quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A incompreensibilidade do mal


Por Franklin Leopoldo e Silva, da Revista Cult

Se a filosofia é a tentativa de compreensão da condição humana, então a questão do mal ocupa o centro das preocupações – e a marca profunda que a tradição socrático-platônica deixou na constituição da herança filosófica bastaria para atestá-lo. Mesmo quando o questionamento se dá por via de uma racionalidade mais formal e orientada por paradigmas que desprezam as orientações ditas “metafísicas”, o mal não deixa de aparecer como uma constatação inseparável de certa perplexidade, oculta sob a aceitação dos limites da razão e do rigor da argumentação. Mais do que isso, ainda que o cinismo, contemporaneamente tão difundido, nos faça aceitar o mal como realidade dada ou como banalidade, essa pretensa certeza primária não nos isenta do incômodo presente na má-fé inerente ao conformismo e à indiferença ética.

Concepções tradicionais do bem e do mal
A fabulação mítico-religiosa, de que fala Bergson em As Duas Fontes da Moral e da Religião, isto é, o conjunto de representações imaginárias que procuram responder a questões situadas além do alcance da vocação pragmática do entendimento, não possuiria função explicativa, mas, sobretudo, vital: possibilitar a convivência com os acontecimentos incompreensíveis que nos afetam, que nos transformam, que nos fazem sofrer e que podem nos destruir. As adversidades naturais, a ira dos deuses, a culpa originária, os ciclos em que se manifesta a fatalidade: tudo aquilo que não podemos prever ou controlar naturalmente, mas que podemos, talvez eventualmente, conjurar por meio da invocação de forças que nos superam e da observância de interditos que nos lembram da posição relativa que ocupamos no universo.

Mas há também as decisões e ações que derivam de nossa liberdade. Desde Aristóteles, persiste a ideia de que a prática é muito mais complexa do que a teoria, porque no universo das ações não podemos mobilizar e esgotar todos os elementos que nos proporcionariam a certeza do acerto das escolhas. O bem não é demonstrável como a verdade. Tudo que podemos fazer é contar com um discernimento, espécie de sabedoria prática, que empregamos na tentativa de que nossas opções se orientem pelo critério do melhor possível, sem esperar a segurança proporcionada pela dedução da verdade teórica. Por isso o mal nos espreita como presença proporcional ao grau de imprudência a que estamos, inevitavelmente, sujeitos.

A filosofia cristã enfrenta ainda outra dificuldade. Como Deus só pode ser considerado como o bem e causa do bem, a criação está necessariamente impregnada de bondade e perfeição, o que torna o mal inexplicável do ponto de vista da criação divina. A rigor, o mal não deveria existir. Para dar conta de sua presença na experiência humana, Santo Agostinho apela para a diferença entre o relativo e o absoluto. Criaturas limitadas que somos, e inclinadas à corrupção desde o pecado original, não discernimos, em nossas escolhas, o bem absoluto que deveria ser a nossa meta, mas nos contentamos com os bens relativos, exacerbando-lhes a dimensão e o significado, de modo que apareçam como absolutos. Em outras palavras, não distinguimos, via de regra, o fim supremo dos meios relativos pelos quais poderíamos atingi-lo. Assim nunca escolhemos o mal, porque ele em si mesmo não existe; escolhemos um bem menor e o elegemos como o que de maior poderíamos desejar.

O mal no pensamento cartesiano

No racionalismo cartesiano encontramos uma versão moderna dessa concepção. A trajetória de reconstrução da filosofia em Descartes é bem conhecida: a afirmação da existência do eu pensante como evidência que resiste a qualquer dúvida; a prova da existência de Deus, princípio da verdade por ser a garantia das representações claras e distintas a que chega o sujeito. Diante de tão fortes referências metodológicas e metafísicas, como o erro ainda pode acontecer? De modo mais amplo: a partir de Deus como afirmação absoluta da verdade e do bem, como pode ter lugar a negatividade do erro e do mal? A solução de Descartes é engenhosa, muito significativa do ponto de vista da promoção de valores modernos, e consiste numa aplicação peculiar do racionalismo como estratégia de justificação. A faculdade pela qual nos assemelhamos a Deus, já que fomos feitos à sua imagem, não é, como se poderia pensar, o entendimento, e sim a vontade, cujos limites não se pode assinalar, já que o poder de afirmar e de negar estende-se indefinidamente. Se acentuarmos os traços dessa concepção, poderemos dizer que a liberdade humana é infinita. Isso produz um desequilíbrio: sendo o entendimento finito – e mesmo bastante limitado –, a liberdade, isto é, a vontade ilimitada, nos leva a produzir juízos sobre coisas que estão além da compreensão intelectual, caso em que podemos errar e pecar.

A tese é paradoxal: aquilo que nos faz semelhantes a Deus é também aquilo que nos leva ao erro e ao pecado. Mas é também uma estratégia eficiente quanto ao poder explicativo da dificuldade em pauta: Deus nada tem que ver com o erro e o mal, já que não podemos contestar a dimensão finita do entendimento, o que é natural e coerente em criaturas finitas; e muito menos podemos lamentar a liberdade absoluta, que é em si mesma um bem, pois nos remete à nossa origem divina. Com efeito, a desproporção entre intelecto limitado e vontade ilimitada diz muito sobre a nossa natureza: somos criaturas e, nesse sentido, não somos perfeitos; mas somos criaturas de Deus e, nesse sentido, trazemos em nós a marca da perfeição do criador. Ontologicamente, a natureza da criatura traz em si uma divisão: de um lado, a absoluta perfeição do criador, isto é, sua realidade infinita; de outro, o nada de que fomos feitos, ausência de ser e negatividade. Isso permite entender por que podemos desejar tudo e podemos saber muito pouco. E nos ajuda a entender também o aspecto ético da divisão que nos afeta: o ser em plenitude, isto é, o bem, e o não ser, o nada, ausência do bem.

Mas essa desproporção não nos condena ao erro e ao mal. A completa liberdade de que dispomos não apenas nos conduz a afirmar ou a negar qualquer coisa, mas também a suspender o juízo nas circunstâncias em que o entendimento não oferece suficiente respaldo para emitir um juízo. Lembremo-nos do principal preceito metódico: só devo aceitar como verdade representações claras e distintas. Quando não disponho delas, a prudência recomenda permanecer no estado de suspensão de juízo, para não cair em erro. Ora, há que se observar que as verdades da fé estão além do entendimento e, no entanto, são necessárias para orientar eticamente a conduta, pois justificam escolhas e ações que muitas vezes não poderiam ser submetidas à racionalidade do juízo objetivo. Nesse caso, se admito que tais verdades se situam além do poder de conhecimento e, portanto, além da dúvida, devo aceitá-las por via de outros critérios, aqueles que regulam a crença, mesmo porque os fundamentos da crença, como por exemplo a existência de Deus, podem ser submetidos ao crivo da razão.

Aparência racional à prática do mal

Como se vê, a solução cartesiana consiste em mostrar que a liberdade de errar é também a liberdade de não errar; que o estatuto do mal é negativo, posto que provém do que em nós se opõe ao ser e ao bem; e que, se a liberdade for regulada pela razão, valorizaremos aquilo que em nós é positivo, isto é, a verdade e o bem. Esse poder atribuído à razão é coerente com um humanismo racionalista. Mas a experiência histórica indica que a liberdade pode produzir opções que a razão é levada a justificar a posteriori, fenômeno que se designa como racionalização e que, paradoxalmente, faz com que a razão justifique condutas irracionais, caracterizadas pela escolha do mal. Isso porque do fato de que a razão pode limitar a liberdade não decorre que sempre o faça e, portanto, a razão pode desempenhar nessa relação outro papel: conferir aparência racional à prática do mal.

Mas isso não ocorre apenas por via de um equívoco racional; a causa é também uma contradição que pode acontecer no uso da liberdade, quando o indivíduo abdica de sua condição de sujeito da própria liberdade, entregando-a a poderes que o sobrepujam absolutamente. Os grandes exemplos, como se sabe, foram as manifestações de violência do século 20 que produziram os genocídios, isto é, o mal racionalmente administrado: Auschwitz, Gulags, Hiroshima.

Perplexidade e ação
Tais experiências levam-nos a duvidar de que o mal seja apenas a ausência de ser e de realidade, que ele só possa ser indiretamente definido como falta ou privação. Os argumentos racionais, nesse caso, não logram se sobrepor à realidade dos fatos e a situações em que o mal aparece não apenas como dotado de efetividade, mas até mesmo tendendo para o absoluto. Isso acontece principalmente quando o mal governa as relações humanas. O que há de perturbador, nos episódios que citamos, é a dificuldade em distinguir a loucura da razão, a civilização da barbárie, já que eles parecem ser uma fantástica confluência dos dois elementos.

Assim, é a reflexão que nos leva ao espanto, e é este que nos leva às interrogações angustiadas. Como poderíamos reduzir a meras aparências ações como a tortura, o assassinato, a opressão e a dilapidação da dignidade? Se nos sentimos constrangidos e incomodados quando temos de admitir a naturalidade de catástrofes como inundações ou terremotos, como poderíamos considerar que o sofrimento que um ser humano inflige a outro seria apenas a aparência localizada do bem em sua totalidade? Se temos dificuldade em admitir que o castigo pode ser fruto da justiça divina, como poderíamos entender que a dor e a morte provocadas pelo próprio homem possam estar inseridas numa arquitetônica racional do mundo?

Talvez devamos aceitar o caráter incompreensível do mal, isto é, que, diante dele, o que está em jogo não é explicação ou compreensão, mas sim revolta ou resignação. E que o mal e o bem, na medida em que se referem à nossa liberdade, dizem respeito à afetividade, à relação não reflexiva que mantemos com nós mesmos e com o que nos transcende, sejam os outros, seja Deus. Nesse tipo de relação, em que a negatividade aparece por vezes como uma potência assustadora, é provável que a perplexidade predomine sobre o entendimento, mas é possível também que ela nos mova e nos faça agir tanto ou mais do que o conhecimento.
 

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Liu Xiaobo, preso na China, vence Nobel da Paz

 
  Do Portal Vermelho

O chinês Liu Xiaobo, atualmente na prisão, conquistou, nesta sexta-feira (8), a edição 2010 do Prêmio Nobel da Paz. O anúncio foi feito pelo Comitê do Nobel da Noruega em Oslo, capital do país. O governo chinês condenou a atitude, que classificou como "uma blasfêmia", e assegurou que a concessão afetará as relações de Pequim com a Noruega.

Poeta e professor de literatura, Liu cumpre uma sentença de 11 anos por "subversão do poder do Estado", após assinar um manifesto em 2008 no qual defende uma "reforma democrática" na China. Liu foi escolhido entre 237 nomeados e tem direito a um cheque no valor de US$ 1,6 milhão, aproximadamente R$ 2,68 milhões.

Liu receberá o prêmio "por seu longo trabalho não violento em favor dos direitos humanos na China", disse a comissão da premiação. "O comitê Nobel deliberou largamente antes de tomar essa decisão, que relaciona os direitos humanos e a paz."

O presidente da Fundação Nobel, Thorbjoern Jagland, disse em Oslo que Liu foi premiado porque "por mais de duas décadas tem sido um forte porta-voz pela aplicação dos direitos fundamentais na China", acrescentando que o ativista simboliza o desafio chinês de combinar o seu forte crescimento econômico com maior liberdade de imprensa e expressão.

A Carta 08, manifesto encabeçado pelo ativista, foi assinada por cerca de 300 intelectuais chineses e lançado por ocasião dos 60 anos da Declaração Universal sobre os Direitos Humanos da ONU. O documento foi ainda apoiado por cerca de 12 mil pessoas via Internet. O dissidente participou, além disso, de diversas manifestações públicas de artistas e ativistas em favor dos direitos humanos na China.

Reação

O governo chinês reagiu afirmando que premiação era uma "blasfêmia" e prejudicaria as relações com a Noruega. O país também criticou duramente Oslo depois que o prêmio de 1989 foi dado ao líder espiritual do Tibete, Dalai Lama.

Num primeiro pronunciamento, difundido pela agência noticiosa oficial chinesa, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Ma Zhaoxu, reafirmou que Liu Xiaobo "violou a lei da China e foi condenado à prisão por órgãos judiciais chineses".

"O prémio Nobel da Paz devia ser atribuído aos que trabalham para promover a harmonia étnica, a amizade internacional, o desarmamento e os que organizam encontros pacíficos. Esses eram os desejos de (Alfred) Nobel", disse o porta-voz do ministério chinês.

Concedido desde 1901, o Prêmio Nobel da Paz é um dos cinco prêmios instituídos em seu testamento pelo químico e industrial sueco Alfred Nobel (1833-1896), inventor da dinamite. Ele é escolhido anualmente pelo Comitê do Nobel da Noruega, formado por cinco pessoas nomeadas pelo Storting, o Parlamento norueguês. Entre os vencedores do Nobel da Paz, muitas vezes controverso, estão nomes como Al Gore, Kofi Annan, Yasser Arafat e Nelson Mandela.

No ano passado, quem venceu foi o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. A indicação causou surpresa e reação em várias partes do mundo, já que o norte-americano nada tinha feito para encerrar os conflitos no Iraque e Afeganistão ou desativar a Quarta Frota, por exemplo.
 

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Um gênio que soube decifrar o mundo

Por Cristiano Castilho, da Gazeta do Povo

O que John Lennon estaria fazendo se estivesse vivo? No próximo sábado, o sujeito dos óculos redondos completaria 70 anos de vida e de música. Talvez compondo músicas pop perfeitas em uma casa no interior da Inglaterra? Em Nova York, apoiando a retirada das tropas norte-americanas do Iraque? Participando da abertura de alguma exposição cult de Yoko Ono? Ou – a melhor das hipóteses – se preparando para tocar junto com Paul McCartney no Brasil, em novembro?

Personalidade das mais influentes do século 20, o britânico descendente de irlandeses é a cara de muita coisa e símbolo para muita gente. Pode também ser chamado de gênio. Músico e escritor, ativista e defensor da paz, John Lennon foi um eterno inconformado. Com o amor, com a política, com as artes, com a música, com a família e, a partir de 1966, até com Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, os utopicamente inseparáveis companheiros de banda.

Para o jornalista e crítico musical Tárik de Souza, o espírito contestador e irriquieto de Lennon encontraria um fim parecido com o que realmente aconteceu em 8 de dezembro de 1980, quando foi assassinado por Mark Chapman.

“Se tivesse escapado da morte em 1980, ele dificilmente sobreviveria a um franco atirador durante o governo Bush Jr. Principalmente se colocasse numa canção a tese do cineasta Michael Moore sobre a ligação das famílias Bush e Bin Laden”, diz Souza.

Mas, antes do inconformismo político, estava a arte. John Lennon é o criador de músicas indiscutíveis, como “Dear Prudence”, presente no The White Album, de 1968. Mas também, não esqueçamos, da bobinha, porém importante “She Loves You” (esta em parceria com Paul), lançada em um compacto em 1963 e que ficou no topo das paradas da Inglaterra e Estados Unidos por cerca de 14 anos. John Lennon era humano.

“Lennon conseguia inserir reflexões profundas na necessariamente rasa e ligeira música pop. Para medir sua amplitude é só dar a volta ao planeta. Sua música atingiu todas as classes e permanece viva, a despeito da atual lavagem cerebral pelo excesso de informações supérfluas”, diz o crítico.

Dois pontos são cruciais para tentar destrinchar John Lennon. Um é a família. Filho único de Alfred e Julia Lennon, John teve uma infância conturbada. O pai trabalhava na marinha mercante e era ausente. A mãe vivia com um sujeito chamado Bobby Dykins. Até que sua tia, Mimi, ainda que de forma não definitiva, conseguiu a guarda do garoto que já arranhava o violão – mas foi Julia, homenageada na canção homônima que fecha o primeiro disco do The White Album, quem ensinou os primeiros acordes a John.

Outro ponto foi a incrível capacidade de Lennon para acompanhar o mundo. Com os Beatles, reinventou a música pop ao criar canções que começavam pelo refrão (caso de “Help!” e “She Loves You”) ou de dar novo frescor às músicas estilo pergunta-resposta, comum em décadas anteriores a 1960, mas já em decadência.

Outro exemplo: na fase lisérgica, que culminou com o lançamento do magnífico Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967), John, ao contrário de Paul, abraçou a ideia prontamente.

Quando o mundo pedia o fim da Guerra do Vietnã, já no fim da década de 1960, John usou sua fama para protestar também, com canções (“Give Peace a Chance”, de 1969), e intervenções das mais ousadas, como a que ocorreu em Amsterdã, quando ele e Yoko permaneceram por uma semana na cama de um quarto de hotel. Yoko, aliás, é outra prova do passo a frente de John, já que a japonesa, na época, foi tratada como uma artista plástica incompreensível.

“Lennon era capaz de transformar acontecimentos em música, sem cair no mero panfletarismo. Mesmo quando fazia proselitismo, não perdia a mão pop”, diz Tárik de Souza.

Até no período pós-Beatles – John Lennon disse que “queria um divórcio” do grupo em 1968 –, a singularidade do gênio se revela. Em 1970, Ringo Starr lançou o chocho Beaucoup of Blues; Paul, o melancólico McCartney; George, o pop All Things Must Pass, e John se saiu com o cru e esquisitão Plastic Ono Band.

Para o bem ou para o mal, Lennon não esqueceu seus ex-companheiros. Na música “How Do You Sleep?”, canta “The only thing you done was Yesterday” [a única coisa que você fez foi “Yesterday”], desferindo um golpe certeiro em Paul ao referir-se à canção deste que ele mais gostava -- e que ele afirma ser a única coisa boa que Paul fez. Era assim o polêmico visionário de indefectíveis óculos redondos.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Sesc promoverá doze horas ininterruptas de arte em Campina Grande


Da Assessoria do Sesc Centro/CG

Várias modalidades artísticas, doze horas seguidas de cultura e um só lugar. O Serviço Social do Comércio da Paraíba realiza nos dias 23 e 24 de outubro, em Campina Grande, o II Overdoze, que consiste em doze horas ininterruptas de teatro, dança, música, cinema, artes plásticas e literatura. O evento marca o encerramento da VII Mostra Sesc Ariús de Teatro de Rua, e acontece a partir das 18 horas do dia 23, encerrando na manhã do dia 24. As inscrições para os espetáculos interessados estão abertas e devem ser realizadas até o dia 8 de outubro na unidade do Sesc Centro Campina Grande, ao custo de dois quilos de alimento não perecível.

O Overdoze é uma das atividades satélites do projeto Palco Giratório, na qual acontecem apresentações de esquetes teatrais, danças, capoeira, maculelê, músicas, cinema (curta-metragem), poesia dramatizada e artes plásticas, que serão realizadas utilizando os diversos espaços do Sesc Centro Campina Grande. Além disso, será servida durante todo o evento uma ceia com vários tipos de sopas, caldos, sanduíches e um tradicional quentão.

O objetivo desta iniciativa é integrar a classe cultural de Campina Grande, abrindo espaço para apresentações e artistas locais, despertando a produção não apenas no município, mas em toda a região. Cada apresentação terá a duração máxima de vinte minutos, seja inédita ou não.


Para se inscrever e participar da seleção, o artista deve ler o regulamento do Overdoze, que está disponível no site www.sescpb.com.br, e entregar na unidade do Sesc Centro todo o material necessário: ficha de inscrição preenchida, release do espetáculo, texto (no caso de esquete) ou roteiro (performance), autorização de encenação, sinopse, currículo do grupo ou artista, ficha técnica atualizada, fotos e relação nominal dos integrantes, além dos dois quilos de alimento não perecíveis por esquete ou performance. O resultado dos trabalhos selecionados para participarem do evento será divulgado no dia 11 de outubro no portal institucional da entidade.

Mais informações podem ser obtidas através do telefone (83) 3341-5800, no blog www.sesccultural.blogspot.com ou na própria unidade, que fica localizada na Rua Giló Guedes, 650, Santo Antônio, em Campina Grande.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Apologética do Feio


Ilustração: Lucian Freud
Do Caderno Ilustríssima da Folha de São Paulo


SOBRE O TEXTO
Produção inédita de Lima Barreto.
Localizado num manuscrito sem data da Coleção do autor, na Biblioteca Nacional, este é um dos 42 textos que serão incluídos no volume de "Contos Completos de Lima Barreto", que serão publicados este mês no Brasil. 


Bilhete à Baronesa de Melrosado

Mas... de que serve a beleza nos homens?
A. A.

MINHA SENHORA:
Só ontem soube pelo Soares da razão porque V. Exa. me recusava a honra de uma valsa no último baile dos Diários: por me achar excessivamente feio!
Os meus amigos vão rejubilar! É uma velha pendência esta, minha senhora, quase secular, a de saber qual dentre nós é o menos belo, e V. Exa., com o motivo da recusa, veio dar ganho de causa aos meus contendores.
Creia porém V. Exa. que eu não me magoei absolutamente com o epigrama. Este meu físico ingrato, esta plástica infeliz -um torso de salamandra ridiculamente encimado por uma cabeça de batráquio- são, de natureza, eu concordo, a afugentar os mais tímidos.
V. Exa., porém, se não foi injusta, foi pelo menos impensada... Porque eu também tenho os meus títulos nobiliárquicos:... sou o descendente de uma família muito antiga e muito nobre, de uma nobreza e antiguidade sob todos os pontos de vista veneráveis -a venerabilíssima família dos Feios.
Remontando pela minha genealogia acima, não se admira V. Exa. se eu só me detiver em nosso antepassado Adão.1
Aquele indivíduo feito de argila, aos assopros e sopapos, e de mais a mais com uma costela de menos, não podia deixar de ter uma cor acentuadamente terrosa e uma plástica deplorável.
Se V. Exa. quisesse ter a bondade de me acompanhar nesta pitoresca jornada ficaria, desde já, conhecendo, entre os meus antepassados, o aventuroso imperador Sezostris, o insigne filósofo Zoroastro e o venerável profeta Habacuc, da tribo dos Zabulous. Receio porém tornar-me fatigante; estaco em Sócrates.
Sócrates, minha senhora, o mais sábio e o mais virtuoso dos homens, era, se não mentem os velhos códices, profundamente feio; tinha o nariz esborrachado, a testa deprimida, as omoplatas côncavas -era disforme!2
No entanto, desde Platão até Xenofonte (com escala pelo Oráculos de Delfos) todos lhe gabam "a beleza de sua moral, a largueza de seu espírito, a doçura e segurança de suas relações".
Nenhum povo, minha senhora, foi mais artista do que o povo grego, nenhum possuiu como ele e em tão elevado grau, no dizer de Taine, o sentimento estético, o sentimento inato da beleza.
Aristófanes, o desabusado autor das "Nuvens" e dos "Cavaleiros", o fundador deste culto em que mais tarde pontificaram o inimitável Karv e o incomparável Eça - era um aborto.
Teócrito tinha a espinhela caída e o corpo era corcundo, mas ninguém reparava nas desgraças físicas do bardo de Siracusa ou do fabulista frígio quando lhe ouviam os bucólicos idílios e os conceituosos apólogos.
Arnóbio, Jâmblico, Orígenes e Beda, o Venerável; Apuleio -o do "Burro de Ouro", e Apolônio de Tiane -o taumaturgo; Paracelso, o do Homunculus, e Raymond Lulle -o da "Ars Magna"- foram tipos clássicos de fealdade, mas foram todos eles ou homens de espírito ou homens de entendimento.
Quer V. Exa. exemplos da fealdade heroica?
Bayard- o cavaleiro sans peur et sans reproche;3 Du Guescliu, o cavaleiro bretão, e todos os cavaleiros da Ordem da Calatrava, que não primavam por uma plástica impecável. O Condestável então tinha um rosto desconforme, e ele próprio se gloriava de ser o mais feio homem de França. Mas que de cutiladas memoráveis! Se isto lhe poderá V. Exa. perguntar aos Ingleses e Mouros daqueles tempos cavalheirescos.
O grande Conde -o herói de Rocroy: tinha o crânio excessivamente estreito, chegava a ser ridículo.
E a fealdade clássica de Guy de Patin?
E a clássica fealdade de Cyrano?
Aqueles dois narizes truculentos e rutilantes, desproporcionados, insólitos! Eram de uma fealdade agressiva, mas eram dois homens de espírito.
Recorda-se V. Exa. da cena do balcão?
J'eus comme Buckingham des souffrances muettes
Ah! C'est vrai; je suis beau, j'oubliais.4
Exemplos da fealdade artística?
A de Miguel Ângelo Buonarrotti -o arquiteto da Cúpula de S. Pedro de Roma, o pintor do Juízo Final e o escultor de Moisés, a sua fealdade já é de si olímpica.
A de Dante, o transmigrado do Inferno, de quem fugiam apavoradas as crianças de Ravena.5
E a de Beethoven, o compositor daquelas sonatas deliciosas que V. Exa. interpreta com tanto sentimento.
Científica? Filosófica?
A de Descartes. Tenho-lhe em casa um retrato (edição do Apostolado); um beque de águia colado ao meio do rosto entre dois olhinhos muito vivos e enérgicos. Ah! Minha senhora, como é feio o homem do "Discurso sobre o Método" e da "Geometria Geral"!
A de Kant -o da "Crítica do Juízo e da Razão Pura". Devo-lhe porém uma dívida de gratidão, muito só e muito feio conseguiu enfeixar o Belo em três leis sumárias; e o Feio... nunca!
V. Exa. conhece as leis do Belo de Kant...
I) O Belo é o que agrada universalmente e sem conceito
II) O Belo é essencialmente desinteressado
III) O Belo é uma finalidade sem fim.
E as leis do Feio, conhece-as V. Exa. por acaso?
V. Exa. é capaz de apontar uma definição, um traço; uma característica, em suma, que possa servir de base a uma Teoria Positiva do Feio? Não o é, eu aposto; e não o é por dois motivos:
1º Porque o Feio é indefinível.
2º Porque o Feio é pessoal; depende de uma série de circunstâncias a que não são estranhos o ponto de vista, o lugar geográfico, a influência do meio e até o momento histórico.
Outras fossem as circunstâncias mesológicas, étnicas, psicológicas e físicas, e V. Exa. não me teria recusado a honra daquela valsa.
Se até hoje nem sequer conseguiram os imbecis traçar uma linha neutra, uma linha divisória, um biombo sobre o qual se pudesse com segurança declarar: todos aqueles que se encontram além são Belos; todos aqueles que se encontram aquém são Feios! Daí a nossa superioridade: um campo de ação mais vasto; daí a minha audácia: pretender valsar com a baronesa de Melrosado!
Que V. Exa. me perdoe estas divagações filosóficas que não dizem com o meu temperamento nem estão nos meus hábitos. Reminiscências do tempo em que fui colaborador da "Revista de Arte e Filosofia".
Mas... reatemos o fio da meada. Diderot? Balzac? Comte? Spencer? Claude Bernard? Max Muller? Sainte Beuve? Tolstói? Nietzsche? Ibsen? Todos eles Feios, minha senhora, e alguns horríveis.
Propositalmente guardei para rematar este Rol de Feios -e que V. Exa. me agradeça a lembrança, a fealdade Irônica. Ah! Nos domínios da Ironia a regra é geral. Tomo para exemplos os três vultos mais simpáticos:
Heine -o ironista alemão;
Kavv -o sumo pontífice da verve gaulesa; e Eça, o incomparável. Trindade adorável e horripilante! O Intermezzo! Les Femmes! Os Maias! E tem-se dito tudo.
Não lhe falo de Mark Twain, Suwinburne, Spencer, porque não tenho de momento dados positivos que me assegurem de suas infelicidades físicas, mas estou eu que são da família.
Vê pois V. Exa. que se pode ser feio, sendo-se homem de espírito, de ação e entendimento.
Mas V. Exa. não foi simplesmente impensada.
V. Exa. foi cruel. V. Exa., procurando ferir-me, lançou uma mão cheia de cinza e fel sobre veneráveis carcaças do vosso próprio sexo.

Notas
1. Do "O Paiz" de 9 de Fevereiro. [Nota de Lima Barreto]
2. Petit Journal - História Genealógica dos Feios. [Nota de Lima Barreto]
3. "Sem medo e sem mácula."
4. Citação de "Cyrano de Bergerac", de Edmond Rostand: "Tive, como Buckingham, sofrimentos mudos/Ah! É verdade; sou belo, esquecia-me."
5. Araripe Junior - Divina Comédia. [Nota de Lima Barreto]

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

CNPq lança edital para apoiar Ano Internacional da Química

Da Agência Brasil


O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, vai apoiar projetos que popularizem a química na sociedade, em universidades, instituições de pesquisa, museus, centros de ciência, planetários, fundações, entidades e sociedades científicas, públicas ou privadas.

Para isso lançou edital de incentivo a projetos que promovam a divulgação científica e a melhoria da qualidade de educação em química. Os diversos benefícios dessa ciência para a humanidade serão comemorados em 2011 - Ano Internacional da Química. O objetivo é promover mundialmente o conhecimento e a educação em química em todos os níveis.

As propostas aprovadas serão financiadas com recursos estimados em R$ 2 milhões, do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT).

Os projetos devem ser encaminhados ao CNPq exclusivamente pela internet, por meio intermédio do Formulário de Propostas Online, disponível na Plataforma Carlos Chagas. As propostas devem ter prazo máximo de execução de 24 meses. Mais informações podem ser obtidas no site www.cnpq.br/editais/ct/2010/048.htm.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

"É bom para o jornalista ser mais observador do que participante"



Crédito da foto: Brooke Williams/Divulgação
Por Fernanda Ezabella, de Los Angeles, para a Folha de São Paulo

Malcolm Gladwell tem uma teoria e quer que você pense a respeito. 
Na verdade, são algumas teses e muitas histórias curiosas, coletadas em 14 anos de trabalho como repórter da revista "New Yorker".
"O que se Passa na Cabeça dos Cachorros", lançado neste mês no Brasil, reúne 21 dessas reportagens de fôlego. Algumas partem de um assunto banal e enveredam por caminhos quase científicos, como uma sobre por que não há tantas variedades de ketchup como de mostarda.
Outras fazem o inverso: falam de assuntos intrincados e chegam a conclusões compreensíveis para leigos. Exemplos disso são os textos sobre soluções inusitadas para os sem-teto nas grandes cidades ou sobre como a falência da Enron poderia ter sido evitada.
"Meus artigos são planejados como uma convocação, quero detonar uma discussão. Quero que as pessoas pensem sobre o que normalmente não pensam."
As reportagens são sempre tão comentadas que hoje o jornalista é abordado nas ruas de Nova York, onde mora. "Às vezes me dão ideias muito boas [para textos]", diz Gladwell, que viaja o mundo dando palestras (esteve em São Paulo duas vezes).
O nome do novo livro vem de um artigo sobre Cesar Millan, apresentador de "O Encantador de Cães" (exibido no Brasil no Animal Planet).
Malcolm, 47, tem outros três títulos, todos best-sellers nos EUA, onde já venderam mais de 8 milhões de cópias: "Fora de Série - Outliers", "O Ponto da Virada" (editados no Brasil pela Sextante, R$ 29,90, 48 págs. e 288 págs., respectivamente) e "Blink - A Decisão num Piscar de Olhos" (Rocco, esgotado).
Cada um destrincha algumas de suas ideias. Em "Outliers", ele afirma que o sucesso de um indivíduo "fora de série" é resultado de muitas variantes incontroláveis e não tanto do talento. Já em "Blink", fala do poder da intuição e sobre como analisamos pessoas sem pensar.

Como foi revisitar suas reportagens antigas para o novo livro?
Malcom Gladwell - Sempre que você olha para as coisas que escreveu, algumas o constrangem, outras o fazem muito feliz. Separei minhas favoritas, que passaram pela prova do tempo. Às vezes, seu pensamento muda ou você se sente mais inteligente sobre aquele assunto. É o mesmo caso com qualquer obra de arte. Às vezes, o tempo é generoso; às vezes, não.

Você se considera um "outlier" [fora de série]?
[Silêncio] Não, não acho. Sou alguém que escreve sobre eles. Quando uso o termo no livro, realmente me refiro a esses tipos de gênios, não a pessoas comuns como eu.

Qual a teoria, então, para explicar quatro best-sellers?
Acho que isso se chama sorte. E tive oportunidades enormes. Comecei numa época em que jornais ainda eram poderosos e gastavam com treinamento de jovens repórteres. Depois, fui para a "New Yorker". Só por estar lá escrevendo você ganha público e credibilidade. Meus editores são brilhantes, melhoram muito minhas matérias. Portanto, estive em situações muito mais fáceis de conseguir sucesso do que a maioria dos jornalistas. Acho importante reconhecer a sorte.

Você é meio jamaicano, nasceu na Inglaterra, foi criado no Canadá e mora em Nova York. Qual é a sua nacionalidade?
É engraçado, sou bem brasileiro, todo misturado, não? Mas eu me identifico como canadense, eu cresci lá. Mas é preciso entender que ser canadense é meio como ser brasileiro -você pode ser muitas coisas ao mesmo tempo.

Como essa mistura ajudou na sua carreira?
Acho que é vantajoso ser um "outsider" [intruso] nos EUA, você vê coisas de uma perspectiva mais fresca. Acho que é sempre bom para o jornalista ser um pouquinho de fora, mais observador do que participante.

Daria alguma dica para quem está começando agora no jornalismo?
Nos dias de hoje, é importante ter uma área de especialidade. Porque o jornalismo, para sobreviver, tem que ser inteligente, oferecer algo que não se acha em qualquer lugar. Se estivesse começando agora, adoraria ter uma especialidade.

O que fez a diferença para a "New Yorker", que conseguiu aumentar sua circulação em mais de 20% nos últimos dez anos?
Num momento em que o mundo ficou bem mais complexo, as pessoas perceberam que precisavam de fontes inteligentes de comentário em suas vidas. E é isso o que somos. Somos o lugar aonde as pessoas vão para entender o mundo.


Autor se define como "tradutor do mundo acadêmico"

Antes de chegar à "New Yorker", Malcolm Gladwell trabalhou quase uma década no "Washington Post" escrevendo sobre negócios e ciências. Eram mais de 200 matérias por ano, contra a média de oito que produz hoje.
"Sinto falta da agitação do jornal, do dia a dia das notícias. É uma grande diferença. Mas também gosto de escrever coisas com mais profundidade", diz Gladwell, que tem um contrato com a "New Yorker" de produzir entre 40 mil e 50 mil palavras por ano (este texto, por exemplo, tem 334 palavras).
Malcolm ficou conhecido por traduzir o economês de Wall Street e as pesquisas científicas para as massas. Um de seus artigos, que aparece no novo livro, explica o processo histórico da pílula anticoncepcional e de como ainda a usamos como um "remédio moldado pelos ditames da Igreja".
"Eu me vejo como um tipo de tradutor das coisas que se passam no mundo acadêmico", explica o jornalista. "Cada vez mais vejo que preciso deles. Eles me indicam a direção certa, me trazem coisas incríveis e me explicam o que não entendo."
Gladwell diz que leva entre um mês e seis semanas para escrever suas reportagens e que grava todas as suas entrevistas -uma assistente faz o trabalho de transcrição.
A fama também trouxe críticas ácidas. Há quem diga que suas teses são facilmente derrubadas ou superficiais e para isso foi criado até um termo, "Gladwellian" ("gladwelliano").
"Não acho que seja possível escrever de maneira que agrade a todos. É um fato constante na vida de qualquer escritor", rebate. "Quando acho que são válidas, tento incorporar as críticas e fazer um trabalho melhor. Ou as ignoro."
Seu livro "Blink" teve os direitos vendidos para virar filme com direção de Stephen Gaghan ("Syriana"), mas está parado no momento. "Eu me concentro nos meus textos. Hollywood é muito complicado", diz.


RAIO-X
MALCOLM GLADWELL

VIDA
Tem 47 anos, nasceu na Inglaterra e cresceu no Canadá

CARREIRA
É repórter da "New Yorker" desde 1996. Antes, trabalhou de 1987 a 1996 no jornal "Washington Post"

TÍTULOS
Foi eleito pela "Time" uma das cem pessoas mais influentes em 2005. Em 1999, ganhou o National Magazine Award