sexta-feira, 6 de maio de 2011

Associação dos Homossexuais de CG comemora aprovação da união estável de gays


Por Oziella Inocêncio, da ASCOM/UEPB

A Associação dos Homossexuais de Campina Grande (AHCG) comemorou o julgamento histórico no Supremo Tribunal Federal (STF), que decidiu por unanimidade reconhecer as uniões estáveis de homossexuais no Brasil. Um dos integrantes da AHCG, Mário Wilson de Jesus Fernandes, explicou que o momento é de alegria e orgulho por este enorme avanço em matéria de acesso aos direitos e à proteção dos casais e famílias da diversidade no Brasil. “Isso colabora para que todos se sintam mais livres, apoiados e cidadãos”, afirmou.

Para Mário, contudo, a luta pela igualdade precisa prosseguir. “A decisão não é suficiente. Para que o preconceito acabe e todas as consequências advindas dele sejam extintas é preciso uma mudança cultural, mas esse já um grande passo. Necessitamos alcançar a total igualdade de acesso aos direitos, que é a melhor ferramenta para combater a violência e discriminação", enfatizou.

Mário acrescentou que em sua trajetória de vida acompanhou muitos casos em que após o parceiro falecer, o companheiro não teve mais condições de morar no local, pelo imóvel haver sido tomado pela família. “Ser expulso da casa não será mais algo natural. É absurdo haver um patrimônio construído junto e que não permanece para quem é de direito”, explicou.

Mário acredita ainda estar longe o tempo em que um casal homossexual possa caminhar pelas ruas como o faz um casal heterossexual. “Isso incomoda muito as pessoas, gera um mal estar, embora expressar amor não provoque nada de ruim. O beijo gay nas novelas, por exemplo, ainda é tabu e visto como algo feio pela sociedade. A polêmica continua”, disse.

Na última quinta-feira (05), dez ministros do STF entenderam que casais gays devem desfrutar de direitos semelhantes aos de pares heterossexuais, como pensões, aposentadorias e inclusão em planos de saúde. A decisão pode ainda facilitar a adoção, por exemplo.

Direito

A advogada especializada em Direito Homoafetivo Ana Célia Sousa atentou para o fato que por meio desses votos unânimes o Poder Judiciário pressionou o Legislativo a tomar as decisões cabíveis à situação. “A busca dos homossexuais por melhorias prossegue, mas agora eles têm o aval do STF para irem atrás dos seus direitos”, destacou. Célia alertou, porém, que direitos ligados ao casamento, como, por exemplo, alterar o estado civil, continuam sem aprovação.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

"Morrerei sendo transgressor", diz Ney Matogrosso

Da Revista Rolling Stone

 Ney Matogrosso não para - e nem pensa em parar. Aos 69 anos e sempre mantendo curtos intervalos entre um disco e outro, Ney acaba de lançar o DVD e CD ao vivo Beijo Bandido, gravado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em que sublima seu poder nos quadris para focar em sua veia teatral. Dono de uma das vozes mais potentes do Brasil, o intérprete vai aparecer ainda no filme Luz nas Trevas - A Volta do Bandido da Luz Vermelha, que deve estrear neste semestre. "Quero fazer mais cinema, sou ator antes de ser cantor", diz.

Confira a entrevista:

Nos extras do DVD Beijo Bandido, você diz achar que o mundo de hoje é mais careta que antigamente. Por quê?
Porque eu vejo muito mais preconceito, desarmonia, desentendimento. Não sou desses que acha que antigamente o mundo era todo melhor, mas agora o vejo decadente, ladeira abaixo. Por incrível que pareça, na década de 1970 nós tínhamos uma liberdade muito maior. Uma liberdade individual, porque havia uma reação de todos para haver uma liberação. Hoje eu não vejo ninguém mobilizado para nada.

Atualmente, pouca coisa na música parece passar uma imagem realmente transgressora, como foi o caso do Secos & Molhados. As pessoas estão acostumadas a tudo ou há uma falta de criatividade artística?
Não sei te responder... Tem uma música do Luís Capucho com uma temática muito forte que pretendo cantar, que vai ser um teste para isso. Quero ver até onde as pessoas estão acostumadas, se elas reagirão. Vamos ver se o público está evoluído mesmo, ou se está só dormente.

O excesso de nudez, por exemplo, mudou o modo como o jovem se relaciona com a arte?

Talvez sim. É muito louco eu estar falando isso, porque eu sou um artista que introduziu a sexualidade explícita na arte brasileira... Mas acho que tudo hoje é sexo. Quando eu fazia, estávamos em uma ditadura estúpida que mandava jogar pessoas vivas, de um avião, no mar. Então tinha um sentido. Hoje, nem se eu fizesse teria sentido. Há uma banalização da nudez, do sexo. É interessante poder se expressar, mas agora não é contra nada, é uma decadência generalizada. Sou uma pessoa muito liberal, acho que tudo pode, mas isso nem é um excesso de liberalidade, é mais uma vulgaridade que impera. Isso me incomoda.

Qual foi sua maior dificuldade na hora de filmar o Luz nas Trevas - A Volta do Bandido da Luz Vermelha?
Foi no primeiro dia de gravação. Eu tive que encarar um corredor cheio de presos e ele [o Bandido da Luz Vermelha, personagem vivido por Ney] completamente alterado. Fiquei com vergonha dessa exposição emocional, e essa inibição me fazia esquecer o texto. Aí pedi para botarem vários papéis escritos pela parede, porque precisava de uma palavra ou outra para lembrar.

Você tem outros filmes em vista?
Não, mas quero fazer mais cinema. É uma coisa que me dá prazer, por ser um exercício do ator que eu sempre soube que era, mas que não consegui realizar no teatro. Eu sou ator antes de ser cantor. O fato de cantar, para mim, era simplesmente útil ao ator. Eu fiz teatro antes, fiz quatro peças, e era isso que eu achava que ia fazer, embora eu ache que no palco, cantando, eu também sou ator. Pessoalmente, sou completamente diferente daquilo.

Existe alguma vontade, como artista, que você ainda não tenha realizado?
Não. Ainda vou realizar outras coisas até ser impedido pelo tempo, porque eu tenho 69 anos e não acredito que tenha ainda muitos, muitos anos pela frente para exercitar o meu ofício. Mas eu não penso em parar. Ainda tenho um fogo aceso dentro de mim e morrerei sendo transgressor.

Numa entrevista  em 2008, você contou como saiu de casa, quando brigou com seu pai, desde cedo já mostrando um temperamento forte. Alguma vez na vida você baixou a cabeça para alguém?Não, não. Com exceção do tempo em que estava servindo, porque ali você tem que baixar a cabeça. Ali você é um soldado e tem que cumprir ordens, e eu sabia que era isso. Mas só ali.

Apesar dessa imagem de homem destemido, você tem algum grande medo?
Nenhum. O medo que me acompanhou durante a vida inteira foi a morte. Quando eu era criança e me falavam que um dia eu ia morrer, eu chorava dois dias. Hoje eu sei que vai chegar a hora a qualquer momento, e isso é que é o grande mistério da vida. Tento conviver com a maior tranquilidade com esse assunto.

Por que você afirma que Beijo Bandido é um dos shows mais teatrais que você já fez?
Porque ele tem um texto. Quando eu selecionei o repertório, pensei num texto. Não como uma música, mas como um texto mesmo... Ele é mais contido, tem uma introspecção que induz mais ao teatro. Tem um acabamento cinematográfico, mas a minha atuação é mais teatral.

Existe alguma diferença na forma como você se prepara para um espetáculo como Inclassificáveis e Beijo Bandido?
Não, porque eu não me preparo para nada. Eu vou fazendo, chego lá e faço. A única coisa que eu faço, quando eu estou ali no camarim, é ficar sozinho. Às vezes, quando estou com algum obstáculo vocal, faço alguns exercícios e só, porque nem exercício vocal eu costumo fazer.

Você tem algum cuidado especial?
Eu vivo em função disso. Eu não sou de sair à noite, eu não vou pra nada. Se eu estou em temporada, saio do show e não saio nem pra comer, venho direto pra minha casa, pra comer pouquinho e dormir. Preciso descansar. Meu descanso para a voz é o sono. Então fico ali, caretamente vivendo, mas não me queixo. É assim que eu gosto de ser, sabe?

Você tem algum tipo de contato com os fãs?

Eu tenho contato com as pessoas no teatro, as recebo, mas não alimento muito isso de fã, de fanatismo. Acho que temos que ser pessoas civilizadas, vivemos na mesma época neste planeta. Para de bobagem, né?, todo mundo significa, todo mundo tem valor. Eu jamais me refiro a alguém dizendo "ai, meu fã". Acho tão absurdo alguém falar isso de outra! Então você é mais que outro? Acho isso muito estranho. Acho a palavra admirador mais interessante do que fã. Por exemplo, eu sou admirador da Amy [Winehouse]. Mas eu não fui ver o show dela. Não diria que sou um fã.

E por que você não foi?

Ah, porque eu não tenho mais paciência pra me meter em multidão. Se fosse num teatro eu provavelmente iria, mas numa coisa dessas, com 12 mil pessoas... O trânsito do Rio de Janeiro está insuportável.

Você acha que é importante ter músicas em trilhas de novelas, já que é o tipo de programa mais assistido do Brasil?
Não é que eu acho importante, mas não tenho nada contra. Agora, todas as músicas que eu gravo para novela eu não boto no meu show.

E você pensa em gravar um outro disco colaborativo, como Vagabundo?

Eu não tenho a intenção, mas se aparecer um grupo interessante o suficiente para me levar a isso eu não tenho nada contra. Eu gosto dessas misturas, gosto de me juntar.

Hoje existiria alguém?

Tem um grupo de São Paulo que eu gosto muito, o Zabomba, mas não sei eles teriam disponibilidade para uma coisa dessas. Até já pensei nisso, mas não falei nada. Até já gravei com eles.

Você ainda fica apreensivo antes de subir ao palco?
Tenho frio na barriga, suo gelado. Antes de começar o show tenho que ficar com uma toalhinha secando a mão.

Já aconteceu de você querer encerrar um show antes do fim?

A única vez que quis, eu encerrei. Foi no curso Objetivo, em São Paulo, na década de 1970. Eles pareciam uns vândalos. Quando eu entrei no palco, começaram a me jogar bolas de papel, a vaiar. Virei de costas, fiquei rebolando uns cinco minutos, depois comecei a cantar. Aí veio um camarada, cuspiu em mim, eu cuspi nele. Ele disse que ia subir para me dar porrada, mas eu estava com uma queixada de burro na minha mão. Eu disse: "Sobe aqui, seu filho da puta, que eu arrebento a sua cara". Aí virei as costas e fui embora.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Paêbirú prossegue como o disco mais caro do Brasil


Por Cátia Rios, da Revista Vitrola

Não é bossa nova, não é tropicália, não é jovem guarda nem samba, mas continua em evidência. O disco mais valioso da música prossegue sendo "Paêbirú", feito por Lula Côrtes e Zé Ramalho. O álbum, principal expoente do gênero conhecido por psicodelia nordestina, chega a valer hoje, em seu formato original em vinil, mais de R$ 4 mil.

Relativamente desconhecido, "Paêbirú" alcança preço mais alto do que "Louco por Você", o primeiro de Roberto Carlos, que por anos conservara o título de mais caro do país.

Segundo lojistas, donos de sebos, especialistas e colecionadores, o que inflacionou o valor de "Paêbirú" nos últimos anos foi o grande interesse de compradores estrangeiros pela psicodelia nordestina. "No Sub Reino dos Metazoários", do pernambucano Marconi Notaro, que tocou com Zé Ramalho e Lula Côrtes, também teve a sua cotação alavancada.

Além de sua raridade, "Paêbirú" é caro devido a uma aura quase mística. A fábrica e estúdio Rozenblit, onde o álbum foi produzido, foi inundada por uma enchente que atingiu Recife em 1975 e milhares de cópias foram perdidas -salvaram-se cerca de 300, que a mulher de Côrtes, Kátia Mesel, havia levado para sua casa.

A ficha técnica de "Paêbirú" traz mais de 20 participantes. Cada lado do disco é dividido como uma suíte (Terra, Água, Fogo, Ar). A música traz influências de canções indígenas, timbres orientais e é classificada como folk psicodélico.

Para ter ideia do que encontrará em "Paêbirú", os créditos do disco trazem Alceu Valença tocando pente e Côrtes na cítara, baixo, harpa, guitarra, destruição da guitarra, efeitos de vento e trompas marinhas, entre outros estalos geniais .

terça-feira, 3 de maio de 2011

Meia dúzia de músicas que retratam dramas da classe trabalhadora


Por Umberto Martins, do Portal Vermelho

A vida e os dramas da classe trabalhadora são temas recorrentes na Música Popular Brasileira (MPB), abordados de forma direta ou indireta em inúmeras canções. O Vermelho selecionou seis composições a respeito.


Izaura, canção de Herivelto Martins e Roberto Roberti interpretado por João Gilberto e Miúcha, canta o impasse do trabalhador que, prisioneiro de uma extenuante jornada de trabalho, carece de tempo para namorar. Labuta de segunda a sábado e só lhe resta um dia por semana com tempo totalmente livre para desfrutar ao lado de Izaura. Ele se desculpa com a amada e promete voltar no próximo domingo, embora sua vontade seja outra. “Se você quiser eu fico, mas vai me prejudicar, eu vou trabalhar”.

Falta um zero no meu ordenado, belo e olvidado samba do flautista Benedito Lacerda (parceiro de Pixinguinha) e Ary Barroso (na voz irreverente de Jards Macalé) critica tanto o excesso de tempo de trabalho quanto o baixo salário, duas características nefastas e persistentes do capitalismo brasileiro. “Trabalho feito um louco, mas ganho muito pouco”, lamenta o peão. “Fazendo faxina” e “comendo no China” ele se consola sonhando diante do retrato “da rainha do meu samba”.

O trem atrasou (música de Paquito, Estanislau Silva e Artur Vilarinho), com Roberto Paiva,aborda o desespero do operário frente à impiedosa disciplina no trabalho imposto pelo sistema capitalista. Chegando ao trabalho atrasado e receando que a resposta do patrão fosse a demissão arbitrária, ele se apressa a justificar o atraso (“trago aqui um memorando da central, o trem atrasou meia hora”), pede justiça e diz que não pode ficar sem emprego. “Sou um chefe de família, preciso ganhar o meu pão”. É o retrato do trabalhador livre, despossuído e alienado dos meios de produção que, conforme Karl Marx, constitui o fundamento básico do capitalismo.

O Bonde São Januário, composto nos anos 1940 por dois gigantes do samba carioca (Wilson Batista e Ataulfo Alfes), interpretado por Gilberto Gil, enaltece, em plena Era Vargas, a emergência da classe operária brasileira nas ondas do processo de industrialização induzido por Getúlio Vargas. Dizem que Wilson Batista (autor de Lenço no Pescoço, uma ode à malandragem que provocou polêmica com Noel Rosa) preferia a frase “mais um otário” no lugar de “mais um operário”, mas teria sido convencido do contrário pelo governo. 

Meu enxoval, samba-coco de Gordurinha e José Gomes, interpretado pelo inesquecível Jackson do Pandeiro, é uma crônica musical do trabalhador nordestino desempregado que migra para o Sudeste em busca de uma boa oportunidade de trabalho. Mas, como muitos, ele deu azar. Vai para São Paulo, não se dá com o frio, volta ao Rio e continua desocupado, dormindo ao relento e se cobrindo com dois famosos jornais cariocas: “O meu travesseiro é um ´Diário da Noite´e o resto do corpo fica na ´Última Hora´”. O êxodo rural teve grande papel na formação da classe trabalhadora nacional.


Três apitos é uma obra-prima (entre muitas outras) de Noel Rosa, na voz de Aracy de Almeida. Traduz a paixão do sambista por uma operária carioca. Obediente ao apito de uma fábrica de tecidos e às ordens de um gerente impertinente, não percebe, enquanto faz pano, os versos que, junto ao piano, o poeta faz em sua homenagem. 

Veja abaixo letras e músicas das composições citadas:

Izaura
Herivelto Martins Roberto Roberti

Ai, ai, ai, Izaura
Hoje eu não posso ficar
Se eu cair nos seus braços
Não há despertador
Que me faça acordar
Eu vou trabalhar
O trabalho é um dever
Todos devem respeitar
Oh! Izaura, me desculpe
No domingo eu vou voltar
Seu carinho é muito bom
Ninguém pode contestar
Se você quiser eu fico
Mas vai me prejudicar
Eu vou trabalhar



Falta um zero no meu ordenado
Benedito Lacerda/Ary Barroso (1947)

Trabalho como louco
Mas ganho muito pouco
Por isso eu vivo sempre atrapalhado
Fazendo faxina
Comendo no China
Tá faltando um zero no meu ordenado
Trabalho como louco
Mas ganho muito pouco
Por isso eu vivo sempre atrapalhado
Fazendo faxina
Comendo no China
Tá faltando um zero
No meu ordenado
Tá faltando um zero no meu ordenado
Tá faltando sola no meu sapato
Somente o retrato
Da rainha do meu samba
É que me consola
Nesta corda bamba

O trem atrasou
Paquito / E. Silva / A. Vilarinho

Patrão, o trem atrasou
Por isso estou chegando agora
Trago aqui um memorando da Central
O trem atrasou, meia hora
O senhor não tem razão
Pra me mandar embora !
O senhor tem paciência
É preciso compreender
Sempre fui obediente
Reconheço o meu dever
Um atraso é muito justo
Quando há explicação
Sou um chefe de família
Preciso ganhar meu pão
E eu tenho razão.

O Bonde São Januário
Wilson Batista e Ataulfo Alves

Quem trabalha
É quem tem razão
Eu digo
E não tenho medo
De errar
(BIS)
O Bonde São Januário
Leva mais um operário
Sou eu
Que vou trabalhar
O Bonde São Januário...
Antigamente
Eu não tinha juízo
Mas hoje
Eu penso melhor
No futuro
Graças a Deus
Sou feliz
Vivo muito bem
A boemia
Não dá camisa
A ninguém
Passe bem!

Meu enxoval
Gordurinha e José Gomes

Eu fui para São Paulo procurar trabalho
E não me dei com o frio
Tive que voltar outra vez para o Rio
Pois aqui no Distrito Federá
O calor é de lascar
E veja o meu azar:
Comprei o “Jornal do Brasil”
Emprego tinha mais de mil
E eu não arranjei um só...

Telegrafei para a vovó
Ela tem uma bodega em Recife, Pernambuco
Eu disse pra ela que estou quase maluco
E que não tenho nem onde morar, o quê que há?

Estou dormindo ao relento, valei-me nossa Senhora!
O meu travesseiro é um “Diário da Noite”
E o resto do corpo fica na “Última Hora”.

Mas se eu voltar, aquela turma lá do Norte me arrasa
Principalmente o povo lá de casa
Que vai perguntar por que é que eu fui embora.
Por isso eu vou ficando



Três Apitos
Noel Rosa

Quando o apito da fábrica de tecidos
Vem ferir os meus ouvidos
Eu me lembro de você
Mas você anda
Sem dúvida bem zangada
E está interessada
Em fingir que não me vê

Você que atende ao apito
De uma chaminé de barro
Por que não atende ao grito tão aflito
Da buzina do meu carro?

Você no inverno
Sem meias vai pro trabalho
Não faz fé com agasalho
Nem no frio você crê
Mas você é mesmo
Artigo que não se imita
Quando a fábrica apita
Faz reclame de você

Sou do sereno
Poeta muito soturno
Vou virar guarda noturno
E você sabe porque
Mas você não sabe
Que enquanto você faz pano
Faço junto do piano
Estes versos prá você

Nos meus olhos você vê
Que eu sofro cruelmente
Com ciúmes do gerente impertinente
Que dá ordens a você

Meia dúzia de músicas que retratam dramas da classe trabalhadora


Por Umberto Martins, do Portal Vermelho

A vida e os dramas da classe trabalhadora são temas recorrentes na Música Popular Brasileira (MPB), abordados de forma direta ou indireta em inúmeras canções. O Vermelho selecionou seis composições a respeito.


Izaura, canção de Herivelto Martins e Roberto Roberti interpretado por João Gilberto e Miúcha, canta o impasse do trabalhador que, prisioneiro de uma extenuante jornada de trabalho, carece de tempo para namorar. Labuta de segunda a sábado e só lhe resta um dia por semana com tempo totalmente livre para desfrutar ao lado de Izaura. Ele se desculpa com a amada e promete voltar no próximo domingo, embora sua vontade seja outra. “Se você quiser eu fico, mas vai me prejudicar, eu vou trabalhar”.

Falta um zero no meu ordenado, belo e olvidado samba do flautista Benedito Lacerda (parceiro de Pixinguinha) e Ary Barroso (na voz irreverente de Jards Macalé) critica tanto o excesso de tempo de trabalho quanto o baixo salário, duas características nefastas e persistentes do capitalismo brasileiro. “Trabalho feito um louco, mas ganho muito pouco”, lamenta o peão. “Fazendo faxina” e “comendo no China” ele se consola sonhando diante do retrato “da rainha do meu samba”.

O trem atrasou (música de Paquito, Estanislau Silva e Artur Vilarinho), com Roberto Paiva,aborda o desespero do operário frente à impiedosa disciplina no trabalho imposto pelo sistema capitalista. Chegando ao trabalho atrasado e receando que a resposta do patrão fosse a demissão arbitrária, ele se apressa a justificar o atraso (“trago aqui um memorando da central, o trem atrasou meia hora”), pede justiça e diz que não pode ficar sem emprego. “Sou um chefe de família, preciso ganhar o meu pão”. É o retrato do trabalhador livre, despossuído e alienado dos meios de produção que, conforme Karl Marx, constitui o fundamento básico do capitalismo.

O Bonde São Januário, composto nos anos 1940 por dois gigantes do samba carioca (Wilson Batista e Ataulfo Alfes), interpretado por Gilberto Gil, enaltece, em plena Era Vargas, a emergência da classe operária brasileira nas ondas do processo de industrialização induzido por Getúlio Vargas. Dizem que Wilson Batista (autor de Lenço no Pescoço, uma ode à malandragem que provocou polêmica com Noel Rosa) preferia a frase “mais um otário” no lugar de “mais um operário”, mas teria sido convencido do contrário pelo governo. 

Meu enxoval, samba-coco de Gordurinha e José Gomes, interpretado pelo inesquecível Jackson do Pandeiro, é uma crônica musical do trabalhador nordestino desempregado que migra para o Sudeste em busca de uma boa oportunidade de trabalho. Mas, como muitos, ele deu azar. Vai para São Paulo, não se dá com o frio, volta ao Rio e continua desocupado, dormindo ao relento e se cobrindo com dois famosos jornais cariocas: “O meu travesseiro é um ´Diário da Noite´e o resto do corpo fica na ´Última Hora´”. O êxodo rural teve grande papel na formação da classe trabalhadora nacional.


Três apitos é uma obra-prima (entre muitas outras) de Noel Rosa, na voz de Aracy de Almeida. Traduz a paixão do sambista por uma operária carioca. Obediente ao apito de uma fábrica de tecidos e às ordens de um gerente impertinente, não percebe, enquanto faz pano, os versos que, junto ao piano, o poeta faz em sua homenagem. 

Veja abaixo letras e músicas das composições citadas:

Izaura
Herivelto Martins Roberto Roberti

Ai, ai, ai, Izaura
Hoje eu não posso ficar
Se eu cair nos seus braços
Não há despertador
Que me faça acordar
Eu vou trabalhar
O trabalho é um dever
Todos devem respeitar
Oh! Izaura, me desculpe
No domingo eu vou voltar
Seu carinho é muito bom
Ninguém pode contestar
Se você quiser eu fico
Mas vai me prejudicar
Eu vou trabalhar



Falta um zero no meu ordenado
Benedito Lacerda/Ary Barroso (1947)

Trabalho como louco
Mas ganho muito pouco
Por isso eu vivo sempre atrapalhado
Fazendo faxina
Comendo no China
Tá faltando um zero no meu ordenado
Trabalho como louco
Mas ganho muito pouco
Por isso eu vivo sempre atrapalhado
Fazendo faxina
Comendo no China
Tá faltando um zero
No meu ordenado
Tá faltando um zero no meu ordenado
Tá faltando sola no meu sapato
Somente o retrato
Da rainha do meu samba
É que me consola
Nesta corda bamba

O trem atrasou
Paquito / E. Silva / A. Vilarinho

Patrão, o trem atrasou
Por isso estou chegando agora
Trago aqui um memorando da Central
O trem atrasou, meia hora
O senhor não tem razão
Pra me mandar embora !
O senhor tem paciência
É preciso compreender
Sempre fui obediente
Reconheço o meu dever
Um atraso é muito justo
Quando há explicação
Sou um chefe de família
Preciso ganhar meu pão
E eu tenho razão.

O Bonde São Januário
Wilson Batista e Ataulfo Alves

Quem trabalha
É quem tem razão
Eu digo
E não tenho medo
De errar
(BIS)
O Bonde São Januário
Leva mais um operário
Sou eu
Que vou trabalhar
O Bonde São Januário...
Antigamente
Eu não tinha juízo
Mas hoje
Eu penso melhor
No futuro
Graças a Deus
Sou feliz
Vivo muito bem
A boemia
Não dá camisa
A ninguém
Passe bem!

Meu enxoval
Gordurinha e José Gomes

Eu fui para São Paulo procurar trabalho
E não me dei com o frio
Tive que voltar outra vez para o Rio
Pois aqui no Distrito Federá
O calor é de lascar
E veja o meu azar:
Comprei o “Jornal do Brasil”
Emprego tinha mais de mil
E eu não arranjei um só...

Telegrafei para a vovó
Ela tem uma bodega em Recife, Pernambuco
Eu disse pra ela que estou quase maluco
E que não tenho nem onde morar, o quê que há?

Estou dormindo ao relento, valei-me nossa Senhora!
O meu travesseiro é um “Diário da Noite”
E o resto do corpo fica na “Última Hora”.

Mas se eu voltar, aquela turma lá do Norte me arrasa
Principalmente o povo lá de casa
Que vai perguntar por que é que eu fui embora.
Por isso eu vou ficando



Três Apitos
Noel Rosa

Quando o apito da fábrica de tecidos
Vem ferir os meus ouvidos
Eu me lembro de você
Mas você anda
Sem dúvida bem zangada
E está interessada
Em fingir que não me vê

Você que atende ao apito
De uma chaminé de barro
Por que não atende ao grito tão aflito
Da buzina do meu carro?

Você no inverno
Sem meias vai pro trabalho
Não faz fé com agasalho
Nem no frio você crê
Mas você é mesmo
Artigo que não se imita
Quando a fábrica apita
Faz reclame de você

Sou do sereno
Poeta muito soturno
Vou virar guarda noturno
E você sabe porque
Mas você não sabe
Que enquanto você faz pano
Faço junto do piano
Estes versos prá você

Nos meus olhos você vê
Que eu sofro cruelmente
Com ciúmes do gerente impertinente
Que dá ordens a você

Meia dúzia de músicas que retratam dramas da classe trabalhadora

Por Umberto Martins, do Portal Vermelho



A vida e os dramas da classe trabalhadora são temas recorrentes na Música Popular Brasileira (MPB), abordados de forma direta ou indireta em inúmeras canções. O Vermelho selecionou seis composições a respeito.


Izaura, canção de Herivelto Martins e Roberto Roberti interpretado por João Gilberto e Miúcha, canta o impasse do trabalhador que, prisioneiro de uma extenuante jornada de trabalho, carece de tempo para namorar. Labuta de segunda a sábado e só lhe resta um dia por semana com tempo totalmente livre para desfrutar ao lado de Izaura. Ele se desculpa com a amada e promete voltar no próximo domingo, embora sua vontade seja outra. “Se você quiser eu fico, mas vai me prejudicar, eu vou trabalhar”.

Falta um zero no meu ordenado, belo e olvidado samba do flautista Benedito Lacerda (parceiro de Pixinguinha) e Ary Barroso (na voz irreverente de Jards Macalé) critica tanto o excesso de tempo de trabalho quanto o baixo salário, duas características nefastas e persistentes do capitalismo brasileiro. “Trabalho feito um louco, mas ganho muito pouco”, lamenta o peão. “Fazendo faxina” e “comendo no China” ele se consola sonhando diante do retrato “da rainha do meu samba”.

O trem atrasou (música de Paquito, Estanislau Silva e Artur Vilarinho), com Roberto Paiva,aborda o desespero do operário frente à impiedosa disciplina no trabalho imposto pelo sistema capitalista. Chegando ao trabalho atrasado e receando que a resposta do patrão fosse a demissão arbitrária, ele se apressa a justificar o atraso (“trago aqui um memorando da central, o trem atrasou meia hora”), pede justiça e diz que não pode ficar sem emprego. “Sou um chefe de família, preciso ganhar o meu pão”. É o retrato do trabalhador livre, despossuído e alienado dos meios de produção que, conforme Karl Marx, constitui o fundamento básico do capitalismo.

O Bonde São Januário, composto nos anos 1940 por dois gigantes do samba carioca (Wilson Batista e Ataulfo Alfes), interpretado por Gilberto Gil, enaltece, em plena Era Vargas, a emergência da classe operária brasileira nas ondas do processo de industrialização induzido por Getúlio Vargas. Dizem que Wilson Batista (autor de Lenço no Pescoço, uma ode à malandragem que provocou polêmica com Noel Rosa) preferia a frase “mais um otário” no lugar de “mais um operário”, mas teria sido convencido do contrário pelo governo. 

Meu enxoval, samba-coco de Gordurinha e José Gomes, interpretado pelo inesquecível Jackson do Pandeiro, é uma crônica musical do trabalhador nordestino desempregado que migra para o Sudeste em busca de uma boa oportunidade de trabalho. Mas, como muitos, ele deu azar. Vai para São Paulo, não se dá com o frio, volta ao Rio e continua desocupado, dormindo ao relento e se cobrindo com dois famosos jornais cariocas: “O meu travesseiro é um ´Diário da Noite´e o resto do corpo fica na ´Última Hora´”. O êxodo rural teve grande papel na formação da classe trabalhadora nacional.


Três apitos é uma obra-prima (entre muitas outras) de Noel Rosa, na voz de Aracy de Almeida. Traduz a paixão do sambista por uma operária carioca. Obediente ao apito de uma fábrica de tecidos e às ordens de um gerente impertinente, não percebe, enquanto faz pano, os versos que, junto ao piano, o poeta faz em sua homenagem. 

Veja abaixo letras e músicas das composições citadas:

Izaura
Herivelto Martins Roberto Roberti

Ai, ai, ai, Izaura
Hoje eu não posso ficar
Se eu cair nos seus braços
Não há despertador
Que me faça acordar
Eu vou trabalhar
O trabalho é um dever
Todos devem respeitar
Oh! Izaura, me desculpe
No domingo eu vou voltar
Seu carinho é muito bom
Ninguém pode contestar
Se você quiser eu fico
Mas vai me prejudicar
Eu vou trabalhar



Falta um zero no meu ordenado
Benedito Lacerda/Ary Barroso (1947)

Trabalho como louco
Mas ganho muito pouco
Por isso eu vivo sempre atrapalhado
Fazendo faxina
Comendo no China
Tá faltando um zero no meu ordenado
Trabalho como louco
Mas ganho muito pouco
Por isso eu vivo sempre atrapalhado
Fazendo faxina
Comendo no China
Tá faltando um zero
No meu ordenado
Tá faltando um zero no meu ordenado
Tá faltando sola no meu sapato
Somente o retrato
Da rainha do meu samba
É que me consola
Nesta corda bamba

O trem atrasou
Paquito / E. Silva / A. Vilarinho

Patrão, o trem atrasou
Por isso estou chegando agora
Trago aqui um memorando da Central
O trem atrasou, meia hora
O senhor não tem razão
Pra me mandar embora !
O senhor tem paciência
É preciso compreender
Sempre fui obediente
Reconheço o meu dever
Um atraso é muito justo
Quando há explicação
Sou um chefe de família
Preciso ganhar meu pão
E eu tenho razão.

O Bonde São Januário
Wilson Batista e Ataulfo Alves

Quem trabalha
É quem tem razão
Eu digo
E não tenho medo
De errar
(BIS)
O Bonde São Januário
Leva mais um operário
Sou eu
Que vou trabalhar
O Bonde São Januário...
Antigamente
Eu não tinha juízo
Mas hoje
Eu penso melhor
No futuro
Graças a Deus
Sou feliz
Vivo muito bem
A boemia
Não dá camisa
A ninguém
Passe bem!

Meu enxoval
Gordurinha e José Gomes

Eu fui para São Paulo procurar trabalho
E não me dei com o frio
Tive que voltar outra vez para o Rio
Pois aqui no Distrito Federá
O calor é de lascar
E veja o meu azar:
Comprei o “Jornal do Brasil”
Emprego tinha mais de mil
E eu não arranjei um só...

Telegrafei para a vovó
Ela tem uma bodega em Recife, Pernambuco
Eu disse pra ela que estou quase maluco
E que não tenho nem onde morar, o quê que há?

Estou dormindo ao relento, valei-me nossa Senhora!
O meu travesseiro é um “Diário da Noite”
E o resto do corpo fica na “Última Hora”.

Mas se eu voltar, aquela turma lá do Norte me arrasa
Principalmente o povo lá de casa
Que vai perguntar por que é que eu fui embora.
Por isso eu vou ficando



Três Apitos
Noel Rosa

Quando o apito da fábrica de tecidos
Vem ferir os meus ouvidos
Eu me lembro de você
Mas você anda
Sem dúvida bem zangada
E está interessada
Em fingir que não me vê

Você que atende ao apito
De uma chaminé de barro
Por que não atende ao grito tão aflito
Da buzina do meu carro?

Você no inverno
Sem meias vai pro trabalho
Não faz fé com agasalho
Nem no frio você crê
Mas você é mesmo
Artigo que não se imita
Quando a fábrica apita
Faz reclame de você

Sou do sereno
Poeta muito soturno
Vou virar guarda noturno
E você sabe porque
Mas você não sabe
Que enquanto você faz pano
Faço junto do piano
Estes versos prá você

Nos meus olhos você vê
Que eu sofro cruelmente
Com ciúmes do gerente impertinente
Que dá ordens a você

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Brasil é "laboratório" para mundo melhor, diz Denny Glover



Da Rede Brasil Atual

O ativista, ator e produtor de cinema Danny Glover acredita que o Brasil é um "laboratório" do mundo na busca de um modelo de organização social que tenha como objetivo a vida digna para todos. Glover visitou a capital paulista para participar das comemorações do 1º de maio e de uma campanha internacional de trabalhadores da multinacional Sodexo.

Com um boné da Central Única dos Trabalhadores (CUT), o ator de 64 anos mostrou muito bom humor e disposição, apesar de dois dias de viagens seguidas de avião. Rapidamente ele superou o cansaço inicial para falar a respeito de seu engajamento social e de pontos de vista sobre o movimento negro, de trabalhadores e de mulheres.

Glover considera que o mundo todo presta atenção no Brasil já que o país passa por importantes transformações, com sua economia a caminho de tornar-se a quinta maior do mundo. Ele lembrou que o movimento sindical emergiu e cresceu em um período de grandes mudanças e, neste momento, está na linha de frente da construção das formas para se lidar com um ambiente de crescimento econômico sem abrir mão dos esforços para promoção da desconcentração de renda e redução das desigualdades.

"A importância dos sindicatos no Brasil pode ser expressa pelo fato de que os dois últimos presidentes do país vêm de forças políticas ligadas a movimentos dos trabalhadores", destacou. "Mas o que vai acontecer no futuro é o que vai definir este país na relação com sindicatos."

Apesar de mostrar interesse pelos caminhos trilhados no país até aqui, ele sustenta que é preciso encontrar respostas para os novos desafios. "Sentar à mesa para negociar é uma forma de lidar com essa realidade, que inclui tudo, pobreza, segurança alimentar, como proteger a Mãe Terra", enumera.

"Tudo isso vai estar no 'laboratório' do Brasil", insiste. "Não podemos estar à margem, nem ser coadjuvantes, temos de apoiar esses esforços, se eles nos levarem a um mundo melhor, que permita uma vida digna a todos nós", observou, ao valorizar a convergência de objetivos entre os movimentos sociais do Brasil e de países africanos.

Pai, cidadão e também ator

Um dos sócios da produtora L'Overture, Glover falou ainda sobre cinema e a indústria cultural. Ele acredita que é possível apostar em produções diferentes das atuais, em que apenas filmes de ação e certa dose de violência têm espaço. "Bom, é o que meu neto quer assistir", diverte-se. "Mas não precisa haver apenas isso, as pessoas acabam sendo condicionadas na medida em que há apenas esse tipo de produção", criticou.

Ele explicou que, muito antes de se tornar um ator de Hollywood, já se considerava um ativista social, engajado em lutas do movimento de afrodescendentes e, especialmente, em questões comunitárias. "Antes de tudo, sou pai – aliás, tenho certeza de que é meu melhor trabalho (risos). Depois, sou um cidadão. E só depois, ator", resumiu.