segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Concurso vai escolher nova logomarca do CNPq


Foi lançado em agosto pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) o concurso que vai selecionar a logomarca dos seus 60 anos, que serão completados em 2011. Os interessados podem se inscrever até 30 de setembro. A idéia é promover e estimular uma reflexão sobre a importância da Instituição para o desenvolvimento científico e tecnológico brasileiro. O vencedor leva um prêmio de R$ 15 mil.


A participação no concurso é aberta ao público em geral, tanto para pessoas físicas como jurídicas, sendo permitida a apresentação de mais de um trabalho por participante.


Acesse o regulamento através do endereço eletrônico:
http://www.cnpq.br/normas/rn_10_018.htm

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Campina terá Seminário Regional de Comunicação e Aids no mês de outubro



Aids e comunicação: caminhos diferentes ou estratégias parecidas? As respostas para este e outros questionamentos serão discutidas no Seminário Regional de Comunicação e Aids, que acontecerá entre os dias 05 e 07 de outubro, em Campina Grande. O evento tem como objetivo debater estratégiasde visibilidade no terceiro setor, especialmente as ONGs que trabalham com a temática das DST/Aids no Nordeste.

Realizado pelo Núcleo de Campina Grande da Rede Nacional de Pessoas Vivendo e Convivendo com HIV/AIDS, o Seminário está aberto para a particiapação de estudantes, dirigentes de instituições não governamentais e profissionais de comunicação social. A inscrição custa R$25 e poderá ser feita até o dia 17 deste mês, no site da www.rnpcg.org.br. Os participantes do evento terão direito à hospedagem e ajuda de custo para alimentação. Não serão custeadas despesas com passagens.

O evento é financiado pelo Departamento de DST/AIDS/Hepatites Virais do Ministério da Saúde, com o apoio do Governo da Paraíba, Prefeitura de Campina Grande, Articulação Aids na Paraíba e do Programa Nacional de Controle da Tuberculose. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (83) 3321 - 8731 ou pelo e-mail contato@rnpcg.org.br.


Confira a programação prévia:

Dia 05

16h – Mostra Cultural

19h – Abertura

Conversa Afiada - DST, Aids e Comunicação – O que falar? Como falar? Para quem falar? Adianta falar?

20h
– Jantar

21h
- Programação cultural

Dia 06

9h
- Painel - Comunicação, Tuberculose, Aids e Visibilidade. Caminhos diferentes ou estratégias parecidas?

10h30min
– DST em pauta. Desafios a serem enfrentados na atenção básica

12h
– Almoço

14h
- Painel - Alternativas de Comunicação e Visibilidade

16h
– Redes sociais. "Twitter e redes sociais: comunicação e apropriações"

17h - Apresentação de vídeos19h – Jantar20h – Programação Cultural


Dia 07

9h - Painel - Campanhas Publicitárias: Foco ou desfoco?

12h – Almoço

14h – Painel Definindo estratégias de Visibilidade

17h – Encerramento - Vale a pena ver de novo!

19h – Jantar/ Programação Cultural

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Sesc Campina Grande abre inscrições para oficina de teatro


Da Assessoria do Sesc Campina Grande

O Serviço Social do Comércio está com inscrições abertas para a oficina de teatro do projeto Dramaturgia: Leituras em Cena. O curso será ministrado pelo diretor, ator e professor de teatro, Eduardo Vaccari, e acontecerá de 12 à 14 de setembro, das 18 às 22 horas, no Sesc unidade Centro, em Campina Grande.

O projeto, realizado pelo Sesc Paraíba em parceira com o Departamento Nacional, é composto por duas etapas. A primeira consiste na realização de uma oficina de 12 horas. Após o término dessa fase, acontece a escolha dos 24 atores e quatro diretores que participarão das leituras dramatizadas, na última etapa do projeto.

O ministrante da oficina, Eduardo Vaccari, tem vasta experiência na área de dramaturgia. Possui graduação em Artes Cênicas, com habilitação em Direção Teatral e mestrado também em Artes Cênicas. Já dirigiu e atuou em vários espetáculos, entre eles Nostradamus, de Doc Comparatto, e Fim de Jogo, de Samuel Beckett. Participou de novelas e minisséries da Rede Globo, como Mulheres Apaixonadas e Os Maias.

Para realizar a inscrição basta se dirigir à unidade do Sesc Centro Campina Grande, que fica na Rua Giló Guedes, Santo Antônio, 650, e levar dois quilos de alimentos não perecíveis. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (83) 3341-5800 ou no endereço eletrônico www.sesccultural.blogspot.com.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Homeopatia: 200 anos de polêmica

Por Marcelo Leite e Claudia Collucci, do Caderno Ilustríssima da Folha de São Paulo


RESUMO
Estabelecida há dois séculos, a homeopatia segue controversa, conquistando pacientes em busca de mais diálogo com médicos, mas ainda sem comprovar sua eficácia em testes científicos sistemáticos. Sob ataque de cientistas, periódicos e autoridades, a doutrina tem o apoio da OMS e de governos como o dos EUA e o do Brasil.
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A DOUTRINA MÉDICA da homeopatia defende, como sugerem as raízes gregas do nome, que a semelhança ("homeo") entre efeitos ("pathos") de uma doença e os de uma droga bastam para elegê-la como medicamento.
Se ingerir chumbo paralisa os músculos e pode levar à morte, também poderia ser um tratamento de paralisias similares. Tido como uma lei da natureza há mais de 200 anos, o princípio se encontra sob fogo cerrado da medicina convencional.
A diferença entre veneno e remédio, para homeopatas, está na dose. Em quantidades mínimas, não só o efeito desaparece como troca de sinal, por assim dizer: diluída, a substância se tornaria capaz de despertar uma ação regeneradora do organismo. Quanto maior a diluição, mais potente seria o medicamento homeopático.

DEBATE APAIXONADO O princípio da semelhança já é difícil de aceitar para a ciência experimental, núcleo da medicina baseada em evidências, que almeja proscrever a homeopatia. Somado ao da diluição radical, que resulta em remédios compostos só de água, configura-se como charlatanismo aos olhos do pesquisador tradicional. No Reino Unido, o debate apaixonado chegou a ponto de questionar se o governo deve continuar pagando tratamentos e pesquisas sem base científica.
Rubens Dolce Filho, presidente da Associação Paulista de Homeopatia, e professor na Unifesp exerce tanto a alopatia como a homeopatia e não vê incompatibilidade. "Se a homeopatia fosse uma porcaria, já teria acabado 200 anos atrás. Eu não sou louco." Para ele, a homeopatia tem suas limitações, mas não é uma fraude.
"A homeopatia está entre os piores exemplos de medicina baseada na fé", contestam Michael Baum e Edzard Ernst na edição de novembro do periódico "The American Journal of Medicine". Médico e pesquisador alemão, Ernst trabalhou com homeopatia em Viena; hoje professor de medicina complementar na Universidade de Exeter e Plymouth (Reino Unido), tornou-se um de seus mais ácidos críticos.
"Esses axiomas não estão só em desalinho com fatos científicos, mas também em direta oposição a eles", diz o artigo. "Devemos manter a mente aberta para astrologia, motos-perpétuos, alquimia, abdução por aliens e visões de Elvis Presley? Não, e temos a satisfação de admitir que nossas mentes se fecharam para a homeopatia da mesma maneira."
São palavras incomuns numa publicação médica, ainda que outra prestigiada revista, "Lancet", tivesse decretado a morte da homeopatia quatro anos antes. Ernst disse coisas semelhantes num depoimento ao Parlamento britânico. A Câmara dos Comuns lançou em 2009 uma ofensiva contra a homeopatia por meio de seu Comitê de Ciência e Tecnologia. A conclusão do relatório final, publicado na internet em fevereiro, não poderia ser mais severo:
"Ao oferecer a homeopatia no NHS [Serviço Nacional de Saúde] e ao permitir que a MHRA [Agência Reguladora de Remédios e Produtos de Saúde] licencie produtos que depois aparecem nas prateleiras das farmácias, o governo corre o risco de endossar a homeopatia como sistema médico eficaz. [...] A homeopatia não deve ser financiada pelo NHS, e a MHRA deveria parar de licenciar produtos homeopáticos."
A Sociedade de Homeopatas do Reino Unido reagiu acidamente à comissão. Acusou-a de ignorar as evidências apresentadas, como um total de 74 estudos sobre a eficácia da homeopatia, 63 deles positivos para a terapêutica alternativa. O relatório parlamentar, por seu turno, acusa os homeopatas de manipulação da literatura médica, privilegiando estudos positivos para confundir o público.
"Perguntamo-nos se algum tipo de evidência demoveria médicos homeopatas de sua autoilusão", afirmam Baum e Ernst no comentário em que fecham as mentes para a doutrina, "e os desafiamos a projetar um ensaio metodologicamente sólido que, se negativo, os convença a abandonar o ramo."
"A homeopatia permaneceu como a esfinge entre os sistemas contemporâneos de medicina", já havia constatado anos antes o filósofo alemão Peter Sloterdijk (pronuncia-se "sloterdáic"), no discurso que proferiu em 1996, por ocasião do bicentenário da homeopatia. "Um bloco errático no meio da civilização técnica, ao mesmo tempo plausível e incrível, enigmático e eficaz, uma efígie do ontem e do amanhã."

REPERTORIZAÇÃO O consultório de Marcus Zulian Teixeira, 52, fica no bairro paulistano de Pinheiros,  a um quarteirão da Faculdade de Medicina da USP. É lá que ele se formou e hoje pesquisa e dá aulas. Exíguo e funcional, o espaço sugere tratar-se de um médico de razoável sucesso, ainda que não enriquecido.
Iniciada uma consulta, a sucessão de perguntas parece não ter fim. O paciente, no sentido mais literal da palavra, terá de dizer de que lado dorme, como anda o apetite, se tem sonolências ou se é calorento. E a dor de cabeça que o traz ali, aparece mais do lado direito ou esquerdo?
A lista crescente de sintomas alimenta um programa chamado "repertório digital de homeopatia". O computador reage a ela relacionando medicamentos adequados para cada condição, de arnica a zinco. Para a dor de cabeça destra, surgem 106 nomes na tela. Para calores, 170. O sono sobre o lado direito do corpo está associado com sete substâncias, entre elas a camomila.
O processo, conhecido como "repertorização", segue em frente, hierarquizando os sintomas segundo a intensidade, até que o homeopata se fixe no remédio único para tratar o indivíduo à sua frente -e não a doença específica que o levou ao consultório. É o início de uma terapia que pode consumir semanas, meses.
Teixeira está entre os homeopatas que escolheram lutar com as armas da medicina baseada em evidências. Depois de formar-se em agronomia e enveredar pela agricultura biodinâmica, foi estudar medicina, aos 27 anos, para tornar-se homeopata. Por seis anos frequentou a Faculdade de Medicina sem mencionar a ninguém sua intenção.
Quase duas décadas depois, ministra lá a disciplina de graduação fundamentos da homeopatia. Pesquisou durante cinco anos a rinite alérgica de 54 pacientes para delimitar o efeito placebo e separá-lo da contribuição terapêutica específica de medicamentos homeopáticos, estudo que defendeu em 2009 como tese de doutorado e publicou em artigo no periódico especializado "Homeopathy".
Teixeira afirma ser possível desenvolver metodologias para realizar estudos que respeitem o princípio da individualização, ou seja, um remédio para cada paciente e seu quadro peculiar de sintomas. Isso não ocorre em testes convencionais de medicamentos, alega, pois estes têm por alvo um tratamento único em comparação com outro. Seria preciso, além disso, um estudo com a participação de muitos centros de pesquisa para conseguir recrutar uma amostra grande de pacientes. O custo subiria para a casa dos milhões de dólares, inviável para o setor marginal da homeopatia.

PLACEBO A homeopatia tem sim alguma eficácia, como qualquer medicamento, inócuo ou não para determinada doença, que seja testado em seres humanos. Mesmo que tomem apenas pílulas de farinha, após cair no grupo de controle de um teste clínico, algumas pessoas verão sua saúde melhorar, mostram inúmeros estudos, por acreditarem estar tomando um remédio eficaz. Mas não se obteve consenso sobre o fulcro da questão -se homeopatia ocasiona algo mais que o efeito placebo.
Se for só isso, placebo, a terapia se torna eticamente indefensável, pois prescreveria dose cavalar de logro na relação médico-paciente. Pois é justamente uma relação melhor entre eles que muitas pessoas parecem buscar na homeopatia, sucesso de público há séculos.
O alívio oferecido pela medicina complementar e alternativa, que inclui homeopatia e acupuntura, compõe desde 2006 o arsenal curativo reconhecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS), com sua Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares, formulada pelo Ministério da Saúde em acordo com diretrizes da Organização Mundial de Saúde (OMS).
Em 2009, realizaram-se 326.379 consultas homeopáticas pelo SUS. O custeio da homeopatia mais que quintuplicou numa década, atingindo R$ 3,2 milhões no ano passado, com a distribuição de medicamentos a partir de 2006. Estima-se que existam no Brasil cerca de 15 mil homeopatas, 4,4% dos 340 mil médicos. No SUS, a parcela é ainda menor: 535, ou 0,2% dos 280 mil profissionais.
Nos EUA, segundo a OMS, 2,5 milhões de pessoas recorrem à homeopatia, com gasto equivalente a R$ 5 bilhões anuais. Valor similar se atribui ao mercado mundial de medicamentos homeopáticos, que tem metade da demanda na Europa (sobretudo na Alemanha e na França) e o restante dividido principalmente por EUA e Índia.
A Índia tem 400 mil homeopatas e 307 hospitais especializados nela. Na antiga metrópole, Reino Unido, restam quatro hospitais (um foi fechado em 2009). A homeopatia pode estar na mira do Parlamento, mas é a preferida da família real -príncipe Charles à frente.

ARTES DA CURA Em 2010, completam-se 200 anos da publicação do "Organon da Arte de Curar", obra do alemão Samuel Hahnemann (1755-1843) que estabeleceu a homeopatia. No ano que vem será festejado o bicentenário de sua monumental "Materia Medica Pura", que homeopatas cuidam de citar pelo título em latim, sem os acentos. Os primeiros artigos de Hahnemann sobre homeopatia, porém, datam de 1796.
Mesmo numa época em que a medicina convencional envenenava e sangrava pacientes, a implausibilidade dos princípios homeopáticos já chocava. Em 1842, um ano antes da morte de Hahnemann e dois após a introdução da homeopatia no Brasil, sua doutrina já era ridicularizada pelo médico e escritor americano Oliver Wendell Holmes (1809-94, pai de um célebre juiz de mesmo nome na Suprema Corte).
O médico proferiu duas conferências na Sociedade Bostoniana para Difusão do Conhecimento Útil, reunidas sob o título "Homeo-patia e seus Delírios Afins". A objeção principal se voltava contra a doutrina -depois abandonada pelos homeopatas- da "psora", algo como uma coceira primordial que estaria na origem de sete oitavos de todas as doenças crônicas.
"Eu não me envolverei com essa excrescência [...]; o tempo é muito precioso, e a safra de extravagâncias vivas pesa demais sobre minha foice para que eu venha a cegá-la com palha e restolho", disparou Holmes no fecho da catilinária.

URTICÁRIA A "psora" parou de incomodar, mas o princípio da similitude continua causando urticária, 200 anos depois dos golpes de foice do médico americano. Teses extraordinárias, diz-se no mundo da ciência, exigem provas extraordinárias. Os fatos em apoio à tese da semelhança, contudo, prosseguem esparsos e longe de formar consenso.
O mesmo se pode dizer do princípio da dinamização (diluições sucessivas), que sobrevive como alvo preferencial dos inimigos da homeopatia no reino da ciência estabelecida. A comissão parlamentar britânica se baseou em estudos que, na sua interpretação, descartam o poder curativo dos medicamentos homeopáticos ultradiluídos. Mostrou-se tão segura que recomendou a interrupção até das pesquisas sobre a eficácia da homeopatia.
No Brasil, o Ministério da Saúde lançará em 2011 uma linha de financiamento de pesquisa sobre homeopáticos, mas não revela o montante. "É muito difícil conseguir financiamento dos órgãos de fomento para as práticas não convencionais", diz Carmem Lucia De Simioni, coordenadora de Políticas Integrativas do ministério. Segundo Simioni, não se cogita rever o apoio à homeopatia, como no Reino Unido: "Construímos uma política numa base muito sólida, com muita responsabilidade, ouvindo todos os parceiros, nos pautando pela OMS".
Os homeopatas discordam da interpretação da literatura médica pela comissão parlamentar britânica, mas concordam que ensaios clínicos constituem o padrão de ouro da evidência biomédica para chancelar terapias. Há dois tipos de estudos nessa linha de investigação.

RCT O tipo mais básico inclui ensaios randomizados e controlados, conhecidos pela sigla em inglês RCT. Neles, vários pacientes recrutados são distribuídos de modo aleatório (randomizado) em grupos que recebem o medicamento em teste, um composto com aparência similar desprovido da substância em causa (placebo), ou então outro remédio que se queira confrontar com o primeiro.
RCTs por vezes conduzem a resultados de alcance estatístico limitado, por usar pequenas amostras da população que um centro de pesquisa recruta sozinho. A solução é aumentar a amostra reunindo vários centros que sigam a mesma metodologia: são os RCTs "multicêntricos", que chegam a custar milhões de dólares.
Outra saída é aumentar a amostra agrupando ensaios independentes sobre uma mesma terapia, com metodologias semelhantes o bastante para permitir a somatória dos resultados. O estratagema dá origem ao segundo tipo de RCT, conhecido como estudos de meta-análise, a forma mais sólida de evidência em medicina.

META-ANÁLISE No centro da querela da homeopatia está uma meta-análise publicada em 2005 na revista "Lancet" pelo grupo de pesquisa suíço-britânico de Aijing Shang e Matthias Egger. Eles reuniram resultados de 110 estudos de homeopatia e medicamentos convencionais, com amostras variando entre 10 e 1.573 pacientes.
As conclusões foram desfavoráveis para a homeopatia: seus resultados clínicos não seriam mais que efeitos placebo. Em editorial, a "Lancet" permitiu-se, até, alguma ironia: "Quanto mais diluída se torna a evidência em favor da homeopatia, maior parece a sua popularidade".
Os homeopatas destacam duas críticas aos métodos usados na meta-análise de Shang e Egger. A primeira veio menos de um mês depois, na própria "Lancet", e partiu de Klaus Linde e Wayne Jonas, autores de análise similar publicada em 1997. Mesmo concordando que "a homeopatia é altamente improvável", eles argumentam que o artigo não fornece base sólida para a conclusão sobre o efeito placebo.
Objeções similares foram divulgadas pelo periódico "Journal of Clinical Epidemiology" em 2008. O artigo de R. Lüdtke e A.L.B. Rutten conclui que, por força da alta heterogeneidade entre os ensaios, os resultados e conclusões de Shang são menos nítidos do que o apresentado.
No intuito de reforçar a base factual da doutrina, os homeopatas buscam apoio em todo fato e teoria que julguem confirmar sua convicção. Teixeira, por exemplo, tem à mão extensa bibliografia na área de imunologia, biofísica e farmacologia.
Fazem sucesso entre os adeptos estudos sobre a "memória da água", candidata a explicar a potência de tinturas ultradiluídas. São trabalhos polêmicos, como dois do Nobel de Medicina Luc Montagnier publicados em 2009 num obscuro periódico de Hong Kong, embora o descobridor do vírus da Aids nem mencione neles a homeopatia.

VESTÍGIO ROMÂNTICO Para o filósofo Sloterdijk, o fascínio da homeopatia deriva de um vestígio romântico, a noção de que tudo no mundo é eloquente. A natureza fala por meio do corpo doente, mas numa língua que ele não entende mais.
Desse ângulo, os sintomas são signos que remetem não a entidades ideais (moléstias), mas a outras coisas do mundo: substâncias químicas, dotadas de desmesurada força vital. O intérprete homeo-pata traduz esse discurso somático e restabelece, pelo diálogo, o equilíbrio perdido.
Soa fantástico, mas talvez por isso seja bem recebido por tantas pessoas, em especial as que padecem de moléstias crônicas. A homeopatia lhes dá coisas que as tecnoterapias baseadas em evidência se tornaram incapazes de oferecer, como a atenção do médico ou a perspectiva de superar o estranhamento com o próprio corpo. Desse ponto de vista, a implausível sobrevivência da homeopatia seria o sintoma renitente de uma crise na própria medicina convencional.
Até os críticos da homeopatia podem concordar com esse diagnóstico. "Tenho enfatizado com frequência que a medicina 'mainstream' tem muito a aprender sobre empatia, dedicação, tempo para ouvir etc.", concede Edzard Ernst, o alemão de cabeça fechada, que no entanto ressalva: "A boa medicina deve fiar-se tanto na arte quanto na ciência médica, não trocar uma pela outra".
 terapias mais arcanas, para Sloterdijk, terminam por encontrar-se com as promessas genômicas de uma era de medicina individual e precisa. Ele antevê uma época na qual os pacientes se entenderão cada vez mais como biogerentes de si próprios e crescerão como pilotos de seus sistemas imunes: "Daqui vislumbramos o futuro de uma medicina que lê e escreve os signos do vivente nas camadas hoje ainda não pesquisadas do texto da natureza".

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Cantando o Nordeste

Retrospectiva - Em novo CD, Rangel pretende recordar 10 anos dedicados a musica 

Por Severino Lopes, do Diário da Borborema
Crédito da Foto: Paizinha Lemos, da ASCOM/UEPB

A voz dele se assemelha a de Flávio José. Alguns traços físicos também! Só que Rangel Júnior tem o seu estilo próprio. A semelhança com o 'Caboclo Sonhador' é apenas no gosto pela música regional e pelo prazer de cantar xote. Cantor e compositor Antônio Rangel Júnior está a caminho do estúdio. Rangel vai gravar um CD/DVD com músicas que fazem parte de sua trajetória artística nos últimos 10 anos e que expressam essencialmente o Nordeste. Xote, baião, forró dão vão ditar o ritmo do novo trabalho. O artista que não grava há 4 anos, garante que vai realizar um sonho antigo que é fazer um espécie de retrospecto de sua carreira. O último trabalho intitulado "Rangel Júnior e o Cangaço" foi gravado em 2006.


O projeto autoral deve ser concretizado ainda este ano. Ele está apenas aguardando a liberação dos recursos do Fundo de Investimentos Culturais (FIC) que vai financiar o trabalho para enfim, entrar em estúdio. "O projeto foi aprovado desde 2007", disse. As músicas queirão fazer parte do CD estão praticamente definidas. Serão músicas inéditas e alguns sucessos já conhecidos do público gravados ao longo dos 10 anos de carreira. "Está fazendo 10 anos que eu gravei o meu primeiro CD, e esse trabalho vem para resumir essa minha trajetória", antecipou.

Desde que gravou "Coração de Aroeiras", que Rangel Júnior não parou de compor. Por conta das atividades administrativas, já que é pró-reitor de Planejamento da UEPB, ele se afastou um pouco do palco. Com três CDs gravados - Coração de Aroeiras, Nordestino Cantador e Rangel Júnior e o Cangaço - o artista se prepara para viver um momento especial na carreira.

Este ano, ele compôs a música principal do filme "Tudo que Deus Criou" do cineasta paraibano André Costa Pinto. A música do personagem principal se chama "Frutas Maduras" e promete estourar. Rangel também é autor de "Xote do Novo Amor" gravado por Capilé. A música se destaca pela poética da letra e também seu teor romântico. Talvez por reunir todos esses elementos conseguiu embalar os corações apaixonados durante as festividades do Maior São João do Mundo. A simplicidade da letra de "Xote do Novo Amor" chamou atenção de Capilé. "Escutei Rangel Junior cantar uma vez, durante um show do Projeto Autoral, no Bar e Restaurante Picanha 200 e achei linda demais, muito sonora", explicou o cantor.

Rangel mesmo fora dos palcos nunca esteve ausente do mundo artístico. Nunca deixou de compor suas músicas gravadas por outros artistas campinenses.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O Brasil de Bob Dylan

Colorido - Uma das telas integrantes da exposição de Dylan, que abordará a estética brazuca em exposição


Por Ivan Finotti, do Estado de São Paulo


"Existe uma parte na América do Sul onde não se fala espanhol, fala-se português. É um país adorável, com 184 milhões de habitantes vivendo lá. É o gigante da América Latina. Esse país ocupa quase metade do continente. Acredito que seja maior do que os Estados Unidos. Seu lema é "ordem e progresso". Estou falando do Brasil."
Eis Bob Dylan demonstrando seus conhecimentos geográficos há 14 meses, em seu programa "Theme Time Radio Hour", que vai ao ar semanalmente pela rádio nova-iorquina Sirius XM (www.xmradio.com).
Na ocasião, em que Dylan arrematou colocando para tocar "Aquarela do Brasil" com Elis Regina, os brasileiros não tinham como saber, mas a familiaridade do cantor com o país era bem alta.
Ele estava no meio da "The Brazil Series", sequência de telas pintadas com tinta acrílica que têm o país como tema. Dos cerca de 50 quadros, Dylan selecionou 40 para uma exposição, que começa no próximo sábado e vai até o dia 30 de janeiro, na National Gallery da Dinamarca, na capital Copenhague (www.smk.dk).
"Escolhi o Brasil como tema porque estive lá muitas vezes e gosto da atmosfera", afirmou Dylan, em nota do museu. Mais não disse.

MÉTODO
Mas qual foi seu método de trabalho? Dylan esteve aqui para desenhar ou copiou as cenas de livros e revistas? Nem o curador dinamarquês sabe responder.
"Sei que ele esteve no Brasil várias vezes, certamente em turnês e talvez em outras ocasiões. Tenho certeza que ele fez desenhos quando esteve aí. Talvez ele tenha usado fotos de livros ou outras referências, mas não sei em que extensão", disse o curador, Kasper Monrad.
Segundo ele, as telas foram pintadas nos EUA, no estúdio da casa do artista.
É curioso que a própria mostra tenha praticamente caído no colo de Monrad. Em 2007, quando Dylan expôs quadros pela primeira vez -uma coleção de aquarelas chamada "The Drawn Blank Series"-, em um pequeno museu alemão, Monrad pediu o contato do artista.
Ao pedir que a exposição fosse levada à Dinamarca, foi informado que o artista considerava as aquarelas (www.bobdylanart.com) assunto terminado e que ele iria realizar uma nova série, desta vez em acrílico.

NÚMERO 
4
FORAM AS VISITAS DO CANTOR AO PAÍS
Dylan cantou em SP, Rio, Porto Alegre e BH. Primeiro, no Hollywood Rock em 1990. Veio em turnê em 1991 e 2008 e abriu para os Rolling Stones em 1998.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Oliver Stone: A América Latina quer falar a uma só voz

Admiração - Stone não esconde simpatia por "caudilhos" e "homens fortes" a exemplo de Chàvez e Fidel

Por Roberto Navarrete, do Portal Vermelho

O novo documentário de Oliver Stone, “A sul da fronteira”, narra o aparecimento de uma série de governos progressistas na América Latina, a sua busca de transformação social e política no continente e a crescente independência de Washington.

Embora não se possa meter tudo no mesmo saco, como Oliver Stone faz com a promoção dos governos Kirchner a progressistas, quer o filme “A Sul da Fronteira” quer esta entrevista são contributos para romper o cerco da central de desinformação, comandada por Washington. Além de Stone, Tariq Ali, co-roteirista do documentário, também é ouvido na entrevista. Confira.

Você fez três filmes sobre a América Latina, dois deles sobre Fidel. O que o levou a fazer este novo documentário sobre a América Latina?

Oliver Stone:  Não te esqueças, além disso, de “Salvador” em 1986. Foi sobre El Salvador, na América Central, uma tragédia. De forma que voltei. Gosto da América Latina, vejo a América do Sul como o setor socialmente mais débil nesta situação.

Como cineasta, tendo a fazer filmes sobre as pessoas que não recebem tratamento justo. Creio que o que se está a passar está mal. Conheci Chávez em 2007, depois voltei em 2008 e ele disse-me: “não fique só com a minha versão, vá falar com os meus vizinhos”. Fiz isso com uma pequena equipe, e estivemos com sete presidentes em seis países.

Perguntava-me: porquê tanta confusão? Porque fazemos tanto barulho com o Chávez? Algo cheira mal em tudo isto. Quando os Estados Unidos mostram tanto zelo por destruir alguém, como já sucedeu várias vezes na América do Sul e na América Central, é evidente que há uma motivação. Estamos à procura dessa motivação.

Os principais meios de comunicação dos EUA foram bastante críticos com o seu filme. Isso o surpreendeu?

Oliver Stone: Não, estou surpreendido por termos sido capazes de chegar onde chegamos. Conseguimos a distribuição em salas de cinema e depois se verá se na televisão. As pessoas vão ver o filme. Haverá sarilho em perspectiva, porque quando o New York Times diz “não vejam este filme” está fazendo lobby contra ele.

Tariq Ali: Isso pode ter também um efeito contrário. Muita gente vai dizer: “Pela forma como estão a falar, quer dizer que há aqui algo de interessante”. Anima as pessoas a irem ver.

É mais preocupante quando a opinião de meios considerados liberais, como o “Village Voice”, foi tão negativa.

Oliver Stone: O “Village Voice” esteve durante anos a fazer isso. Para mim, não é uma organização liberal, mas pseudo-liberal. Pode-se discutir bastante sobre o que é ser liberal ou progressista nos Estados Unidos.

É como o “The Guardian” aqui em relação à Venezuela?

Tariq Ali: O correspondente do “The Guardian” na Venezuela vive num bairro residencial a leste de Caracas e os seus relatórios sobre a vida na Venezuela são totalmente enviesados.

Você parece fascinado pelo carisma dos caudilhos da América Latina, como Fidel Castro e Hugo Chávez. Mas a América Latina é também o berço de grandes movimentos sociais que durante muito tempo têm lutado pela mudança. Como vê a relação entre os dois, por um lado os dirigentes e por outro lado os movimentos sociais?

Tariq Ali:  Estes líderes não estariam no poder se não fosse pelos movimentos sociais. Existe um vínculo entre os dois. Os movimentos sociais na Bolívia ajudaram a criar o Movimento para o Socialismo, partido de Evo Morales que o catapultou para o poder.

Os grandes movimentos sociais contra o FMI na Venezuela, que levaram ao massacre do “Caracazo” em que três mil pessoas morreram, deram origem a Chávez. Os mesmos movimentos se produziram no Equador e no Paraguai. Por isso, não vejo uma grande divisão. Cada um depende do outro.

Essa brecha existe em grande parte no Ocidente, onde os movimentos sociais se extinguiram por não terem sido capazes de lograr fosse o que fosse. Os movimentos sociais já quase não existem na Europa Ocidental. Em países como a Itália, que teve enormes movimentos sociais, já desapareceu tudo. Na América do Sul, uma das razões porque perduraram é porque conseguiram algo, não uma grande mudança, mas algumas reformas estruturais no sistema.

Oliver Stone: Acrescentaria o seguinte: não só gosto dos caudilhos ou homens fortes, que não são o mesmo que ditadores, já que no caso de Chávez ele foi evidentemente eleito, como admiro muito Néstor Kirchner, um intelectual com vontade de fazer alguma coisa, porque os intelectuais tendem a perder a sua força de vontade.

Kirchner foi suficientemente forte para levar a cabo uma reforma baseada no seu próprio pensamento sobre a reforma econômica. É para mim um brilhante exemplo de herói. Ele mesmo o disse no documentário: “O meu amigo Hugo deve pensar num sucessor”, porque quando tudo assenta num só homem, pode chegar a ter um efeito contra-producente e creio que este é o problema que Hugo vai enfrentar no futuro. Aparece demais nas notícias. É demasiado controverso. Então, centram a discussão em Hugo Chávez, em vez de fazerem uma discussão sobre as posições de direita e de esquerda na América Latina.

No teu filme, também há uma entrevista com Lula, que não tem a mesma política de esquerda que os outros, mas que em termos de política internacional, integração da América Latina, é muito importante. Pareceria que algumas pessoas de esquerda tendem a perder de vista o panorama geral sobre para onde vão as coisas no continente.

Oliver Stone:  Sim, é por isso que os incito e digo às pessoas: pensem no contexto geral. Alguns perdem-se nas miudezas e acabam comendo-se uns aos outros.

Por que você acredita que uma pessoa como Chávez tem tão má imagem nos Estados Unidos, enquanto presidentes como Uribe, supostamente envolvido em problemas de paramilitarismo, relacionado com o tráfico de drogas na Colômbia e em violações dos direitos humanos numa escala sem precedentes na América Latina, é apresentado com uma boa imagem na imprensa?

Tariq Ali: Isso deve-se a que a Colômbia e Uribe são aliados dos Estados Unidos, trabalham com eles, participaram em ações iniciadas pelos Estados Unidos na região e isso sempre foi assim. Sempre foi assim no passado. Por que derrubaram Allende? Por que apoiaram Pinochet? Essa mesma política, hoje de maneira diferente, continua no entanto em curso.

Odeiam Chávez, não apenas porque os ataca frontalmente, mas também além disso por ser o presidente eleito do país com as maiores reservas de petróleo do continente, significando o petróleo muito para eles. Como muitos dos jornalistas dizem, se Chávez estivesse no Paraguai, não o odiariam tanto. Mas a razão porque o odeiam é por estar utilizando o petróleo e contra eles e por estar a dar acesso ao petróleo a outras repúblicas bolivarianas.

Os cubanos conseguiram aguentar-se fazendo um intercâmbio de petróleo por médicos. Odeiam-no porque quebrou o isolamento dos cubanos e permitiu que se ajudem uns aos outros, porque agora a América Latina quer falar a uma só voz. É isso que este filme mostra, isso não tinha sucedido nunca antes. Pela primeira vez, os líderes que não estavam de acordo uns com os outros uniram-se e disseram aos Estados Unidos: basta, já chega e não recuamos.