a entrada de uma, enquanto a outra, aliviada, volta sozinha ao camarim e retoma o capítulo da novela.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Confessionário: Matheus Nachtergaele

Por Armando Antenore, da Revista Bravo


NEM ''AMARCORD'', nem Casablanca. O filme mais bonito que já viu não tinha nome. Uns parentes insistiram em exibi-lo. O curta-metragem caseiro, antiqüíssimo, retratava uma reunião de família, absolutamente trivial. Em meio à banalidade, uma menina de 12 ou 13 anos se destacava, miúda e tão morena que, às vezes, parecia negra. "Sabe como se chama aquela pretinha?", perguntaram. "Não, não sei." Chamava-se Maria Cecília. Era a mãe de Matheus.
A garota corria, pulava, sorria. Um assombro indescritível para o filho crescido que quase não conheceu a mãe. Ele estava com míseros três meses quando Maria Cecília morreu. Agora, num lance de mágica, podia observá-la em movimento, elétrica e brincalhona. Uma criança linda que, dizem, virou uma mulher igualmente linda, idêntica à que Matheus sempre imaginou.

QUEM MAL conheceu a mãe precisa inventá-la. A mãe que ele inventou não esbanjava só beleza. Também se mostrava muito corajosa e covarde demais. Covarde porque o deixou, corajosa porque ousou desafiar os deuses e proclamar: "Para mim, chega!". Maria Cecília, a construída e a real, se suicidou.

DE ASCENDÊNCIA belga, herdou dos antepassados paterno o sobrenome flamengo. "Nachtergaele, Nachtergaele...", costumava repetir o tio Kiko diante dos sobrinhos. "Lembra uma palavra judaica, não? Talvez tenhamos sangue judeu." Matheus e os primos, todos moleques, se enchiam de curiosidade: será? Para tirar a dúvida, ocultavam-se nas imediações do banheiro e tentavam espiar o avô urinando. Um dia, conseguiram surpreendê-lo. Não havia nada de judeu ali.
Mais ou menos na mesma época, Matheus odiava que o tratassem assim. "Assim como?", indagava o pai, engenheiro. "Por Matheus!'', respondia, e depois arrematava, sério: "O que deu em você para me batizar de Matheus se existe Rodrigo?". Hoje se apaziguou com o nome, que julgava demasiadamente adulto.

CONTINUA, no entanto, detestando cafunés e afagos do gênero. Acontece que, em razão de medir apenas 1m64, freqüentemente lhe acariciam a cabeça. A gentileza dos desavisados o desnorteia. Derruba-lhe a  pressão, e uma inexplicável tontura o assalta de imediato.
Há cinco anos, em companhia do cantor Seu Jorge, tomava uns goles no Boteco Taco, lendário pé-sujo do Rio de Janeiro. Às tantas, um fã se aproximou e, sem nenhuma cerimônia, ultrapassou a delicada fronteira corporal. O cantor, solidário com o mal súbito do amigo, se queimou. Escorraçou o fulano e ainda o alertou: "Nunca mais bote a mão no cocoruto de um filho de Oxalá".

MATHEUS, de fato, supõe que o santo o ilumina. Certa vez, lhe contaram que, se ninguém quer uma criança, Oxalá a acolhe. Ele acreditou.
Acredita também que Hamlet, Dom Quixote, Jó e outros ícones da literatura e do teatro existem de verdade. Como os orixás, passeiam por aí, à espera de um "cavalo'' que os aceite e incorpore.
João Grilo, por exemplo. Os acadêmicos afirmam e reafirmam que o protagonista ardiloso de O Auto da Compadecida deu as caras em 1955, quando Ariano Suassuna redigiu a peça. Matheus, que encarnou o personagem no cinema, pensa diferente. Acha que Grilo já perambulava pelo mundo bem antes de Suassuna sonhar em viver.

O MUNDO, aliás, não está completamente perdido. O que ocorre é o seguinte: a Terra anda à deriva apenas porque Deus se ocupa demais em fazer os aviões funcionarem. Ou alguém presume que boeings e assemelhadosse mantenham no céu sem ajuda divina? Para Matheus, poucos fantasmas se revelam piores do que viagens aéreas. O terror só não o afasta definitivamente dos aeroportos graças à benevolência de Deus, que descuidou de todo o resto em nome da segurança nos vôos.
O céu com letra minúscula, dos aviões, impõe-se como uma realidade inescapável. O outro, com letra maiúscula, dos cristãos, talvez não se concretize no post mortem. Quem sabe se materialize dentro do invólucro uterino. Matheus carrega a remota desconfiança de que o Paraíso é antes, não depois.

A IDÉIA de suicídio, claro, o aterroriza e fascina desde sempre. Mas ele nunca cogitou abortar o próprio caminho. Prefere o suicídio vagaroso.
Fuma dois maços de Marlboro por dia e foge de exercícios físicos. Caso não fique de olho, bebe mais do que deveria. Suspeita-se um alcoólatra em potencial. "Viver acaba nos fazendo morrer", ouviu do ator Paulo José. Considera a frase irretocável.

VAI COMPLETAR 39 anos e ainda alimenta a possibilidade de se tornar biólogo. Lê muito sobre o assunto. A biologia é sua verdadeira religião e Charles Darwin, o seu pastor.
Só entra em cena após entoar baixinho O Compositor me Disse, de Gilberto Gil: "O compositor me disse que eu cantasse ligado no vento/ Sem ligar/ Pras coisas que ele quis dizer/ Que eu não pensasse em mim nem em você/ Que eu cantasse distraidamente como bate o coração".
Por influência dos avós belgas, aprendeu o francês antes do português. A primeira palavra que balbuciou foi guarda-chuva (parapluie). Não se atreve a apontar o motivo. Mas cultiva uns palpites: guarda-chuvas protegem, especialmente àqueles que, como ele, nasceram em São Paulo, a capital das tempestades. Vai ver é isso; vai ver a primeira palavra que desejou falar tenha sido proteção.