quarta-feira, 31 de março de 2010

A trapaça do rastreador da Oi no Velox

Por Elio Gaspari  (da Folha de São Paulo)

A Operadora Oi anunciou na semana passada o lançamento de uma ferramenta para a internet chamada "Navegador". Trata-se de um rastreador dos caminhos percorridos na rede pelo cliente de seu serviço Velox. A novidade é apresentada aos consumidores de maneira trapaceada, deselegante. (A operação já começou, pequena e felizmente sujeita a correções, no Rio.)
 
O mimo é oferecido como uma "facilidade", omitindo que é um rastreador. Quando o "Navegador" entra num computador que usa o serviço Velox, os endereços por onde o cliente passa são registrados pelo programa. 
 
A Oi garante que o rastreador passa longe de alguns sítios, inclusive dos que pedem senhas. Além disso, assegura que a identidade do cliente será preservada, pois o "Navegador" atribui ao computador rastreado um algoritmo de 24 dígitos que não pode ser decifrado.
 
O rastreamento interessa à Oi e aos seus parceiros porque permite a segmentação de público para o mercado publicitário. Assim, uma empresa de turismo pode anunciar só para pessoas que pesquisaram preços de pousadas, e todos ganham com isso. É o que faz o Google. Quando uma pessoa entra nas suas páginas, seus interesses são registrados e, a partir daí, selecionam-se os anúncios que lhe serão oferecidos na barra lateral da tela.
 
Há uma diferença entre o Google e o "Navegador" Oi/Velox. No Google, o sujeito entra se quiser, quando quiser, para usar ferramentas que lhe são oferecidas de graça. Velox e Oi são fornecedoras de um serviço remunerado e vendem o acesso à banda larga a 4,5 milhões de clientes.
 
A Oi trapaceia na maneira como oferece o "Navegador". O sujeito liga a máquina, aciona o Velox e vê uma tela que lhe apresenta a "facilidade" (em relação a quê?). A lisura recomendaria que a empresa mencionasse, de saída, a função rastreadora do "Navegador".
 
Até aí, manipulam a comunicação. No lance seguinte, recorrem a uma pegadinha para capturar clientes. Quando a tela do "Navegador" aparece, o mimo é oferecido com o aviso de que ele "já está ativo". A tela do "Navegador" permite que o consumidor desative a ferramenta, mas não é assim que se faz. Uma pessoa não pode ser obrigada a desativar algo que não solicitou.
 
Pouco custaria à Oi informar, com clareza que o "Navegador" rastreará o freguês, garantido-lhe a privacidade. Em seguida, como fazem as boas casas do ramo, ofereceria duas caixinhas: "Quero" e "Não quero". O freguês escolhe e não há mais o que discutir.
 
A relação entre um consumidor e sua operadora de internet baseia-se em algum tipo de confiança. Se a "facilidade" manipula o idioma e recorre a uma pegadinha, arrisca-se a estimular a suspeita de que, algum dia, não respeitará sua privacidade.
 
Nesse lance a Oi está associada à empresa Phorm que, em 2008, meteu-se num escândalo na Inglaterra quando se descobriu que rastreava os clientes da British Telecom sem que eles tivessem sido avisados. Teve que fechar a barraca.
 
Na empreitada do "Navegador" juntaram-se à Oi e à Phorm alguns dos principais portais de comunicação do país. Lá estão o UOL (empresa do Grupo Folha), o iG, o Terra e "O Estado de S. Paulo". Todos deveriam rastrear melhor a maneira como usam suas marcas.

terça-feira, 30 de março de 2010

A cultura de resistência do quilombo ganha o País


Do Portal Vermelho

“O quilombo é a essência da cultura de resistência de um povo”, diz Marcus Vinícius Ferreira, integrante da comunidade quilombola de Salinas, a cerca de 550 km de Teresina (PI). Ciente da responsabilidade de ser herdeiro de uma história de luta libertária, esse pedacinho do Brasil tem trabalhado com afinco na preservação e divulgação da identidade negra.
 
Há mais de 100 anos, o quilombo de Salinas criou o movimento cultural “Samba de Cumbuca”, para valorizar uma expressão cultural que passou de geração em geração, e garantir que ela não se perca no tempo e na história. “Samba de Cumbuca é a nossa identidade enquanto negros. O grupo é responsável por guardar a cultura quilombola”, diz Marcus Vinícius.
 
Ele conta que a manifestação surgiu a partir de seis negras, que foram arrancadas da África para serem escravizadas no Brasil e terminaram fugindo para o quilombo. No local, tiveram contato com as cabaceiras, árvores cujos frutos eram utilizados como cumbucas no dia-a-dia do quilombo.

“Elas voltavam da lida cantarolando coisas sobre o cotidiano e, um dia, descobriram que a cabaça produz o mesmo som dos tambores. Daí veio essa manifestação que mantemos até hoje”, conta Marcus Vinícius. No “Samba de Cumbuca”, só quem toca a cabaça é a mulher e as cantigas são passadas de pai para filho. Como antigamente.

Na comunidade, vivem hoje 106 pessoas, tendo a mais velha 98 anos. Destas, 40 estão ligadas diretamente ao samba. “Nós consideramos que a comunidade é uma só família”, explica ele. O trabalho do grupo cultural, somado à agricultura familiar, é o que mantém o quilombo.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Mundo apaga a luz contra as mudanças climáticas


Da Folha de São Paulo

No mundo inteiro, em protesto contra o aquecimento global, monumentos, prédios e locais famosos tiveram as suas luzes apagadas. Foi a edição de 2010 da "Hora do Planeta", na noite de sábado.
Participaram 3.483 cidades em 125 países, deixando seus marcos no escuro. Entre eles, no exterior, a torre Eiffel, o Coliseu, o Big Ben, o Empire State Building, em Nova York, e as pirâmides do Egito.
No Rio, entre outros pontos, a luz se apagou na orla de Copacabana, no Cristo Redentor e no Pão de Açúcar. Em São Paulo, na Ponte Estaiada e no Pacaembu. Em Brasília, no Congresso Nacional. No total, 72 cidades do país participaram.
É a quarta edição da "Hora do Planeta" e a segunda da qual o Brasil participa. Ela é organizada pela ONG WWF. A ideia é simbolicamente reduzir o consumo de energia no planeta.
O evento começou pequeno, em 2007, apenas em Sydney. "Nós nunca, nem em nossos mais loucos sonhos, imaginávamos que se espalharia dessa forma", diz o inglês Andy Ridley, diretor da iniciativa.
Em 2008, 35 países participaram. Em 2009, 88. O ano de 2010 teve, portanto, uma adesão recorde, com 125 países.
A edição de 2010 ocorre três meses após o fracasso da cúpula do clima de Copenhague. Na época, países como Estados Unidos, China e Índia, que apagaram juntos as luzes no sábado, não chegaram a um acordo consistente, com força de lei, contra as emissões globais de gases-estufa.
A próxima cúpula do clima ocorre no final do ano, no México. Negociadores importantes em Copenhague se mostram pessimistas. O ex-secretário-executivo da ONU para o clima Yvo de Boer disse  em fevereiro que não acredita que um acordo expressivo possa ser finalizado por lá.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Walter Benjamin, Deus e a História

Por Jomar Ricardo (professor de História da UEPB e membro do Neab-í)
Walter Benjamin (1892 – 1940) no texto “Sobre o conceito de História,” em sua primeira tese, discorre a respeito da relação entre teologia e práxis revolucionária. Para o filósofo alemão, a alegoria do jogo de xadrez, travado por um fantoche e um jogador, supõe que no tabuleiro da história o fantoche é guiado por um anão escondido por debaixo da mesa, que faz movê-lo sempre com um determinado lance, levando-o a vitória. “Um fantoche vestido à turca, com um narguilé na boca, sentava-se diante do tabuleiro, colocado numa grande mesa. Um sistema de espelhos criava a ilusão de que a mesa era totalmente visível, em todos os seus pormenores. Na realidade, um anão corcunda se escondia nela, um mestre no xadrez, que dirigia com cordéis a mão do fantoche.” O fantoche representa o materialismo histórico e o anão corcunda a teologia. Aquele pode enfrentar os desafios e vencer desde que tenha o auxílio desta, que estava “reconhecidamente pequena e feia e não ousa mostrar-se”.
Os intérpretes  dessa tese a compreendem como sendo a posição, em que para a ocorrência da ação revolucionária no contexto da história, seria imprecindível o conhecimento religioso, a teologia. Ao saber da trajetória do autor, de sua relação com o marxismo, podemos considerar que nessa afirmação encontra-se em germe o que mais de vinte anos depois viria a se constituir a Teologia da Libertação. Com ela a religião perde seu caráter conformista e assume a tarefa de propor as transformações engendradas pelos oprimidos.

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Guardo na memória desde a adolecência uma frase de Dom Hélder Câmara: - não penses meu caro amigo ateu que estejas esquecido, vais traduzindo em tuas palavras o que digo nas minhas. Talvez o que eu chamo de Deus, digas natureza ou desenvolvimento.

A citação de memória não traz a precisão do extrato do poema - prosa. Mesmo assim leva-me a refletir sobre qual Deus eu acredito. Há tempos, a presença de um deus árbitro que julga os atos humanos, conforme critérios doutrinários de justiça, desvaneceu-se.  E isso a muito custo. Ninguém se desfaz dos valores arraigados desde a infância sem impetrar uma força contra si.

A própria trajetória existencial que palmilhei, permitiu-me, à medida que se desfazia as representações firmadas, o encontro com outras possibilidades de saber Deus.

A história dos Judeus, registrada em relatos bíblicos demonstra que a caminhada dos pobres está inconclusa e que o processo vivenciado pode ser modificado a depender das orientações tomadas no presente. No livro do êxodo, um trecho muito forte, apela para a consciência de libertação. Deus escuta o clamor do sofrimento do povo que estava escravo no Egito: “Eu ouvi o clamor do meu povo”. Assume as dores dos oprimidos e compromete-se com sua causa.

Nessa aventura profundamente humana, uma das descobertas foi a dimensão revolucionária do Evangelho, mais precisamente as atitudes do seu protagonista, uma pessoa chamada Jesus. Impressionou-me a compreensão Dele a respeito das necessidades daquelas pessoas que os arrodeavam, seguiam ou arrostavam-lhe.

Conta-se em uma das passagens das novas escrituras, que certa vez uma multidão O escutava. Era formada por pobres vindos de várias partes longínquas da região. Após escutar os ensinamentos, crianças, mulheres e homens esperavam famintas a dispersão. Mas Ele teve compaixão do povo  que padecia, sendo condolente com a situação dos deserdados que até então tinham sido alimentados apenas da Palavra. Não ficou indiferente, chamou o problema para Ele. Perguntou aos  discípulos o que havia de comer nos alforjes dos que se encontravam ali. Foi-lhe dito: “Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes”.

O milagre consistiu em dividir o pouco que se tinha de alguns, com todos que tinham fome. A divisão, fruto da boa vontade, fez saciar a fome dos presentes, fazendo sobrar muitos pães e peixes. Hoje, quando a produção de alimentos atinge patamares nunca vistos na história da humanidade, contraditoriamente, aumenta-se o número de pessoas que passam fome. 

Com razão, ainda acretido que possa vingar a justiça na face da terra e que todos homens e mulheres possam construir relações baseadas na paz e na solidariedade, com respeito incondicional pela vida. Uma vertente teológica denomina esse desiderato de Reino de Deus na terra, e tenho grandes amigos que, sem querer e saber, seguem Jesus a seu modo próprio, denonimam-no de Socialismo.

quarta-feira, 24 de março de 2010

E-lixo e seus perigos

Por Amanda Demetrio e Bruno Romani ( da Folha de São Paulo)

O Brasil tem a maior produção per capita de lixo eletrônico vindo de computadores entre 11 países emergentes e em desenvolvimento selecionados para um estudo conduzido pelo Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente). A pesquisa da agência da ONU foi divulgada no final de fevereiro pela organização.

Com o número de 0,5 quilo de e-lixo per capita por ano, o país está em piores condições que o Quênia, Uganda, o Senegal, o Peru, a Índia, a China, a África do Sul, o Marrocos, a Colômbia e o México.

Além do índice, a ONU criticou a legislação brasileira: "Informações sobre e-lixo no Brasil são escassas; em termos de políticas e legislação, a falta de uma lei abrangente de gestão de resíduos pode ser vista como o maior obstáculo para uma regulação específica do lixo eletrônico no Brasil."

Quantidades

Os valores foram calculados pelo Pnuma com base em avaliações sobre lixo eletrônico de cada país, mas alguns dados foram estimados. Foi avaliado o mercado de PCs (incluindo computadores de mesa com seus monitores e notebooks), impressoras, celulares, televisões e refrigeradores.

Dados de 2005 citados pelo estudo da ONU mostram que o país gera 96,8 mil toneladas por ano de lixo oriundo de PCs, 17,2 mil toneladas por ano de restos de impressoras, 2.200 toneladas por ano de descartes de celulares, 137 mil toneladas por ano de lixo vindo de TVs e 115,1 mil toneladas por ano de restos de refrigeradores.

Contaminação

Os resíduos de lixo eletrônico, quando não descartados corretamente, acabam por contaminar solo e lençóis freáticos, já que aparelhos eletrônicos trazem mais de 60 tipos diferentes de substâncias. Entre elas, muitas são tóxicas.

No Brasil, a questão se agrava por não haver regulamentação específica para o assunto. Para minorar o problema, diversas organizações recebem doações de computadores e algumas empresas providenciam o descarte ou reciclagem de produtos usados.

Mas a logística reversa (o fabricante ou comerciante receberem de volta o que venderam) ainda não é prevista em lei -a não ser nos casos das pilhas. Com a aprovação da Política Nacional de Resíduos Sólidos -projeto em andamento no Congresso-, a logística reversa deverá se tornar obrigatória.

Nesta edição, saiba como descartar corretamente seus eletrônicos e conheça as doenças que podem ser causadas pelo descaso com o e-lixo.

96,8 mil toneladas por ano é a produção total, no Brasil, de lixo eletrônico proveniente de computadores de mesa e seus monitores e notebooks

terça-feira, 23 de março de 2010

Cineasta Akira Kurosawa faria 100 anos nesta terça-feira


Texto de Paulo Camargo ( da Gazeta do Povo)

Nesta terça-feira (23) é  comemorado o centenário de nascimento do japonês Akira Kurosawa, um dos maiores nomes do cinema mundial de todos tempos. Autor de clássicos como Rashomon, no qual uma mesma história, um crime, é narrada da perspectiva de diversos personagens, colocando em xeque o conceito de verdade, e de Ran, releitura brilhante da peça Rei Lear,de Wil­­liam Shakespeare, transposta para o Japão feudal, Kurosawa era um gênio da mise-en-scène. Mas não desfrutava no Japão do mesmo prestígio que tinha no Ocidente.

Embora o cinema de Kurosawa tivesse quase sempre o Japão como cenário, seu olhar ultrapassava as fronteiras do arquipélago asiático. Mergulhava em dilemas da condição humana – o que o aproximou da obra de Shakespeare, também relida em Trono Manchado de Sangue, sua versão para Macbeth. O cineasta japonês soube beber do cinema clássico ocidental e tinha paixão confessa pelos westerns de John Ford, influência visível em seu épico samurai Kagemusha (1980), Palma de Ouro no Festival de Cannes.
 
Para os nipônicos, entretanto, Kurosawa tinha um sotaque estrangeiro no seu cinema, algo que os incomodava. O grande mestre do País do Sol Nascente, no entender de seus habitantes, era Yasojiro Ozu,. Sua visão da sociedade japonesa do pós-Segunda Guerra, sob o impacto da presença invasiva (em todos os sentidos) norte-americana, e a sensibilidade para retratar a vida privada, os códigos familiares do país, justificam essa reputação. Outra das marcas registradas de Ozu era a câmera inconfundível, que enquadrava a ação muitas vezes ao nível do chão, onde os japoneses se sentam para as refeições,

Comparar Kurosawa e Ozu é uma bobagem, se o intuito é escolher o melhor – ou o maior. Não precisamos optar entre Orson Welles e John Ford, ambos americanos. Ou escolher quem era o mais brilhante, Jean Renoir ou Roberto Bresson, expoentes do cinema francês pré-Nouvelle Vague.

Kurosawa é um tesouro japonês, mas, sobretudo, um mestre da imagem em movimento, um esteta que, antes de rodar, tinha o hábito de desenhar, em cores, todos planos de seu filme em story boards. E sua capacidade de absorver traços da produção ocidental sem perder a identidade – um defeito, para alguns de seus detratores japoneses – foi uma virtude que possibilitou a degustação de sua obra mundo afora.

É difícil apontar um título que resuma a vasta filmografia de Kurosawa, o melhor filme de todos. Além dos já citados, há outras obras-primas, como Dersu Uzala, realizado numa coprodução com a União Soviética, e Os Sete Samurais, espetacular épico que eletriza e hipnotiza até hoje, dando um banho em grande parte do que se faz no gênero e influenciando. Em 1960, o longa teve um ótimo remake americano, o western Sete Homens e Um Destino, de John Sturges, mas também se veem ecos dos samurais de Kurosawa em Quentin Tarantino, um apaixonado pelo cinema japonês.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Chico Buarque e Lula em dois tons

Por Jomar Ricardo (professor de História da UEPB e membro do Neab-í)

Chico Buarque na canção “com açúcar, com afeto”, uma música feita a pedido para Nara Leão, revela as relações amorosas configuradas em duas personagens, um operário e sua mulher, em que as queixas são expressas na voz feminina.

Seria de bom alvitre dizer que um texto, uma música estão abertos às interpretações múltiplas. Os sentidos que lhes são atribuídos obedecem ao conjunto de experiências que o leitor/ouvinte adquire através de vivências em formas de dores, alegrias e sofrimentos. Podemos conhecer as motivações que levaram a construção de um poema, mas elas pertencem apenas ao autor, enquanto o direito do leitor reside no fato de sugerir outros significados, a partir de inesperadas impressões.

O autor da música fala de um lugar social que não é o seu próprio, pois pertence a um grupo de estratificação de classe média, porém expressa os valores de setores subalternos. Em sua sensibilidade consegue estabelecer uma empatia com setores marginalizados a tal ponto de revelar as condições de vida do povo, concebendo os dilemas cotidianos com lirismo. Essa incursão artística possibilita uma percepção do modo de vida daqueles que constitui a maior parcela dos brasileiros, os trabalhadores, no aspecto que viria a ser, a partir da década de 1980, a temática a reunir na historiografia as categorias de classe social e gênero.

 Os trabalhadores possuem condutas que foram forjadas ao longo do processo histórico, trazendo não só as vicissitudes do período em que passaram a se constituir mão de obra-livre, mas também costumes incrustados no inconsciente que remontam à época da escravidão, a exemplo do patriarcalismo, entendido como a organização familiar em que a vontade do homem sobressai à da mulher. Desse modo, a letra da música aponta para relações assimétricas entre o chefe da família e a dona de casa. Sair de casa “em busca de um salário” para sustentar a família pode ser uma justificativa baseada na necessidade, porque ele apresenta-se como o único provedor da família enquanto ela se responsabiliza das tarefas domésticas.

Podemos afirmar que Chico Buarque ao tematizar essas categorias, o faz sob a perspectiva do que poderíamos chamar do conceito sociológico de “compreensão”. Esta permite a emissão de um ponto de vista, ao colocar-se no lugar do outro, o operário, referenciado em sua realidade e representado na aventura protagonizada pelas personagens, a partir de situações comuns compartilhadas pelos homens e mulheres assalariados, emergidas na criação do poeta, transmitidas pela canção e interpretadas pelos ouvintes. A inter-relação proporcionada na veiculação de mensagens intenciona uma comoção através dos apelos a faculdade de gosto de quem as recebe, provocando sensibilização e conhecimento.

A canção assim cumpre o papel de socializar, por meio da estética de um segmento social, para um público mais amplo, que, em virtude disso, permiti-se a apreensão do estilo de vida, no modo de sentir e fazer um rendilhado de emoções, conjugadas pelas diferenças. Desse modo, a música em referência não concebe o real do casamento proletário, mas retrata apenas a recriação pelo compositor do viver a dois e em família a respeito dessa relação.

Por outro lado, a música de Chico remonta a um período crítico da sociedade brasileira. Mais especificamente a repressão impetrada pela ditadura militar. Nesse contexto, como todo período de exceção, exacerbaram-se os preconceitos de classe e aumentou-se a intolerância em relação às pessoas de baixa renda, identificadas pelo local de moradia, pertencimento étnico, modo de vestir-se.

Um relato trazido no livro Eder Sader, “Quando novos personagens entraram em cena”, exemplifica a realidade enfrentada pelo trabalhador naquele período. Você diz que é operário / Sai em busca do salário / Pra poder me sustentar, qual o quê. Quando tinha emprego, o operário não tinha direito de reivindicar melhores condições de salário, pois havia a ameaça: “Quando a gente fez greve lá da hora extra, a primeira coisa que o gerente falou foi isso: ‘vou mandar o DOPS vir até aqui’”, dizia um trabalhador industrial.

No momento em que ele estava desempregado enfrentava outro problema: “Nos dias de hoje está desempregado significa correr perigo, pois se somos presos a polícia nos registra como marginais, vagabundos. A carteira registrada é sinal de boa conduta para a polícia”. A repressão atuava na esfera da produção, onde o trabalhador esfalfa-se para conseguir seus meios de sobrevivência, inibindo as ações que os levassem a qualquer tipo de emancipação através da organização sindical. Na fábrica estava constantemente a vigilância do encarregado.

Enquanto isso, na esfera da reprodução, o controle estava no âmbito da família. Com açúcar, com afeto, fiz seu doce predileto / Pra você parar em casa, qual o quê. P. Torres, integrante da Ação Popular, afirma que ao pleitear um emprego, o candidato preenchia um formulário com informações sobre suas aptidões profissionais e familiares.

O barzinho, espaço de liberdade, onde se encontravam amigos, teciam-se confidências e contavam-se aventuras eivadas de fantasias, era um ponto de confluência dos que saem do trabalho massacrados pela alienação.  É também lugar procurado pelos desempregados, humilhados por não conseguirem prover os filhos e a mulher das necessidades básicas, “e alguns preferem ficar gastando os últimos cruzeiros em bares do que voltar para casa e sofrer a pressão da família”. Há um bar em cada esquina / pra você comemorar, sei lá o quê / Sei que alguém vai sentar junto, você vai puxar assunto / Discutindo futebol.

E por falar em futebol, no final da década de 1970, os trabalhadores foram capazes de encher um estádio de futebol, em razão de uma greve por aumento salarial. Luís Inácio da Silva, presidente do sindicato dos metalúrgicos que recebera intervenção, assim se referia à organização dos operários: “conseguimos dar uma demonstração de que não somente futebol consegue trazer gente para um estádio, que não é só futebol que dá público”.

Imbrincam-se nesta textura a ficção e a realidade, a arte e a política, o cantor popular e o trabalhador. Ambos, em condições diferentes, atribuindo sentidos à vida. Chico Buarte recriando a realidade em forma de poesia, o operário organizando-se  para recriar a vida. Cada qual à sua maneira, negando o que a construção da sociedade lhes impusera.   Com muito trabalho e um pouco de cachaça,  porque se não for  assim ninguém aguenta esse rojão.