sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Quando dá branco

Por Juliana Vines, da Revista Equilíbrio

Esqueceu uma coisa importante? Normal. Qualquer pessoa saudável, em qualquer idade, pode ter lapsos.
"Não existe memória absoluta", diz Iván Izquierdo, neurocientista argentino radicado no Rio Grande do Sul, autor de "Memória". 
"Brancos" acontecem por motivos comuns: nervosismo, estresse, insônia, cansaço, excesso de informações.
"O estresse faz com que seja liberado o hormônio cortisol, que age no cérebro impedindo a evocação de memórias", explica Izquierdo. São exemplos cantores que se esquecem das letras e estudantes que não se lembram de nada na hora da prova.
Se for crônico, o estresse também pode atrapalhar a aquisição de informações.
"A memória é uma função cognitiva dependente dos processos de atenção. Qualquer coisa que interfira na concentração pode prejudicá-la", afirma Mônica Sanches Yassuda, neuropsicóloga e pesquisadora.
A falta de sono é uma das principais inimigas da boa memória. De acordo com o neurologista Luciano Ribeiro Pinto Júnior, dormir pouco resulta em perda de atenção no dia seguinte, além de atrapalhar no armazenamento de informações anteriores.
"As lembranças são consolidadas quando dormimos, principalmente no terço final da noite, no sono REM [em que acontecem os sonhos]."
O problema é que muitas pessoas têm cada vez menos episódios de sono REM. "Dormimos mais tarde e acordamos mais cedo. Isso faz com que sejamos privados desse tipo de sono. A longo prazo, isso pode até causar perda irreversível da memória."
O consumo de álcool também pode prejudicar as funções cerebrais de forma irreversível. É a chamada demência alcoólica, diferente daquela "amnésia" que acontece depois de uma bebedeira.
A demência aparece ao longo dos anos e é comum entre dependentes químicos, explica a psiquiatra Carla Bicca, da Abead (Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas).
Já a "amnésia alcoólica" aparece uma vez ou outra. "Nem todo mundo tem esse apagão, ele não deve ser comum. Se você tem sempre, é um alerta: ou é mais vulnerável ou está exagerando."

AMNÉSIA PROTETORA
O esquecimento não é ruim. Para a neurologia, é tão importante quanto a lembrança. "Para recordar seletivamente o que interessa você tem que inibir, bloquear ou esquecer certas coisas. É inútil lembrar-se de tudo", diz o neurologista Benito Damasceno. 
A inibição de uma lembrança pode acontecer quando o fato é perturbador ou traumático. "É uma forma de a pessoa seguir em frente", afirma Damasceno.
A amnésia de fatos ruins também é vista pela psicanálise como normal. "Faz parte do equilíbrio da mente deixar alguns fatos no âmbito do inconsciente. Mas, se houver um esquecimento grande, pode indicar um desequilíbrio que precisa ser trabalhado em terapia", diz a psicanalista Giselle Groeninga.
Às vezes, esquecer parece com mentir. Mas, nos casos mais comuns, é tudo culpa do cérebro, que não só não grava com perfeição (daí os lapsos), como nos engana criando falsas lembranças.
Isso tudo só é preocupante quando os apagões são frequentes e interferem no cotidiano -e você se esquece de pagar uma conta, digamos.
Esse lapso é mais comum depois dos 45 anos e pode ser sinal de perda cognitiva, diz a neuropsicóloga Ivanda Tudesco. "O alerta é a mudança de comportamento: a pessoa que nunca esquecia panela no fogo e passa a esquecer."
Em pessoas mais jovens, é comum que os esquecimentos sejam causados por excesso de tarefas e desorganização. "Passar a usar lembretes e agenda já ajuda. Todo mundo precisa de lembrete, é um recurso saudável e fácil."

SEM RECEITA
Não tem uma fórmula para melhorar a memória. Mas sempre é bom reforçar quegravar um fato depende de concentração e interesse.
"Estar motivado aumenta o tônus cerebral, criando uma situação ótima para que informações sejam registradas", diz Benito Damasceno.
Uma dica é pensar no significado da informação e tentar fazer o maior número de associações possíveis. "Se associarmos vários sentidos, fica mais fácil de lembrar."
Usar as informações várias vezes também faz com que exista mais chances de aquela memória ser consolidada.
Jogos e exercícios de treinamento ajudam, mas não resolvem o problema, segundo a neuropsicóloga Gislaine Gil, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
"Não adianta a pessoa ficar boa em um jogo e continuar perdendo a chave de casa. É mais útil você tentar lembrar antes de dormir o que fez durante o dia do que jogar jogo da memória."
Ela dá algumas orientações de organização. "Faça uma lista do que você precisa fazer no dia, organize a gaveta e a mesa de acordo com o uso dos objetos e guarde coisas que somem (óculos, chave) no mesmo lugar."

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

EUA: projeto antipirataria perde força após protesto virtual

                             Manifesto - Apagão da Wikipédia liderou protestos contra projetos de lei antipirataria


Do Portal Terra

Proeminentes congressistas americanos retiraram, ontem (19), o apoio à lei antipirataria discutida no Senado dos Estados Unidos após forte pressão de sites como Google e Wikipedia. Entre os que mudaram de posição estão dois dos propositores dos projetos de lei, os senadores Marco Rubio, da Flórida, e Roy Blunt, do Missouri. Vários outros senadores e deputados também retiraram o apoio às propostas.
Na quarta, a enciclopédia eletrônica Wikipédia tirou do ar sua versão em inglês por 24 horas, deixando na página inicial os dizeres: "Imagine um mundo sem conhecimento". O Google não saiu do ar, mas inicialmente colocou uma tarja preta na homepage de seu site americano; depois, postou, abaixo da linha de busca, o link "Diga ao Congresso: Por favor, não censure a internet!".
O protesto é direcionado aos projetos de lei Sopa (Stop Online Piracy Act, ou Lei para Parar com a Pirataria Online) e Pipa (Protect Intellectual Property Act, ou Lei para Proteger a Propriedade Intelectual), que estão sendo debatidos, respectivamente, na Câmara dos Representantes (deputados federais) e no Senado dos Estados Unidos.
As propostas opõem produtores de conteúdo - como emissoras de TV, gravadoras de músicas, estúdios de cinema e editoras de livros, que se sentem lesadas pela pirataria - às empresas de tecnologia do Vale do Silício, que alegam que os projetos ferem a liberdade inerente à internet e dão excessivo poder para quem quiser tirar websites de circulação.
Outros sites, como o o blog tecnológico Boing Boing, também participaram do "apagão", o maior em envergadura de que se tem notícia no mundo digital. O portal de notícias Politico estima que 7 mil sites participaram do protesto. No outro lado, o presidente da Motion Picture Association of America (MPAA), Chris Dodd, classificou o protesto como "irresponsável".
"Empresas de tecnologia estão recorrendo a manobras que punem seus usuários para transformá-los em seus peões corporativos, ao invés de vir para a mesa a fim de encontrar soluções para um problema que todos agora parecem concordar que é real e muito prejudicial ", disse Dodd.

Falta de consenso
Os projetos seriam examinados pelo Senado na próxima semana. O presidente da Câmara dos Representantes (equivalente à Câmara dos Deputados), o republicano John Boehner, já reconheceu, no entanto, que "falta consenso" nesse momento para os projetos terem seguimento no Congresso.
O porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, admitiu que o problema da pirataria virtual precisa ser encaminhado, mas "de forma que não infrinja a liberdade e a internet aberta". A ONG Repórteres Sem Fronteiras se juntou ao protesto, dizendo que tais leis "sacrificam a liberdade de expressão online em nome de combater a pirataria".
Outros gigantes da internet como a rede social Facebook e o microblog Twitter também manifestaram sua oposição. O cofundador do Twitter, Jack Dorsey, pediu a seus 1,8 milhão de seguidores para dizer "Não ao Congresso". O cofundador do Facebook, Mark Zuckerberg, disse que "continuará a se opor a qualquer lei que fira internet".

Penas para pirataria
Os projetos, que tentam combater especialmente a proliferação de cópias piratas de filmes e programas de TV e outras formas de pirataria de conteúdo midiático em servidores internacionais, propõem penas de até cinco anos de cadeia para pessoas que sejam condenadas por compartilhar material pirateado dez ou mais vezes ao longo de seis meses.
As propostas também preveem punições para sites acusados de "permitir ou facilitar" a pirataria. Estes podem ser fechados e banidos de provedores de internet, sistemas de pagamento e anunciantes, em nível internacional. Em tese, um site pode ser fechado, a pedido do governo dos EUA ou de geradores de conteúdo, apenas por manter laços com algum outro site suspeito de pirataria.
Além disso, o Sopa, se aprovado, também exigiria que ferramentas de busca removessem os sites acusados de pirataria de seus resultados

Jogos políticos
Analistas dizem que o "apagão" da quarta é o primeiro grande teste das empresas do Vale do Silício em uma batalha contra uma indústria muito mais organizada, a de mídia e entretenimento. Para o New York Times, a amplitude do protesto da quarta marca uma "maturidade política" de um setor - o de internet - que é "relativamente novo e desorganizado e que em geral se manteve distante de lobbies e outros jogos políticos de Washington".
"Pela primeira vez, está claro que a legislação pode ter um impacto direto na habilidade da indústria (de internet) em funcionar", disse ao jornal nova-iorquino a diretora-gerente da organização New York Tech Meetup, Jessica Lawrence. "Foi um chamado de alerta."
Ao mesmo tempo, o senador Patrick J. Leahy, democrata e autor de projetos de proteção de direitos autorais na web, acusou os opositores do Pipa e do Sopa de tentarem "criar (clima de) medo" ao realizar o "apagão digital". "Proteger criminosos internacionais (em referência aos piratas de conteúdo) em vez de proteger os direitos autorais americanaos é irresponsável e custará empregos", afirmou em comunicado.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Como nasce uma ditadura

Por Eleonora de Lucena, da Ilustríssima

RESUMO Coletânea em três volumes, estruturados por regiões do planeta, busca explicar de que maneira regimes autoritários são legitimados e como seus valores transparecem nas sociedades. Ensaios abrangem da Alemanha nazista à Tunísia que, nos últimos anos, tornou-se precursora da Primavera Árabe.

NOS ÚLTIMOS MESES, a democracia tem sido colocada em xeque de forma explícita pelos mercados financeiros. Na Europa, a simples ideia de um plebiscito para aprovar medidas de arrocho à sociedade levou as finanças ao chilique. Governos foram derrubados, e os novos indicados prometem cumprir a cartilha para garantir os ganhos privados e os sacrifícios públicos.

Lideranças à direita ganham relevo. Manifestações e greves se esparramam. Nos Estados Unidos, os protestos contra a desigualdade -os vários Ocupe Wall Street- são enxotados dos espaços públicos. A Primavera Árabe apenas engatinha: as eleições começam, mas não esvaziam as praças nem detêm confrontos violentos.

No Brasil, foi criada a Comissão da Verdade para investigar os crimes das ditaduras. Enquanto isso, muitas empresas estão preocupadas com o crescimento na China. Uma desaceleração econômica e/ou uma desestabilização política puxada pela classe média ascendente poderia ter impacto significativo por aqui.

Todos esses temas encontram algum tipo de reflexão histórica na leitura de "A Construção Social dos Regimes Autoritários - Legitimidade, Consenso e Consentimento no Século 20", coletânea organizada por Denise Rollemberg e Samantha Viz Quadrat. , ambas professoras. 

São três volumes, estruturados por regiões do planeta, que trazem 39 artigos, totalizando 1.340 páginas. Tratam da Alemanha nazista, da Espanha franquista, da Itália fascista. Falam da extinta URSS, da Coreia do Norte, do Uruguai. Discutem os papeis desempenhados por Alfredo Stroessner, António Oliveira Salazar, Alberto Fujimori. Debatem a ditadura militar no Brasil.

Na tentativa de costurar dessa colcha de retalhos, as organizadoras lançam duas perguntas: 1) Como um regime autoritário/uma ditadura obteve apoio e legitimidade na sociedade?; e 2) Como os valores desse regime autoritário/ditatorial estavam presentes na sociedade e, assim, tal regime foi antes resultado da própria construção social?

O resultado é irregular e incompleto. Alguns textos partem de aspectos laterais para buscar esse todo articulado da tese do autoritarismo como produto social. Poucos reúnem informações detalhadas sobre o país focado. Faltam dados sobre os autores escolhidos (38 no total). No conjunto, apesar das falhas, o mosaico é interessante.

CARICATURA O volume "África e Ásia" [392 págs.], por exemplo, traz dois artigos sobre a Tunísia. O mais vigoroso é de Michel Camau. Professor de ciência política da Universidade de Aix-en-Provence, na França, ele argumenta que o país africano, precursor da Primavera Árabe, transformou-se numa caricatura das "contradições da suposta democratização do mundo no contexto da intensificação e da liberalização do comércio".

Partindo da herança colonial na formação das elites do país, o autor desenvolve o conceito de "autoritarismo de mercado", que mescla repressão, mercado aberto aos produtos europeus, liberdade para os capitais e controle das migrações. Uma estratégia que Camau resume assim: "Os mercados, agora; a democracia, depois".

No outro artigo, a pesquisadora francesa Béatrice Hibou mostra as ligações entre o Estado de Ben Ali e os empresários, que receberam financiamentos e outras benesses no "milagre econômico" tunisiano. Os dois capítulos foram escritos antes da revolta que derrubou o ditador e destampou a panela de pressão de toda a região. Mas ajudam a entender as razões da revolta.

Já para compreender a situação chinesa, Jonathan Unger se debruça nos motivos que levam a classe média urbana do país a aderir ao regime. Diretor do Centro da China Contemporânea da Universidade Nacional da Austrália, ele descreve como o crescimento viabilizou aumentos de salários para professores, médicos, engenheiros e funcionários públicos.

Lembra que, num único ano, no final dos 1990, o salário de todos os professores das universidades públicas mais prestigiadas dobrou. "Se houver outra explosão como a de Tiananmen, muitos deles [os instruídos urbanos] vão preferir o outro lado das barricadas -o lado do governo", prevê.

ESFACELAMENTO Urger tem a avaliação de que a classe média chinesa se tornou um bastião do regime e passou a rejeitar a liberalização política ao olhar o exemplo da União Soviética de Mikhail Gorbatchov. Ali o esfacelamento, que acaba de completar 20 anos, trouxe queda vertiginosa do padrão de vida e corrupção. Por isso, para ele, não há espaço para mudanças.

A trama entre política e economia também aparece com força no artigo sobre o controvertido Jean-Bedel Bokassa, presidente da República Centro-Africana de 1966 a 1979. Brian Titley, professor da Universidade de Lethbridge em Alberta, no Canadá, descreve como os interesses coloniais, da elite local e do Estado se entrelaçaram.

Quando essa costura se rompeu e Bokassa nacionalizou petrolíferas e empresas francesas, passou a ser pintado como extravagante e monstruoso: seus inimigos eram jogados aos crocodilos e ele comia carne humana. Histórias inventadas pelo serviço secreto francês, conta Titley, para quem "só destruindo a reputação de Bokassa seria possível justificar a invasão que o derrubou".

Não há nada sobre Muammar Gaddafi na coleção.

O volume "Europa" [309 págs.] traz análise de Robert Gellately, professor de história da Universidade da Flórida, sobre a Alemanha. Ele aponta como "o desemprego minou a força dos trabalhadores organizados e muitos começaram a achar que deveriam dar uma oportunidade a Hitler".

Gellately recorda que os primeiros campos de concentração foram criados em 1933, saudados pela imprensa como "lugares para onde mandar os comunistas e outros inimigos do povo". Lembra a perseguição do regime a minorias e a campanha de esterilização em massa, que não teve resistência da Igreja Católica.

No mesmo volume, Marc Ferro, em texto de 1985, aborda a URSS. Já o regime de Vichy é avaliado por Marc Olivier Baruch. Professor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris, ele destrincha como as elites francesas se acomodaram ao sistema de capitulação aos nazistas. Enfatiza as ambiguidades e de como esse lado da história teima em ser esquecido. Afinal, nem todos que alegaram ter participado da resistência a Hitler de fato estiveram nessa luta.

AMBIGUIDADES Questão semelhante é levantada em relação ao combate ao regime militar no Brasil: se todos se tornaram resistentes e democratas, como a ditadura durou 21 anos?, perguntam as organizadoras da obra. Na busca de respostas, há artigos sobre as marchas da Família com Deus pela Liberdade (foram 69, 80% delas após o golpe militar), a Associação Brasileira de Imprensa (que teve comportamento ambíguo em alguns momentos), a Arena (o partido da ditadura).

Mas o forte sobre esse período no volume "Brasil e América Latina" [606 págs.] é o enfoque cultural. Marcos Napolitano, professor de história da USP, tenta escapar da dicotomia entre resistência e cooptação e descreve uma produção artística cheia de meandros e contradições.

Napolitano mostra como a ditadura no início buscou dissolver as conexões entre a cultura de esquerda e os movimentos populares. Depois, com o Ato Institucional n° 5, ampliou a repressão, tentando atacar a mobilização da classe média. A partir de 1979, com a Anistia, quis controlar a desagregação do regime.

Usando conceitos do nacionalismo, a ditadura se aproximou de artistas e intelectuais de esquerda e financiou projetos (cinema, teatro, folclore etc.). A música popular dos festivais era uma válvula de escape para as críticas ao regime, que sonhava com uma reconciliação com a classe média. No final dessa época, o Estado atuou no processo de mercantilização cultural, nota o autor.

Seria bom acrescentar à análise o papel-chave que a televisão desempenhou durante todo o período. Também as conexões com o meio empresarial pouco aparecem nos textos.

No conjunto, os três volumes fazem um inesperado e difuso turbilhão de informações. Demonstram que não é possível explicar autoritarismos pela simples existência de populações infantilizadas ou medrosas. Apontam para os consensos e legitimidades -sem defendê-los, pedem as organizadoras. Registram nacos de "um século marcado por muitas ditaduras, em diversos países e continentes, com culturas, tradições e passados diversos, que tiveram apoio da sociedade".

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

William Shakespeare - Inspiração sem fim para o cinema

Por José Geraldo Couto, da Carta Capital

William Shakespeare (1564-1616) viveu três séculos antes da invenção do cinema, mas não existe outro autor que tenha sido levado tantas vezes às telas: o Internet Movie Database (IMDb) registra nada menos que 858 títulos, entre longas-metragens, telefilmes e minisséries.

A primeira adaptação cinematográfica de Shakespeare de que se tem notícia é o curta britânico King John, de 1899, que mostrava apenas a cena da morte do protagonista. De lá para cá, cineastas de todos os cantos do mundo mergulharam no universo shakespeariano em busca de inspiração.

As peças mais revisitadas do bardo foram Hamlet, Macbeth e, claro, Romeu e Julieta. Alguns diretores de primeiro time, como Laurence Olivier, Orson Welles e Akira Kurosawa, têm vários Shakespeares em sua filmografia.

Do homem William Shakespeare não há muito o que dizer, até porque sua biografia é repleta de sombras e pontos cegos. Sabemos que nasceu em Stratford-upon-Avon e aos 18 anos engravidou a amante Anne Hathaway, oito anos mais velha, com quem casou e teve três filhos.

Aos 28 anos, já era um ator e dramaturgo conhecido em Londres. Em 1599 se tornou sócio do Globe Theatre, que ganhou patrocínio real quando o rei James subiu ao trono, em 1603.

O fato de Shakespeare ter suas obras saqueadas das mais diversas maneiras em nossa época não deixa de ser irônico, já que ele próprio se servia sem cerimônia das fontes mais variadas, inclusive da literatura de seus antecessores e contemporâneos. “Somos da mesma substância de que são feitos os sonhos”, escreveu em A Tempestade. Parecia estar falando, profeticamente, do cinema.

Conheça algumas produções baseadas na obra shakespeariana:

Henrique V (1944)
Realizada no calor da luta contra o nazismo, a versão de Laurence Olivier do épico patriótico de Shakespeare sobre a Batalha de Agincourt (1415) começa com uma encenação da peça no Globe Theatre e ganha aos poucos a liberdade do cinema. Olivier dirigiu e protagonizou também Hamlet (1948) e Ricardo III (1955).

Macbeth (1948)
Macbeth (Orson Welles), nobre escocês do século XI, mata seu soberano e seus rivais para realizar a profecia ouvida de bruxas de que se tornaria rei. A versão de Welles, de baixo orçamento e com elenco teatral, tem uma ambientação selvagem e fantasmagórica. O diretor voltaria a Shakespeare com Otelo (1952) e Falstaff (1965).

 Ran (1985)
Ao transpor a tragédia Rei Lear para o Japão medieval, Kurosawa fez uma mudança: em vez de filhas, o protagonista (Tatsuya Nakadai) tem três filhos que se digladiam pelo poder e pelas terras. Um dos filmes mais exuberantes de Kurosawa, é também um libelo pacifista. O diretor já adaptara Macbeth em Trono Manchado de Sangue (1957).

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Clint Eastwood: "O trabalho me mantém jovem"

Por Elaine Guerini, da Revista Época

Aos 81 anos, o ator e cineasta Clint Eastwood não dá sinais de cansaço. Apesar da pele envelhecida e da voz mansa, ele conserva o charme e a determinação dos caubóis que interpretou no passado. E tem uma receita: levanta pesos todos os dias de manhã, antes de encarar um dia de filmagem. Mas é o trabalho, mais do que tudo, que para ele o mantém com espírito jovial e ainda em atividade. Na semana passada, aceitou ser capa da revista do jornal francês “Le Monde”, sob a condição de não ter suas rugas apagadas pelo Photoshop. “Esperava ter me aposentado 30 anos atrás. Como não aconteceu, será preciso mais que uma dor nas costas para me fazer parar’’, brincou Eastwood, em entrevista à ISTOÉ em Los Angeles. Ele está lançando “J. Edgar”, protagonizado por Leonardo DiCaprio, com estreia agendada para a sexta-feira 27 nas telas brasileiras. A cinebiografia reconstrói a trajetória profissional e pes­soal de J. Edgar Hoover, chefe do FBI (Federal Bureau of Investigation) por 48 anos. Eastwood quis contar a história dessa lendária figura pública dos EUA porque, além de fascinante, a sua vida permite traçar paralelos com personalidades atuais. “O fato de ninguém con­seguir tirá-lo do cargo me lembra alguns figurões de hoje, pessoas que se recusam a perder o poder, seja o pre­sidente de um estúdio de Hol­lywood, seja um magnata das comunicações”, diz o cineasta na entrevista a seguir.

O sr. está lançando “J. Edgar”, mais um filme em que apenas dirige. Não sente falta de atuar? 
Clint Eastwood  - Não. Mas não descarto essa possibilidade. Confesso que no set de “Gran Torino’’, que dirigi e do qual fui o protagonista, muitas vezes eu me perguntava: por que estou atuando? Para que fazer os dois trabalhos? 

A que conclusão chegou?
Como eu estava lidando com um elenco de atores não profissionais, funcionava um pouco como professor de interpretação, independentemente de ser o diretor. Mas é verdade que, dependendo do meu humor, eu me pergunto: por que você ainda se importa com tudo isso?

Fazer filmes não é mais uma prioridade?
Tenho com o cinema a mesma relação que tenho com o golfe. Adoro jogar golfe, mas não quero ter a obrigação de praticá-lo todos os dias. Claro que aprecio o fato de eu ainda ter o que fazer, o trabalho me mantém jovem. Pelo menos é assim que entendo. Ainda não estou preparado para me aposentar. O que poderia fazer? Certamente, ficaria bebendo cerveja pensando no que passou e nas coisas que eu poderia ter feito diferente.

É verdade que o sr. gosta de se exercitar antes das filmagens, montando uma academia de ginástica no set? 
Não chega a ser uma academia. Gosto de levantar peso quando chego ao set, bem cedinho. É para melhorar a minha circulação. 

Isso faz parte do seu ritual matinal?
Sim. Procuro me cuidar. Nos estúdios da Warner há uma ótima academia e, às vezes, eu passo por lá. Acho ótimo me exercitar pelo efeito que isso me proporciona, tanto físico quanto mental. Muitas vezes, o exercício ajuda a tirar a minha mente do que estou fazendo. Assim, quando eu volto ao assunto, tenho um olhar revigorado.

O sr. acha que J. Edgar Hoover aprovaria o seu novo filme?
Não sei. Talvez ele o odiasse. Hoover não foi um cara necessariamente mau. Prefiro pensar que ele foi um homem bom que ultrapassou os limites. A maioria das pessoas que comete excessos não gosta de admiti-los.

Hoover gostava de se vangloriar na vida real. A cinebiografia não faz o mesmo com o personagem? 
Se eu não tivesse preenchido lacunas na sua vida, não teríamos filme algum. São poucos os livros publicados sobre ele e muitos apenas fazem especulações. Mesmo quando Hoover estava vivo, ninguém sabia muito sobre o homem, a não ser o que saía nos jornais.

Como ele era tratado pela mídia na época?
Como um dos policiais mais admirados e temidos do país. Eu mesmo cresci tendo Hoover como um herói. Só muito mais tarde descobri que a história não era bem assim.

O que mais o fascina na personalidade de Hoover? 
A sua obsessão pelo poder. Ele comprova a teoria de que as pessoas sempre fazem coisas estranhas quando estão no topo do mundo. A verdade é que ninguém deveria ficar no mesmo cargo por tanto tempo. No seu caso, foram 48 anos, é tempo demais. Muitas vezes, vemos os governantes perder a noção do que fazem em apenas alguns anos de administração.

Por que essa história é relevante nos dias de hoje? 
Podem ser feitas muitas analogias entre a trajetória dele e a sociedade atual. A paranoia que o levou à caça aos comunistas não é muito diferente do sentimento pós-11 de setembro, que mantém o mundo em constante tensão diante dos terroristas. O fato de ninguém conseguir tirá-lo do cargo também me lembra alguns figurões de hoje, pessoas que se recusam a perder o poder, seja o presidente de um estúdio de Hol­lywood, seja um magnata das comunicações. Essas pessoas esquecem que, ficando tempo demais num cargo, perdem a sua utilidade. 

Que excessos de Hoover mais o incomodam? 
Ele foi maldoso com muitos, inclusive com o senador Robert Kennedy, que detestava. Quando o presidente John Kennedy foi assassinado, Hoover deu a notícia de uma forma cruel. A maneira como ele usava a informação para exercer a autoridade era terrível. Foi Hoover quem indiretamente ajudou Lyndon Johnson a se tornar o vice-presidente de JFK. Johnson era seu amigo e ele impôs o seu nome ao ameaçar expor a conduta sexual de JFK. O FBI tinha um arquivo meticuloso sobre esse tópico. 

Ironicamente, o filme trata com bastante sutileza a suposta homossexualidade do ex-diretor do FBI.
O roteiro procurou incorporar todas as especulações sobre o personagem, inclusive a hipótese de que ele gostava de se vestir de mulher. Não seria justo, contudo, apresentar isso co­mo verdade. No filme ele só põe o vestido da mãe quando ela morre. E o que isso quer dizer? Que ele era gay ou que queria apenas se sentir perto da mãe? Tratamos da mesma maneira o seu suposto envolvimento com o seu assistente Clyde Tolson. Quem poderia saber se eles realmente foram amantes?

Ele gostava de circular por Holly­wood. O sr. o encontrou alguma vez?
Não. O mais perto que cheguei foi conhecer algumas pessoas que trabalharam com ele no FBI. Eu me lembro bem de vê-lo posando com estrelas de cinema. Recordo da foto em que aparece beijando Shirley Temple nos jornais, nos anos 1930. Como eu era garoto, vê-lo ensinando a menina a montar num cavalo mecânico me marcou. Na medida do possível, fiz questão de incluir situações que fizeram parte da minha infância. As fotos do bebê Lindbergh que mostro no filme são reais (a trama aborda o sequestro do filho do aviador Charles Lindbergh, um caso que Hoover ajudou a solucionar).

Leonardo DiCaprio correspondeu às suas expectativas para o papel?
Completamente. Leo é mesmo um dos atores mais aplicados de sua geração e não tem medo de trabalhar duro. Como Morgan Freeman, Gene Hackman ou Hillary Swank, outros que adorei dirigir, ele chega ao set preparado para tudo. E é assim que eu gosto.

Não pensou em usar um ator mais velho para a fase final de Hoover e, assim, evitar o uso de uma maquiagem pesada? 
Eu queria Leo dos 20 aos 70 anos. Entendo que a plateia observe a maquiagem por alguns segundos, tentando imaginar se será assim mesmo que ele ficará na velhice. Espero, no entanto, que o público supere isso rapidamente e siga o personagem, sem pensar mais no assunto.

Por que o sr. não gosta de filmar uma cena muitas vezes?
Muitos atores acham que podem fazer melhor a partir da segunda tomada, mas nem sempre é verdade. O próprio Leo me pediu para fazer de novo algumas cenas. Às vezes, ele estava certo, apresentando uma melhora na nova tomada. Outras vezes, não. O problema é que muitas vezes o ator quer buscar a perfeição. 

E isso não é bom?
Claro. Mas não é preciso. Conheço atores que são bons até quando erram (risos).

Lembra de algum caso específico?
Quando dirigi Meryl Streep em “As Pontes de Madison’’, eu lhe mostrei uma versão inacabada do filme e ela reclamou. Disse: “Você guardou todos os meus erros! Eu respondi: “Claro! Eles são tão bons” (risos).

Com a experiência, não acha que tem muito mais a dizer? 
É verdade. Eu nunca me conformei com o fato de Billy Wilder, que viveu até os 90 anos, ter se aposentado aos 60. Eu me perguntava por que o cara que fez “Quanto Mais Quente Melhor’’ e “Crepúsculo dos Deuses’’ parou de filmar. O mesmo eu sentia com relação a Frank Capra, que costumava visitar. Até hoje não entendo o que aconteceu. Não sei se eles é que deixaram o cinema ou se foi o cinema que os deixou. 

O sr. se vê como o cineasta português Manoel de Oliveira, na ativa aos 103 anos?
É cedo para dizer. Conheci Manoel no Festival de Cannes, anos atrás. quase perguntei: qual o uísque que o sr. toma? Manoel ainda tem muita vitalidade, como quem está determinado a chegar aos 110. Às vezes, até fico desconfiado. Ou ele é mesmo incrível ou andou mentindo. Talvez Manoel esteja com 60 anos e diga ter passado dos 100 só para ouvir as pessoas dizer como ele ainda está bem para a idade (risos).

Já sabe qual será o seu próximo filme?
Eu ia filmar “Nasce uma Estrela’’ com Beyoncé. Mas tive de adiar porque ela ficou grávida. Adiamos o projeto por um tempo. Talvez o façamos num futuro próximo. 

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O recado de Immanuel Kant aos chineses



Do Caderno Ilustríssima

Alemães e chineses tinham objetivos diferentes ao negociar "Arte do Iluminismo", a primeira exposição internacional do Museu Nacional da China após uma ambiciosa reforma que durou quatro anos e consumiu US$ 380 milhões.
Para o lado europeu, o objeto da mostra representa "um fenômeno universal que simboliza diversidade, abertura e tolerância", como define a apresentação da série de palestras "Iluminismo em Diálogo", paralela à mostra.
Já os chineses viram no convênio com três grandes acervos alemães uma oportunidade para dar um ar de "classe mundial" ao museu, anunciado como o maior do mundo e localizado na supervigiada praça da Paz Celestial, onde qualquer manifestante está sujeito a anos de prisão. A aposta é na opulência, e não na ousadia.
Em abril passado, as diferentes expectativas produziram uma vítima. Escalado para o ciclo de palestras, o sinólogo alemão Tilman Spengler teve o visto negado pelas autoridades chinesas. O motivo: ter participado de um evento em homenagem a Liu Xiaobo, o dissidente preso que ganhou o Prêmio Nobel da Paz. "Ele não é um amigo do povo chinês", justificou um porta-voz do Ministério da Cultura.
Já a exposição caminha para os seus últimos três meses sem provocar maiores polêmicas e com público garantido pelas hordas diárias de turistas do interior. Com cerca de 450 peças, inclui pinturas, móveis e roupas da época e está dividida em nove partes.
Na seção mais ousada, "Emancipação e a Esfera Pública", há um busto do filósofo Immanuel Kant onde se lê: "Tenha a coragem de usar a sua própria compreensão". O veto a Spengler e as centenas de policiais e câmeras do lado de fora sugerem que não.

A ARTE E OS RISCOS
Um dos maiores entusiastas da arte chinesa sai de cena. O bilionário belga Guy Ullens vem se desfazendo de sua coleção de arte do país, tida como a maior do mundo, e desistiu de administrar a pioneira galeria UCCA, localizada no 798, o distrito das artes em Pequim.
As obras estão sendo leiloadas em grandes lotes em Hong Kong, com preços surpreendentes. O maior exemplo foi o quadro "Amor Eterno", de Zhang Xiaogang. Estimado inicialmente em até US$ 4,5 milhões, foi arrematado por US$ 10,1 milhões, recorde para um artista contemporâneo chinês.
Já o UCCA (Centro Ullens para Arte Contemporânea, na sigla em inglês), é um dos maiores espaços culturais de Pequim. Inspirado na Tate Modern, de Londres, reúne três grandes salas de exposição, auditório, biblioteca, loja e restaurante, tudo financiado pelo belga.
"No longo prazo, este lugar precisa ser administrado por chineses", disse Ullens, em recente entrevista ao jornal "China Daily". "Quem vai assumir o risco? É muito comum no resto do mundo. O que queremos demonstrar para a China é que é possível existir um lugar assim."

ÓPERA SINO-PERNAMBUCANA
Recém-formado pela Escola de Ópera de Bolonha, o tenor recifense Max Jota, 34, se apresentou no último dia 12 de dezembro no Teatro Nacional de Pequim, o palco mais prestigiado da China. Na programação, nada de Puccini ou Verdi -ele cantou em mandarim.
Jota é o único brasileiro entre 20 selecionados pelo programa "I Sing Beijing" (eu canto Pequim) em disputadas audições pela Europa e pelos EUA. Em meados de 2011, por 40 dias, eles receberam mais de oito horas diárias de aula para cantar em mandarim e conhecer a história da música chinesa.
"O estilo é muito diferente", explica Jota, depois da apresentação. "É muito pela entonação das palavras. Há cinco tons para a mesma palavra. Tecnicamente, é muito difícil, principalmente para quem vem de uma língua latina."
O programa incluiu professores do Metropolitan, de Nova York, e tem o ambicioso objetivo de "apresentar a emergente ópera moderna chinesa com um novo gênero na ópera de estilo ocidental". Para os escolhidos, é a chance de entrar num mercado novo e em expansão, em contraste com os centros de ópera tradicionais da Europa.
"A partir de agora, sou um embaixador da música chinesa", afirma Jota, ex-aluno da Universidade Federal da Paraíba. "Podemos ser chamados a qualquer instante para cantarmos em qualquer lugar do mundo e apresentar a cultura do país."

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Quem ainda escreve carta?



Por Alberto Villas, da Carta Capital

Ninguém! Pelo menos que eu conheça, ninguém mais tem tempo de pegar um envelope verde amarelo, o bloco Aviador papel de seda e a caneta Parker 51 para escrever uma carta. Vivemos a era do skype, da msg pelo cel, do e-mail, do vaptvupt, bateu voltou. Quem hoje teria paciência de escrever uma carta e ficar dias e dias esperando a resposta? Se a resposta do e-mail não vem em um minuto já começa aquele tictic nervoso, não é mesmo?

'Quem hoje teria paciência de escrever uma carta e ficar dias e dias esperando a resposta?'
A primeira notícia que tivemos do Brasil foi através de uma carta, aquela de Pero Vaz de Caminha escreveu ao Rei Dom Manuel, o Venturoso: “Posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta Vossa terra nova…” e por aí ia.

Durante meu auto-exílio em Paris durante a década de 1970, escrevi e recebi centenas e centenas de cartas. Até hoje me emociono ao ver um envelope verde amarelo, daqueles bem antigos onde se lia Par Avion. Acordava cedo e a primeira coisa que fazia era descer quatro andares para buscar a correspondência. Quando tinha envelope verde amarelo era uma festa.

Dentro deles, notícias boas, notícias ruins. Os sobrinhos que nasciam, a luta que aumentava, a censura que apertava. Recortes de jornais, fotografias. Se na primeira carta que mandei de lá reproduzi a carta de Pero Vaz de Caminha, a última começava assim: “São 11 horas da noite e cá estou eu sozinho no único cômodo da casa onde ainda resta um pouco de esperança. São nove baús de alumínio empilhados no canto, esperando o navio chegar. Dentro deles, tudo que restou da nossa vida aqui em Paris nestes anos todos. Estou voltando nas asas do tecoteco da anistia.”

Cartas já inspiraram poetas e compositores. Quem não se lembra do rei cantando “Cartas já não adiantam mais/Quero ouvir a sua voz/Vou telefonar dizendo/Que eu estou quase morrendo/de saudade de você”? Renato Russo, que comandava a Legião cantava: “Escrevo-te estas mal traçadas linhas meu amor/Porque veio a saudade visitar meu coração”. Milionário e Zé Rico também já derramaram lágrimas em missivas: “Estou escrevendo esta cara meio aos prantos/Ando meio pelos cantos/Pois não encontrei coragem/De encarar o teu olhar”.

Cartas não eram apenas meras cartas. Havia um ritual para escrevê-las. Muitas delas foram guardadas e acabaram virando livros da maior importância. As cartas de Vincent Van Gogh ao irmão Theo, por exemplo. Outras eram literatura pura. Sempre leio e releio as cartas que Caio Fernando de Abreu escreveu a seus amigos. Quanta ternura! Quanta literatura! Caio era daqueles que gostava de se preparar para escrever uma carta. Papel, caneta, um café, um cigarro. E derramava toda a sua dor e sua felicidade nos papéis de seda dos blocos Aviador.

Nos últimos dias estou aqui mergulhado nas cartas que Otto Lara Resende escreveu ao amigo do peito Fernando Sabino, agora organizadas pelo jornalista e escritor Humberto Werneck. São cartas escritas nas décadas de 50,60 e 70 quando o mundo era outro. Cartas deliciosas que às vezes começavam assim: “Fernando: Tráfego engasgado, nervos à mostra, passei na Embaixada, a porta apertou meu dedo, sangrou, xinguei, me indignei, Helena desencavou a bagagem do Benedito, saí lascado pelos Champs Elysées, Concorde, Madeleine, rumo ao subúrbio (esqueci de comprar o Rinoceronte de Ionesco), estrada – na volta se anda mais depressa, num instante estávamos em Soissons, omeletes de queijo, bomba de chocolate. Café três fff, pé na estrada, tempo nublado, meio frio, mas sem chuva.” Quem hoje escreveria assim num e-mail desses tempos modernos?