quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Lévi-Strauss - Grande escritor na arte da retórica

Por Perry Anderson, da Revista Piauí 

O antropólogo mais famoso do século XX poderia intimidar qualquer candidato a biógrafo. Claude Lévi-Strauss, que morreu há dois anos, negava que sua pessoa tivesse qualquer interesse. Dizia que lembrava pouco de seu passado e tinha a sensação de que não havia escrito os próprios livros. Segundo suas palavras, ele era apenas uma “encruzilhada passiva” onde “coisas aconteciam”: “Eu nunca tive, e ainda não tenho, a percepção de sentir minha identidade pessoal. Eu me vejo como o lugar onde alguma coisa está acontecendo, mas não existe um ‘eu’.”

Essas afirmativas tampouco eram meras confissões pessoais. Seu sistema intelectual baseava-se numa rejeição radical da significação do sujeito e até mesmo de sua realidade. Essa dupla barreira seria obstáculo suficiente para uma biografia. Mas há outro obstáculo, ainda mais difícil: paradoxalmente, Lévi-Strauss é também autor de um livro de memórias, Tristes Trópicos, uma obra-prima literária incontestável, na qual ele definiu as experiências que considerava decisivas de sua vida. Quem poderia fazer melhor? Com certeza, nenhum cronista convencional. Na cultura francesa, onde há muito tempo a arte da biografia é notoriamente fraca, a única tentativa de traçar um retrato de corpo inteiro do antropólogo, feita por Denis Bertholet em 2003, é testemunho suficiente dessa deficiência.

Patrick Wilcken desafiou todas as dificuldades. A obra "Claude Lévi-Strauss: O Poeta no Laboratório" é ao mesmo tempo uma biografia e um estudo crítico do pensador do mais alto nível. Gracioso e vívido como narrativa, é também um modelo de apreciação intelectual. Livre tanto do impulso reverencial como da tentação de desmascarar, Wilcken produziu um relato maravilhosamente tranquilo e lúcido da vida e do pensamento de seu biografado.

A história que ele conta pode ser dividida em cinco partes. Nascido em 1908, filho de um pintor – que logo ficou démodé– e apreciador de música, Lévi-Strauss foi um socialista militante em sua juventude. Atraído pelas artes, formou-se em filosofia numa época de fermento vanguardista e ausência de fronteiras disciplinares rígidas. Seu primeiro artigo publicado foi sobre Babeuf, o precursor do comunismo, e sua dissertação, sobre o marxismo. Aos 26 anos, era professor de um liceu provincial quando lhe ofereceram subitamente a oportunidade de se juntar a um pequeno grupo de estudiosos franceses, do qual fazia parte Fernand Braudel, que iria dar aulas na recém-fundada Universidade de São Paulo. O patrono deste convite foi seu ex-orientador, o sociólogo Célestin Bouglé, colaborador de Émile Durkheim, e a matéria que escolheu para lecionar em São Paulo foi sociologia.

Mais tarde, ele iniciaria Tristes Trópicos, com as célebres palavras: “Odeio as viagens e os exploradores.” Mas isso era pura provocação. Entediado e inquieto na França, como muitos intelectuais de sua geração (André Malraux e Paul Nizan já tinham feito seus nomes com façanhas no exterior), Lévi-Strauss confessou honestamente em entrevista a Didier Eribon: “Eu estava em um estado de excitação intelectual intensa. Sentia-me revivendo as aventuras dos primeiros viajantes do século XVI. Por minha conta, descobria o Novo Mundo. Tudo me parecia fabuloso: as paisagens, os animais, as plantas.”

Nesse ponto, Wilcken, autor de um belo estudo sobre a corte portuguesa no Rio de Janeiro, tem a enorme vantagem de ter um conhecimento profundo do país em que Lévi-Strauss desembarcou. Pela primeira vez, a experiência que o transformou em antropólogo é contextualizada de forma mais adequada. Na França, a sociologia de Durkheim, e depois a de Mauss, tratava indiferentemente de sociedades modernas e “primitivas” – isto é, pré-letradas –, de um modo que o trabalho de mentalidade mais histórica de Weber ou Sombart na Alemanha não se permitia. A etnologia era mais um campo frouxo da sociologia do que uma disciplina distinta. Desse modo, o estudo de tribos locais era, em certo sentido, o caminho óbvio para Lévi-Strauss, se ele quisesse capitalizar seu tempo no Brasil para avançar sua carreira na França. Também se sentia atraídopelas artes – não demorou para que ele e sua esposa passassem a frequentar a roda em torno de Mário de Andrade, poeta líder do Brasil modernista, de quem o casal se tornou amigo – e alimentava ambições políticas – embora indiferentes à cena local, onde um levante comunista explodiu após sua chegada e uma ditadura modelada nos regimes de Salazar e Mussolini se instalou não muito tempo depois. Em 1936, quando a Frente Popular chegou ao poder na França, ele ficou decepcionado por não ser chamado pelo Ministério socialista. Foi então que decidiu abandonar a ideia de uma carreira política. A exploração etnográfica do interior do Brasil tornou-se a alternativa.

Vinte anos mais tarde, com a publicação de Tristes Trópicos, as incursões aos kadiwéu, bororo e nambikwara se tornaram lendárias. A reconstrução meticulosa que Wilcken faz dessas incursões, objetiva mas nunca insensível, mostra a realidade. Pelos padrões contemporâneos, foram visitas breves, itinerantes, que envolveram tanto um trabalho de conjectura quanto de pesquisa de campo, num sentido moderno. Pouco familiarizado com o português, Lévi-Strauss não conhecia nenhuma língua indígena e não passou muito tempo com qualquer dos grupos nativos que encontrou. Tampouco sua expedição principal, em 1938, teve alguma semelhança com a peregrinação solitária implicitamente sugerida por seu livro de memórias. Nas palavras de Wilcken:

Quando o grupo e os equipamentos foram finalmente reunidos em campos dos arredores de Cuiabá, os animais de carga, as caixas, os sacos e as selas, os homens barbudos de calções folgados de algodão e botas de couro pareciam mais uma feira ambulante de interior do que uma expedição científica. Nas páginas de Tristes Trópicos, esse grande elenco de apoio muitas vezes desaparece no fundo da cena. Na realidade, a expedição da serra do Norte estava tão longe do padrão etnográfico de Malinowski – o solitário do início do século xx que aprendia meticulosamente a língua local e mergulhava em sua cultura – quanto possível. Em contraste com a jornada conradiana aos extremos da humanidade, na maior parte do tempo, o séquito de Lévi-Strauss era mais numeroso do que os nativos que ele tentava estudar.

Mas o tom de Wilcken não é reprovador. Quaisquer que sejam suas falhas, a expedição não foi somente complicada e perigosa, mas produtiva, fornecendo a Lévi-Strauss uma quantidade de hipóteses imaginativas que lhe seriam muito úteis quando chegou ao seu verdadeiro campo de pesquisa, milhares de quilômetros longe dos arbustos ou da selva.

De volta à França na primavera de 1939, com 30 anos recém-completados e o cérebro ainda ocupado com o que tinha visto, estava tão despolitizado que não percebeu a iminência da guerra na Europa, nem se deu conta das realidades da vitória nazista e do governo colaboracionista de Vichy: em 1940, tentou – e felizmente não conseguiu – voltar para a Paris ocupada como professor, quando os judeus já estavam em risco. Demitido pelo regime de Pétain, teve o visto de regresso ao Brasil negado, mas conseguiu um convite da New School for Social Research de Nova York, e (ajudado pelas conexões de uma tia rica nos Estados Unidos) partiu de Marselha em um navio onde estavam, entre outros refugiados, André Breton e Victor Serge, aventura retratada em um dos episódios mais saborosos de Tristes Trópicos. Ao chegar finalmente a Nova York, Manhattan foi, nas palavras de Wilcken, mais do que o Mato Grosso, “seu verdadeiro choque cultural”.

Ali, em meio a uma comunidade de expatriados franceses bem maior do que a de São Paulo, ele se incorporou ao ambiente vanguardista dos surrealistas – Max Ernst, Yves Tanguy, André Masson, Roberto Matta, para não falar do próprio Breton – para os quais a antropologia e a psicanálise eram as chaves para as fontes inconscientes da existência. Ele havia pintado quando menino; no Brasil, começara a escrever uma peça no espírito de Corneille; na França, iniciara um romance no estilo de Conrad. Em Nova York, desistiu dessas ambições, mas aprendeu a investir a sensibilidade que estava por trás delas (agora moduladas pelo novo cenário: “Os surrealistas enriqueceram e refinaram meu gosto estético”) em formas que seriam discursivas, em vez de criativas.

A mudança decisiva, no entanto, veio de duas outras direções: o encontro com a riqueza empírica da etnologia americana, em grande parte reunida por Franz Boas, que ainda estava vivo em Nova York, e as perspectivas teóricas do círculo linguístico de Praga, trazidas para a América por Roman Jakobson, que se tornou seu amigo íntimo. Nada disso era conhecido na França. Enquanto dominava a primeira na Biblioteca Pública de Nova York, Lévi-Strauss absorvia a segunda, que passou a ser a estrutura fundamental de seu pensamento a partir de então.

Cerca de sete anos mais tarde – era então adido cultural francês, instalado numa mansão da Quinta Avenida – sua fusão das duas rendeu As Estruturas Elementares do Parentesco, publicado logo após seu retorno a Paris, em 1948. Nesse enorme compêndio, que procurava sistematizar em um conjunto de padrões inter-relacionados uma vasta gama de sistemas de matrimônio do mundo pré-letrado conhecido, ele sustentava que o tabu do incesto era um universal antropológico que marcava a ruptura entre a natureza e a cultura que tornava possível a sociedade humana. Embora nem todos os achados sobre os quais o livro se baseava fossem corretos, e nem todas as suas interpretações fossem sempre confiáveis, nada como as Estruturas Elementares havia sido tentado antes. Nas palavras de Wilcken: “Sua originalidade, a firmeza de suas afirmações, o senso de uma reorientação teórica há muito tempo necessária fizeram dele um ponto de referência de seu tempo.”

A maior parte dessa obra talvez fosse impenetravelmente técnica, mas sua tese central era de fácil compreensão, por incrível que pareça. Demoraria algumas décadas para que sua premissa básica se mostrasse errada: historicamente, não houve proibição universal do incesto e algumas sociedades, como a Pérsia e os Egito antigos, até mesmo o fruíam.

Quando Estruturas Elementares foi publicado, Lévi-Strauss ainda era, do ponto de vista acadêmico, um estranho na França. O livro ganhou fortuna pública graças a uma resenha brilhante feita em Les Temps Modernes por Simone de Beauvoir, outrora colega de Lévi-Strauss, que havia consultado o manuscrito ao escrever O Segundo Sexo. Sua aceitação acadêmica foi mais lenta. Tendo sido rejeitado duas vezes pelo Collège de France, Lévi-Strauss mudou seu foco do parentesco para os mitos e, em 1952, publicou seu primeiro ensaio voltado diretamente para um público mais amplo, Raça e História. Nele, esvaziava a pretensão ocidental de superioridade cognitiva sobre as sociedades pré-letradas; a chegada da indústria e da ciência modernas era resultado de combinações aleatórias na mesa de roleta do tempo, em vez de consequência de alguma dinâmica interna histórica.

Três anos depois, veio a revelação de seu excepcional talento literário, com os soturnos fogos de artifício de Tristes Trópicos– uma meditação filosófica tanto quanto, ou mais do que, um livro de memórias antropológicas. Sob o signo de Lucrécio e Rousseau, em vez de Durkheim, ele mostrava seu período no Brasil como uma destruição implacável de ilusões românticas, mas que era também um rito de passagem fabuloso para verdades sobre a humanidade e seu lugar no universo, reprimida pela húbris metropolitana. De sua segunda e mais significativa formação como etnólogo, em Nova York, ele não dizia nada. Para o método, reconhecia três “amantes”: Marx, Freud e a geologia, cada um explorando estratos escondidos sob a superfície da realidade. Em 1955, tratava-se de um credo que não diminuía o charme de seu livro. Por unanimidade, e compreensivelmente, Tristes Trópicos foi saudado como um clássico das letras francesas.

Naquela época, impressiona como eram íntimos os laços – por mais paradoxal que possa parecer, tendo em vista o antagonismo entre o estruturalismo e o existencialismo – que ligavam Lévi-Strauss à usina da cultura de esquerda liderada por Sartre. Não foi somente Simone de Beauvoir que se esforçou para pôr Estruturas Elementares no mapa. O Les Temps Modernes publicou um capítulo prévio de Tristes Trópicos, assim como textos posteriores bem conhecidos, como “A gesta de Asdiwal”.

A entrada de Lévi-Strauss no Collège de France, dez anos após sua primeira tentativa, foi orquestrada por Merleau-Ponty. A sensibilidade de Lévi-Strauss para perceber de onde sopravam os ventos desempenhou sem dúvida um papel nisso. Mas era também uma configuração intelectual não rara da Quarta República, marcada por alianças muitas vezes imprevisíveis e debates calorosos, que cairiam abruptamente em declínio com a instauração da Quinta República e a ascensão de De Gaulle ao poder.

Com essa mudança de regime, nasceu o estruturalismo propriamente dito. Em 1958, Lévi-Strauss publicou seu manifesto, na coletânea de ensaios intitulada Antropologia Estrutural. “Durante séculos as humanidades e as ciências sociais se resignaram a contemplar o mundo das ciências naturais e exatas como uma espécie de paraíso onde nunca entrariam”, ele declarou, mas “de repente, há uma pequena porta que se abre entre os dois campos, e é a linguística que fez isso”. Não apenas mitos ou lendas populares, mas, em princípio, qualquer fenômeno do mundo social ou cultural poderia ser mapeado e decodificado com o rigor dos fonemas. Desde Comte, o pensamento francês sempre teve uma vertente significativa de cientificismo. Ao anunciar uma antropologia equipada com a autoridade da linguística, Lévi-Strauss tentava torná-la dominante.

Por um tempo, ele fez isso com considerável sucesso, enquanto espíritos empreendedores se esforçavam para emular ou estender seu programa a uma ampla gama de áreas do conhecimento, enquanto ele consolidava sua hegemonia a partir de seu posto de comando no ápice da erudição francesa. Em uma performance de virtuose, O Pensamento Selvagem (1962) pretendia mostrar, simultaneamente, o estruturalismo inato dos sistemas classificatórios das sociedades pré-letradas e a futilidade das pretensões do marxismo – para não falar do existencialismo –, na pessoa de Sartre. Tratava-se, no entanto, de um edifício teórico que repousava sobre um alicerce frágil: a noção de que a linguagem oferecia uma analogia para o estudo de qualquer outro campo da vida social. O próprio Saussure, criador da linguística estrutural, havia expressamente advertido contra essa ilusão. Assim como a genética de hoje gerou esperançosos aplicadores da teoria da evolução a todos os campos imagináveis ​​das humanidades e ciências sociais, independentemente da falta de qualquer outra conexão entre elas que não seja metafórica, do mesmo modo, há meio século, a linguística cativou uma ampla gama de entusiastas que viram nela o “abre-te, sésamo” para a compreensão do mundo.

A contribuição do próprio Lévi-Strauss para essa expansão foi Mitológicas (1964-71), sua monumental tetralogia sobre os sistemas de mitos nas Américas: cerca de 2 mil páginas que supostamente põem a nu as propriedades universais da mente humana, idênticas nos mitos e seus analistas, desdobradas por ele em uma composição científica, melódica e autorreferente como a música.

No final dos anos 70, a onda estruturalista havia refluído e, por fim, Lévi-Strauss recuou das extravagâncias que havia ajudado a lançar, observando – quinze anos depois de O Pensamento Selvagem– queo estruturalismo não era mais que uma “imitação muito fraca e pálida do que as ciências duras estão fazendo”. E afirmou que havia simplesmente tentado encontrar algum tipo de ordem por trás da aparente desordem de seus materiais, sem impor quaisquer conclusões a eles.

Mais proeminente do que a retração teórica, talvez apenas tática, foi seu retrocesso político e cultural. Na velhice, o outrora simpatizante do socialismo e do surrealismo tornou-se cada vez mais conservador – um dos pilares da Académie Française, inimigo da arte moderna, eleitor moderado, admirador de Gobineau. Ainda assim, eram preferências de fundo, nas quais Lévi-Strauss não insistia muito. A estrela subsequente do estruturalismo inverteu essa trajetória, mas sem efeito intelectual melhor: Michel Foucault passou quase sem intervalo de uma “nova filosofia” bem-vista no Palácio do Eliseu [sede da Presidência da República] a uma “justiça popular” pregada pela Gauche Prolétarienne. Lévi-Strauss certamente sabia como promover a divulgação de suas ideias e defender seus próprios interesses, mas fazia isso dentro dos limites de certa reserva tradicional e dignidade antiquada. As piruetas do jovem exibicionista e sua sede de publicidade eram estranhas a ele. Consciente de como eram arbitrárias as arqueologias de Foucault, ele negou qualquer apoio institucional ao seu admirador.

O veredicto final do delicado e comovente livro de Patrick Wilcken é impecável. “Em um mundo de áreas do conhecimento cada vez mais especializadas, talvez não venha nunca mais a existir um corpo de trabalho de alcance e ambição tão estimulantes”; mas embora “as ideias de Lévi-Strauss tivessem grande amplitude e abrangência”, elas estavam em última análise instaladas em um “espaço intelectualmente claustrofóbico” – um “empreendimento de um único homem que se tornou tão absolutamente idiossincrático que era impossível se basear nele”. Como sistema, “o estruturalismo implicava profundidade, mas com seu jogo de signos sem referência, muitas vezes se parecia com derrapagem sobre vidro polido”. No entanto, “o que dava vida à produção de Lévi-Strauss, e introduzia o lirismo que confundiu seus críticos anglo-saxônicos, era um profundo interesse pela expressão e apreciação estética que corria em paralelocom o lado cognitivo de seu trabalho”. O antropólogo se via como um artista manqué. Mas Lévi-Strauss não era apenas um grande colecionador e tecelão de narrativas – “os mitos são objetos muito lindos”, observou ele, “e nunca nos cansamos de contemplá-los, manipulá-los”. O segundo verbo fala por si mesmo. Ele foi também um grande escritor na arte, longe de ser menor, da retórica. 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Gal Costa - A Voz e o Computador

Por Pedro Alexandre Sanches, da Revista Bravo
Crédito da Foto: Gabriel Rinaldi

Até 2011, o mais célebre duelo com a tecnologia protagonizado por Gal Costa se chamava Meu Nome É Gal. A canção, de Roberto e Erasmo Carlos, está gravada na última faixa de seu disco de 1979, Gal Tropical. Então com 34 anos, ela usava a composição para esgrimir a própria voz com os acordes da guitarra de Robertinho de Recife, a garganta humana desafiando e superando os sons agudos produzidos pelo instrumento. Hoje com 66 anos, a cantora baiana atualiza a batalha de Meu Nome É Gal em seu novo trabalho, Recanto, um álbum todo tomado pelo confronto entre mulher e computador. Onde a guitarra elétrica esteve um dia, agora se encontram softwares como o Auto-Tune (um programa afinador de vozes e instrumentos), sintetizadores e baterias eletrônicas. Das 11 faixas que integram o CD, apenas uma não se utiliza desses recursos.
Mas a mais poderosa das máquinas com que Gal digladia é um homem: Caetano Veloso. Principal porta-voz do compositor conterrâneo desde as primeiras gravações, em 1965, ela havia registrado até aqui mais de oito dezenas de canções do amigo. Recanto expande a parceria: é o primeiro álbum de Gal formado exclusivamente por criações inéditas de Caetano. Aos 69 anos, o músico também atua como diretor artístico e produtor do projeto, dividindo a segunda função com seu filho mais velho, Moreno Veloso. Só havia ocupado tais posições num disco anterior de Gal, em 1974, o hippie e idílico Cantar.
De sonoridade bastante contemporânea, Recanto conduz a intérprete a um ambiente parecido com o que Caetano construiu em seus dois discos solo de estúdio mais recentes, Cê (2006) e Zii e Zie – Transambas (2009), invadidos por músicos da geração de seus filhos. Entre os jovens alquimistas que acompanham e modernizam a voz da “Vaca Profana” (como Caetano a nomeou em 1984), estão Moreno e Zeca Veloso (outro filho do baiano), Kassin, Pedro Sá, Davi Moraes (filho do cantor Moraes Moreira) e Donatinho (filho do pianista João Donato). Na seção “velha guarda”, bem mais discreta do que a outra, figuram instrumentistas de gerações anteriores, como Jaques Morelenbaum, ao violoncelo.
Quatro décadas e meia atrás, a guerra entre as violas enluaradas e as guitarras envenenadas marcou a geração heroica da MPB universitária. Ao se centrar no embate voz-computador, Recanto alude àquele período. Mas os tempos de 1967 estão mortos, e o novo confronto evoca mais uma proposta de pacto do que uma declaração de guerra. Por isso, talvez seja mais preciso falarmos em diálogo, e não em duelo, batalha, embate ou confronto.
A faixa Autotune Autoerótico é a que melhor traduz o espírito do disco. Gal a inicia forçando a voz, de modo a lembrar uma matrona do Recôncavo Baiano. A garganta experimenta andar na corda bamba entre a afinação e a desafinação e termina reprocessada pelo Auto-Tune, num efeito robótico que a veterana cantora norte-americana Cher inaugurou em 1998, no álbum bem mais deslavadamente pop Believe. “Não, o Autotune não basta pra fazer o canto andar/ pelos caminhos que levam à grande beleza”, avisa Gal, de maneira espertamente contraditória. Por um lado, desanca o afinador de voz. Por outro, faz uso dele para obter efeitos que não alcançaria naturalmente.
Há, no entanto, muitos outros núcleos de tensão criativa em Recanto, e dois dos maiores são Miami Maculelê e Neguinho. O primeiro obriga Gal a brincar com os sons eletrônicos e extremamente pop do funk carioca e dos fliperamas, enquanto a voz faz malabarismos com as sílabas de “são Dimas, Robin Hood e o anjo 45/ todos dançando comigo”. As citações conectam o Jorge Ben de 1969 (“Charles, anjo 45/ protetor dos fracos e dos oprimidos/ Robin Hood dos morros, rei da malandragem”) com os Racionais MC’s de 2002 (“aos 45 do segundo, arrependido/ é Dimas, o bandido/ primeiro vida loka da história”). O compositor baiano segue Mano Brown e equipara são Dimas, “o bom ladrão” do imaginário cristão, aos meninos das favelas brasileiras, enquanto prega a reconciliação entre o hip-hop paulistano e o funk carioca.
Neguinho é provavelmente o maior pulo do gato de Caetano no novo disco. A princípio, os versos parecem se referir a alguém que não é nem o compositor, nem a cantora, nem o público supostamente refinado que costuma acompanhá-los – uma referência muitas vezes crítica: “Neguinho compra três TVs de plasma, um carro GPS e acha que é feliz/ (...) neguinho vai pra Europa, States, Disney e volta cheio de si/ neguinho cata lixo no Jardim Gramacho”. Ao final, esclarece-se o enigma (“neguinho que eu falo é nós”) e a crítica vira autocrítica.
Outro ponto que aguça a reflexão em Recanto diz respeito tanto ao autor quanto a Gal (ou a qualquer um que os ouve). No disco Cê, Caetano despistava as dores de envelhecer com afirmações de potência sexual. Desta vez, porém, tais dores aparecem explícitas. “Tudo dói”, frase repetida inúmeras vezes pela cantora na faixa de mesmo nome, é exemplo que soaria quase engraçado, não fosse o tom soturno da gravação e os versos amaros: “Viver é um desastre que sucede a alguns”.

Tristeza Profunda
Se em 2005 a intérprete gravara uma composição de Caetano denominada Luto, hoje a canção Madre Deus vai mais longe. Mira a morte de frente, sem meios-tons, sob melodia monótona revestida de ruídos ríspidos, desagradáveis: “Meu corpo todo desmede-se/ despede-se de si”, “frente ao infindo/ costas contra o planeta/ já sou a seta sem direção/ instintos e sentidos extintos/ mas sei-me indo”.
Os temas de morte e envelhecimento são os mais nítidos, mas não os únicos a afirmar que a tristeza é um dos (muitos) legados tropicalistas – não estamos mais nos anos 1990, quando músicas como A Luz de Tieta (1996) diluíam a melancolia em profissão de fé na alegria feroz da axé music. Nessa linha, Recanto Escuro constitui outro dos núcleos nervosos do CD. A voz potente de Gal e a linda e grave melodia são perturbadas o tempo todo por interferências de rádio, ou agulhas raspando no vinil, ou coisa que o valha. “Eu venho de um recanto escuro”, “o álcool me faz chorar”, “só Deus sabe o duro que eu dei”, assume a voz sofrida da cantora.
“Tristeza profunda” é um termo que surge explícito em Segunda, a faixa de encerramento. É o único recanto totalmente orgânico, analógico de Recanto, com Moreno Veloso solando no violão, no violoncelo, no prato e na faca, num arranjo sertanejo-urbano, profundamente nordestino. A letra adota perspectiva proletária, de um(a) protagonista egresso(a) do processo de ascensão das classes C e D no Brasil. “Não vejo o nascer do dia/ mas pela Virgem Maria/ tenho dinheiro e patrão”, “eu mesmo sou mei galego/ o meu chefe no emprego/ é que é mulato pra negro:/ só ecos da escravidão”, “mas agora a minha sala/ tem geladeira de gala/ à dele quase se iguala/ muda o mundo em barafunda”.
Neguinho pode padecer de tristeza profunda, mas também luta bravamente para compreender a sociedade em que vive e para se transformar, como já fazia antes mesmo de se inventar tropicalista. Neguinho é Gal, é Caetano, é nós.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A querela psicanalítica do consumo

Por Christian Dunker, da Revista Cult

A ideia de consumo conspícuo foi introduzida por Veblen em 1899 para designar a atitude da classe média norte-americana interessada em adquirir produtos e bens com a função de assinalar sua posição social como classe “emergente”. O consumo conspícuo é um tipo de patologia do reconhecimento. O processo de escolha soa vulgar, a decisão de compra figura imprópria, a performance de uso é inautêntica, e o conjunto cai como “mostração”. Essa demanda de diferenciação realiza um esforço de ajustamento e o legítimo desejo de ser reconhecido como “alguém”. Ela é um apelo ético para suspender a indiferença ressentida que nos transforma em apenas “mais um indivíduo”. Uma aspiração estética genuína a sermos reconhecidos como “únicos” em nossa relação de consumo singular.
O que fazer quando o lugar de onde viemos não combina mais com a posição na qual nos encontramos? Esse é o elemento histórico decisivo na mudança do papel social da cultura na modernidade. Quando pessoas sem origem precisam tomar posição em meio a outras percebidas como donas do lugar, a cultura torna-se signo de ascensão social e terreno real da luta por reconhecimento. Começa a tensão entre cultura popular e erudita. Instala-se a querela do luxo, na qual o consumo é percebido como um mal necessário. A parábola da colmeia (Mandeville, 1714) estabelece a relação liberal canônica entre vícios privados e benefícios públicos. A falsa escolha forçada entre o consumo progressivo de bens inúteis e o entrevamento regressivo em uma cultura de subsistência.
Pelo consumo, três exigências se expressam: autenticidade, autonomia e não dependência. Daí que ele envolva três “soluções típicas” atinentes à forma como nos desligamos de um lugar de origem (não dependência), subjetivamos um complexo de desejos (autonomia) e destinamos o resíduo que acompanha a operação de consumo (autenticidade). Lacan argumentou que a psicanálise precisa fazer a crítica desses três ideais modernos: autonomia, independência e amor concluído (autenticidade). Mas ele pensava o problema do ponto de vista da produção e da autoridade simbólica necessária para sustentar as inversões entre desejo de reconhecimento, reconhecimento de desejo, assim como o destino do que sobra. Quando passamos da produção para o consumo, o terceiro termo ganha primazia. Na querela psicanalítica sobre o luxo, há os que consideram o consumo expressão maior de nossa orientação liberal subjetiva (autonomia), os que resistem de forma romântica a reduzir nossa liberdade a opções de compra (não dependência) e os que acreditam na mutação do supereu como expressão maior do empuxo ao consumo (inautenticidade).
À luz das querelas
Às vezes, o sentido das querelas é iluminar a posição do problema, mais do que decidir os termos de sua solução. Argumento que a controvérsia do consumo admite de uma falsa unidade de seu objeto. Por exemplo, o consumo conspícuo é uma marca dos que preferem “queimar pontes”, deixar as origens para trás, criando uma fuga para a frente como experiência compulsoriamente definida pela necessidade de inventar novos começos. O temor ao passado denuncia a iminente tragédia ou farsa. A coleção de signos funciona como certidão de acesso e antídoto contra a vergonha das origens – como se vê na trajetória de Kurt Cobain, que, apesar da carreira de sucesso, ressentia-se com a solidão.
Mas há o consumo que funciona para reforçar ou comemorar o reconhecimento da origem, impondo-a como decoração obrigatória da nova morada. Atormentados pela ideia de que o triunfo se tornará fracasso, encontram na solidez e permanência do lugar de onde vieram um antídoto para o sentimento de vazio. É o caso de muitos pais demasiadamente protetores, em seu esforço para recriar uma realidade artificial exclusiva para o “consumo interno”, tal qual se viu no caso de Michael Jackson.
Finalmente, há os que tomam como centro de gravidade narcísica o resíduo. Identificam-se com a própria contradição que define seu estilo errante e desprendido. Sem passado nem futuro, desdenham tanto dos ideais de progressivo ajustamento quanto das aspirações de inovação regressiva. São os autênticos que duplicam sua satisfação no consumo pela inveja que inspiram ou imaginam no outro. Consumo conspícuo, críptico e autêntico são modalidades do que Lacan chamou de semblante. Se os primeiros partilham das aparências e os segundos apegam-se à essência das imagens, os autênticos são os que entenderam o verdadeiro conceito de atitude, ou seja, de que a essência da relação de consumo é tomar a aparência como aparência, de acordo com a lição trazida por Lady Gaga.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Do mosteiro ao picadeiro - Umberto Eco, 80, e sua mente plural

Por Francesca Angiolillo, da Ilustríssima


"Todas as perguntas possíveis já me foram feitas", diz Umberto Eco, após terminar o café,   afundado numa poltrona da sala de visitas de sua casa, em Milão. A cigarrilha apagada, hábito de ex-fumante, pende de um lado da boca. "Só não me perguntam, sei lá, quais são os sete anões. Eu responderia que, quando tento me lembrar, sempre são seis."
Ao fundo, atrás de sua calva, vê-se, de um lado, uma coleção de conchas do mar, escrupulosamente organizadas; de outro, em atris, livros ilustrados do fim do século 19. São alguns dos originais de onde saíram as ilustrações de seu mais recente romance, "O Cemitério de Praga". 
O "Cemitério" foi recebido como a volta de um mestre ao gênero que o consagrou (após um romance nostálgico e de fundo autobiográfico, "A Misteriosa Chama da Rainha Loana"): uma trama de mistério, com crimes sangrentos e um protagonista que chega a ser comovente em sua pusilanimidade.
A entrevista tem por mote o lançamento do livro no Brasil mas também os 80 anos do escritor, nascido em 5 de janeiro de 1932, na piemontesa Alessandria, cuja fama vem dele e dos chapéus Borsalino. Em várias fotos para a imprensa, ele ostenta, com elegância algo zombeteira, um modelo negro da marca.

ROMANCE
Eco, o romancista, nasceu em 1980, após sobrevir-lhe o desejo de envenenar um monge: assim o escritor define o motor inicial de seu "O Nome da Rosa", best-seller de cifras milionárias, levado ao cinema em 1986 por Jean-Jacques Annaud, com Sean Connery e Christian Slater.
Àquela altura, o nome do professor italiano era já conhecido: foram muitos ensaios e títulos de teoria, da poética do escritor irlandês James Joyce ("Sou joyciano, não proustiano", diz, e exibe uma estante forrada de primeiras edições de "Ulysses" em diferentes idiomas) a análises da comunicação de massa (seu primeiro emprego pós-doutoramento em filosofia, em 1954, foi como editor de cultura num dos canais da rede televisiva RAI).
O manual "Como se Faz uma Tese", de 1977, ainda hoje é referência em cursos de ciências humanas. Mas o currículo de Eco faz com que ele frequente as bibliografias de muitas disciplinas que não só as de metodologia.
Umberto Eco navegou nas principais ondas que atravessaram os estudos da linguagem na segunda metade do século 20, do estruturalismo à teoria da recepção e à narratologia, parando às margens do pós-estruturalismo; cobriu da filosofia às tirinhas do Snoopy.
Cunhou expressões que se tornaram muletas do discurso universitário: atire a primeira pedra quem nunca disse que toda obra é "uma obra aberta" ou aquele que não juntou numa frase, dita à mesa do bar, "apocalípticos" e "integrados".
Foi a ficção, porém, que levou seu nome aos píncaros da cultura de massa.
No Brasil, "O Nome da Rosa" saiu em 1984 pela Nova Fronteira. A diretora editorial da casa, Leila Name, qualifica o livro como "uma bomba de sucesso" cujo efeito se multiplicou com o filme. Pelos registros da Nova Fronteira, a primeira investida de Eco na ficção teve no Brasil mais de 45 reimpressões e vendas acima de 600 mil exemplares.
Hoje, sua obra ficcional está toda na Record, que também lança alguns de seus livros de ensaios, como "A História da Beleza" e "A História da Feiura", almanaques eruditos de popularização da história cultural. Somados, seus títulos na casa venderam cerca de 550 mil exemplares -91 mil deles de "O Cemitério de Praga".
Sergio Machado, presidente do Grupo Editorial Record, lembra a aquisição de "O Pêndulo de Foucault", segundo romance de Eco, em um leilão -"via fax, telex"- comandado por seu pai, Alfredo Machado nos idos de 1988. A quantia acertada pelos direitos do segundo romance de Eco era uma cifra "inédita", US$ 130 mil (cerca de US$ 237 mil, em números corrigidos, o equivalente a R$ 420 mil).
"Na época, US$ 20 mil eram um absurdo", situa Machado. O editor se esquiva de fornecer valores atuais, mas diz que a soma paga por um livro de Eco "não anda para trás" e "vem subindo de forma consistente".
Dali em diante, tudo o que Eco escreveu atingiu números superlativos -inclusive o que menos vendeu na Record, "A Misteriosa Chama da Rainha Loana", com "apenas" 48 mil exemplares. "Este foi um pelo qual a gente pagou mais do que devia", diz o editor. "As pessoas querem mais do mesmo."
Eco não discorda. "Todos falam que escrevo romances eruditos, difíceis", diz o escritor. "Quando escrevi um fácil, que todo mundo entende, 'A Misteriosa Chama da Rainha Loana', foi o que menos vendeu. Dá para ver que sou um autor para masoquistas."

DAN BROWN
Muitos intelectuais, porém, não engolem a combinação de sucesso comercial e erudição de Eco, tachando-o de uma espécie de Dan Brown mais cultivado. O raciocínio é um velho conhecido no Brasil, onde serve para desqualificar, por exemplo, os romances de Chico Buarque: se o autor vende bem e é pop, mau sinal -só pode ser um picareta.
"Ter Umberto Eco nas estantes da sala é, para muitos, inclusive os que jamais leram uma linha desses livros, uma questão de 'status cult'", diz a professora Lucia Santaella, da PUC-SP, colega em semiótica de Eco, a quem tece "críticas até mesmo bastante severas". Para ela, o italiano é uma espécie de grife, que "compõe bem a pose dos pseudointelectuais que brilham nas grandes praças dos lançamentos do 'big show business'".
Um de seus detratores contumazes na Itália, o romano Alfonso Berardinelli, estrela da crítica italiana atual, diz -citando Kafka- que Eco está no centro do mundo, onde se acumula toda a sua imundície, "a prodigiosa escória".
"Escrevi pelo menos quatro ou cinco artigos e ensaios contra Eco", rememora à Folha. "Não posso dizer nada de novo; Eco me aborrece faz tempo, e o que eu tinha a dizer já disse há 20 ou 30 anos. Fico maravilhado em ver como agrada", afirma o autor de "Da Poesia à Prosa" (Cosac Naify).
"Parece engraçado e brilhante, mas na realidade é um professor que não cessa de mesclar erudição e piadas com veia estudantil. E sem fazer rir. É quase uma ofensa à literatura italiana que ele seja seu autor mais notável."
Berardinelli diz ainda não conhecer nenhum escritor -"nem na Itália, nem fora"- que goste mesmo de Eco. "Sua fama é puramente comercial. É um fenômeno de circo, um autor que impressiona professores de escola."

PICADEIRO
No meio do picadeiro pós-lançamento, Eco segue imperturbável: profere pausadamente um discurso que soa familiar, pois volta e meia as palavras se repetem em manifestações públicas e entrevistas.
Pudera: a vida literária muitas vezes rivaliza com a de um roqueiro, com cansativas turnês de lançamentos ("Voltei dos EUA com o ombro arruinado, depois de autografar 3.000 livros", conta) e solicitações para opinar publicamente sobre todo e qualquer fato relevante (menos sobre os sete anões).
Seu apartamento é uma grande biblioteca -são 30 mil volumes; outros 20 mil, estima, estão em sua casa de campo-, mas nada de labirintos compartimentados, apesar de o edifício ser um antigo hotel. À entrada, mapas antigos recebem o visitante; a sala é luminosa e ordenada, com móveis discretos e claros; nas paredes, arte contemporânea; pela janela vê-se a torre do castelo Sforzesco, famoso marco turístico milanês.
A antiga residência dos duques de Milão remonta à Idade Média, período dileto de Eco, que se doutorou pela Universidade de Turim em 1954 com uma tese sobre a questão estética em São Tomás de Aquino. Mas da fortaleza que foi, após múltiplos ataques e sucessivas reconstruções, praticamente nada de original resta.
"Os turistas vêm aqui ver o castelo, onde é tudo falso, e não vão a Brera, onde tem Rafaello, o Cristo de Mantegna, Piero Della Francesca", lamenta o escritor.

FALSÁRIO
O falso e o verdadeiro são um tópico da obra de Eco. Simone Simonini, o protagonista de "O Cemitério de Praga", é um falsário. Ou melhor, "o" falsário: Eco atribuiu a ele os grandes crimes contra a verdade que marcariam a virada para o século 20 e, mais que todos, os apócrifos "Protocolos dos Sábios de Sião", conjunto de escritos antissemitas que teriam servido a Hitler para a fundamentação do nazismo.
"Havendo-me ocupado de problemas de linguagem e comunicação desde 1975, escrevi que o que caracteriza toda forma de signo e de linguagem humana é a possibilidade de mentir. Um cão não mente jamais. Quando late, é porque tem alguém lá fora: nunca aconteceu de um cão latir para que se pense que há alguém lá fora, sem que haja -o homem sim."
"O problema da mentira implica o problema da falsificação. Entre as falsificações mais trágicas, eis os 'Protocolos dos Sábios de Sião', aos quais dediquei vários escritos. Acho que fiz também algumas descobertas -como a de que trata o romance, que uma das fontes era 'Joseph Balsamo', o livro de Dumas."
O romance de Alexandre Dumas, pai, de 1849, se inicia com uma cena em que maçons entronizam o protagonista em sua seita secreta. A descrição teria inspirado a conspiração de rabinos dos "Protocolos", forjada no cemitério judaico da capital tcheca, que se teriam congregado para tramar a dominação do mundo.
O "documento" (que difama os semitas "num patchwork contraditório que não se poderia levar a sério, mas que foi muito levado a sério") justificaria o ódio aos judeus e seu extermínio preventivo.
"Ninguém sabe como surgem os 'Protocolos': como nasceram, quem os fez, em quantas fases. Por isso fiquei livre para atribuir tudo a Simonini", diz. E explica que Simonini é o único personagem fictício no romance, um "feuilleton" oitocentista.
Ele frisa, porém que, Simonini, apesar de inventado, "é mais verdadeiro que os demais".
"Eu estava sempre pensando em pessoas que conhecemos, falsários, jornalistas vendidos, que sabemos quem são, até o nome e o sobrenome. Minha ambição seria que os leitores usassem o livro como um guia para visitar o mundo dizendo 'lá vai um Simonini'."
Eco arrisca uma leitura psicológica das motivações para a obsessão central de Simonini, que é o ódio aos judeus fomentado nele pelo avô desde a infância.
"Descobri que algumas pessoas acabam odiando alguém porque lhe fizeram mal -veja bem, não odeio alguém porque alguém me fez mal, mas porque eu lhe fiz mal e depois o odeio. Mas por quê? Porque tento esquecer que eu sou o culpado e tento me convencer de que ele merecia meu ódio."
E garante: "Aconteceu comigo também: gente que aprontou comigo depois escreveu artigos contra mim. Mas entendi que tinham sido desrespeitosos comigo e depois precisavam se justificar".
Como reza o título da mais recente coletânea de ensaios de Eco -o ainda inédito em português "Costruire il Nemico" (2011), no qual se reconhecem temas e aspectos de "O Cemitério de Praga": é preciso construir o inimigo.

CRÍTICA
Eco diz "desconfiar muito da chamada crítica militante, a que se faz nos jornais, em comparação com a crítica acadêmica".
"Antes, quando saía um livro, o diretor do jornal dava seis meses ao crítico para ler; não havia necessidade de falar dele no dia seguinte. Hoje o crítico lê sempre numa situação de pressa e fica sujeito à estação, à dor de cabeça, ao que comeu na noite anterior. Se tivesse tido seis meses, comendo cada dia algo diferente, a sua leitura seria mais equilibrada."
E, como que a precaver-se de um ataque, emenda: "Note-se que eu acho desequilibradas não só as críticas que falam mal de meus livros mas também as que falam bem; elas às vezes me irritam porque falam bem pelos motivos errados."
Ele se irrita, também, quando inquirido se existem de fato "motivos errados". Parece condenado a relembrar que a obra é aberta, sim, mas que a interpretação tem limites: "A minha posição é muito clara: não sou um desconstrutivista que acha que um texto pode ter qualquer significado e que cada um pode ler como quiser. A liberdade da leitura é sempre determinada pelo objeto que está lá."

SEMIÓTICA
Se a semiótica foi devorada por outros estudos e devolvida sob outros avatares acadêmicos, a culpa é em parte de Eco.
Com rara clareza numa ciência em que a obscuridade volta e meia era confundida com argúcia, o italiano aplicou conceitos da ciência dos signos em estudos amplamente difundidos e citados (mesmo que muitas vezes de orelhada) fora do âmbito dos semioticistas, alastrando-os para campos mais diversos e talvez menos cerebrais.
Sempre evocada quando se pensa em semiótica, sua produção, porém, não empolga seus pares. Para Lucia Santaella, o pensamento que ele produziu é "miscigenado": "Ele mistura indiscriminadamente correntes, autores, teorias, criando uma salada complexa e difícil de entender."
A professora não nega a Eco o papel de "intelectual engajado", que, "alerta, marca sua posição acerca dos eventos", "como um jornalista bem dotado".
"Ele é escritor prolífico. Nos inúmeros congressos de que participei em que ele estava presente, comentava-se que ele escrevia até nos táxis. De fato, ele tem a veia dos gênios. Sua genialidade é a do discurso", concede Santaella.

PARÓDIA
O discurso de Eco tem um aspecto brincalhão que parece atiçar parte da crítica contra ele e marca, por exemplo, seus dois "Diários Mínimos", divertidas coletâneas de paródias e pastiches intelectuais, que em maio ganham nova edição [Record, trad. Joana Angélica D'Avila Melo e Sergio Duarte, 560 págs., R$ 62,90; leia trecho de "Nonita" à pág. 10].
A despeito do lado gracioso, Eco tem para sua literatura pretensões nada triviais. Seus diversos ensaios sobre a leitura, como "O Papel do Leitor", e livros sobre o tema, como "A Obra Aberta" e "Lector in Fabula", talvez sejam o retrato do que o Eco ensaísta esperava do Eco romancista: a forja, no mundo real, de um leitor modelo.
"Que leitor modelo eu queria quando estava escrevendo?", inquire retoricamente Eco em seu "Pós-escrito a 'O Nome da Rosa'" (Nova Fronteira, 1985). "Um cúmplice, claro, que entrasse no meu jogo. Eu queria tornar-me completamente medieval e viver na Idade Média como se esta fosse minha época (e vice-versa)", escreve.
"Mas, ao mesmo tempo, eu queria, com todas as minhas forças, que se desenhasse uma figura de leitor que, superada a iniciação, se tornasse meu prisioneiro, ou melhor, prisioneiro do texto e pensasse não querer nada mais do que aquilo que o texto lhe oferecia."
Questionado se o teórico transparece no romancista, ele nega. Diz que, se é que se encontram reflexos de sua teoria na sua ficção, é "porque evidentemente eu não sou esquizofrênico": "Até os ginecologistas se apaixonam. Sustento que você pode ter a teoria que for, mas, quando lê, se aquilo o cativa, ao menos numa primeira fase da leitura esquece a teoria."
Berardinelli, seu crítico mais feroz, faz uma descrição tão ácida quanto acertada do que é tentar definir a produção de Eco.
Assim diz, no texto "Umberto Eco e Seu Pêndulo", publicado aqui em edição da revista "Remate de Males" organizada pela professora Maria Betânia Amoroso no primeiro semestre de 2005:
"Toda vez que se cai na armadilha de seguir enumerativamente a vertiginosa pluralidade da mente de Eco, se acaba por ter que desistir derrotado: estamos frente ao inesgotável [...]. Se eu também me pusesse a enumerar tudo aquilo que ele enumera não faria nada mais do que lhe fazer eco."

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Quando dá branco

Por Juliana Vines, da Revista Equilíbrio

Esqueceu uma coisa importante? Normal. Qualquer pessoa saudável, em qualquer idade, pode ter lapsos.
"Não existe memória absoluta", diz Iván Izquierdo, neurocientista argentino radicado no Rio Grande do Sul, autor de "Memória". 
"Brancos" acontecem por motivos comuns: nervosismo, estresse, insônia, cansaço, excesso de informações.
"O estresse faz com que seja liberado o hormônio cortisol, que age no cérebro impedindo a evocação de memórias", explica Izquierdo. São exemplos cantores que se esquecem das letras e estudantes que não se lembram de nada na hora da prova.
Se for crônico, o estresse também pode atrapalhar a aquisição de informações.
"A memória é uma função cognitiva dependente dos processos de atenção. Qualquer coisa que interfira na concentração pode prejudicá-la", afirma Mônica Sanches Yassuda, neuropsicóloga e pesquisadora.
A falta de sono é uma das principais inimigas da boa memória. De acordo com o neurologista Luciano Ribeiro Pinto Júnior, dormir pouco resulta em perda de atenção no dia seguinte, além de atrapalhar no armazenamento de informações anteriores.
"As lembranças são consolidadas quando dormimos, principalmente no terço final da noite, no sono REM [em que acontecem os sonhos]."
O problema é que muitas pessoas têm cada vez menos episódios de sono REM. "Dormimos mais tarde e acordamos mais cedo. Isso faz com que sejamos privados desse tipo de sono. A longo prazo, isso pode até causar perda irreversível da memória."
O consumo de álcool também pode prejudicar as funções cerebrais de forma irreversível. É a chamada demência alcoólica, diferente daquela "amnésia" que acontece depois de uma bebedeira.
A demência aparece ao longo dos anos e é comum entre dependentes químicos, explica a psiquiatra Carla Bicca, da Abead (Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas).
Já a "amnésia alcoólica" aparece uma vez ou outra. "Nem todo mundo tem esse apagão, ele não deve ser comum. Se você tem sempre, é um alerta: ou é mais vulnerável ou está exagerando."

AMNÉSIA PROTETORA
O esquecimento não é ruim. Para a neurologia, é tão importante quanto a lembrança. "Para recordar seletivamente o que interessa você tem que inibir, bloquear ou esquecer certas coisas. É inútil lembrar-se de tudo", diz o neurologista Benito Damasceno. 
A inibição de uma lembrança pode acontecer quando o fato é perturbador ou traumático. "É uma forma de a pessoa seguir em frente", afirma Damasceno.
A amnésia de fatos ruins também é vista pela psicanálise como normal. "Faz parte do equilíbrio da mente deixar alguns fatos no âmbito do inconsciente. Mas, se houver um esquecimento grande, pode indicar um desequilíbrio que precisa ser trabalhado em terapia", diz a psicanalista Giselle Groeninga.
Às vezes, esquecer parece com mentir. Mas, nos casos mais comuns, é tudo culpa do cérebro, que não só não grava com perfeição (daí os lapsos), como nos engana criando falsas lembranças.
Isso tudo só é preocupante quando os apagões são frequentes e interferem no cotidiano -e você se esquece de pagar uma conta, digamos.
Esse lapso é mais comum depois dos 45 anos e pode ser sinal de perda cognitiva, diz a neuropsicóloga Ivanda Tudesco. "O alerta é a mudança de comportamento: a pessoa que nunca esquecia panela no fogo e passa a esquecer."
Em pessoas mais jovens, é comum que os esquecimentos sejam causados por excesso de tarefas e desorganização. "Passar a usar lembretes e agenda já ajuda. Todo mundo precisa de lembrete, é um recurso saudável e fácil."

SEM RECEITA
Não tem uma fórmula para melhorar a memória. Mas sempre é bom reforçar quegravar um fato depende de concentração e interesse.
"Estar motivado aumenta o tônus cerebral, criando uma situação ótima para que informações sejam registradas", diz Benito Damasceno.
Uma dica é pensar no significado da informação e tentar fazer o maior número de associações possíveis. "Se associarmos vários sentidos, fica mais fácil de lembrar."
Usar as informações várias vezes também faz com que exista mais chances de aquela memória ser consolidada.
Jogos e exercícios de treinamento ajudam, mas não resolvem o problema, segundo a neuropsicóloga Gislaine Gil, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
"Não adianta a pessoa ficar boa em um jogo e continuar perdendo a chave de casa. É mais útil você tentar lembrar antes de dormir o que fez durante o dia do que jogar jogo da memória."
Ela dá algumas orientações de organização. "Faça uma lista do que você precisa fazer no dia, organize a gaveta e a mesa de acordo com o uso dos objetos e guarde coisas que somem (óculos, chave) no mesmo lugar."

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

EUA: projeto antipirataria perde força após protesto virtual

                             Manifesto - Apagão da Wikipédia liderou protestos contra projetos de lei antipirataria


Do Portal Terra

Proeminentes congressistas americanos retiraram, ontem (19), o apoio à lei antipirataria discutida no Senado dos Estados Unidos após forte pressão de sites como Google e Wikipedia. Entre os que mudaram de posição estão dois dos propositores dos projetos de lei, os senadores Marco Rubio, da Flórida, e Roy Blunt, do Missouri. Vários outros senadores e deputados também retiraram o apoio às propostas.
Na quarta, a enciclopédia eletrônica Wikipédia tirou do ar sua versão em inglês por 24 horas, deixando na página inicial os dizeres: "Imagine um mundo sem conhecimento". O Google não saiu do ar, mas inicialmente colocou uma tarja preta na homepage de seu site americano; depois, postou, abaixo da linha de busca, o link "Diga ao Congresso: Por favor, não censure a internet!".
O protesto é direcionado aos projetos de lei Sopa (Stop Online Piracy Act, ou Lei para Parar com a Pirataria Online) e Pipa (Protect Intellectual Property Act, ou Lei para Proteger a Propriedade Intelectual), que estão sendo debatidos, respectivamente, na Câmara dos Representantes (deputados federais) e no Senado dos Estados Unidos.
As propostas opõem produtores de conteúdo - como emissoras de TV, gravadoras de músicas, estúdios de cinema e editoras de livros, que se sentem lesadas pela pirataria - às empresas de tecnologia do Vale do Silício, que alegam que os projetos ferem a liberdade inerente à internet e dão excessivo poder para quem quiser tirar websites de circulação.
Outros sites, como o o blog tecnológico Boing Boing, também participaram do "apagão", o maior em envergadura de que se tem notícia no mundo digital. O portal de notícias Politico estima que 7 mil sites participaram do protesto. No outro lado, o presidente da Motion Picture Association of America (MPAA), Chris Dodd, classificou o protesto como "irresponsável".
"Empresas de tecnologia estão recorrendo a manobras que punem seus usuários para transformá-los em seus peões corporativos, ao invés de vir para a mesa a fim de encontrar soluções para um problema que todos agora parecem concordar que é real e muito prejudicial ", disse Dodd.

Falta de consenso
Os projetos seriam examinados pelo Senado na próxima semana. O presidente da Câmara dos Representantes (equivalente à Câmara dos Deputados), o republicano John Boehner, já reconheceu, no entanto, que "falta consenso" nesse momento para os projetos terem seguimento no Congresso.
O porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, admitiu que o problema da pirataria virtual precisa ser encaminhado, mas "de forma que não infrinja a liberdade e a internet aberta". A ONG Repórteres Sem Fronteiras se juntou ao protesto, dizendo que tais leis "sacrificam a liberdade de expressão online em nome de combater a pirataria".
Outros gigantes da internet como a rede social Facebook e o microblog Twitter também manifestaram sua oposição. O cofundador do Twitter, Jack Dorsey, pediu a seus 1,8 milhão de seguidores para dizer "Não ao Congresso". O cofundador do Facebook, Mark Zuckerberg, disse que "continuará a se opor a qualquer lei que fira internet".

Penas para pirataria
Os projetos, que tentam combater especialmente a proliferação de cópias piratas de filmes e programas de TV e outras formas de pirataria de conteúdo midiático em servidores internacionais, propõem penas de até cinco anos de cadeia para pessoas que sejam condenadas por compartilhar material pirateado dez ou mais vezes ao longo de seis meses.
As propostas também preveem punições para sites acusados de "permitir ou facilitar" a pirataria. Estes podem ser fechados e banidos de provedores de internet, sistemas de pagamento e anunciantes, em nível internacional. Em tese, um site pode ser fechado, a pedido do governo dos EUA ou de geradores de conteúdo, apenas por manter laços com algum outro site suspeito de pirataria.
Além disso, o Sopa, se aprovado, também exigiria que ferramentas de busca removessem os sites acusados de pirataria de seus resultados

Jogos políticos
Analistas dizem que o "apagão" da quarta é o primeiro grande teste das empresas do Vale do Silício em uma batalha contra uma indústria muito mais organizada, a de mídia e entretenimento. Para o New York Times, a amplitude do protesto da quarta marca uma "maturidade política" de um setor - o de internet - que é "relativamente novo e desorganizado e que em geral se manteve distante de lobbies e outros jogos políticos de Washington".
"Pela primeira vez, está claro que a legislação pode ter um impacto direto na habilidade da indústria (de internet) em funcionar", disse ao jornal nova-iorquino a diretora-gerente da organização New York Tech Meetup, Jessica Lawrence. "Foi um chamado de alerta."
Ao mesmo tempo, o senador Patrick J. Leahy, democrata e autor de projetos de proteção de direitos autorais na web, acusou os opositores do Pipa e do Sopa de tentarem "criar (clima de) medo" ao realizar o "apagão digital". "Proteger criminosos internacionais (em referência aos piratas de conteúdo) em vez de proteger os direitos autorais americanaos é irresponsável e custará empregos", afirmou em comunicado.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Como nasce uma ditadura

Por Eleonora de Lucena, da Ilustríssima

RESUMO Coletânea em três volumes, estruturados por regiões do planeta, busca explicar de que maneira regimes autoritários são legitimados e como seus valores transparecem nas sociedades. Ensaios abrangem da Alemanha nazista à Tunísia que, nos últimos anos, tornou-se precursora da Primavera Árabe.

NOS ÚLTIMOS MESES, a democracia tem sido colocada em xeque de forma explícita pelos mercados financeiros. Na Europa, a simples ideia de um plebiscito para aprovar medidas de arrocho à sociedade levou as finanças ao chilique. Governos foram derrubados, e os novos indicados prometem cumprir a cartilha para garantir os ganhos privados e os sacrifícios públicos.

Lideranças à direita ganham relevo. Manifestações e greves se esparramam. Nos Estados Unidos, os protestos contra a desigualdade -os vários Ocupe Wall Street- são enxotados dos espaços públicos. A Primavera Árabe apenas engatinha: as eleições começam, mas não esvaziam as praças nem detêm confrontos violentos.

No Brasil, foi criada a Comissão da Verdade para investigar os crimes das ditaduras. Enquanto isso, muitas empresas estão preocupadas com o crescimento na China. Uma desaceleração econômica e/ou uma desestabilização política puxada pela classe média ascendente poderia ter impacto significativo por aqui.

Todos esses temas encontram algum tipo de reflexão histórica na leitura de "A Construção Social dos Regimes Autoritários - Legitimidade, Consenso e Consentimento no Século 20", coletânea organizada por Denise Rollemberg e Samantha Viz Quadrat. , ambas professoras. 

São três volumes, estruturados por regiões do planeta, que trazem 39 artigos, totalizando 1.340 páginas. Tratam da Alemanha nazista, da Espanha franquista, da Itália fascista. Falam da extinta URSS, da Coreia do Norte, do Uruguai. Discutem os papeis desempenhados por Alfredo Stroessner, António Oliveira Salazar, Alberto Fujimori. Debatem a ditadura militar no Brasil.

Na tentativa de costurar dessa colcha de retalhos, as organizadoras lançam duas perguntas: 1) Como um regime autoritário/uma ditadura obteve apoio e legitimidade na sociedade?; e 2) Como os valores desse regime autoritário/ditatorial estavam presentes na sociedade e, assim, tal regime foi antes resultado da própria construção social?

O resultado é irregular e incompleto. Alguns textos partem de aspectos laterais para buscar esse todo articulado da tese do autoritarismo como produto social. Poucos reúnem informações detalhadas sobre o país focado. Faltam dados sobre os autores escolhidos (38 no total). No conjunto, apesar das falhas, o mosaico é interessante.

CARICATURA O volume "África e Ásia" [392 págs.], por exemplo, traz dois artigos sobre a Tunísia. O mais vigoroso é de Michel Camau. Professor de ciência política da Universidade de Aix-en-Provence, na França, ele argumenta que o país africano, precursor da Primavera Árabe, transformou-se numa caricatura das "contradições da suposta democratização do mundo no contexto da intensificação e da liberalização do comércio".

Partindo da herança colonial na formação das elites do país, o autor desenvolve o conceito de "autoritarismo de mercado", que mescla repressão, mercado aberto aos produtos europeus, liberdade para os capitais e controle das migrações. Uma estratégia que Camau resume assim: "Os mercados, agora; a democracia, depois".

No outro artigo, a pesquisadora francesa Béatrice Hibou mostra as ligações entre o Estado de Ben Ali e os empresários, que receberam financiamentos e outras benesses no "milagre econômico" tunisiano. Os dois capítulos foram escritos antes da revolta que derrubou o ditador e destampou a panela de pressão de toda a região. Mas ajudam a entender as razões da revolta.

Já para compreender a situação chinesa, Jonathan Unger se debruça nos motivos que levam a classe média urbana do país a aderir ao regime. Diretor do Centro da China Contemporânea da Universidade Nacional da Austrália, ele descreve como o crescimento viabilizou aumentos de salários para professores, médicos, engenheiros e funcionários públicos.

Lembra que, num único ano, no final dos 1990, o salário de todos os professores das universidades públicas mais prestigiadas dobrou. "Se houver outra explosão como a de Tiananmen, muitos deles [os instruídos urbanos] vão preferir o outro lado das barricadas -o lado do governo", prevê.

ESFACELAMENTO Urger tem a avaliação de que a classe média chinesa se tornou um bastião do regime e passou a rejeitar a liberalização política ao olhar o exemplo da União Soviética de Mikhail Gorbatchov. Ali o esfacelamento, que acaba de completar 20 anos, trouxe queda vertiginosa do padrão de vida e corrupção. Por isso, para ele, não há espaço para mudanças.

A trama entre política e economia também aparece com força no artigo sobre o controvertido Jean-Bedel Bokassa, presidente da República Centro-Africana de 1966 a 1979. Brian Titley, professor da Universidade de Lethbridge em Alberta, no Canadá, descreve como os interesses coloniais, da elite local e do Estado se entrelaçaram.

Quando essa costura se rompeu e Bokassa nacionalizou petrolíferas e empresas francesas, passou a ser pintado como extravagante e monstruoso: seus inimigos eram jogados aos crocodilos e ele comia carne humana. Histórias inventadas pelo serviço secreto francês, conta Titley, para quem "só destruindo a reputação de Bokassa seria possível justificar a invasão que o derrubou".

Não há nada sobre Muammar Gaddafi na coleção.

O volume "Europa" [309 págs.] traz análise de Robert Gellately, professor de história da Universidade da Flórida, sobre a Alemanha. Ele aponta como "o desemprego minou a força dos trabalhadores organizados e muitos começaram a achar que deveriam dar uma oportunidade a Hitler".

Gellately recorda que os primeiros campos de concentração foram criados em 1933, saudados pela imprensa como "lugares para onde mandar os comunistas e outros inimigos do povo". Lembra a perseguição do regime a minorias e a campanha de esterilização em massa, que não teve resistência da Igreja Católica.

No mesmo volume, Marc Ferro, em texto de 1985, aborda a URSS. Já o regime de Vichy é avaliado por Marc Olivier Baruch. Professor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris, ele destrincha como as elites francesas se acomodaram ao sistema de capitulação aos nazistas. Enfatiza as ambiguidades e de como esse lado da história teima em ser esquecido. Afinal, nem todos que alegaram ter participado da resistência a Hitler de fato estiveram nessa luta.

AMBIGUIDADES Questão semelhante é levantada em relação ao combate ao regime militar no Brasil: se todos se tornaram resistentes e democratas, como a ditadura durou 21 anos?, perguntam as organizadoras da obra. Na busca de respostas, há artigos sobre as marchas da Família com Deus pela Liberdade (foram 69, 80% delas após o golpe militar), a Associação Brasileira de Imprensa (que teve comportamento ambíguo em alguns momentos), a Arena (o partido da ditadura).

Mas o forte sobre esse período no volume "Brasil e América Latina" [606 págs.] é o enfoque cultural. Marcos Napolitano, professor de história da USP, tenta escapar da dicotomia entre resistência e cooptação e descreve uma produção artística cheia de meandros e contradições.

Napolitano mostra como a ditadura no início buscou dissolver as conexões entre a cultura de esquerda e os movimentos populares. Depois, com o Ato Institucional n° 5, ampliou a repressão, tentando atacar a mobilização da classe média. A partir de 1979, com a Anistia, quis controlar a desagregação do regime.

Usando conceitos do nacionalismo, a ditadura se aproximou de artistas e intelectuais de esquerda e financiou projetos (cinema, teatro, folclore etc.). A música popular dos festivais era uma válvula de escape para as críticas ao regime, que sonhava com uma reconciliação com a classe média. No final dessa época, o Estado atuou no processo de mercantilização cultural, nota o autor.

Seria bom acrescentar à análise o papel-chave que a televisão desempenhou durante todo o período. Também as conexões com o meio empresarial pouco aparecem nos textos.

No conjunto, os três volumes fazem um inesperado e difuso turbilhão de informações. Demonstram que não é possível explicar autoritarismos pela simples existência de populações infantilizadas ou medrosas. Apontam para os consensos e legitimidades -sem defendê-los, pedem as organizadoras. Registram nacos de "um século marcado por muitas ditaduras, em diversos países e continentes, com culturas, tradições e passados diversos, que tiveram apoio da sociedade".