quarta-feira, 26 de maio de 2010

Música de professor da UEPB é sucesso na voz do cantor paraibano Capilé


Por Oziella Inocêncio, da ASCOM/UEPB

A música Xote do Novo Amor, de autoria do professor da UEPB, Antônio Guedes Rangel Junior, é um dos destaques do mais novo CD promocional do cantor paraibano Capilé. Intitulado "O Melhor Forró do Mundo", o compacto traz 24 faixas.  Rangel trabalha com música há mais de trinta anos, dividindo seu talento para a criação artística com as atividades que desenvolve na Instituição, onde ocupa também o cargo de pró-reitor de Planejamento.

Como disse, certa feita, o gênio Leonardo da Vinci (1452-1495), a simplicidade é o último grau de sofisticação. E foi justamente pela simplicidade que a letra de Xote do Novo Amor atraiu Capilé. "Escutei Junior cantar uma vez, durante um show do Projeto Autoral, no Bar e Restaurante Picanha 200, e achei linda demais, muito sonora", explicou o cantor. Esta é a primeira parceria realizada entre os artistas, mas outras deverão surgir ainda este ano, segundo planeja Capilé. Ele lançará um CD e um DVD no próximo semestre em celebração a suas duas décadas de trajetória musical e quer incluir outra criação de Rangel Junior no CD.

Capilé destacou que aquilo que mais apreciou em Xote do Novo Amor foi a poética da letra e também seu teor romântico. Ele aposta na nova música para embalar os corações apaixonados durante as festividades do Maior São João do Mundo. "A música já está fazendo bastante sucesso, sendo alvo de muitas solicitações dos fãs para tocá-la quando das minhas apresentações", disse. E, por falar em São João, a agenda do artista já está lotada nos meses de junho e julho.

Para Rangel Junior, que já teve músicas cantadas por Santana, Tom Oliveira e Sandra Belê, entre outros, configura-se como uma grande realização ver suas criações sendo interpretadas por artistas reconhecidos pela qualidade e profissionalismo. Afastado dos palcos, devido às inúmeras atividades que desempenha na UEPB, ele diz que a carreira de compositor lhe concede a oportunidade de estar presente nos espetáculos, mesmo na ausência. Rangel aprovou sobremodo Xote do Novo Amor na voz de Capilé. "Ele foi muito fiel a música, não deixando de dar aquele toque pessoal. É sempre especial ter seu trabalho admirado por alguém. Ainda mais quando se é escolhido por um intérprete de talento. É uma alegria", relatou satisfeito.

Rangel acrescentou que a realização efetiva da obra de arte acontece quando o trabalho do artista é reconhecido. O ápice aconteceria no momento em que o público aprende, compreende e canta a letra. "Meu anseio é despertar a sensibilidade das pessoas e que as minhas ideias possam circular de modo a emocioná-las", explicou. Ele explanou que suas composições buscam traduzir sentimentos universais. "Conto estórias minhas, de amigos meus, mas que também se confundem com aquilo que eu sinto, com as minhas impressões a respeito do mundo", salientou.

No próximo dia 03 de junho, no período noturno, Rangel fará uma apresentação ao vivo na praça localizada embaixo do Viaduto Elpídio de Almeida, em Campina Grande. Na oportunidade, os integrantes do Projeto Autoral gravarão um CD.

Mais sobre Rangel Junior

Paraibano de Juazeirinho, Rangel cresceu num ambiente a que se pode chamar de culturalmente rico. Desde criança, escutava o pai cantando samba e o avô declamando literatura de cordel e promovendo saraus em sua casa. Suas influências musicais são ecléticas, percorrendo habilmente desde o forró, xote, chorinho e galope, até o samba, bossa nova, bolero, valsa e coco.

 "Não somente a música, mas a arte como um todo, faz parte da minha vida desde a infância. Apanhava da minha mãe para parar de ler, porque deixava queimar a comida nas panelas. Vivia entretido nas minhas leituras. Naquela época, só havia homens em casa e também cuidávamos da cozinha", recordou.

E foi assim, à custa da degradação dos utensílios domésticos, da contemplação e do exercício do fazer da Arte que seu talento floresceu e o consolidou como um criador renomado no contexto artístico da contemporaneidade.

Mais sobre o Projeto Autoral

O Projeto Autoral, apoiado pelo Restaurante Picanha 200, na figura de Abdon Napy Charara Neto, é motivado pelo surgimento de novos autores e compositores que, com eficientes atuações, têm colocado em destaque a música paraibana. Deste modo, o movimento musical vem conquistando cada vez mais espaço cultural na Paraíba e no Nordeste do Brasil.

O Projeto envolve inúmeros artistas, a exemplo do Presidente da Associação Paraibana de Autores e Compositores e produtor musical do Projeto Autoral, Alquimides Daera, Tina Dias, Fidélia Cassandra, Gabriel Caminha, Júnior Cordeiro, Junior Meneses, Mano Marques, Gercino Agra e Roberto Araújo, entre outros.

Confira, abaixo, a letra de Xote do Novo Amor:


SE VOCÊ PENSA QUE EU VOU FICAR
MARCANDO PASSO PELA VIDA, AMOR,
TÁ ENGANADA, A VIDA
AGORA É COMO EU SEMPRE QUIS

SE VOCÊ PENSA QUE EU VOU FICAR
CHORANDO O LEITE DERRAMADO, AMOR
ERROU DE NOVO, AMOR,
AGORA EU CANTO E SOU FELIZ

QUEM VACILOU FUI EU
QUE ACREDITEI EM SEU CARINHO
FUI ENGANADO, SEI,
MAS RESOLVI FICAR SOZINHO.

O MUNDO É GRANDE E DEUS
ESCREVE CERTO EM LINHA TORTA
QUEM SABE ANDANDO POR AÍ
A QUALQUER HORA VEM BATER
UM AMOR NOVO EM MINHA PORTA.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Tenho Medo...


Por Rubem Alves ( Educador, escritor e psicanalista)

Um casal de amigos enviou-me um fax com um pedido: que lhes mandasse os nomes dos livros que tenho sobre o medo. Explicaram a razão do pedido: tinham medo... E pensavam que pela leitura daquilo que sobre o medo se escreveu como ciência e filosofia, o seu próprio medo ficaria mais leve.

Procurei fazer o que me pediam. Pus a funcionar os arquivos da minha memória, procurando identificar os livros sobre o medo que estariam na minha biblioteca. Inutilmente. Nenhum título me veio à mente. Dei-me conta de que não possuo nenhum livro sobre o medo. Sem livros a que recorrer, pus-me a pensar meus próprios pensamentos sobre o medo. E o primeiro pensamento que me veio foi o seguinte: Eu tenho medo. Eu sempre tive medo. Viver é lutar diariamente com o medo. Talvez esse seja o sentido a lenda de São Jorge, lutando com o dragão. O dragão não morre nunca. E a batalha se repete, a cada dia.

Como não pudesse ajudar meus amigos com bibliografia filosófica e científica, resolvi compartilhar com eles minha condição. O medo tem muitas faces. Lembro-me de que, bem pequeno ainda, acordei chorando, imaginando que um dia eu estaria sozinho no mundo. Foi uma dura experiência de abandono. Tive medo de não ser capaz de ganhar a minha vida quando meu pai e minha mãe partissem. Na verdade eu tinha era medo da orfandade, do abandono. Minha filha Raquel tinha não mais que três anos. Era cedo, bem cedo. Ela me acordou e me perguntou: “Papai, quando você morrer você vai sentir saudades?“ Essa foi a forma delicada que ela teve de me dizer que tinha medo da saudade que ela iria sentir, quando eu partisse. O rosto do medo mudou. Mas o sentimento continua o mesmo. Tenho medo da solidão. Há uma solidão boa. É a solidão necessária para ouvir música, ler, pensar, escrever. Mas há a solidão do abandono. Buber relata que, numa língua africana, a palavra para dizer “solidão“ é composta de uma série de palavras aglutinadas que, se traduzidas uma a uma, dariam a frase: Lá, onde alguém grita: Oh! mãe! Estou perdido! O trágico dessa palavra é que o grito nunca será ouvido, nunca terá resposta. Tenho medo da degeneração estética da velhice. Tenho medo que um derrame me paralise, deixando-me sem meios de efetivar a decisão que seria sábia e amorosa: partir. Tenho medo da morte. Antigamente esse medo me atormentava diariamente. Depois ele se tornou gentil. Ficou suave. Passei a compreender que a morte pode ser uma amiga. Veio-me à mente uma frase que se encontra na oração Pelos que vão morrer, de Walter Rauschenbusch: “Ó Deus, nós te louvamos porque para nós a morte não é mais uma inimiga, e sim um grande anjo teu, nosso amigo, o único a poder abrir, para alguns de nós, a prisão da dor e do sofrimento e nos levar para os espaços imensos de uma nova vida. Mas nós somos como crianças, com medo do escuro...“ (Orações por um mundo melhor, Paulus ). O Vinícius disse a mesma coisa de um outro jeito: “Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio pelo momento a vir, quando, emocionada, ela virá me abrir a porta como uma velha amante, sem saber que é a minha mais nova namorada.“ Boas são as palavras das orações e dos poemas: elas têm o poder de transfigurar a face do medo. Meu medo da morte ficou suave porque o seu terror foi amenizado pela tristeza. Ah! Mário Quintana! Como eu gosto de você, velho que nunca deixou de ser menino! Você sabia tirar o terror do medo rindo diante dele. Você lidava com seus medos como se fossem brinquedos. Delicioso, esse brinquedinho: “Um dia...pronto!...me acabo./ Pois seja o que tem de ser./ Morrer: que me importa? O diabo é deixar de viver!“ Isso mesmo. O terrível não é morrer; é deixar de viver. O terrível não é o que está à frente; é o que deixamos para trás. É um desaforo ter de deixar essa vida! Zorba, quando percebeu que seu momento chegara, foi até a janela, olhou para as montanhas no horizonte, pôs-se a relinchar como um cavalo e gritou: “Um homem como eu teria de viver mil anos!“ E eu pergunto: “Por que tanta modéstia? Por que só mil?“

Mas tenho medo do morrer. Medo da morte e medo do morrer são coisas distintas. O morrer pode ser doloroso, longo, humilhante. Especialmente quando os médicos não permitem que o corpo que deseja morrer, morra.

Tenho medo também da loucura. Não há sinal algum de que eu vá ficar louco. Mas nunca se sabe! Muitas mentes luminosas ficaram insanas. E tenho medo de que algo ruim venha a acontecer com meus filhos e netas. Sábias foram as palavras daquele homem que, no livro onde deveriam ser escritos os bons desejos à recém-nascida neta do rei, escreveu: “Morre o avô, morre o pai, morre o filho...“ Enfurecido, o rei lhe pede explicações. “Majestade: haverá tristeza maior para um avô que ver o seu filho morrer? E para o seu filho: haveria tristeza maior que ver sua filhinha morrer? É preciso que a morte aconteça na ordem certa...“ Tenho medo de que a morte não aconteça na ordem certa.

Somos iguais aos animais, em que as mesmas coisas terríveis podem acontecer a eles e a nós. Mas somos diferentes deles porque eles só sofrem como se deve sofrer, isto é, quando o terrível acontece. E nós, tolos, sofremos sem que ele tenha acontecido. Sofremos imaginando o terrível. O medo é a presença do terrível-não-acontecido, se apossando das nossas vidas. Ele pode acontecer? Pode. Mas ainda não aconteceu e nem se sabe se acontecerá.

Curioso: nós, humanos, somos os únicos animais a ter prazer no medo. A colina suave não seduz o alpinista. Ele quer o perigo dos abismos, o calafrio das neves, a sensação de solidão. A terra firme, tão segura, tão sem medo, tão monótona! Mas é o mar sem fim que nos chama: “A solidez da terra, monótona, parece-nos fraca ilusão. Queremos a ilusão do grande mar, multiplicada em suas malhas de perigo...“ (Cecília Meireles).

A pomba, que por medo do gavião, se recusasse a sair do ninho, já se teria perdido no próprio ato de fugir do gavião. Porque o medo lhe teria roubado aquilo que de mais precioso existe num pássaro: o vôo. Quem, por medo do terrível, prefere o caminho prudente de fugir do risco, já nesse ato estará morto. Porque o medo lhe terá roubado aquilo que de mais precioso existe na vida humana: a capacidade de se arriscar para viver o que se ama.

O medo não é uma perturbação psicológica. Ele é parte da nossa própria alma. O que é decisivo é se o medo nos faz rastejar ou se ele nos faz voar. Quem, por causa do medo, se encolhe e rasteja, vive a morte na própria vida. Quem, a despeito do medo, toma o risco e voa, triunfa sobre a morte. Morrerá, quando a morte vier. Mas só quando ela vier. Esse é o sentido das palavras de Jesus: “Aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á. Mas quem perder a sua vida, a encontrará.“ Viver a vida, aceitando o risco da morte: isso tem o nome de coragem. Coragem não é ausência do medo. É viver, a despeito do medo.

Houve um tempo em que eu invocava os deuses para me proteger do medo. Eu repetia os poemas sagrados para exorcizar o medo: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum...“ “Mil cairão à tua direita, dez mil à tua esquerda, mas nenhum mal te sucederá...“ A vida me ensinou que esses consolos não são verdadeiros. Os deuses não nos protegem do medo. Eles nos convidam à coragem de viver a despeito dele.


Aperitivos

1. Talvez essa seja a razão por que amamos o circo: porque nele podemos sentir medo sem correr perigo: voamos com os trapezistas, equilibramo-nos no fio de aço, enfrentamos tigres e leões... Experimentamos, na fantasia, o medo diante do terrível, assentados num lugar seguro...

2. Bachelard: a delicadeza das suas meditações sobre a luz da vela acontece perante o medo de que um vento mais forte apague a chama: “Sim, a luz de um olhar, para onde ela vai quando a morte coloca seu dedo frio sobre os olhos de um morto?“ E no último parágrafo ele pergunta: “... será que ainda há tempo...?“

3. Drummond: “Eterno (mas até quando?) é esse barulho em nós de um mar profundo. Naufragamos sem praia; e na solidão dos botos afundamos...“ E o Vinícius, que confessava o “terrível medo de renascer dentro da treva.“ (Correio Popular, Caderno C, 22/07/2001.)

segunda-feira, 24 de maio de 2010

O Sexo Frágil




Por Drauzio Varella

Fico admirado com a onipotência masculina.
Quando pequenos nos ensinaram que homem não chora, que Deus nos criou corajosos com a finalidade de protegermos as mulheres, coitadas, seres frágeis prestes a esvair-se em lágrimas à menor comoção. Como sobreviveriam elas não fosse a nossa existência?
Por acreditar cegamente nesses ensinamentos, assumimos o papel de legítimos representantes do sexo forte, mesmo que as evidências nos desmintam desde a mais tenra infância.
Não é exagero, leitor. As meninas começam a falar muito antes. Aos dois anos já constroem sentenças com sujeito, verbo e predicado, enquanto nessa idade mal conseguimos balbuciar meia dúzia de palavras que só a mamãe compreende.
Você dirá que somos mais ágeis e mais orientados espacialmente. E daí? Qual a vantagem de virar cambalhota e plantar bananeira?
O desenvolvimento intelectual delas é tão mais precoce que alguns neuropediatras consideram injusto colocar meninos e meninas de sete anos na mesma sala de aula: deveríamos ficar um ano para trás.
Na puberdade, elas viram mocinhas de formas e gestos graciosos. Nós nos transformamos em quimeras desengonçadas, metade criança, metade homem com penugem no bigode, espinhas em vez de barba, voz em falsete e loucura por futebol.
Não é a toa que as adolescentes suspiram pelos rapazes mais velhos e nem se dignam a olhar para nossa cara quando nos derretemos diante delas.
No casamento, somos feitos de gato e sapato. Podemos estar cobertos de razão, gritar, espernear e esbravejar -no fim a vontade delas prevalecerá. É guerra perdida. São donas de uma arma irresistível: a tenacidade para repetir cem vezes a mesma ladainha. Com o passar dos anos, aprendemos a fazer logo o que elas querem; sai mais em conta. Nós nos cansamos e desistimos de reivindicar um direito, elas jamais.
Faça um teste. Combine com um amigo um jantar com as mulheres sem falar com elas. A chance de dar certo é zero. Agora inverta, as duas mulheres marcam uma noite para o tal jantar sem avisá-los. Você chega em casa louco para vestir o bermudão e ver seu time na TV. Qual a probabilidade de a televisão passar a noite desligada?
Você dirá que pelo menos somos mais saudáveis, enquanto elas vivem cheias de achaques. De fato, nas mulheres a cabeça dói, o útero incomoda e o intestino não funciona, mas as desvantagens acabam aí.
Durante o desenvolvimento embrionário, para construirmos ossos mais robustos e músculos mais potentes, desviamos parte da energia que seria utilizada para fortalecer o sistema imunológico. Por essa razão, em todas as sociedades o homem está mais sujeito a processos infecciosos graves.
No Brasil, arcamos com mais de 60% da mortalidade geral. A cada três pessoas que perdem a vida, duas são do sexo masculino.
Os ataques cardíacos vêm em primeiro lugar. Começamos a correr risco a partir dos 45 anos; as mulheres, só ao atingir a menopausa. Depois vêm os derrames cerebrais, seguidos pelos homicídios. Essa distribuição se repete em todas as regiões do país.
Fumamos e bebemos muito mais. Perto de 90% dos óbitos por acidentes de trânsito, quedas e afogamentos causados pelo abuso de álcool ocorrem entre nós.
Somos mais sedentários e desleixados com a saúde. Tratamos o corpo a pontapé e fugimos dos exames preventivos como o diabo da cruz. Ir ao médico? Só quando chegarmos às últimas ou se for para ficarmos livres da insistência das mulheres que nos cercam.
Em condições sociais comparáveis, mulheres vivem mais do que homens em todos os países do mundo. No Brasil, nossas vidas duram, em média, 7,6 anos menos. A longevidade feminina é visível: compare o número de viúvas com o de viúvos que você conhece.
Ao perder a companheira, o homem de idade fica desamparado. Se não casar imediatamente e não tiver filhas ou irmãs por perto, estará perdido, é incapaz de pregar um botão ou de fritar um ovo. Na situação contrária, a mulher poderá sofrer, sentir falta, mas cuidará da rotina doméstica sem dificuldade.
Morreremos mais cedo e deixaremos nossas economias. Livres da repressão machista e do trabalho que lhes dávamos, elas terão 7,6 anos para fazer excursões turísticas e lotar vans para ir a shoppings e teatros, animadas e conversadeiras. Para muitas, não será fácil esconder o ar de felicidade plena.

 

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Dia sem mexicanos nos EUA: protesto contra a lei anti-imigração

Do Portal Vermelho

Comerciantes da cidade de Nuevo Laredo, na fronteira do México com os Estados Unidos, divulgaram esta semana o programa "Um dia sem mexicanos nos EUA", protesto marcado para esta segunda-feira  (24) contra a questionada lei contra os imigrantes no estado do Arizona.
 
O líder da Câmara Nacional de Comércio (Canaco) de Nuevo Laredo, Emilio Girón, disse que o objetivo do programa é fazer com que os residentes mexicanos da região não visitem o país vizinho. "Queremos que as autoridades americanas vejam que estamos unidos e que eles precisam de nós, tanto como força de trabalho como consumidores", disse Girón.

No último passado 27 de abril a governadora do Arizona, Jan Brewer, aprovou a Lei SB1070, que entra em vigor no final de julho. A norma faz dos imigrantes ilegais criminosos e permite que a polícia detenha sem ordem judicial qualquer pessoa, por conta de sua aparência ou por suspeita de que seja um imigrante.

Durante "o dia sem mexicanos", os comerciantes entregaram panfletos nas imediações da Ponte Internacional Número Uno, que liga Nuevo Laredo a Laredo, no estado americano do Texas.

Girón explicou que a ideia é criar consciência entre a comunidade fronteiriça sobre a necessidade de demonstrar a unidade do povo mexicano contra das leis migratórias dos EUA.

O dirigente destacou que o convite para participação no projeto continuará durante este fim de semana, e a iniciativa começará a ser colocada em prática na segunda-feira pela manhã.

O presidente do México, Felipe Calderón, defendeu no Congresso norte-americano os imigrantes e pediu aos EUA que encarem desafios como a imigração ilegal, o tráfico de drogas e a integração da América do Norte. O presidente condenou novamente a lei no Arizona que, segundo ele, introduz a "terrível ideia de discriminação racial".

Para ele, a imigração ilegal do México para os EUA não é positiva. "Nossas comunidades perdem o melhor de sua gente: a mais trabalhadora, a mais dinâmica, seus líderes", explicou. Além disso, Calderón assegurou que reconhece o direito de qualquer país de fazer cumprir suas leis, mas lembrou que o necessário é "regular um sistema que não funciona".

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Não Mate a Paraíba de Vergonha


Por Noaldo Ribeiro, renomado ativista cultural de Campina Grande

Durante a semana passada estive na capital. Fiquei impressionado com a beleza das obras de arte que estão sendo postas em pontos estratégicos da cidade, a exemplo da que foi encravada nas margens da Lagoa, fato que enriquece ainda mais aquele cartão-postal da cidade.

Fui tomado por um sentimento de euforia e inveja. Euforia por constatar que na velha Filipéia está sendo construída uma paisagem urbana vanguardeira, tendendo a tornar-se em breve num belo museu a céu a aberto. Inveja por, sendo de Campina Grande, vê na mesma a crescente degradação do patrimônio histórico e artístico, além da completa ausência de políticas públicas nessa a área.

A inveja continua, mas o sentimento de euforia logo se foi, também, quando ao ler em blogs locais as queixas de uma senhora, cujo nome não gravei, sobre essas ações inusitadas levadas a cabo pela prefeitura de João Pessoa.

Essa inacreditável criatura, inacreditavelmente portadora de um mandato conferido pela população (vim a saber posteriormente) alega que as esculturas não se afinam com o sentimento religioso dos pessoenses.

Mesmo retardado, deduzir em questão de segundos que se tratava de uma fanática religiosa, seja evangélica ou carola de sacristia, sem, no entanto descartar a hipótese (parece mais plausível) de que se vendo incompetente para abrir um debate político, vale-se da exploração das superstições alheias para tirar proveito da conjuntura eleitoral que se avizinha – atitude a meu ver compatível com o atraso dos tempos medievais.

Mesmo não conhecendo a vereadora, nem por nome ou fotografia, imagino-a como uma senhora de idade média.

Mais surpreso, ainda, fiquei ao verificar que alguns jornalistas (teoricamente formadores de opinião) seguem – talvez por motivo igual – a posição desvairada da edil.

Diante desse quadro só me resta fazer um apelo desesperado: não mate a Paraíba de vergonha. Se isto chegar aos ouvidos da mídia nacional na certa seremos ridicularizados. Se assim acontecer, tomara que não, serei obrigado a aplaudir as críticas e chacotas dos sulistas.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Existe algum problema em ser gay?


Por Beth Torres (jornalista, formada pela UFPB, a profissional já trabalhou em diversos periódicos do Estado)
Tinha feito uma promessa que não rebateria atos praticados por pessoas que não tem o que dizer, mas não consegui ficar calada diante de mais uma aberração disseminada pelo ex-deputado federal Walter Brito Neto (PRB). Ele, através da sua assessoria e do twitter, enviou matéria e comentários parabenizando o presidente da República em exercício, José Alencar, por não ter assinado o decreto que cria o ‘Dia Nacional Contra a Homofobia’.

O ex-parlamentar - que foi cassado (perdeu o mandato que não conquistou através do voto) por praticar infidelidade partidária – comemorou a não assinatura do decreto, simplesmente, porque é um homofóbico. Ele disse ainda que enviará uma carta de protesto contra a assinatura do decreto, que ficou para a próxima semana, ao presidente Lula (PT).

O melhor de toda essa história é a justificativa dada por Walter Brito Neto sobre o porquê de não ser necessária a “invenção” deste dia. “A impunidade e a criminalidade atingem a todos os brasileiros. Além disso, os homossexuais são bem menos assassinados do que a população geral. Nos últimos 25 anos mais de 800 mil brasileiros foram assassinados. Desse número, quantos eram gays? Se fossem 10%, o número de homossexuais assassinados seria 80 mil. Se fosse apenas 1%, 8 mil assassinatos homossexuais estariam registrados. Entretanto, nos últimos 25 anos, de acordo com informação do próprio Grupo Gay da Bahia, apenas 2.511 homossexuais foram assassinados”.

E a justificativa, que é uma pérola, não para por aí. O ex-parlamentar continua: “Ademais, os homossexuais, muitas vezes, se expõem nas noites promíscuas e ficam sujeitos, tanto quantos aqueles que se dão as práticas libertinas, a sofrerem violências de todos os tipos; ou seja, desse número bem pequeno de homossexuais assassinados, muitos estavam em zonas criminais, a altas horas da madrugada, em ambientes de drogas e prostituição. Sem mencionar o fator do crime passional, onde o assassino é muitas vezes amante da vítima, tão homossexual quanto ela”.

Walter ainda argumenta que a juventude pode ser facilmente influenciada pelos movimentos gays. “O movimento pró-homossexualismo pode ser tão devastador e igualmente agressivo, castrando nosso direito fundamental de se posicionar livremente sobre quaisquer assuntos e educarmos nossos filhos da maneira que nos aprouver, conferindo dignidade e respeito”.

Desculpem compartilhar essas atrocidades com vocês, mas não pude guardá-las só para mim. Não sei se isso foi uma estratégia para conseguir espaço na mídia, pois quem não tem o que dizer, não é liderança política e não tem serviço prestado, costuma dizer absurdos para virar notícia, mas o problema é que ele abordou um assunto sério e delicado e, por isso, precisa ser rebatido.

Nunca imaginei que da cabeça de uma única pessoa poderia sair tantas besteiras, tanto preconceito e tanta falta do que dizer. Ex-deputado, pelo que notei, o senhor acha normal que uma pessoa seja morta porque tem uma opção sexual diferente daquela que o senhor acha normal. Para mim o senhor é tão criminoso quanto aqueles que matam homossexuais, pois se utiliza do espaço que tem para disseminar preconceitos.

Não estou dizendo aqui que todos devem concordar ou defender o homossexualismo, mas acredito que se deve ter respeito aos seres humanos e a suas decisões. Quanto ao Dia Nacional Contra a Homofobia, acho que precisamos sim de um marco para lembrar e combater o absurdo que é discriminar, agredir ou matar alguém por se relacionar com pessoas do mesmo sexo. Esse dia, ex-deputado, também servirá para combater pessoas como o senhor que tem um pensamento pequeno e atrasado.

Acho que o senhor não tem conhecimento que na Alemanha nazistas homossexuais foram mortos pelo simples fatos de serem homossexuais. Pelo que vejo o senhor concorda e defende as práticas de Adolf Hitler. Isso me assusta! O triângulo rosa (símbolo gay), ex-parlamentar, foi usado nos campos de concentração nazistas para indicar quais homens haviam sido capturados por práticas homossexuais.

A minha alegria seria que uma pessoa como Walter Brito Neto não conseguisse se eleger no pleito de outubro próximo. A Paraíba não merece ter como representante alguém que pensa tão pequeno e que ainda se ocupa em disseminar preconceitos. Ninguém tem o direito de achar normal matar uma pessoa por ser homossexual. Eu defendo, sem medo de sofrer represálias, que pessoas como o ex-deputado federal sejam abolidas da vida pública.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Coletânea resgata lado poeta de Machado de Assis


Por Marco Rodrigo Almeida, da Folha de São Paulo  

Mesmo quem não é especialista em literatura conhece frases como "Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis" ou "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria", ambas de "Memórias Póstumas de Brás Cubas".

Muito mais difícil é achar quem saiba um verso do mais importante escritor brasileiro. Também no meio acadêmico a pesquisadora Rutzkaya Queiroz dos Reis constatou essa situação quando começou a estudar as poesias de Machado de Assis (1839-1908) em 1999.

Tal "estranheza" motivou sua tese de mestrado e ganha as páginas de livro com o lançamento de "A Poesia Completa". O livro traz 214 poemas, entre obras originais e traduções feitas por ele, além da recepção dos críticos da época.

Há ainda uma paródia da "Divina Comédia", de Dante, atribuída a Machado e publicada só agora em livro. Recuperada em 2008 pelo pesquisador Eugêncio Vinci de Moraes, a poesia foi escrita em 1874 na revista "Semana Ilustrada".

Outra preocupação da pesquisadora foi corrigir os inúmeros erros dos quais a produção poética de Machado foi vítima em edições anteriores. Segundo ela, é comum encontrar poemas com versos suprimidos e palavras trocadas. Apesar de relegada a um segundo plano na obra de seu autor, o "lado poeta" foi constante na carreira de Machado. Em 1854, aos 15 anos e muito antes de escrever os primeiros romances, publicou um soneto no "Periódico dos Pobres".

Dez anos e muitos versos depois, surge o primeiro livro de poemas, "Crisálidas". Os elogios, se não foram unânimes, foram os melhores que o Machado poeta recebeu em vida: havia ali, segundo um crítico da época, "robustas esperanças da poesia nacional".

Os seguintes, "Falenas" (1870) e "Americanas" (1875), porém, não corresponderam às expectativas. Eram tidos como de estilo "tardio e inadequado". Os elogios só voltariam em maior número no último volume poético de Machado, "Poesias Completas" (1901), que, aos livros anteriores, acrescentava as obras de "Ocidentais", hoje tidas como suas melhores.

Mesmo assim, com sérias restrições. Em texto da época, Múcio Teixeira disse que Machado encheu 376 páginas de versos "sem poesia" e de "uma monotonia soporífera". "Pelos parâmetros da crítica", avalia Reis, "Machado, de um modo geral, ficou com a imagem de ser, além de mau poeta, um poeta conservador". Antonio Carlos Secchin, poeta e membro da Academia Brasileira de Letras, diz que o Machado poeta foi eclipsado pelo "peso arrasador" do prosador.

"Ele tem apuro técnico, faz uma poesia mediana. Acontece que os poemas são sempre medidos pelos romances e, aí, a comparação é imensamente desfavorável aos poemas." Valentim Facioli, professor da USP e dono da editora Nankin, é um dos raros defensores dos versos machadianos.

"Machado não embarcava nos valores nacionalistas ou paisagistas. Como nos romances, era mais um poeta do pensamento do que da emoção. Por isso não foi compreendido". Acrescenta ainda que a poesia machadiana é rica em formas, rimas e metáforas. "No século 19, apenas Gonçalves Dias e Cruz de Souza foram maiores que ele na poesia brasileira".

A POESIA COMPLETA
Autor: Machado de Assis
Organização: Rutzkaya Queiroz dos Reis
Editora: Nankin/Edusp
Quanto: R$ 100 (752 págs.)