terça-feira, 11 de maio de 2010

Projeto educacional no Amazonas adapta ensino médio aos idiomas e práticas indígenas


Por Marcelo Leite, do Caderno Mais!, da Folha de São Paulo
Crédito da Foto: Marcelo Justo

No Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é", diz o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. "Só é índio quem se garante."
Está na cara que Aloisio Cabalzar, 41, antropólogo de ascendência suíça que viaja à minha frente na voadeira (lancha de alumínio), não é índio. Protetor solar e o romance policial "Alerta Negro", de Patricia Cornwell, são seus companheiros fluviais mais constantes. Mas ele fala a língua tuiuca com fluência após duas décadas de andança pela mandíbula da região da Cabeça do Cachorro.
Cabalzar, do Instituto Socioambiental (ISA), de São Paulo, é o paciente cicerone da reportagem da Folha na viagem de dez dias e várias "cachoeiras" (corredeiras) pelo extremo noroeste do Estado do Amazonas. Objetivo: conhecer as excepcionais escolas tuiuca e tucano das comunidades ao longo do rio Tiquié, afluente do Uaupés, por sua vez um tributário do rio Negro.
Metade desses dias foi padecida em voadeira, a maior parte com motor de popa de 40 HP. Menos potência, e a viagem pode se estender por uma semana -só na ida.
Já no final da primeira jornada, o antropólogo conversa com o jovem carona Marcos Resende, habitante de São Pedro (ou Pikorõaburo, em tuiuca, nome de uma larva de besouro que come o miolo do tronco do buriti), nosso destino final. O jovem tampouco parece índio. Cabelos encaracolados, boné de hip-hop virado para trás, camiseta Racionais MC's -de quem nunca ouviu uma música, aliás.
A aparência engana. Na primeira refeição em São Pedro, na casa de seu padrasto, Adão Barbosa, Marcos fala tuiuca. Serve-se com as mãos, como todos, das maniuaras (saúvas) torradas, da cutia e do beiju. Não reage com lacrimejo e espirros ao excesso de pimenta, como os convidados.
Quatro dias depois, no caxiri de despedida para os visitantes, festa na maloca regada à bebida de mesmo nome fermentada da mandioca, Marcos tocaria flauta e dançaria com outros moços e moças. Sem o boné, mas tampouco havia adorno de penas à vista -só bermudas e camisetas de muitas cores. Seu pé direito socaria o chão de terra, mantendo o ritmo e a tradição. Ex-aluno do ensino médio, Marcos já é professor.

Língua ameaçada
"Antigamente, sábio era quem obedecia às regras", pondera Higino Pimentel Tenório, 55, a autoridade reconhecida em São Pedro. Professor há 35 anos, Poani -seu nome cerimonial em tuiuca- lamenta que os jovens tenham abandonado muitos costumes.
Uma das interdições importantes, explica Poani, é a abstinência sexual de 15 dias antes de beber o caapi (bebida alucinógena similar à ayahuasca). "Quem obedece às regras tem mais poder, progride mais", afirma o professor sobre a sabedoria veiculada pelas "mirações" desencadeadas pela bebida. "[A gente vê] muita cobra colorida no vômito, entende a música e as palavras da cachoeira."
Seu orgulho é ter revertido o "êxodo rural", como se refere à saída de jovens para as antigas missões salesianas da região, Pari-Cachoeira e Taracuá, ou para a sede do município, São Gabriel da Cachoeira. A regra era abandonarem as aldeias em busca de educação.
São Pedro ficou reduzida a 14 famílias, em 2000. Hoje são 23. A língua tuiuca, antes à beira da extinção, agora é falada por todos, dentro e fora da sala de aula. Inclusive pelos alunos tucanos, desanas, yebamasãs, barás ou miriti-tapuias vindos de aldeias vizinhas para os módulos de 15 dias, intercalados com 15 dias passados na comunidade de origem, para trabalhar com os pais na roça e na pesca.
Os moços não precisam mais mudar-se para São Gabriel, 700 quilômetros rio abaixo, para cursar o ensino médio. A primeira turma do secundário da escola Utapinopona -"Filhos da Cobra de Pedra"- formou-se no ano passado, Marcos Resende entre eles (hoje dá aulas para a nova turma da escola comunitária).
Agora só lhes falta o reconhecimento de um diploma oficial. E já discutem como poderia ser um ensino superior indígena.

Paisagem como projeto

A casa de apoio construída em São Pedro pelo ISA, que auxilia a escola na localidade desde 1994, tem três ambientes. O telhado sem forro é de caraná (Mauritia carana), palmeira aparentada com o buriti (M. flexuosa). Não deixa a desejar numa região em que pode chover até 3.600 mm/ano. Resistiu, sem muitas goteiras, a vários temporais.
O quarto sem porta abriga as redes dos visitantes. A cozinha diminuta é território de Jorge Gabriel da Silva, 52, piloto de voadeira e cozinheiro da etnia desana. O cômodo maior pode ser sala de aula ou de refeição e dormitório extra, dependendo do horário.
Das paredes pendem cartazes com desenhos elaborados de perfis de vegetação em capoeiras: plantas vermelhas são as cultivadas, verdes, as pioneiras (primeiras a se instalar) e azuis, as de floresta madura.
Às 14h do dia 30 de março, excepcionalmente, é hora de aula expositiva. As tardes são em geral dedicadas a atividades como desenho de perfis de vegetação e compilação de dados em tabelas, não à exposição.
A rotina foi alterada para acomodar a agenda da reportagem, que pela manhã acompanhou uma atividade de campo dos alunos (coleta de mel e reprodução de colmeias de meliponicultura -criação de abelhas sem ferrão).
São 19 alunos na sala, 15 homens e 4 mulheres na faixa de 15 a 19 anos. Há dois computadores laptop, além daquele em que Pieter-Jan van der Veld, 46, agrônomo holandês contratado pelo ISA, lê o tema do dia: "Apresentar uma pesquisa sobre paisagem florestal". Os três aparelhos e a única lâmpada do recinto são alimentados por energia acumulada em baterias de caminhão por um painel solar fotovoltaico.
O português sai com um acento lusitano e palavras esparsas em espanhol, mas Wisõka -Esquilo, apelido do professor em tuiuca, por causa dos cabelos avermelhados- garante que os jovens entendem.
Todos ali falam pelo menos três idiomas (português, tuiuca e tucano, a língua franca do Tiquié) e escrevem as duas primeiras. Recebem visitantes do Brasil todo e do exterior, interessados na experiência peculiar de educação indígena. "O meu é só mais um sotaque do português para eles", tranquiliza Van der Veld.
A aula difere muito do ensino médio tradicional nas redes públicas de outros Estados e das grandes cidades amazonenses. Além dos módulos em blocos intercalados de 15 dias, dura quatro e não três anos, divididos em ciclos de dois. Em lugar de um currículo segmentado em disciplinas, os alunos aprendem com base em pesquisas e projetos temáticos.
O projeto atual é um levantamento de "paisagens", ou fisionomias vegetais, eleitas pela comunidade -alunos, pais e professores. O estudo se concentra nas quatro principais: floresta ("makaruku"), capoeira ("wiariro", roça abandonada), igapó ("boareko", floresta de inundação sazonal) e campinarana ("tataboa", uma espécie de caatinga amazônica que viceja em solos arenosos e encharcados, origem da "água preta" dos igarapés e rios da bacia do Negro).
Há dezenas de subdivisões para registrar concentrações de recursos importantes. "Netahta" é buritizal; "mihpitahta", açaizal. Em foco, na pesquisa, estão os caranazais ("mui boa"), onde folhas para renovar telhados são colhidas. Se o estoque natural não for bem manejado, a matéria-prima escasseia, o que pode forçar a mudança de local da aldeia.
Na semana anterior, o grupo passara quatro dias acampado, identificando, contando e medindo árvores e arvoretas com mais de um dedo de espessura num transecto (área delimitada) de mil metros quadrados. Os dados coletados são organizados em listas (todos os tipos de árvores encontradas), depois em tabelas (com as quantidades de cada tipo).
Listas e tabelas são necessárias para produzir gráficos, explica Van der Veld. A tradução para o tuiuca fica a cargo do professor habitual da classe, José Barreto Ramos, 50. Ele também se chama Poani, um dos nove nomes de homem disponíveis na língua tuiuca; para as mulheres, há seis.
Nesse idioma, a entonação modifica o significado das palavras. Tudo soa incompreensível para o forasteiro, mas a tradução vem entremeada de palavras portuguesas: "gráfico", "tabela", "lista"...
Conceitos inexistentes numa cultura em que, poucas décadas atrás, só se contava até 20 (soma de todos os dedos e artelhos). "O próprio conhecimento quem manifesta é a língua", teoriza o outro Poani (Higino Tenório).
A aula evolui para a confecção de um gráfico comparando as quantidades de três árvores em dois transectos. Todos os alunos têm pranchetas, cadernos e réguas. Anotam tudo que o professor escreve no quadro, em português, com letras de forma e caligrafia bem desenhada. O silêncio e a atenção são dignos de nota, para quem conhece a atmosfera do ensino médio nas capitais, retratada no filme "As Melhores Coisas do Mundo", de Laís Bodanzky.
Terminada a explicação da tarefa, a dificuldade se torna visível: raros são os que começam de imediato a traçar o gráfico de barras. Os alunos empacam na correspondência entre número de árvores e centímetros do eixo y e na escolha da escala para a figura caber na página. Só então começam a falar entre si, e o observador conclui que ajudam uns aos outros. Van der Veld dá a tarefa por completa após uma hora e meia de aula.
"A parte difícil é a matemática", diz o holandês. "Enfrentam problemas com coisas técnicas e abstratas, mas não com a parte prática." Na sua avaliação, os alunos da escola tuiuca têm nível melhor que os técnicos de Rondônia com quem trabalhou por um ano em 1998, para fazer amostragens de solo no macrozoneamento do Estado. "Os problemas são os mesmos da educação do Brasil [todo]."

Caranazal abusado

Dois dias depois, a reportagem entra na mata com Van der Veld e cinco estudantes, para uma demonstração de levantamento num caranazal. Há dificuldade para acompanhar a marcha, firme e aplicada como a caligrafia exibida em sala de aula. São 45 minutos para cobrir cerca de dois quilômetros desde a margem do Tiquié, segundo o GPS. O jornalista e o repórter-fotográfico aprendem rápida e dolorosamente o significado da palavra "caba" (marimbondo).
Chegamos ao caranazal pouco depois das 10h. Embora a palmeira não componha mais que 3% das 139 plantas inventariadas pelos tuiucas nessa paisagem vegetal, suas folhas em leque estão por toda parte.
Visível, também, é a decepção do agrônomo professor: só há indivíduos juvenis de Mauritia carana, nenhum adulto com tronco, muito menos com os 15 metros que pode alcançar na fase reprodutiva. A maioria dos caranás é "pu" (criança).
"Um caranazal abusado", decreta o holandês. Nem mesmo a regra tradicional de deixar pelo menos três folhas em cada pé parece ter sido observada pelos últimos coletores. O manejo inadequado implica que a área precisará de muitos anos para voltar a ser explorada, porque não sobraram plantas-mãe para lançar sementes e recompor a população.
Não deixa de ser didático para os tuiucas Jorge Rochas Gutierrez, Josival Azevedo Rezende e Walter Marques Tenório, além de Jodair de Jesus (tucano) e Angel Maria Sanches (bará), os estudantes de ensino médio encarregados da demonstração.
Sua tarefa é demarcar um transecto, a área para levantamento da paisagem. Começam por assinalar uma árvore de porte facilmente identificável na mata rala e fixar nela uma plaquinha de metal. É o ponto de referência, marcado no GPS.
A partir dele se estende a trena por 20 m (numa pesquisa real são 100 m), iniciando a demarcação do polígono com 10 m de largura. Fincam-se estacas a cada 5 m, para fixar barbantes perpendiculares que dividirão a área em quatro setores, para facilitar a contagem.
O ângulo é definido com auxílio de bússolas de fundo transparente, que permitem enxergar o fio por baixo e alinhá-lo. Van der Veld pergunta quanto é um ângulo reto, para marcar o canto do retângulo do transecto. A primeira resposta é 50, logo corrigida para 90 -não sem algum debate.
Os alunos têm então de somar ou subtrair os 90 da orientação registrada para a trena (230), e a barreira da abstração volta a materializar-se. Fazem e refazem contas a caneta na palma das mãos, até chegar às respostas corretas (320 e 140). Quando surgem quantidades negativas, então, a dificuldade cresce de forma exponencial, conta o professor holandês.

De volta à tanga

Juntos, os rapazes acabam resolvendo todos os problemas que Van der Veld propõe. No processo, ganham ferramentas e habilidades para entender melhor e manejar a dinâmica natural de um recurso decisivo para os tuiucas e seus vizinhos. Já se foi o tempo em que os jovens tinham de aprender com livros -dos padres salesianos ou do MEC- que falavam de maçãs e uvas, frutas que nunca chegam ali.
"Abrimos opção para cada jovem buscar qual tipo de conhecimento vai buscar fora para solucionar os problemas da comunidade", afirma o líder Higino Tenório. Os projetos de pesquisa sempre têm relação com o sustento material e cultural dos tuiucas e dos povos vizinhos (entre os quais buscam mulheres para casar): a palha do caraná, peixes e piscicultura, meliponicultura, roça -mas também mitos, cantos, adornos e benzimentos.
A ideia por trás da nova escola sempre foi casar a "ciência dos brancos" com a valorização do conhecimento indígena. E, no caminho, aproximar moços e velhos, revivendo regras cujo cumprimento estava se tornando exceção. "Nossos antepassados [homens] passavam três meses acampados na mata, aprendiam a fazer cestaria", conta Tenório. "[Eram] regras para dotá-los de conhecimento, força e espírito."
Na própria comunidade de São Pedro houve resistência à proposta de educação indígena e alfabetização em língua tuiuca. Fiéis ao ensino rígido dos salesianos, que os ensinaram a ler, escrever e contar até mais que 20 e os ajudaram a libertar-se das dívidas com os patrões da borracha e comerciantes dos regatões, muitos pais acharam que seria um retrocesso.
"Nossos próprios parentes não chegavam a entender", rememora o professor José Ramos. "[Achavam que] atrapalharia, traria atraso, os filhos não poderiam aprender português, voltariam para trás e a usar tanga como nossos antepassados", diz o outro Poani, sempre de calça comprida, cinto e camisa polo.
"Os padres mandavam bater nas crianças. Isso acabou", comemora. "A escola agora tem computador, tecnologia, oficinas, bússola e GPS. Nossos filhos só falavam tucano, custou dois, três anos para voltarem a falar tuiuca. Quando um aluno está doente, manda carta [para o professor] escrita em tuiuca."

Ensino superior indígena

As resistências comunitárias foram pouco a pouco vencidas. Hoje, a língua tuiuca ganhou algo que nunca teve: uma literatura própria. Fruto de duas décadas de trabalho do casal Flora Dias Cabalzar e Aloisio, o "Arusu" (arroz).
Eles foram "peças fundamentais", segundo Higino Tenório. "Eu penso várias ideias, mas não sei colocar as palavras certas", diz o coautor tuiuca. "Eles sabem escrever, ouvindo nossas ideias."
Já são oito livros publicados no idioma em uma década. Um ainda está no prelo: "Utapinopona Kuye Poseminiã Niromakaraye" (Adornos Cerimoniais dos Tuiucas). Resultou de um projeto temático da escola em que alunos recolheram entre os mais velhos descrições, usos e explicações sobre a origem dos ornamentos.
A experiência "sui generis" de educação indígena na região da Cabeça do Cachorro, que inclui os tucanos do Tiquié e os baniuas do rio Içana, gerou também várias teses e publicações em português. O livro mais recente é "Manejo do Mundo - Conhecimentos e Práticas dos Povos Indígenas do Rio Negro, Noroeste Amazônico" (organizado por Cabalzar, do ISA), lançado num seminário com o mesmo título, que se realizou de 8 a 13 de abril em São Gabriel da Cachoeira.
O seminário reuniu representantes dos vários povos da região, inclusive da Colômbia, para trocar experiências de educação baseadas em projetos de pesquisa sobre a natureza e delinear como poderia ser um ensino superior indígena. Trata-se de formar professores de ensino básico com nível universitário, como exige a lei, mas com currículo que vá além da formalização muitas vezes medíocre oferecida por universidades da Amazônia.
O encontro resultou numa lista com 13 desejos para um ensino superior indígena. Coisas como ser inovador, ter relação com o território da bacia do rio Negro e conexão direta com as comunidades. "Qual seria o conhecimento mesmo, de nível superior, para o jovem conseguir viver aqui?", pergunta Higino Tenório. "É inviável querer transformar o índio em intelectual. Quem faz curso superior quer ir para a capital."
Mais sintomática é a lista do que os índios não querem que ele seja: só uma licenciatura intercultural, numa única língua, com predominância do conhecimento científico ocidental e estruturas burocratizadas. A burocracia estatal, aliás, é no momento a grande pedra no caminho das experiências educacionais do rio Negro.
Enquanto se limitavam ao ensino fundamental, as peculiaridades da educação comunitária foram sendo acomodadas com as regras municipais de São Gabriel da Cachoeira, onde cerca de 90% da população de 42 mil habitantes e até o prefeito são indígenas. Ao alcançar o nível médio, porém, passaram para a alçada da Secretaria Estadual de Educação amazonense, e o reconhecimento oficial das turmas já formadas ainda não saiu.
Da duração -quatro e não três anos- à inexistência de avaliação com notas ou de conteúdo curricular padronizado, pouca coisa se enquadra nas normas do Conselho Estadual de Educação do Amazonas.
"[O ensino médio tuiuca] é um projeto avançado, até para a educação indígena", afirma o professor de física e matemática Inafran da Silva Bastos, técnico da Gerência de Educação Escolar Indígena da secretaria estadual. "Na hora de reconhecer, a própria Seduc não estava preparada. É só uma questão de tempo e de se adequar -no mínimo dois a três meses."
A nova gerente da área, Alva Rosa, da etnia tucano, tomou posse em 19 de abril, Dia do Índio. Bastos informa que a gerência trabalha na adaptação do currículo estadual para a educação indígena, mas que o processo ainda está "no início".

Aracu, acará e araripirá

No último dia de março, a reportagem desce o Tiquié até a comunidade tucano em Cachoeira do Caruru, menos de meia hora de voadeira com o motorzinho de popa de 15 HP. Vamos conhecer a estação de piscicultura montada em 1999 por uma associação de 12 comunidades tucanas e tuiucas no Alto Tiquié.
O guia da visita é o coordenador-gerente do projeto, Lucas Alves Bastos. A escola, em paralelo ao projeto de piscicultura, desenvolveu uma pesquisa relacionando enchentes e vazantes, chuvas, piracema (desova dos peixes) e constelações que "caem" do céu no poente, como a da Jararaca (em novembro).
O projeto tem por meta reproduzir e distribuir para as comunidades espécimes das espécies nativas aracu-riscado (Leporinus agassizii), aracu-três-pintas (L. friderici), acará-trovão (Satanoperca jurupari) e araripirá (Chalceus macrolepidotus). Machos e fêmeas maduros são capturados e têm a hipófise retirada para extração de hormônio, depois injetado debaixo da nadadeira peitoral de outros peixes para estimular a produção de gametas (espermatozoides e óvulos).
Controlando a temperatura dos animais, os técnicos indígenas definem o momento de espremer os peixes e colher o material para fertilização em bacias, que exigem trocas de água de dez em dez minutos. Transfere-se o material para incubadoras com água corrente, durante sete dias, para que os embriões eclodam e se desenvolvam. Eles são depois contados e transferidos para os viveiros, tanques de 10 m x 20 m x 1,5 m escavados no terreno.
No momento, as incubadoras estão vazias. Uma semana antes, 34.300 pós-larvas de araripirás, com três milímetros, foram produzidas em Caruru. Cerca de 2.000 sobreviverão nos tanques e alcançarão dez centímetros, quando serão enviadas para engorda nos viveiros comunitários e familiares, como os de São Pedro.
O dia anterior fora de mutirão para cavar um terceiro viveiro na vizinha aldeia tuiuca, parceira dos tucanos de Caruru. Meia centena de homens, mulheres e crianças trabalhavam juntos, sob o sol a pino. Já há dois lagos, mas um está vazando. É preciso abrir outro, trabalho para cinco dias.

Palavra de índio

"Nossa ideia é fazer criação para o rio descansar", explica Higino Tenório, líder dos trabalhos. "Com tecnologia -pilha, zagaia, malhadeira- a pesca deixou de ser seletiva e inteligente, como era feita com pari [armadilha de varas], e se tornou predatória."
Tuiucas e tucanos do Tiquié entendem que foram gente-peixe, antes de se transformarem em gente-verdadeira, e assim escolheram permanecer. Para isso, precisam de flautas do jurupari (que mulheres e crianças só podem ouvir, não ver), de folhas do caraná, aracus, acarás e araripirás -além de uma tecnologia que fuja à norma da superexploração.
Em duas palavras, buscam na prática as tão faladas "inovação" e "sustentabilidade" e elegeram o ensino como canoa para realizar a travessia. "[A escola] é a instituição externa que eles conseguiram manejar", resume Aloisio Cabalzar.
A regra do senso comum vale também para os índios: educação é a garantia de algum futuro. Um futuro índio.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Estamos com fome de amor...


Por Arnaldo Jabor, do jornal O Dia



O que temos visto por aí???

Baladas recheadas de garotas lindas, com roupas cada vez mais micros e transparentes.

Com suas danças e poses em closes ginecológicos, cada vez mais siliconadas, corpos esculpidos por cirurgias plásticas, como se fossem ao supermercado e pedissem o corte como se quer... mas???

Chegam sozinhas e saem sozinhas...

Empresários, advogados, engenheiros, analistas, e outros mais que estudaram, estudaram, trabalharam, alcançaram sucesso profissional e, sozinhos...

Tem mulher contratando homem para dançar com elas em bailes, os novíssimos "personal dancer", incrível.

E não é só sexo não!

Se fosse, era resolvido fácil, alguém duvida?

Sexo se encontra nos classificados, nas esquinas, em qualquer lugar, mas apenas sexo!

Estamos é com carência de passear de mãos dadas, dar e receber carinho, sem necessariamente, ter que depois mostrar performances dignas de um atleta olímpico na cama ... sexo de academia . . .

Fazer um jantar pra quem você gosta e depois saber que vão "apenas" dormir abraçadinhos,
sem se preocuparem com as posições cabalísticas...

Essas coisas simples, que perdemos nessa marcha de uma evolução cega.

Pode fazer tudo, desde que não interrompa a carreira, a produção...

Tornamo-nos máquinas, e agora estamos desesperados por não saber como voltar a "sentir", só isso, algo tão simples que a cada dia fica tão distante de nós...

Quem duvida do que estou dizendo, dá uma olhada nos sites de relacionamentos "ORKUT", "PAR-PERFEITO" e tantos outros, veja o número de comunidades como: "Quero um amor pra vida toda!", "Eu sou pra casar!" até a desesperançada "Nasci pra viver sozinho!"

Unindo milhares, ou melhor, milhões de solitários, em meio a uma multidão de rostos cada vez mais estranhos, plásticos, quase etéreos e inacessíveis, se olharmos as fotos de antigamente, pode ter certeza de que não são as mesmas pessoas, mulheres lindas se plastificando, se mutilando em nome da tal "beleza"...

Vivemos cada vez mais tempo, retardamos o envelhecimento, e percebemos a cada dia mulheres e homens com cara de bonecas, sem rugas, sorriso preso e cada vez mais sozinhos...

Sei que estou parecendo o solteirão infeliz, mas pelo contrário...

Pra chegar a escrever essas bobagens?? (mais que verdadeiras) é preciso ter a coragem de encarar os fantasmas de frente e aceitar essa verdade de cara limpa...

Todo mundo quer ter alguém ao seu lado, mas hoje em dia isso é julgado como feio, démodê, brega...

Alô gente!!! Felicidade, amor, todas essas emoções fazem-nos parecer ridículos, abobalhados...

Mas e daí? Seja ridículo, mas seja feliz e não seja frustrado...

"Pague mico", saia gritando e falando o que sente, demonstre amor...

Você vai descobrir mais cedo ou mais tarde que o tempo pra ser feliz é curto, e cada instante que vai embora não volta mais...

Perceba aquela pessoa que passou hoje por você na rua, talvez nunca mais volte a vê-la, ou talvez a pessoa que nada tem haver com o que imaginou mas que pode ser a mulher da sua vida...

E, quem sabe ali estivesse a oportunidade de um sorriso a dois...

Quem disse que ser adulto é ser ranzinza ?

Um ditado tibetano diz: "Se um problema é grande demais, não pense nele... E, se ele é pequeno demais, pra quê pensar nele?"

Dá pra ser um homem de negócios e tomar iogurte com o dedo, assistir desenho animado, rir de bobagens e ou ser um profissional de sucesso, que adora rir de si mesmo por ser estabanado...

O que realmente, não dá é para continuarmos achando que viver é out... ou in...

Que o vento não pode desmanchar o nosso cabelo, que temos que querer a nossa mulher 24 horas, maquiada, e que ela tenha que ter o corpo das frutas tão em moda, na TV, e também na Playboy e nos banheiros, eu duvido que nós homens queiramos uma mulher assim para viver ao nosso lado, para ser a mãe dos nossos filhos, gostamos, sim, de olhar, e imaginar a gostosa, mas é só isso, as mulheres inteligentes entendem e compreendem isso.

Queira do seu lado a mulher inteligente: "Vamos ter bons e maus momentos e uma hora ou outra, um dos dois, ou quem sabe os dois, vão querer pular fora, mas se eu não pedir que fique comigo, tenho certeza de que vou me arrepender pelo resto da vida"...

Porque ter medo de dizer isso, porque ter medo de dizer: "amo você", "fica comigo", então não se importe com a opinião dos outros, seja feliz!

Antes ser idiota para as pessoas que infeliz para si mesmo!

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Sons da Paraíba atravessando continentes


Por Oziella Inocêncio, da ASCOM/UEPB

O Brasil é só samba? E a Paraíba, é apenas forró? Para muito além dos rótulos limitadores, que se propagam por aí, o produtor paraibano Arthur Pessoa, líder da banda campinense Cabruêra caiu na estrada mundial para apresentar os inúmeros matizes musicais que vem sendo desenvolvidos no Estado. Para isso, organizou uma compilação apresentando artistas locais, com um título, digamos, sugestivo: "Brazil More Than Samba: Sounds from Paraíba" (Brasil Mais que Samba: Sons da Paraíba).

O CD reúne músicas de 20 artistas, entre eles Toninho Borbo e Biliu de Campina, e bandas da Paraíba, a exemplo de Brazilian Trombone Ensemble, Jaguaribe Carne, Chico Correa e Burro Morto. "O Brazil More Than Samba criou uma plataforma inédita para exportação da produção musical local, levando a música dos artistas paraibanos ao encontro de profissionais da música de todos os continentes, através da participação do projeto nas maiores feiras internacionais de música", apontou Arthur.

De acordo com Arthur, o CD já foi levado às feiras da Dinamarca, Argentina e França, conforme previa o projeto. "O saldo que faço é muito positivo. A expectativa é que a iniciativa continue e que, ainda este ano, tenhamos uma segunda edição do Brazil More Than Samba, desta feita numa caixa com cinco CD’s”, explicou.

Ele informou que cada compacto trará um gênero musical distinto, abrangendo instrumental e jazz, rock, regional, eletrônico e hip/hop, e world music. Pessoa acrescentou que a efetivação deste segundo projeto será fundamental para agregar outros artistas que não participaram da coletânea nesta primeira edição. “A verve criativa da Paraíba é muito rica. Precisamos aglutinar mais talentos”, destacou.

O projeto teve o patrocínio do Fundo de Incentivo à Cultura (FIC), do Governo do Estado da Paraíba, com o apoio do Sebrae. Além do CD, a divulgação do projeto também conta com outros materiais como cartazes e encarte em inglês com os contatos dos artistas.

Confira os artistas que participam do projeto "Brazil More Than Samba: Sounds from Paraíba":

Burro Morto - Cabaret
Brazilian Trombone Ensemble - Fantasia Carnavalesca
Aerotrio - Gato Preto
Totonho e Os Cabra - Você tá Doida pra me Dar
ChicoCorrea - Cantador
Escurinho - Lá Vem a Onda
Jaguaribe Carne - Saltos
Tocaia da Paraíba - Tabajara
Cabruêra - Passarada
Biliu de Campina - Se Toque no Forró
Vates e Violas - Ondinas
Toninho Borbo - Ser Humano
Eleonora Falcone - Pedaço de Sol
Gunjah Reggae Band - Coco Nyabinghi
Emboscada - A Trilha
Zé Viola Progressive Band - O Negro Albino
Unidade Móvel - As Pedras
La Gambiaja - Des Oiseaux
Cabeça Chata - Miudim
Madalena Moog - Hey, Amigo!

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Sugestão de leitura da ASCOM/UEPB: O Martírio dos Viventes, de Paulo Cavalcante



Por Oziella Inocêncio, da ASCOM/UEPB

O Martírio dos Viventes é a história do escritor Paulo Cavalcante, um retirante ruralista que fez da sua vida uma peregrinação pelas feiras literárias brasileiras. Chapéu, alparcatas, bolsa de couro, uma cabaça de água, muitos livros na mão, em cima de um tamanco inusitado, o escritor passeia pelos eventos para mostrar aos leitores a sua criatividade.

Sobrevivente da seca de 1992/93, em Caraúbas, na Paraíba, Paulo criou personagens e enredos fictícios para eternizar a história dos nordestinos que vivem em secas reais no semi-árido. A obra do escritor retrata o sofrimento do solo, dos animais e dos homens, além de abordar temas como religiosidade, mortalidade infantil, exclusão social e resistência.

Ex- aluno da UEPB, Paulo doou, recentemente, exemplares da obra para as bibliotecas da instituição. Assim, o livro pode ser encontrado nas bibliotecas do Centro de Educação (CEDUC) e também na Biblioteca Central da UEPB, localizada no bairro de Bodocongó, em Campina Grande. O Martírio dos Viventes é o primeiro livro de Paulo, sendo que a publicação já está na quarta edição. 

Vestido à caráter das suas tradições naturais, o escritor percorre os maiores eventos de Literatura do país, como a Feira do Livro de Parati, as bienais do Rio de Janeiro, Recife, São Paulo, Natal e Brasília, entre outras. Um dos destaques da indumentária de Paulo é o tamanco, uma plataforma confeccionada por ele, com 35 cm de altura, a base de madeira umburana e oca por dentro, na qual ele usa para guardar objetos pessoais e alimentos, a exemplo de banana, cenoura, castanhas, rapadura e mel.

Nascido em Caraúbas, micro-região do Cariri Paraibano, Paulo mora em Campina Grande desde 1981, quando veio estudar e trabalhar na cidade. Naquela década, graduou-se em Administração pela Universidade Regional do Nordeste (antiga URNe). Já em 1998, concluiu Licenciatura Plena em História e, em 2000, Especialização em Formação do Educador - ambas na UEPB. Assim, atualmente, Paulo divide a verve inventiva para as letras com o ofício de professor.

Niemeyer deve receber alta até sexta-feira, diz hospital




Por Fabiana Marchezi, da Agência Estado

O arquiteto Oscar Niemeyer, de 102 anos, que realizou dois projetos para a UEPB, deve receber alta até sexta-feira, segundo a assessoria de imprensa do Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro, onde ele está internado desde 25 de abril por conta de uma infecção urinária.

Ainda segundo o hospital, o quadro de saúde de Niemeyer evolui bem. O arquiteto está internado em um quarto da Unidade Semi-Intensiva.

Entre setembro e outubro do ano passado, o arquiteto esteve internado em uma clínica por 24 dias, quando foi operado de um tumor no intestino grosso.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Nouvelle Vague e as peripécias de um assessor


Por Juliana Rosas, da ASCOM/UEPB

A expectativa era grande. As perguntas já estavam preparadas. Duas jornalistas da Assessoria de Comunicação da UEPB saem à procura da banda francesa Nouvelle Vague que veio para Recife-PE, no último sábado (01), a fim de entrevistá-los.

A princípio, nós, claro, queríamos curtir o show. A entrevista seria um plus. Como já dito, a expectativa era grande, mas a apreensão também, de não conseguir o contato. Pensávamos no que iriam pensar. Afinal, não tínhamos um crachá de um grande periódico.

Mas fomos à batalha. Primeiro, os seguranças. Um deles disse que banda não falou com ninguém nem iria falar. Cara chato. Ao entrarmos, fomos checar uma local, ‘dar um rolê’. Era imenso. Por onde começar? Avistamos um pessoal num local mais separado, após uma grade. Perguntamos a este outro segurança. Ele chamou a produção. O produtor nos levou ao assessor. Achávamos que ele era o assessor da banda. Assessorava o projeto. Que projeto? Não sei. Provavelmente, de trazer esta banda pra cá.

A primeira banda nem havia começado: a Band Ciné, local. O assessor, Lula Queiroga, disse que eles só chegariam lá pra meia-noite e que o procurasse depois, ele estaria “por ali”. Achamos que ele foi legal. “Olha, nós viemos da Paraíba, somos assessoras lá, da Universidade Estadual, não deu pra falar antes, já que chegamos hoje. Queríamos esta entrevista para um blog cultural...”. Mesmo assim, a volta da impressão: ‘esse cara não tá nem aí para deixar umas assessorazinhas da Paraíba entrevistar a banda...’

Complexo de inferioridade? Nem tanto. Sabemos o nosso valor. Mas não podíamos ser inocentes a ponto de não entender o jogo do mercado, que privilegia os grandes veículos do circuito.

Depois disso, voltamos a curtir a noite, o local, o show de abertura. A Band Ciné toca bem, é bonitinha, tem estilo e bons músicos. Eu, particularmente, conhecia algumas músicas mas não me empolguei tanto. Quiçá porque enquanto eles tocavam, fazíamos outras coisas - sentávamos, olhávamos o local, conversávamos, bebíamos - (água, especialmente!) para agüentar o terrível calor recifense – e não deu para se entrosar tanto no show.

Chega a hora. Olhamos em volta e não vemos o tal do assessor. “E agora?” nos perguntamos. Agora, nada, creio. Agora, nos resta esperar o concerto principal. Enfim, chega Nouvelle Vague, abrindo com a cantora brasileira Karina Zeviani, responsável pela maior interação com a platéia. Porém, sua parceira na turnê pelo Brasil, a bela belga Helena Nogueira não ficava atrás em termos de carisma e talento.

O show, para a jornalista que vos escreve, foi fantástico. Não tenho pretensão de fazer crítica musical, nem tenho tanto conhecimento da banda para tal. O som estava ótimo, a banda prende e cativa. É tudo que posso dizer sem soar falso ou clichê.

Para quem está ainda menos familiarizado com a banda, vou só esclarecer um pouco. Nouvelle Vague é um coletivo musical francês arranjado pelos produtores franceses Marc Collin e Olivier Libaux. O nome deles é um jogo de palavras, referindo-se simultaneamente a sua “francesidade”; ao movimento artístico do cinema francês dos anos 60; à fonte de suas canções (todas são covers de músicas punk e new wave dos anos 80) e ao uso do estilo Bossa nova, também dos anos 60.

Isso já diz muito. A Nouvelle é uma banda sui generis. Via de regra, bandas covers não duram muito. E este estereótipo soa pejorativo. Ela não pretende ser apenas uma ‘banda de cover’. Talvez nem banda seja. Está mais para um projeto que quer se divertir escolhendo canções de outrem e reinterpretando-as a sua particular maneira.

E como disse a cantora belga ao final do show: tudo tem um fim. “A vida, os concertos, Nouvelle Vague”. E o fim foi um êxtase. Karina desce do palco para cantar no meio da platéia. Fiquei surpresa de ela ter saído ilesa, vide a grande adoração. Na volta para o bis, a belga Helena disse que estava encantada com a audiência. Cantou mais uma canção, lindíssima. “Geralmente eu não faço isso, mas deve ser o Brasil”, disse, referindo-se ao bis adicional.

E nós nos vamos. Satisfeitas com o show, e com uma ponta de pena de não termos conseguido a entrevista. Oziella, minha “parceira no crime” (ehehehe) ainda vem dizer que havia visto o tecladista da banda, anteriormente, perto do bar. Ai se soubéssemos que era ele!

C'est tout. Au revoir!

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Entrevista com Chico Buarque

 
Por Daniel Cariello e Thiago Araújo, da revista Brazuca | Foto: Jorge Bispo
 
“Se tiver bola, eu dou a entrevista”. Essa foi a única exigência do nosso companheiro de pelada, Chico Buarque, numa caminhada entre o metrô e o campo. Uma bola. E eu acabara de informar que o dono da redonda não viria à pelada de quarta-feira. Éramos dez amantes do futebol, órfãos.

Sem saber se esse era um gol de letra dele para fugir da solicitação de seus parceiros jornalistas, ou uma última esperança, em forma de pressão, de não perder a religiosa partida, eu, que não creio, olhei para o céu e pedi a Deus: uma pelota!

Nada de enigma, oferenda ou golpe de Estado. Ele estava ali, o cálice sagrado da cultura brasileira, que sucumbiu ao ver não uma, mas duas bolas chegarem à quadra pelas mãos de Mauro Cardoso, mais conhecido como Ganso. A partir daí, nada mais alterou o meu ânimo e o da minha dupla de ataque-entrevista, Daniel Cariello. Apesar de termos jogado no time adversário do ilustre entrevistado, tomado duas goleadas consecutivas de 10 x 6 e 10 x 1, tínhamos a certeza de que ele não iria trair dois dos principais craques do Paristheama, e sua palavra seria honrada.

Mas o desafio maior não era convencer o camisa 10 do time bordeaux-mostarda parisiense a ceder duas horas de sua tarde ensolarada de sábado. O que você perguntaria ao artista ícone da resistência à ditadura, parceiro de Tom Jobim, Vinicius de Morais e Caetano Veloso, escritor dos best sellers “Estorvo”, “Benjamin”, “Budapeste” e “Leite Derramado”, autor de “A banda”, “Essa moça tá diferente”, “O que será”, “Construção” e da canção de amor mais triste jamais escrita, “Pedaço de mim”?

Admirado e amado por todas as idades, estudado por universitários, defendido por Chicólatras, oráculo no Facebook, onipresente nas manifestações artísticas brasileiras – sua modéstia diria “isso é um exagero”, mas sabemos que não é –, sua reação imediata ao ser comparado a Deus foi “em primeiro lugar, não acredito em Deus. Em segundo, não acredito em mim. Essa é a única coisa que pode nos ligar. Então, pra começo de conversa, vamos tirar Deus da mesa e seguir em frente”.

Enfim, ainda não creio que entrevistamos Deus, quase sem falar de Deus. Mas foi com ele mesmo que aprendi uma lição, talvez um mandamento: acreditar em coisas inacreditáveis. [Thiago Araújo]


Você assume que não acredita em Deus, mas existem trechos nas suas músicas como “dias iguais, avareza de Deus” ou “eu, que não creio, peço a Deus”. No Brasil, é complicado não acreditar em Deus?

Eu não tenho crença. Eu fui criado na Igreja Católica, fui educado em colégio de padre. Eu simplesmente perdi a fé. Mas não faço disso uma bandeira. Eu sou ateu como o meu tipo sanguíneo é esse.

Hoje há uma volta de certos valores religiosos muito forte, acho que no mundo inteiro. O que é perigoso quando passa para posições integristas e dá lugar ao fanatismo. O Brasil talvez seja o pais mais católico do mundo, mas isso é um pouco de fachada. Conheço muitos católicos que vão à umbanda, fazem despacho. E fica essa coisa de Deus, que entra no vocabulário mais recente, que me incomoda um pouquinho. Essa coisa de “vai com Deus”, “fica com Deus”. Escuta, eu não posso ir com o diabo que me carregue? (Risos). Tem até um samba que fala algo como “é Deus pra lá, Deus pra cá – e canta – Deus já está de saco cheio” (risos).

Você já foi em umbanda, candomblé, algo do tipo?


Já, eu sou muito curioso. A mulher jogou umas pipocas na minha cabeça, sangue, disse que eu estava cheio de encosto. Eu fui porque me falaram “vai lá que vai ser bom”. Passei também por espíritas mais ortodoxos, do tipo que encarnava um médico que me receitou um remédio para o aparelho digestivo. Aí eu fui procurar o remédio e ele não existia mais. O remédio era do tempo do médico que ele encarnava (risos).

Já tive também um bruxo de confiança, que fez coisas incríveis. Aquela música do Caetano dizia isso muito bem, “quem é ateu, e viu milagres como eu, sabe que os deuses sem Deus não cessam de brotar.” Eu vi cirurgias com gilete suja, sem a menor assepsia, e a pessoa saía curada. Estava com o joelho ferrado e saía andando. Eu fui anestesista dessa cirurgia. A anestesia era a música. O próprio Tom Jobim tocava durante as cirurgias. Eu toquei para uma dançarina que estava com problema no joelho. Ela tinha uma estreia, mas o ortopedista disse “você rompeu o menisco”. Ela estreou na semana seguinte, e na primeira fila estavam o ortopedista e o bruxo (risos).

Uma vez, estava com um problema e fui ao médico. Ele me tocou e não viu nada. Aí eu disse “olha, meu bruxo, meu feiticeiro, quando ele apertava aqui, doía”. Ele começou a dizer “mas essa coisa de feitiçaria…” e atrás dele tinha um crucifixo com o Cristo. Daí eu perguntei “como você duvida da feitiçaria, mas acredita na ressurreição de Cristo?”. Eu acho isso uma incongruência. Gosto de acreditar um pouco nisso, um pouco naquilo, porque eu vejo coisas inacreditáveis. Eu não acredito em Deus, acredito que há coisas inacreditáveis.

De vez em quando você dá uma escapada do Brasil e vem a Paris. Isso te permite respirar?


Muito mais. Eu aqui não tenho preocupação nenhuma, tomo uma distância do Brasil que me faz bem. Fico menos envolvido com coisas pequenas que acabam tomando todo o meu tempo. Aqui, eu leio o Le Monde todos os dias, e fico sabendo de questões como o Cáucaso, os enclaves da antiga União Soviética, que no Brasil passam muito batidos. O Brasil, nesse sentido, é muito provinciano, eu acho que o noticiário é cada vez mais local.

Meu pai, que era um crítico literário e jornalista, foi morar em Berlim no começo dos anos trinta. Foi lá, onde teve uma visão de historiador, de fora do país, que ele começou a escrever Raízes do Brasil, que se tornou um clássico. A possibilidade de ter esse trânsito, de ir e voltar, eu acho boa. É como você mudar de óculos, um para ver de longe e outro para ver de perto.


Nesse seu vai e vem Brasil-França, o que você traria do Brasil para a França, e vice-versa?


Eu traria pra cá um pouquinho da bagunça, da desordem. Os nossos defeitos, que acabam sendo também nossas qualidades. O tratamento informal, que gera tanta sujeira, ao mesmo tempo é uma coisa bonita de se ver. Você tem uma camaradagem com um sujeito que você não conhece. Aqui existe uma distância, uma impessoalidade que me incomoda.

Para o Brasil, eu gostaria de levar também um pouco dessa impessoalidade. Da seriedade, principalmente para as pessoas que tratam da coisa pública. Não que não exista corrupção na França.

Outra coisa que eu levaria pra lá é o sentimento de solidariedade, que existe entre os brasileiros que moram fora. Isso eu conheci no tempo que eu morava fora, e vejo muito aqui através das pessoas com as quais convivo. Eles se juntam. Como se dizia, “o brasileiro só se junta na prisão”. Os brasileiros também se juntam no exílio, na diáspora.

Falando em exílio, tem uma história curiosa de Essa moça tá diferente, a sua música mais conhecida na França.

É. A coisa de trabalho (N.R.: na Itália, onde Chico estava em exílio político, em 1968) estava só piorando e o que me salvou foi uma gravadora, a Polygram, pois minha antiga se desinteressou. A Polygram me contratou e me deu um adiantamento. E consegui ficar na Itália um pouco melhor. Mas eu tinha que gravar o disco lá. Eu gravei tudo num gravador pequenininho. Um produtor pegou essas músicas e levou para o Brasil, onde o César Camargo Mariano escreveu os arranjos. Esses arranjos chegaram de volta na Itália e eu botei minha voz em cima, sem que falasse com o César Camargo. Falar por telefone era muito complicado e caro. Então foi feito assim o disco. É um disco complicado esse.


Você acabou de citar o Le Monde. Para nós, que trabalhamos com comunicação, sempre existiu uma crítica pesada contra os veículos de massa no Brasil. Você acha que existe um plano cruel para imbecilizar o brasileiro?

Não, não acredito em nenhuma teoria conspiratória e nem sou paranoico. Agora, aí é a questão do ovo e da galinha. Você não sabe exatamente. Os meios de comunicação vão dizer que a culpa é da população, que quer ver esses programas. Bom, a TV Globo está instalada no Brasil desde os anos 60. O fato de a Globo ser tão poderosa, isso sim eu acho nocivo. Não se trata de monopólio, não estou querendo que fechem a Globo. E a Globo levanta essa possibilidade comparando o governo Lula ao governo Chavez. Esse exagero.


Você acha que a mídia ataca o Lula injustamente?

Nem sempre é injusto, não há uma caça às bruxas. Mas há uma má vontade com o governo Lula que não existia no governo anterior.

E o que você acha da entrevista recente do Caetano Veloso, onde ele falou mal do Lula e depois acabou sendo desautorizado pela própria mãe?


Nossas mães são muito mais lulistas que nós mesmos. Mas não sou do PT, nunca fui ligado ao PT. Ligado de certa forma, sim, pois conheço o Lula mesmo antes de existir o PT, na época do movimento metalúrgico, das primeiras greves. Naquela época, nós tínhamos uma participação política muito mais firme e necessária do que hoje. Eu confesso, vou votar na Dilma porque é a candidata do Lula e eu gosto do Lula. Mas, a Dilma ou o Serra, não haveria muita diferença.

O que você tem escutado?


Eu raramente paro para ouvir música. Já estou impregnado de tanta música que eu acho que não entra mais nada. Na verdade, quando estou doente eu ouço. Inclusive ouvi o disco do Terça Feira Trio, do Fernando do Cavaco, e gostei. Nunca tinha visto ou ouvido formação assim. Tem ao mesmo tempo muita delicadeza e senso de humor.

A música francesa te influenciou de alguma maneira?

Eu ouvi muito. Nos anos 50, quando comecei a ouvir muita música, as rádios tocavam de tudo. Muita música brasileira, americana, francesa, italiana, boleros latino americanos. Minha mãe tinha loucura por Edith Piaf e não sei dizer se Piaf me influenciou. Mas ouvi muito, como ouvi Aznavour.

O que me tocou muito foi Jacques Brel. Eu tinha uma tia que morou a vida inteira em Paris. Ela me mandou um disquinho azul, um compacto duplo com Ne me quitte pas, La valse à mille temps, quatro canções. E eu ouvia aquilo adoidado. Foi pouco antes da bossa nova, que me conquistou para a música e me fez tocar violão. As letras dele ficaram marcadas para mim.

Eu encontrei o Jacques Brel depois, no Brasil. Estava gravando Carolina e ele apareceu no estúdio, junto com meu editor. Eu fiquei meio besta, não acreditei que era ele. Aí eu fui falar pra ele essa história, que eu o conhecia desde aquele disco. Ele disse “é, faz muito tempo”. Isso deve ter sido 1955 ou 56, esse disquinho dele. Eu o encontrei em 67. Depois, muito mais tarde, eu assisti a L’homme de la mancha, e um dia ele estava no café em frente ao teatro. Eu o vi sentado, olhei pra ele, ele olhou pra mim, mas fiquei sem saber se ele tinha olhado estranhamente ou se me reconheceu. Fiquei sem graça, pois não o queria chatear. Ele estava ali sozinho, não queria aborrecer. Mas ele foi uma figuraça. Eu gostava muito das canções dele. Conhecia todas.

Falando de encontros geniais, você tem uma foto com o Bob Marley. Como foi essa história?


Foi futebol. Ele foi ao Brasil quando uma gravadora chamada Ariola se estabeleceu lá e contratou uma porção de artistas brasileiros, inclusive eu, e deram uma festa de fundação. O Bob Marley foi lá. Não me lembro se houve show, não me lembro de nada. Só lembro desse futebol. Eu já tinha um campinho e disseram “vamos fazer algo lá para a gravadora”. Bater uma bola, fazer um churrasco, o Bob Marley queria jogar. E jogamos, armamos um time de brasileiros e ele com os músicos. Corriam à beça.


Vocês fumaram um baseado juntos?

Não. Dessa vez eu não fumei.


E essa sua migração para escritor, isso é encarado como um momento da sua vida, já era um objetivo?

Isso não é atual. De vinte anos pra cá eu escrevi quatro romances e não deixei de fazer música. Tenho conseguido alternar os dois fazeres, sem que um interfira no outro.

Eu comecei a tentar escrever o meu primeiro livro porque vinha de um ano de seca. Eu não fazia música, tive a impressão que não iria mais fazer, então vamos tentar outra coisa. E foi bom, de alguma forma me alimentou. Eu terminei o livro e fiquei com vontade de voltar à musica. Fiquei com tesão, e o disco seguinte era todo uma declaração de amor à música. Começava com Paratodos, que é uma homenagem à minha genealogia musical. E tinha aquele samba (cantarola) “pensou, que eu não vinha mais, pensou”. Eu voltei pra música, era uma alegria. Agora que terminei de escrever um livro já faz um ano, minha vontade é de escrever música. Demora, é complicado. Porque você não sai de um e vai direto para outro. Você meio que esquece, tem um tempo de aprendizado e um tempo de desaprendizado, para a música não ficar contaminada pela literatura. Então eu reaprendo a tocar violão, praticamente. Eu fiquei um tempão sem tocar, mas isso é bom. Quando vem, vem fresco. É uma continuação do que estava fazendo antes. Isso é bom para as duas coisas. Para a literatura e para a música.

Tanto em Estorvo quanto em Leite derramado o leitor tem uma certa dificuldade em separar o real do imaginário. Você, como seus personagens, derrapa entre essas duas realidades?

Eu? O tempo todo, agora mesmo eu não sei se você esta aí ou se eu estou te imaginando (gargalhadas).

Completamente. Eu fico vivendo aquele personagem o tempo todo. Entrando no pensamento dele. Adquiro coisas dele. Você pode discordar, mas chega uma hora que tem que criar uma empatia ou uma simpatia. Você cria uma identificação. E alguma coisa no gene é roubado mesmo de mim, algumas situações, um certo desconforto, não saber bem se você é real, se você está vivendo ou sonhando aquilo. Por exemplo, agora que ganhamos de 10 a 1 (referência à pelada que jogamos três dias antes), eu saí da quadra e falei: “acho que eu sonhei. Não é possível que tenha acontecido” (risos).

Você é fanático por futebol?


Não sou fanático por nada. Mas eu tenho muito prazer em jogar futebol. Em assistir ao bom futebol, independentemente de ser o meu time. Quando é o meu time jogando bem, é melhor ainda, pois eu consigo torcer. Agora mesmo, no Brasil, tinha os jogos do Santos.

Mas eu vou menos aos estádios. Eu não me incomodo de andar na rua, mas quando você vai a alguns lugares, tem que estar com o cabelo penteado, tem que estar preparado para dar entrevistas. Aqui, eu estou dando a minha última (risos). Aqui, é exclusiva. Fiz pra Brazuca e mais ninguém. Eu quero ver o pessoal jogar bola. Então eu vejo na televisão. E quando não estou escrevendo, aí eu vejo bastante.


É verdade que um dia o Pelé ligou na sua casa, lamentando os escândalos políticos no Brasil, e disse “é, Chico, como diz aquela música sua: ‘se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão’”?
É verdade (risos). Eu falei “legal, Pelé, mas essa música não é minha”. O Pelé é uma grande figura. Nós gravamos um programa juntos. Brincamos muito. Conheci o Pelé quando eu fazia televisão em São Paulo, na TV Record, e me mudei para o Rio. Os artistas eram hospedados no Hotel Danúbio, em São Paulo. O mesmo onde o Santos se concentrava. Então, eu conheci o Pelé no hotel. E sempre que a gente se encontra é igual, porque eu só quero falar de futebol e ele só quer saber de música. Ele adora fazer música, adora cantar, adora compor. Por ele, o Pelé seria compositor.

E você, trocaria o seu passado de compositor por um de jogador?


Trocaria, mas por um bom jogador, que pudesse participar da Copa do Mundo. Um pacote completo. Um jogador mais ou menos, aí não.

Você ainda pretende pendurar as chuteiras aos 78 anos, como afirmou?

Não. Já prorroguei. Tava muito cedo. Agora, eu deixei em aberto. Podendo, vou até os 95 (risos).

O Niemeyer está com 102 anos e continua trabalhando. Aliás, não só trabalhando como ainda continua com uma grande fama de tarado (risos).

Ele me falou isso. Eu fui à festa dele de 90 anos e ele me disse: “o importante é trabalhar e ó (fez sinal com a mão, referente a transar)”. Aí eu falei “é mesmo?” e ele respondeu “é mesmo”.

Falando nisso, o Vinícius foi casado nove vezes. Você acha a paixão essencial para a criação?

Sem dúvida. Quando a gente começa – isso é um caso pessoal, não dá pra generalizar – faz música um pouco para arranjar mulher. E hoje em dia você inventa amor para fazer música. Se não tiver uma paixão, você inventa uma, para a partir daí ficar eufórico, ou sofrer. Aí o Vinícius disse muito bem, né? “É melhor ser alegre que ser triste… mas pra fazer um samba com beleza, é preciso um bocado de tristeza, é preciso um bocado de tristeza, senão não se faz um samba não”.

Quando eu falo que você inventa amores, você também sofre por eles. “E a moça da farmácia? Ela foi embora! Elle est partie en vacances, monsieur!”. E você não vai vê-la nunca mais. Dá uma solidão. Eu estou fazendo uma caricatura, mas essas coisas acontecem. Você se encanta com uma pessoa que você viu na televisão, daí você cria uma história e você sofre. E fica feliz e escreve músicas.

Pra finalizar. Se você fosse escrever uma carta para o seu caro amigo hoje, o que você diria?

Volta, que as coisas estão melhorando!