quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Entre o espiritual e o material

 Ilustração:  St. Gerome (Caravaggio)
Por Marcelo Gleiser, professor de física teórica e autor do livro "Criação Imperfeita"
 
Existimos nessa fronteira, não muito bem delineada, entre o material e o espiritual. Somos criaturas feitas de matéria, mas temos algo mais. Somos átomos animados capazes de autorreflexão, de perguntar quem somos.
Devo dizer, de saída, que espiritual não implica algo sobrenatural e intangível. Uso a palavra para representar algo natural, mesmo intangível, pelo menos por enquanto.
Pois, se olharmos para o cérebro como o único local da mente, sabemos que é lá, na dança eletro-hormonal dos incontáveis neurônios, que é gerado o senso do "eu".
Infelizmente, vivemos meio perdidos na polarização artificial entre a matéria e o espírito e, com frequência, acabamos optando por um dos dois extremos, criando grandes crises sociais que podem terminar em atrocidades.
Vivemos numa época onde o materialismo acentuado -do querer antes de tudo, do eu antes do outro, do agora antes do legado-, está por causar consequências sérias.
Lembro-me das sábias linhas do filósofo Robert Pirsig, no clássico "Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas": "Nossa racionalidade não está movendo a sociedade para um mundo melhor. Ao contrário, ela a está distanciando disso".
Ele continua: "Na Renascença, quando a necessidade de comida, de roupas e abrigo eram dominantes, as coisas funcionavam bem.
Mas agora, que massas de pessoas não têm mais essas necessidades, essas estruturas antigas de funcionamento não são adequadas. Nosso modo de comportamento passa a ser visto como de fato é: emocionalmente oco, esteticamente sem sentido e espiritualmente vazio".
O ponto é claro: atingimos uma espécie de saturação material. Para chegar a isso, sacrificamos o componente espiritual. O material é reptiliano: "Eu quero, eu pego. Se não consigo, eu mato (metaforicamente ou de fato). O que quero é mais importante do que o que você quer".
Claro, progredimos muito, dando conforto a milhões de pessoas, mas, no frenesi do sucesso, deixamos de lado o que nos torna humanos. Não só nossas necessidades, mas nossa generosidade, nossa capacidade de dividir e construir juntos.
Quando nossa sobrevivência está garantida, recaímos em nosso modo reptiliano de agir -autocentrado- e esquecemos da comunidade.
A diferença entre nossa realidade e a de Pirsig, que escreveu essas linhas acima em 1974, é que um novo tipo de conscientização está surgindo, em que o senso de comunidade está migrando do local ao global.
Isso me deixa otimista.
Em todo o planeta, um número cada vez maior de pessoas entendeu já que os excessos materialistas da nossa geração precisam terminar. Não é apenas porque o materialismo desenfreado é superficial. É porque é letal, tanto para nós quanto para a vida à nossa volta.
Olhamos para nosso planeta de modo que não olhávamos 20 anos atrás. O sucesso do filme "Avatar" não teria sido o mesmo em 1990.
O momento está chegando para um novo tipo de espiritualidade, que nos levará a uma existência mais equilibrada, onde o material e o espiritual mantêm um balanço dinâmico. O material sem o espiritual é cego, e o espiritual sem o material é fantasia. Nossa humanidade reside na interseção dos dois.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Países alcançam acordo da biodiversidade

Festejos - Trio de representantes da União Europeia (no centro) comemora o fim da conferência, com um acordo entre os países em desenvolvimento e os ricos 


Crédito da Foto: Yurijo Nakao/Reuters
Por Ricardo Mioto do Caderno Ciência, da Folha de São Paulo

Representantes de quase 200 países chegaram a um acordo no último dia 30 de outubro,  em Nagoya (Japão), e assinaram um tratado sobre a biodiversidade.
As nações concordaram em reconhecer o direito dos países sobre a sua biodiversidade. Isso significa que países que desejarem explorar a diversidade natural (como plantas, animais ou micro-organismos) em territórios que não sejam seus terão de pedir autorização para as nações donas dos recursos.
Se estudo da fauna e da flora alheia resultar em novos produtos, como fármacos ou cosméticos, os lucros terão de ser repartidos entre quem os desenvolveu e o país de origem do recurso, conforme contrato prévio.
Se houver comunidades que utilizem os recursos genéticos tradicionalmente, como tribos indígenas, elas também terão direito de receber royalties pela exploração comercial da biodiversidade.
Os diplomatas chamam esses pontos de ABS, uma sigla em inglês para "acesso e repartição de benefícios".

VITÓRIA BRASILEIRA
As negociações para estabelecer esses pontos sobre o acesso aos recursos genéticos levaram quase 20 anos. Desde a Eco-92, no Rio de Janeiro, temas ligados à biopirataria são discutidos, e os países ricos relutavam em assinar um pacto que garantisse a soberania dos países sobre a sua biodiversidade.
Por isso, o acordo realizado agora, na COP-10 (10ª Conferência das Partes da Convenção da ONU sobre Diversidade Biológica), em Nagoya, foi visto como uma grande vitória brasileira, país dono da maior biodiversidade do mundo e protagonista nas negociações no Japão.
A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, chefe da delegação brasileira, disse estar satisfeita.
"É realmente uma vitória. Estou certa que temos um novo arranjo para a conservação biológica. Para nós é bom, finalmente avançamos, mas não é excelente."
Ela diz isso porque algumas posições brasileiras, como o efeito retroativo para direitos sobre a biodiversidade (haveria royalties por substâncias já desenvolvidas e comercializadas, por exemplo), não estão no acordo.
A ministra defendeu, porém, que algum acordo é melhor do que nenhum acordo. "É necessário entender que precisamos de conciliação, senão não há resultados."
Ela diz que o sucesso de Nagoya, com um consenso entre centenas de países, pode servir de exemplo para as negociações do clima, que seguem em Cancún, em dezembro. "Sou uma mulher pragmática e otimista."
Não foi só Teixeira que saiu de Nagoya sorrindo. O clima entre os representantes de todos os países era de comemoração pelo acordo, que parecia distante conforme as negociações avançavam pela madrugada de sexta para sábado no Japão.
"Não é só um protocolo chato. Ele se refere a bilhões de dólares da indústria farmacêutica", disse Tove Ryding, do Greenpeace.
"Se Kyoto entrou para história como o lugar onde o acordo do clima nasceu, em 1997, Nagoya terá destino similar", diz Ahmed Djoghlaf, secretário-executivo da Convenção da ONU sobre Diversidade Biológica (CBD), responsável pela conferência.
Além do protocolo sobre a biodiversidade, várias metas de aumento na quantidade de terras e áreas marítimas preservadas foram estabelecidas.
A única ausência notável foi a dos Estados Unidos, que nunca participaram da CBD.

PRINCIPAIS PONTOS DO
PROTOCOLO DE NAGOYA


  - Os países são soberanos sobre a sua biodiversidade e recursos genéticos (incluindo plantas, animais e micro-organismos). Nenhuma outra nação pode acessar e explorar isso sem autorização do "dono" do recurso natural

  - Caso algum país crie, com recursos naturais de outro, novos produtos (como remédios), ambos devem ser "sócios" e dividir os lucros oriundos de eventual comercialização

  - Esses lucros devem ser divididos, também, com as comunidades que usam o recurso tradicionalmente caso uma multinacional desenvolva um cosmético a partir de uma planta que uma tribo indígena utilize, pagará royalties a ela

  - 10% das áreas marinhas e costeiras vão virar regiões protegidas até 2020. Hoje, 1% está sob preservação

  - Também até 2020, 17% das áreas terrestres devem estar protegidas. Hoje, esse valor é de 12%

  - Resta, porém, um ponto de discórdia sobre os royalties de recursos naturais: países em desenvolvimento querem que eles existam inclusive para substâncias já desenvolvidas, mas os países ricos não aceitam royalties retroativos

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Sesc inscreve para segunda etapa do projeto Leituras em Cena

Estímulo - Atividade almeja ensinar atores, diretores e interessados nas artes cênicas, técnicas para a exploração de cada obra estudada


 Da Assessoria do Sesc/CG

O Serviço Social do Comércio realiza na próxima semana, de 3 a 5 de novembro, a oficina da segunda etapa do projeto Dramaturgia: Leituras em cena. A oficina será ministrada pelo ator e diretor Vinícius Arneiro, das 18 às 22 horas, na unidade do Sesc Centro, em Campina Grande. As inscrições já podem ser efetuadas no setor de cultura da instituição por apenas dois quilos de alimentos.

O oficineiro Vinícius Arneiro é formado pela Escola de Teatro Martins Penna, no Rio de Janeiro. Foi indicado ao prêmio Shell 2007 de melhor direção pelo espetáculo Cachorro!, encenado pela Cia. Teatro Independente, da qual é fundador e diretor artístico.  Sua segunda produção, Rebú, foi eleita pela Veja São Paulo um dos melhores espetáculos em cartaz na capital paulistana no corrente ano.

Com o objetivo de estimular a leitura de textos teatrais, ensinando aos atores, diretores e interessados nas artes cênicas, técnicas necessárias para a exploração de cada obra estudada, o projeto Dramaturgia: Leituras em cena é composto por duas fases. Na primeira, acontece a oficina de 12 horas. Já na segunda etapa, ocorre a apresentação das leituras dramatizadas, feitas por 24 atores e quatro diretores escolhidos durante o curso.

O projeto é uma realização do Sesc Paraíba em parceria com o Departamento Nacional. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (83) 3341-5800, no endereço eletrônico www.sesccultural.blogspot.com ou na unidade do Sesc Centro, que fica localizada na Rua Giló Guedes, Santo Antônio, 650, Campina.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Professor de Relações Internacionais da UEPB discorre acerca do Mercosul, em novo livro


Confira um pouco mais da reportagem realizada pela jornalista Juliana Rosas, da ASCOM/UEPB, com o professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Estadual da Paraíba, Marcílio Toscano Franca Filho, que está lançando o livro “The Law of Mercosur” (A Lei do Mercosul).


O livro foi escrito e editado exclusivamente em inglês?

Sim, o livro foi um projeto concebido originalmente em inglês, justamente para levar o tema Mercosul a públicos que, normalmente, não têm acesso à bibliografia que existe sobre o nosso bloco em espanhol e em português. Daí termos optado também por uma editora global como a Hart, destacada na produção de livros jurídicos em escala internacional. Além disso, queríamos possibilitar um diálogo entre acadêmicos da América do Sul e da Europa e isso só seria factível através de uma língua franca como o inglês. No livro, há autores do Brasil, Argentina, Bélgica, Alemanha e Portugal.


O lançamento está sendo agora em outubro de 2010. Mas quando foi escrito?

Esse livro vem sendo escrito ao longo dos últimos dois anos. Foi um longo processo de pesquisa e produção até chegar às últimas atualizações, há pouco mais de um mês. Posso assegurar que é bastante atual sem perder profundidade ou esquecer da perspectiva histórica.

Os três editores mencionados, o que inclui o senhor, também possuem artigos no livro?

Exatamente. Somos três editores que projetamos todo o livro, definimos os temas a serem enfrentados e escolhemos os nomes dos demais autores. Além disso, escrevemos a introdução e alguns capítulos  A mim, por exemplo, coube tratar também das relações externas do Mercosul com outros blocos econômicos e outros países. Acho, porém, que o livro é mais que uma coletânea de artigos sobre o Mercosul. Trata-se de fato de um manual sobre o Direito do Mercosul, em que os principais temas da agenda do bloco são abordados com profundidade e didatismo por grandes especialistas de cada área. Nesse sentido, o título segue uma tendência da indústria editorial anglófona de procurar abrangência e pluralidade em um mesmo volume, como nos Oxford Handbook, publicados com sucesso pela Oxford University Press.

Cada um dos colaboradores mencionados possui um artigo em separado? Estes foram convidados para escrever especialmente para este título ou os organizadores fizeram um apanhado já escrito sobre a temática?

Cada co-autor escreveu um capítulo específico e original. Cada colaboração é fruto de uma reflexão inédita de um autor sobre a sua área de expertise. Escolhemos com muita precisão os convidados. Em geral, são estudiosos cujo doutorado ou a produção intelectual foi exatamente na área em que escreveu. Como disse antes, não se trata de uma coletânea de artigos esparsos, mas antes um livro pensado e amadurecido de modo sistemático.

A compra do livro só é possível online, trazida do exterior? Ou haverá uma comercialização no Brasil?

O livro já está à venda nas livrarias da internet, como a própria Hart ou a Amazon, e há boas perspectivas dele ser comercializado no próximo ano, diretamente por livrarias brasileiras especializadas em livros jurídicos estrangeiros.

Como surgiu a ideia para o livro? Os três colaboradores se reuniram para organizá-lo? Foi uma iniciativa da editora? O senhor convidou ou foi convidado pelos colaboradores para por a idéia do livro em prática?

A ideia do livro surgiu dos interesses acadêmicos que eu, Belém Olmos e Lucas Lixinsky compartilhávamos a respeito do Mercosul. Cada um de nós tinha estudado, ao longo de sua vida acadêmica, aspectos parciais da temática mercosulina como Direitos Humanos ou o Poder Judiciário no Mercosul e, juntos, decidimos escrever esse livro. Vimos que não havia uma obra completa, profunda em inglês, o que dificultava até mesmo a realização de negócios entre a Europa e a América do Sul. 
Nós nos conhecemos em 2007, no Instituto Universitário Europeu de Florença, quando fazia o meu pós-doutorado no departamento de Direito. Naquela altura, o interesse de muitos de nossos colegas e professores sobre o Mercosul já era grande e notamos uma lacuna enorme na bibliografia em inglês sobre esse tema. Mesmo para os sul-americanos, não havia um livro que trouxesse a visão da Europa sobre o nosso bloco econômico. Daí que o nosso projeto foi rapidamente aceito pela editora inglesa Hart, cuja sede fica em Oxford. 
Conforme ressaltei anteriormente, o livro é resultado de um grande e coletivo esforço de análise, estudo, crítica e divulgação do Mercosul, em um momento em que o Brasil ocupa um lugar especial no panorama político-econômico internacional. Acho que esse ponto foi fundamental para despertar o interesse da editora Hart.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A utopia da teoria unificada do Universo

Criação do Mundo - Copérnico, Kepler e Newton falavam do cosmo como obra divina, e da ciência como ponte entre a razão humana e a de Deus

Do Caderno Ilustríssima

RESUMO
A busca por uma "teoria de tudo", que unifique as explicações do Universo, é um sonho a que se dedicaram muitos cientistas, inclusive Marcelo Gleiser, que neste ensaio faz uma revisão desse propósito, em favor de uma nova concepção do universo que tenha como princípios as ideias de assimetria e imperfeição.

"O que vejo da Natureza é uma estrutura magnífica que podemos apenas compreender muito imperfeitamente."
 Albert Einstein

"TODA A FILOSOFIA baseia-se em apenas duas coisas: curiosidade e visão limitada [...] O problema é que queremos saber muito mais do que podemos ver." Assim escreveu o filósofo francês Bernard Le Bovier de Fontenelle em 1686. A afirmação não poderia ser mais propícia. Se entendemos por filosofia o esforço do intelecto humano em compreender quem somos e em que mundo vivemos, logo percebemos que, de fato, a mola que move nosso conhecimento é a curiosidade.
Já as nossas dificuldades, isto é, os limites do que podemos saber sobre o mundo, são consequência dessa "visão limitada", da miopia que nos permite ver apenas uma fração do que realmente ocorre à nossa volta. Daí que o conjunto do que criamos é, em essência, uma tentativa de aprimorar a nossa visão, de saciar a curiosidade que temos de saber cada vez mais sobre a realidade que nos cerca.
Podemos metaforicamente chamar de conhecimento a trilha que, aos poucos, vai abrindo espaço na imensa e sedutora floresta do desconhecimento. (Se esse conhecimento leva à sabedoria é uma outra questão.) A preocupação central dos filósofos e, nos últimos quatro séculos, dos cientistas, é precisamente ampliar essa trilha.
Uma questão fundamental é se essa trilha tem uma destinação final, que representaria o conhecimento "total" do mundo. Outra é se nós podemos chegar lá. Uma terceira é investigar quais seriam as consequências de chegarmos ou não ao final da trilha. Estas questões, que explorei em detalhe em meu livro "Criação Imperfeita", formam o arcabouço deste ensaio.
UNIDADE A noção de que tudo o que existe -das galáxias aos planetas, das pedras aos seres vivos- é manifestação duma unidade inerente a todas as coisas é muito antiga. Podemos argumentar que sua origem coincide ao menos com as religiões monoteístas: se tudo é criado por um Deus, tudo é parte desse Deus. Nele, encontramos a unidade de todas as coisas, como acreditava o faraó Akenaton em torno de 1350 a.C.
Já no taoísmo, tudo pode ser compreendido a partir da essência do Tao, onde todos os opostos são um. Com o advento da filosofia na Grécia, a questão tomou, ao menos inicialmente, uma orientação mais material: Tales, considerado o primeiro dos filósofos, já dizia que tudo vem duma única fonte de matéria.
Esse "absolutismo" material influenciou profundamente o pensamento ocidental. São vários os filósofos que buscaram construir um sistema em que tudo se baseia numa única entidade ou grupo de entidades, como as formas de Platão ou a mônada de Leibniz. Esse tipo de construção foi criticado pelo historiador das ideias Isaiah Berlin: "Uma afirmação do tipo 'Tudo consiste em...' ou 'Tudo é...', a menos que seja empírica, não significa nada, pois uma proposição que não pode ser contrariada ou questionada não contém informação".
Veja a ênfase no empirismo: para confirmarmos alguma suposição, ela precisa ser questionável, sua viabilidade tem que ser testável. Afinal, qualquer um pode tecer teorias sobre o mundo, convencido de que está correto. Mas, se suas hipóteses não puderem ser verificadas, serão de pouco uso para o resto do mundo. O valor da ciência está em proporcionar meios que tornam esse tipo de validação possível.

FIM DA TRILHA Imagine se fôssemos capazes de chegar a uma descrição completa do mundo, o "fim da trilha". Seria o clímax da razão humana, a confirmação de que somos, de fato, especiais. Não é à toa que tantas mentes brilhantes sucumbiram a essa tentação. Como não poderia deixar de ser, a ciência, ou melhor, os cientistas, não são uma exceção.
Na Renascença, Copérnico, Kepler e, mais tarde, Newton, falavam do cosmo como obra divina, e da ciência (ou, mais apropriadamente para a época, da filosofia natural) como ponte entre a razão humana e a de Deus. Para eles, o Criador, este geômetra, usou as leis da matemática na construção do mundo. Cabe aos astrônomos e aos filósofos naturais decifrar estas leis para conhecermos a "mente de Deus". O dialeto em comum entre os humanos e a divindade é a matemática.
Esse ímpeto intelectual consagrou o papel da simetria como a marca da obra divina: Deus criou o mundo da forma mais perfeita, usando as leis da matemática. A simetria passou a ser o princípio estético da Criação, equacionada com a verdade. As palavras do poeta John Keats ilustram a importância desta união: "A beleza é a verdade, a verdade a beleza".
Leia-se: a simetria é bela, a beleza é verdade e, portanto, a simetria é verdade. Esta estética encontra-se profundamente arraigada nas ciências físicas. E precisa mudar.

SIMETRIA E DOGMA Avançando no tempo, encontramos Einstein, que passou as duas últimas décadas de sua vida buscando pela chamada "teoria unificada", que visava provar que duas forças fundamentais da natureza, a gravidade e o eletromagnetismo, são, na verdade, manifestações de uma única força.
Por que Einstein acreditava nessa unidade fundamental? Curiosamente, não por alguma indicação empírica. Não havia experimento ou observação que sugerissem essa unificação entre as duas forças. Havia, sim, a intenção de Einstein de provar que a geometrização da natureza era possível, e que a união entre as duas forças fundamentais era consequência inevitável desta geometrização. Sua busca vinha mais da sua mente do que do mundo.
Como sabemos, Einstein falhou. Como falharam todos aqueles que se propuseram a encontrar tal união. Críticos modernos dizem que Einstein falhou por não ter incluído as duas outras forças fundamentais da natureza, que atuam dentro do núcleo atômico. Segundo eles, uma teoria unificada deve incluir todas as forças que regem o comportamento das partículas de matéria.
De fato, teorias de unificação atuais, infelizmente chamadas de "teorias de tudo", tentam demonstrar que as quatro forças são manifestações de uma única força. (De tudo as teorias não têm nada, pois estão relegadas a explicar "apenas" o comportamento das entidades fundamentais de matéria. Uma teoria de tudo da física das partículas não explica porque existe vida na Terra ou por que temos apenas uma Lua.)

SUPERCORDAS A candidata mais popular dessas teorias é a teoria de supercordas. Baseada em matemática elegante, ela propõe uma profunda mudança de paradigma: a matéria não é formada por pequenas entidades indivisíveis chamadas partículas; é formada por pequenas cordas, tubos de energia que, ao vibrar, reproduzem as partículas de matéria observadas nos experimentos.
A teoria de supercordas põe o conceito de simetria num novo patamar. Se antes a simetria era usada como ferramenta essencial na construção de explicações aproximadas da realidade física, agora passa a ser o conceito básico dessa realidade. Nas teorias de unificação modernas, simetria é dogma.
As simetrias que regem as interações entre as partículas de matéria não são como as do nosso dia a dia. Quando falamos de simetria, imaginamos um objeto simétrico, como um DVD, ou o rosto (quase simétrico!) duma pessoa. As simetrias da física de partículas são construções matemáticas que descrevem como elas interagem entre si: por exemplo, a atração elétrica entre um elétron e um próton.
Cada uma das três forças (a gravidade é diferente, suas simetrias atuam no espaço e no tempo) tem uma simetria associada. O objetivo da teoria de unificação é construir uma simetria que englobe todas as três, a "simetria das simetrias". A fé na unidade de todas as coisas é transportada para a física moderna.
Apesar do esforço de muitos e de mais de quatro décadas de experimentos, não temos nenhuma indicação de que essa unificação final exista. Claro, podemos sempre argumentar que a ausência de evidência não é evidência de ausência, que basta continuarmos a buscar que eventualmente encontraremos sinais da unidade profunda da natureza.
Também pensava assim, e dediquei muitos anos a essa busca. Hoje, penso diferente e vejo a busca por uma teoria de tudo como uma ilusão, uma consequência da influência do monoteísmo no pensamento científico. Acredito que esteja na hora de irmos em frente, criando uma nova estética para a ciência, baseada em assimetrias e não em simetrias.

LIMITES Não há dúvida de que a física precisa de simetrias e deve continuar a usá-las. Vemos sua importância em todos os campos de pesquisa. A questão é se uma teoria de tudo, como a metafórica trilha com um destino final mencionada acima, é uma proposta viável. Mesmo dentro dos parâmetros da física das partículas, isto é, restrita à descrição das partículas de matéria e suas interações, não vejo como a construção de uma teoria final seja possível.
Imagine que nosso conhecimento sobre o mundo caiba num círculo, o "círculo do conhecimento". Como cresce o círculo? Através de nossas observações sobre o mundo e nós mesmos. Essas observações, ao menos nas ciências, vêm do uso de instrumentos que ampliam nossa visão. O que os olhos não veem, os telescópios e microscópios veem.
Porém, é importante lembrar que todo instrumento tem o seu limite: vemos até um certo ponto, medimos com uma certa precisão e não além. Mesmo que os avanços da tecnologia permitam que a precisão de nossas medidas aumente, a informação que temos do mundo será sempre limitada. Em outras palavras, além do círculo do conhecimento -que sempre cresce- existe a escuridão do não saber.

TEORIA FINAL
Voltando então à teoria final, é claro que se chegarmos a ela teremos conhecimento completo de todas as partículas de matéria e de como interagem entre si. Mas como poderemos ter certeza que, além do círculo, não existem efeitos ainda não previstos por essa teoria "final"? Visto que não podemos ter conhecimento completo sobre o mundo, jamais poderemos confirmar se essa teoria final é mesmo final, ou apenas mais um passo em direção a uma compreensão do mundo.
Certamente, unificações parciais são possíveis: existem já exemplos dela na física, como o eletromagnetismo (eletricidade + magnetismo). Experimentos que estão ocorrendo no Centro Europeu de Física Nuclear (CERN), na Suíça, podem até revelar sinais de que algumas das unificações propostas são viáveis. Mas uma unificação total e final não pertence ao empirismo que define as ciências físicas.
Quando menciono essas ideias, às vezes me dizem que estou sendo derrotista. Não é nada disso. Claro que devemos sempre continuar a buscar por descrições mais simples e completas do mundo natural. Essa é a função da ciência. O que me preocupa é o uso da noção de unidade de todas as coisas na física. Vejo nisso um esforço de equacionar a ciência com a religião e os cientistas a deuses que tudo sabem. As afirmações recentes de Stephen Hawking, de que a ciência hoje mostra que Deus é desnecessário, ilustram o meu ponto.
A ciência tem pouco a dizer sobre Deus ou sobre a fé. Sua missão não é tornar Deus desnecessário, mas proporcionar uma narrativa que explique da melhor forma possível como o mundo funciona. Dadas as limitações da sua estrutura -as hipóteses, aproximações e axiomas que usamos para basear nossas teorias-, sabemos, ou deveríamos saber, que a ciência não é completa e que o conhecimento do mundo também não. Precisamos de mais humildade em nosso confronto com o mundo.

ASSIMETRIAS
O que aprendemos nas últimas quatro décadas é que são as assimetrias que estão por trás das estruturas que encontramos no Universo. Da origem da matéria à origem da vida, devemos nossa existência às imperfeições da natureza. Tomemos como exemplo a enigmática "quiralidade" das moléculas orgânicas. O termo vem da palavra grega para "mão".
Várias moléculas são quimicamente idênticas (os mesmos átomos), mas aparecem em dois tipos, um sendo a imagem no espelho do outro, tal qual as nossas mãos. Como Pasteur revelou há 150 anos, a vida prefere moléculas com um arranjo espacial bem específico. Hoje, identificamos que os aminoácidos que constituem as proteínas em seres vivos são todos "canhotos", enquanto os açúcares que compõem o DNA e o RNA são "destros".
Já ao serem sintetizados no laboratório, tanto os aminoácidos quanto os açúcares aparecem em misturas com 50% de cada tipo. Portanto, das duas opções, a vida escolhe apenas uma. Ninguém sabe por quê. Talvez, como sugeri num artigo recente com meus alunos, a escolha da quiralidade dependa das interações que ocorreram entre a química primitiva e o meio ambiente terrestre há 4 bilhões de anos. Se a vida existir em outros planetas, poderá ter quiralidade oposta à vida na Terra.

IMPERFEIÇÕES Ao evoluir, a vida só sobreviveu devido às mutações genéticas, que podemos interpretar como imperfeições do ciclo reprodutivo. Sem elas, os organismos não poderiam ter sobrevivido às várias mudanças ambientais que ocorreram na Terra. A complexidade explosiva da vida terrestre, a transição de seres unicelulares a seres multicelulares, é um feito notável de adaptação.
Ao olharmos para nossos vizinhos planetários, encontramos mundos estéreis, muito provavelmente sem vida no presente. Talvez encontremos vida em outros sistemas estelares, onde planetas giram em torno de estrelas de vários tipos. Mas, pelo que aprendemos da história da vida na Terra, muito provavelmente essas formas de vida serão simples; seres unicelulares sem muita complexidade. Vida multicelular, em particular vida inteligente, será muito mais rara.
Mesmo que exista na nossa galáxia -e não podemos afirmar se sim ou não-, as distâncias são tão vastas que, na prática, estamos sós. Como ilustração, se quiséssemos hoje ir até a estrela mais próxima ao Sol, a Alfa Centauro, teríamos que viajar por 110 mil anos. Não temos nenhuma indicação concreta de que existem outras inteligências espalhadas pela galáxia. Infelizmente, relatos de encontros com alienígenas não apresentam provas convincentes. Estamos mesmo sozinhos, ao menos por um bom tempo.

MORALIDADE CÓSMICA
A meu ver, essa revelação tem a força de redefinir nossa relação com nós mesmos, com a vida e com o planeta. Somos como o Universo pensa sobre si próprio.
Nada mau para uma espécie que tem apenas conhecimento limitado da realidade. Se a Terra é rara, se a vida é rara e se a vida inteligente é mais rara ainda, nós, seres no ápice da cadeia evolutiva, temos a obrigação moral de preservar a vida a todo custo. Após séculos em que a Terra e seus habitantes deixaram de ser o centro do cosmo, nós, humanos, voltamos a ter importância universal.
Não por sermos emissários divinos, ou porque o cosmo de alguma forma tem algum plano para nós. Nossa importância vem da nossa raridade, do fato de que somos produto de acidentes e imperfeições, da fragilidade da vida num planeta que flutua precariamente num cosmo extremamente hostil. Nossa importância vem do poder que temos sobre o futuro da vida. Vem porque representamos a consciência cósmica -ao menos nesta esquina do Universo.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Casa Brasil realizará II Sarau Poético Infantil em Campina Grande nesta quarta-feira (27)


Por Vera Lúcia Barbosa de Melo, da Assessoria de Imprensa da Casa Brasil

A Sala de Leitura do Projeto Casa Brasil, parceria do Governo Federal e da Prefeitura Municipal de Campina Grande, através da Secretaria Municipal de Educação, Esporte e Cultura, realizará amanhã (27)  o II Sarau Poético Infantil, destinado a crianças e adolescentes, alunos da rede pública e particular com idade entre 8 e 15 anos.
 
O evento, em sua segunda edição, é fruto de um trabalho construtivo que vem sendo desenvolvido numa parceria de toda a equipe da Casa Brasil e comunidade, tendo como objetivo envolver os participantes em um projeto de resgate da cultura popular, visando ampliar o senso crítico e criativo através da poesia, incentivando as crianças e jovens ao prazer da leitura poética.
 
O Sarau Poético da Casa Brasil, surgiu da necessidade de se abrir um espaço para acolher os poetas da comunidade na qual o Projeto Casa Brasil está inserido, como também os renomados poetas campinenses, das cidades circunvizinhas e de outros estados. É um campo de fomento e agregação gradativa das expressões culturais populares que vem se consolidando, ano após ano, resultando na participação dos escritores, que buscam através da poesia fortalecer a preservação das nossas raízes de cultura, clássica e popular.

O Sarau Poético torna possível que a poesia aconteça de fato, permitindo o contato com diferentes autores e estilos, reavivando a capacidade de olhar e ver o que é a essência do poético. O Projeto Casa Brasil, oportuniza à comunidade não só um espaço para mostrar seu trabalho, como também trazer renomados poetas para mostrar que é possível na periferia da cidade ter eventos sociais que propiciam a ampliação da cultura. Assim como os demais eventos realizados pela Casa, o Sarau já está inserido dentro do contexto social da comunidade que o utiliza para fomentar a cultura.

Sarau Infantil - O grande interesse das crianças em participar do evento fez com que a Sala de Leitura, módulo da Casa que promove o Sarau, resolvesse realizar o II Sarau Poético Infantil que acontece no mês de outubro, como forma de homenagear o “Mês da Criança”. O evento tem como objetivo incentivar as crianças a desenvolver o gosto pela leitura de poesias, a apreciar sons e ritmos da linguagem poética, como forma de adquirir conhecimentos para produzirem seus próprios poemas e assim, ampliar o senso crítico e criativo através da poesia.

Na abertura, alunos da Escola Municipal Estelita Cruz, farão uma dramatização do conto: “O Príncipe Desencantado” de autoria de Maria Alice Mendes de Oliveira Armelin - adaptado por Flávio de Souza. O grupo de balé Companhia Ponta de Lápis da Escola Roberto Simonsen, se apresenta em seguida com uma dança neoclássica com o tema Semeando Amor. Alunos da Escola Municipal Apolônia Amorim também participarão do evento que este ano conta com 15 crianças declamando.

O II Sarau Poético Infantil acontecerá no dia 27 de outubro, a partir de 15h, no auditório da Casa Brasil, com a participação dos declamadores mirins, de poesias e comunidade convidada para o evento. A Casa Brasil está localizada à rua Advogado Otávio Amorim, S/N, no bairro do Cruzeiro, ao lado do antigo Forrock.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O flerte do gênio Isaac Newton com a alquimia

Mistura - Especialista argumenta que investigações do físico ajudaram a resultar  
na descoberta de que luz branca é uma miscelânea de raios coloridos

Por Natalie Angier, do The New York Times

Sir Isaac Newton sabia que era um gênio e não gostava de perder seu tempo. Nascido em 25 de dezembro de 1642, o grande físico e matemático inglês tinha pouca vida social e raramente viajava para longe de sua casa.
Não praticava esportes nem tocava um instrumento musical. Não se casou, nem teve envolvimentos românticos dos quais se tenha conhecimento.
Não era fácil ser Newton. Ele formulou as leis universais do movimento e da atração gravitacional, incluindo equações usadas até hoje para mapear as trajetórias de sondas espaciais enviadas a Marte, descobriu as propriedades espectrais da luz e inventou o cálculo, mas não foi só isso. Sir Isaac tinha outra paixão em tempo integral da qual se ocupava: a alquimia.
As dimensões de seus estudos alquímicos estão vindo à tona apenas agora, à medida que historiadores da ciência reveem os escritos extensos de Newton sobre o tema -mais de 1 milhão de palavras dos arquivos newtonianos que, até agora, vinham sendo em grande medida ignorados.
Como é possível que o homem que disputa com Albert Einstein o título de maior físico da história tenha se deixado envolver de tal maneira por uma ilusão medieval?
Na opinião de William Newman, professor de história e filosofia da ciência na Universidade Indiana, havia razões para que se levasse a alquimia a sério, motivos para acreditar que compostos pudessem ser decompostos, chegando-se a seus componentes básicos, e que esses componentes pudessem então ser reconfigurados em substâncias outras, mais desejáveis.
Mineiros estavam arrancando do solo feixes emaranhados de cobre e prata com formatos semelhantes aos caules de plantas, sugerindo que veios de metais e minerais proliferavam debaixo da terra com pujança quase vegetal. Lagoas encontradas em volta de outras minas pareciam possuir propriedades extraordinárias.
Quando se mergulha uma barra de ferro nas águas azuis das fontes vitriólicas da Eslováquia moderna, por exemplo, ela emerge com brilho de cobre, como se as partículas escuras e opacas da barra original tivessem sido reinventadas com novos elementos. "Fazia sentido que Newton acreditasse na alquimia", disse Newman. "A maioria dos cientistas experimentais do século 17 acreditava."
Newman argumenta que as investigações alquímicas de Newton ajudaram a resultar em uma de suas descobertas importantes na física: a de que a luz branca é uma mistura de raios coloridos.
Com os solventes certos e as reações perfeitas, pensavam os pesquisadores, deveria ser possível reduzir uma substância a seus componentes básicos e então criar configurações novas desses componentes.
A descoberta de veios de metais com aparência de árvores e raízes, feita por mineiros, levou os alquimistas a concluir que os metais não apenas deveriam crescer embaixo da terra, mas amadurecer ali.
Não poderia o chumbo ser prata ainda não maduro? Não existiria uma maneira de fazer com que as raízes metálicas desenterradas brotassem no laboratório?
Na verdade, não. Se os veios minerais, às vezes, se assemelham a ilustrações botânicas, isso pode ser atribuído à natureza liquefeita da Terra e à mecânica dos fluidos.
Mas os alquimistas tiveram triunfos, como a invenção de pigmentos novos e brilhantes. O laboratório químico tomou o lugar da horta dos mosteiros como fonte de medicamentos.
Os alquimistas também se tornaram especialistas em identificar fraudes. Foi um alquimista renomado quem comprovou que as propriedades supostamente milagrosas das fontes vitriólicas não tinham relação alguma com a verdadeira transmutação. Na realidade, o vitríolo da água, ou sulfato de cobre, fazia átomos de ferro na superfície de uma barra de ferro submersa passar para a água, deixando poros que eram rapidamente ocupados por átomos de cobre presentes na fonte.
Newton mostrou-se igualmente intolerante com fraudes quando, em seus últimos anos de vida, ocupou o cargo de mestre da Casa da Moeda.
"Ele era brutal", comentou Mark Ratner, químico de materiais da Universidade Northwestern, em Evanston, Illinois. "Sentenciou pessoas à morte por tentarem raspar o ouro da superfície de moedas."
Isaac Newton pode ter sido o melhor cientista de todos os tempos. Mas que ninguém se iluda, disse Ratner: "Ele não era um sujeito legal".