sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Arte sem arte

Igual a todo mundo - Escritor não acredita que todas as pessoas possam ter talento semelhante ao de Vincent van Gogh

Por Ferreira Gullar

Não tenho a pretensão de estar sempre certo no que escrevo, nas opiniões que emito, muito embora acredite seriamente nelas.
Não foi à toa que, de gozação, me apelidaram de profissional do pensamento, por tanto atazanar os amigos com minhas indagações e tentativas de explicação. Por isso também volto a certos temas, desde que descubra, ao repensá-los, modos outros de enfocá-los e entendê-los.
Se há um tema sobre o qual estou sempre indagando é a situação atual das artes plásticas, precisamente porque exorbitaram os limites do que -segundo meu ponto de vista- se pode chamar de arte. Sei muito bem que alguém pode alegar que arte não se define e que toda e qualquer tentativa de fazê-lo contraria a natureza mesma da arte.
Esse é um argumento ponderável e muito usado ultimamente, mas acerca do qual levanto dúvidas. Concordo com a tese de que arte não se define, mas não resta dúvida de que, quando ouço Mozart, sei que é música e, quando vejo Cézanne, sei que é pintura. Logo, a dificuldade ou mesmo a impossibilidade de definir o que é arte não elimina o fato de que as obras de arte têm qualidades específicas que as distinguem do que não o é.
Do contrário, cairíamos numa espécie de vale-tudo, numa posição insustentável mesmo para o mais radical defensor do que hoje se intitula de arte contemporânea.
Isto é, o sujeito teria de admitir que uma pintura medíocre tem a mesma qualidade expressiva que uma obra-prima e que ele mesmo teria de se obrigar a gostar indistintamente de toda e qualquer coisa que lhe fosse apresentada como arte. Por mais insensato que possa ser alguém na defesa de uma tese qualquer, não poderia evitar que esta ou aquela coisa que vê ou ouve ou lê tenha a capacidade maior ou menor de sensibilizá-lo, emocioná-lo ou deixá-lo indiferente.
Creio não haver dúvida de que, seja ou não possível definir o que é arte, há coisas que nos emocionam ou nos fascinam ou nos deslumbram e outras que nos deixam indiferentes.
Se se der ou não a tais coisas a qualificação de arte, pouco importa: é inegável que a "Bachiana nº 4" é belíssima e que um batecum qualquer não se lhe compara, não nos dá o prazer que aquela obra de Villa-Lobos nos dá.
Do mesmo, um desenho de Marcelo Grassmann me encanta e um desenho medíocre me deixa indiferente. Mas um artista conceitual -ou que outras qualificação se lhe dê- responderá que esta visão minha é velha, ultrapassada, pois ainda leva em conta valores estéticos, enquanto a nova arte não liga mais para isso. Mas pode haver arte sem valor estético? Arte sem arte?
Essa pergunta me leva à experiência radical de Lygia Clark (1920-1988), sob muitos aspectos antecipadora do que hoje se chama arte conceitual.
Dando curso à participação do espectador na obra de arte -elemento fundamental da arte neoconcreta-, chega à conclusão de que pode ele ir além, de espectador-participante a autor da obra, bastando, por exemplo, cortar papel ou provocar em si mesmo sensações táteis ou gustativas. Assim atingimos, diz ela, o singular estado de arte sem arte.
De fato, esse rumo tomado por alguns artistas resultou da destruição da linguagem estética e na entrega a experiências meramente sensoriais, anteriores portanto a toda e qualquer formulação.
Descartando assim a expressão estética, concluíram que se negar a realizar a obra é reencontrar as fontes genuínas da arte. E, se o que se chama de arte é o resultado de uma expressão surgida na linguagem da pintura, da gravura ou da escultura, buscar se expressar sem se valer dessa linguagem seria fazer arte sem arte ou, melhor dizendo, ir à origem mesma da expressão.
Isso nos leva, inevitavelmente, a perguntar se toda expressão é arte. Exemplo: se amasso uma folha de papel, o que daí resulta é uma forma expressiva; pode-se dizer que se trata de uma obra de arte? Se admito que sim, todo mundo é artista e tudo o que se faça é arte.
Já eu considero uma piada achar que todas as pessoas têm o mesmo talento artístico de Leonardo da Vinci e de Vincent van Gogh ou que esse talento seja apenas mais um preconceito inventado pelos antigos. As pessoas são iguais em direitos, mas não em qualidades.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Despedidas Virtuais


Por Contardo Calligaris - Psicanalista italiano radicado no Brasil, é doutor em Psicologia Clínica pela Universidade da Provença (França) e autor de diversos livros

No sábado passado, no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, Xico Sá, Bebel Bertuccelli e eu comentamos os resultados de uma pesquisa, realizada pela Nokia, sobre a relação dos brasileiros com as ferramentas sociais da era digital.
Uma das perguntas da pesquisa dizia: "Você já terminou ou já terminaram um relacionamento com você via internet ou por mensagem de celular?".
Responderam positivamente 15% dos entrevistados. Já antes do debate, essa história de namoros terminados com uma mensagem virtual fez que eu fosse repetidamente consultado: o que achava desse horror tecnológico, hein?
Pois é, tendo a considerar esse tipo de despedida virtual com uma certa simpatia.
1) Em geral, aceitamos que, para muitos homens e mulheres, seja mais fácil encontrar alguém no mundo virtual do que no mundo real. Entendemos, por exemplo, que, na hora de seduzir, os tímidos, retraídos, acanhados ou inibidos soltem mais facilmente os dedos no teclado do que a palavra num encontro cara a cara.
Nota: seria injusto contrapor os que preferem o virtual aos que preferem o real como se os primeiros fossem mentirosos e, os segundos, honestos e sinceros. Virtual ou real, o encontro inicial é quase sempre um jogo em que se trata de convencer o outro de que somos alguma coisa que nem nós acreditamos ser. Quem prefere teclar talvez se esconda graças à distância, mas quem prefere falar ao vivo não abre sua alma: apenas desprende a lábia.
2) Se aceitamos que o virtual facilite a abordagem e as primeiras trocas, por que não deixaríamos que o virtual facilite também as despedidas? De fato, o virtual permite que os tímidos, os retraídos etc. declarem sua vontade de se separar, e isso sem medo de encarar torneios verbais que eles perderiam e que produziriam tentativas culpadas, penosas e infinitas de "reatar mais uma vez".
3) No começo de uma relação amorosa, o virtual talvez sirva para mentir melhor; no fim de um amor, ele pode ajudar a dizer a verdade, ou seja, a reconhecer, enfim, que uma relação está continuando apenas como mentira compartilhada.
4) Em média, a dificuldade em "encontrar alguém" não é maior do que a dificuldade em se separar quando uma relação não vale mais a pena.
5) Os tempos de solidão, durante a procura frustrada de um parceiro ou de uma parceira, são tão longos quanto os tempos de solidão de parceiros que vivem sem paixão, sem amizade e, às vezes, no rancor.
6) A insatisfação de quem procura um amor é esperançosa, enquanto a vida dos que não conseguem se separar é resignada.
7) Um SMS ou um e-mail de despedida podem surpreender quem os recebe, mas só como a revelação de algo que ele já sabia e, por alguma covardia, não confessava nem a si mesmo: ninguém termina virtualmente um amor que não esteja realmente morto.
8) Às vezes, sobretudo (mas não só) nas mulheres, a reação de quem recebe a mensagem de despedida é um pensamento delirante: o outro se separa de mim por SMS porque, se aparecesse na minha frente, ele teria que se render ao amor que ele ainda sente por mim (ele não sabe, mas eu sei que ele sente). Nesse caso, salve-se quem puder.
9) Toda separação é, no mínimo, a perda de um patrimônio comum de experiências e memórias. A dor dessa perda é frequentemente projetada no outro: digo que não posso ou não ouso me separar por e-mail ou SMS porque não quero machucar o outro, enquanto, de fato, é minha dor que quero evitar -com isso, eternizo o declínio da relação e o sofrimento do casal.
10) A convivência numa relação morta é um limbo confortável: para ambos, uma espécie de trégua do desejo. A separação apavora com a perspectiva de voltar a desejar. Antes de mandar um fatídico SMS, alguém hesita: "Vai ser difícil voltar à ativa com a minha idade" -e vai ser mesmo. Ou, então, pergunta: "E se eu ficar sozinho?"; resposta: "Mas você já está sozinho, há tempos".
Moral da história. É bom tentar tudo o que der para que uma relação vingue. Quando ela não vinga (mais), é bom ousar se separar. E deveríamos agradecer os parceiros que nos mandam um SMS lacônico e brutal, "Valeu, beijão e sorte". Pois, desprendendo-se, eles nos libertam e encurtam um processo no qual poderíamos perder anos da vida.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Folha seleciona projetos versando sobre a História do Jornalismo


A Folha deu início à segunda edição de seu concurso de incentivo a pesquisas sobre a história do jornalismo brasileiro.
Como em sua primeira edição, encerrada em abril deste ano, o concurso Folha Memória vai selecionar três projetos de pesquisa e premiar os seus autores com uma bolsa para cada um.
Nos seis meses em que receberão a bolsa, de R$ 2.400 mensais, os candidatos deverão conduzir sua pesquisa com rigor acadêmico e transformá-la em um texto de interesse geral e caráter jornalístico. O melhor dos três textos será publicado em livro editado pela Publifolha, e seu autor ganhará um laptop.
A seleção dos três bolsistas e a do melhor trabalho ficará a cargo de duas bancas distintas, cada uma composta por um jornalista da Folha, um especialista convidado e um representante da Pfizer, que patrocina o concurso.
Os projetos inscritos podem ter como tema a investigação de fenômenos de qualquer época do jornalismo do país e não precisam ficar restritos a um meio específico -podem ser estudados veículos impressos, on-line etc.
A inscrição deve ser feita na internet, até 17 de dezembro (www.folha.com.br/1028819). No site está disponível o regulamento do Folha Memória.

PRIMEIRA EDIÇÃO
A primeira edição do concurso, lançada em maio do ano passado, recebeu a inscrição de 461 projetos.
A vencedora foi a jornalista Flávia Péret, 31, com o trabalho, "Imprensa Gay no Brasil - Entre a Militância e o Consumo".

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A turbulenta vida familiar do casal Tolstói


Por Bernardo Carvalho, do Caderno Ilustríssima
Ilustração: Marcelo Comparini

 A "beatificação" do autor de "Anna Kariênina" e o estigma de "megera" de sua mulher reforçaram a mística em torno do casal Tolstói. Em textos de Liev, contra o casamento e a hereditariedade, e nos diários de Sofia, marcados pelo ciúme e pela devoção, aflora a peculiar visão de amor, sexo e vida familiar do mestre russo.
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O CASO FAZ PARTE do anedotário da literatura universal: na madrugada de 28 de outubro de 1910, aos 82 anos (48 deles casado), Liev Tolstói (1828-1910) abandona para sempre a propriedade rural da família, Iásnaia Poliana, onde nasceu e onde será enterrado dias depois, a 200 km a sudoeste de Moscou. Como o protagonista de sua novela "Padre Sérgio" (1898), pensa em se refugiar num mosteiro distante ou numa ermida e lá, longe da mulher, Sofia Andrêievna, viver finalmente em paz.
Não é a primeira vez que foge (ou ameaça fugir) de casa. Vinte e seis anos antes, quando a mulher entrava em trabalho de parto (pela 15ª gravidez), o escritor saiu de casa para fazer a vida na América. E voltou horas depois, a tempo de ver a criança nascer.
"Ele estava passando por sua conversão -para o Cristianismo! Só que nesse Cristianismo, o martírio era meu", escreve Sofia Andrêievna nos diários recém-publicados em inglês, pela Harper Perennial, com tradução de Cathy Porter e prefácio de Doris Lessing.
 
ATO PATÉTICO Ao acordar e ler a carta de despedida (desta vez, definitiva) do marido, ela decide se afogar. Está com 66 anos. Atira-se num tanque. O ato patético e intempestivo lembra mais uma cena do filme "A Última Noite de Bóris Grushenko", de Woody Allen, do que um texto do autor de "Anna Kariênina". Não é a primeira vez que ela tenta o suicídio. Nas anteriores, além do tanque, recorreu à inanição, à overdose por ópio e à morte por congelamento, indo deitar-se na neve depois de uma briga conjugal.
Retirada das águas pela filha mais jovem, Aleksandra, de 26 anos, e pelo secretário do marido, ela passa dias delirando, aos prantos, até receber o telegrama de um jornalista caridoso que revela enfim à família o paradeiro do escritor - conhecido até então apenas pela caçula, que tinha razões de sobra para escondê-lo da mãe.
"Serei grata até a morte ao correspondente do jornal 'A Palavra Russa'", escreverá anos depois a filha mais velha, Tatiana, num opúsculo publicado em francês, em 1928 ("Sur Mon Père", Editions Allia), para salvar a reputação dos pais - na verdade, mais do pai do que da mãe: "Se hoje saio do silêncio, é porque apareceram certos livros [...] que pintam um quadro falso das relações entre meus pais e, de minha mãe, um retrato deformado pela parcialidade". Ainda assim, não vai se conter em sentenciar sobre a mãe: "Esse ser doente, profundamente infeliz e moralmente só, me causava a maior piedade. [...] A culpa da solidão era dela".
 
DEMÔNIO Informada pelo telegrama, Sofia parte às pressas, com os filhos, para Astapovo, onde uma pneumonia obrigou o marido a abortar a fuga -e onde ele agoniza, com febre de 40º C, na casa do chefe da estação de trem. Só vai conseguir vê-lo quando ele já estiver inconsciente. Como se escoltassem o demônio, os próprios filhos preferem mantê-la longe do pai, ao qual reservam tratamento de santo. "Retiveram-me à força, trancaram a porta, atormentaram meu coração", ela desabafa ao diário dias depois, já viúva.
As circunstâncias da fuga de Tolstói são conhecidas (em seu diário, ele exprime a revolta e a repugnância de pegar a mulher vasculhando entre seus papéis pessoais, na véspera, às escondidas - não é a primeira vez, é claro, nem o pior que ela já fez).
A julgar pelo testemunho da filha Tatiana, Sofia vai passar os nove anos que lhe restam depois da morte do marido preocupada em limpar o nome: "A calma veio para ela nesses últimos anos. [...] Era menos estrangeira às ideias de meu pai. Tornou-se vegetariana. [...] Mas conservou uma fraqueza: [...] temia por sua reputação. E assim não perdia a oportunidade de justificar suas palavras e seus atos". Não obstante, ainda terá forças para, pouco antes de morrer, durante a guerra civil que sucede à Revolução de 1917, encantar-se com os rapazes mais prestativos do Exército bolchevique acampados em suas terras.
 
RAZÃO Contra tudo o que já se disse, a voz convincente dos diários vem dar alguma razão a essa figura condenada pela história a não ter razão nenhuma, megera histérica e intratável, principal estorvo na vida do santo escritor e de seu projeto de despojamento dos valores burgueses e dos interesses materiais.
A publicação simultânea, na França, da autobiografia inédita, "Minha Vida" (Editions des Syrtes), e de uma nova tradução do único romance que Sofia Andrêievna escreveu, "De Quem é a Culpa?", relançado pela editora Albin Michel como "uma resposta a Liev Tolstói e a 'A Sonata a Kreutzer'" (novela na qual o escritor apresentava uma visão idiossincrática sobre as mulheres casadas e o sexo), faz pensar no sentido de oportunidade revisionista dessas edições como um efeito de certo modo tardio e desesperado dos estudos culturais e de gênero.
Como se, além de pôr em dúvida a canonização do autor por ocasião dos cem anos de sua morte, já não restasse nenhuma outra forma possível de resistência ou dissonância ao consenso natural que vai se formando em torno do realismo da obra de Tolstói como paradigma absoluto para uma literatura que precisa superar os questionamentos pós-modernos e se massificar para sobreviver.
 
MOÇA INEXPERIENTE Quando ele se apaixona por Sofia Behrs, filha de um médico do Kremlin cuja família vai lhe servir de modelo para os Rostov de "Guerra e Paz", tem 34 anos e ela é uma moça inexperiente de 18. Antes de se assentar na propriedade rural de 1.600 hectares e 300 servos, o jovem conde levou uma vida de prazeres em Moscou e São Petersburgo (à qual a mulher vai se referir como "as abominações do seu passado"), viajou pelo Cáucaso e participou como oficial do Exército russo na Guerra da Crimeia (1854-56).
Mesmo antes de escrever as obras-primas "Guerra e Paz" e "Anna Kariênina", já era um escritor respeitado. Quando se encontram, Sofia está acompanhando a mãe e os irmãos numa visita ao avô, vizinho de Tolstói. Dois meses depois, estarão casados. Duas semanas depois de casados, ele lhe dirá que já não confia no seu amor. E em dois meses, ela estará grávida.
A primeira gravidez é o batismo de fogo. Sofia passará por outras 15 até os 44 anos. E a provação só vai aumentar conforme também forem se agravando as contradições do ascetismo cristão prescrito pelo marido. Um ascetismo que, embora não lhe impeça o sexo fora do casamento (Tolstói teve um filho, Timofei, com uma camponesa, Aksínia, que vivia em suas terras) nem as crises de ciúmes, condena a contracepção e restringe o sexo matrimonial a fins reprodutivos, banindo-o durante a gravidez: "Ele não me deixa entrar em seu quarto [...]. Tudo o que é físico o enoja. [...] A verdade cruel é que a mulher só descobre se o marido realmente a ama quando está grávida".
 
CIÚME Sofia se martiriza lendo o diário do marido às escondidas. É um costume incontrolável, que ela manterá até o fim: "Procuro com avidez [...] alguma referência ao amor, e fico tão atormentada pelo ciúme que já não consigo ver nada claro". Vai acabar encontrando: "Não existe amor, apenas a necessidade física do sexo e a necessidade prática de uma companheira de vida", ela lê no diário do marido. E responde no seu: "Quem me dera tivesse lido isso há 29 anos, então nunca teria me casado com ele".
Os diários de Sofia revelam o escritor como a maior vítima dos próprios instintos: "Liovochka (diminutivo de Liev) me acordou esta manhã com beijos apaixonados [...]. Sucumbi à libertinagem mais imperdoável - na minha idade! [47 anos] Estou tão triste e envergonhada! [...] Que homem estranho é o meu marido! Na manhã seguinte a uma cena terrível entre nós dois, ele diz que me ama de paixão. Diz que está completamente sob o meu domínio e que nunca imaginou serem possíveis tais sentimentos. Mas é tudo físico".
Em outra ocasião, referindo-se à filha Aleksandra, ela comenta: "Se ao menos ela soubesse como o 'papai' dela ficava animado depois de desfrutar do amor que ele nega!".
Com 18 anos, Sofia ainda esperava que o nascimento do primeiro filho pudesse resgatá-la do martírio. Era só o início de um ciclo. Quando nasce Sergei, ela não consegue amamentá-lo, por causa de uma inflamação nas mamas. Tolstói se recusa a chamar uma ama de leite; acha que é dever da mãe amamentar a criança. Dois anos depois, tendo dado à luz a filha Tatiana, ela desabafa ao diário: "Agora estou bem de novo e não grávida -fico aterrorizada só de pensar na frequência em que estive nesse estado".
E, alguns anos mais tarde: "Pensar nesse novo bebê me enche de tristeza; meus horizontes se estreitaram tanto e meu mundo é um lugar tão pequeno e lúgubre". Dos 13 filhos do casal que sobreviverão ao parto, 11 serão amamentados pela mãe.
 
MANUSCRITOS Logo, entretanto, ela vai encontrar uma função além de procriar, amamentar, educar os filhos e administrar a propriedade: passa a datilografar os manuscritos do marido, obsessiva e incessantemente. É outra maneira de dar sentido ao casamento. "Liovochka estava mais carinhoso hoje. Chegou a me beijar pela primeira vez em dias. Estou copiando sem parar e fico feliz por ser de alguma utilidade."
Quando Tolstói termina "Guerra e Paz", ela relata: "Liovochka passou o inverno escrevendo, irritadiço e excitado, muitas vezes com lágrimas nos olhos". A depressão, o temor da morte e a crise espiritual vão ganhando a alma do escritor. Ele abre uma escola para os camponeses, começa a escrever "Anna Kariênina", o filho Nikolai morre de meningite com apenas 10 meses e Sofia perde uma filha no parto.
É inevitável ver na equação conflituosa e contraditória do ascetismo cristão defendido pelo autor da célebre abertura de "Anna Kariênina" ("Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira") um círculo vicioso e uma explicação possível para a sua inaptidão à vida familiar: o horror da iminência da perda, a ameaça de um sofrimento potencial que o maior número de filhos só faz renovar e que será confirmada pela morte prematura, em 1895, do temporão Ivan, adorado pelo casal, marcando com tintas trágicas os últimos 15 anos da vida do escritor. "A cada nova criança, sacrificamos um pouco mais de nossa vida e aceitamos um ônus ainda mais pesado de aflições e doenças", Sofia escreve no diário.
 
HUMILHAÇÃO PÚBLICA É difícil não pensar também nesse horror como o que está por trás da visão tão peculiar e paradoxal que ele vai acabar exprimindo sobre o casamento, a mulher e o sexo em "A Sonata a Kreutzer" - e que Sofia receberá como uma humilhação pública. O amor é insuportável, porque é a iminência da perda. É a própria perspectiva do amor individual (e de suas consequências) que o leva ao cúmulo de prescrever a abstinência sexual no casamento, contradição que só se resolve no ideal do amor universal.
O conflito se torna insustentável conforme Tolstói vai percebendo a incompatibilidade entre seus ideais e a realidade da vida familiar, que a mulher, cuidando dos filhos e da propriedade, passa a representar. Realidade que ele associa aos valores burgueses e, em última instância, à injustiça e à desigualdade social da Rússia czarista. O escritor passa a pregar o amor desinteressado pela humanidade, sem objeto definido, sem família. É o momento da "conversão".
Quanto mais a mulher assume as responsabilidades da casa (ocupando-se das doenças e da educação dos filhos, da administração da propriedade e dos direitos autorais das obras do marido), mais ele rejeita tudo o que é material. Aos poucos, também a literatura vai dando lugar aos panfletos e artigos de cunho religioso e social, a ponto de fazer o autor renegar os próprios romances como moralmente irresponsáveis.
Contra a truculência e a corrupção do Estado e da Igreja Ortodoxa, ele propõe um ascetismo incompatível com sua posição de proprietário de terras, tendo que sustentar mulher e uma prole que não para de crescer: "Hoje ele gritou [...] que o seu maior desejo é abandonar a família".
PAPEL INGRATO Num cabo de guerra progressivo e silencioso, o escritor vai lutar para impor à mulher seu desejo de abrir mão dos direitos de propriedade, inclusive intelectual, condenando-a ao papel ingrato de matriarca insanamente apegada aos bens materiais em nome do futuro dos filhos. Ao principal discípulo e interlocutor, Vladimir Tchertkov, ele descreve a relação com Sofia como "uma luta até a morte".
E ela se queixa ao diário: "Todos nesta casa - especialmente Liev Nikoláievitch, que as crianças seguem como um rebanho de ovelhas - me impingiram o papel de carrasco. [...] Pergunto-me por que já não acredito cegamente nele como escritor. [...] Liovochka tem agora apenas dois assuntos extremos de conversa: contra a hereditariedade e a favor do vegetarianismo".
Aos poucos, Iásnaia Poliana se transforma em centro de peregrinação dos discípulos do escritor que Sofia identifica a fanáticos e aos quais chama "obscuros": "Não há entre eles um único normal. E a maioria das mulheres é histérica" (ironicamente, será o principal deles, Tchertkov, que, levando a obra do mestre para o exílio inglês, vai salvá-la da sanha destruidora do obscurantismo czarista).
 
SONATA É nessa época que Tolstói ouve o filho Sergei ao piano, tocando a "Sonata a Kreutzer", de Beethoven, acompanhado pelo professor de música ao violino. Em 1890, a novela homônima é publicada, sendo em seguida censurada e oficialmente proscrita. Humilhada pela condenação veemente que o marido faz da vida matrimonial, Sofia reage, escrevendo o romance "De Quem é a Culpa?", publicado postumamente.
"A Sonata a Kreutzer" conta a história de um homem que assassina a mulher, por ciúme. O personagem desfere um ataque radical ao casamento: "O inferno terrível, em consequência do qual aparecem bebedeiras, assassínios, o envenenamento de si mesmo ou do cônjuge [...] Insisto: todos os maridos que vivem como eu vivia têm que se entregar à devassidão, divorciar-se ou matar a si mesmo ou a esposa, como eu fiz".
E sobre o sexo: "Observe o seguinte: os animais unem-se unicamente quando podem engendrar uma descendência, e o imundo rei da natureza, sempre que lhe apraz. E, como se fosse pouco, eleva essa ocupação simiesca a pérola da criação, a amor".
Ainda assim, é Sofia quem vai tomar a iniciativa de pedir uma audiência ao czar, em São Petersburgo, para pleitear a suspensão da censura à novela do marido. Quando o czar lhe pergunta se ela deixaria os filhos lerem um livro como aquele, ela responde: "A história tomou infelizmente uma forma demasiado radical, mas a ideia fundamental é que o ideal da castidade absoluta é inatingível". E lhe assegura que o marido está disposto a deixar de lado os textos religiosos e filosóficos e voltar à literatura. "Seria ótimo! É um grande escritor!", o czar responde. E a publicação de "A Sonata a Kreutzer" é liberada.
 
IMPASSE Os textos doutrinários de Tolstói fazem crer que o escritor abriu mão da literatura por um ideal moral superior e ascético de justiça para o mundo. O que se depreende dos diários de Sofia é, ao contrário, que a descrença do escritor na literatura era resultado do impasse ao qual fora condenado pela própria loucura. Nas últimas semanas antes da fuga, ele andava lendo "Os Irmãos Karamázov" e achando os diálogos ruins.
"Acredito em bons e maus espíritos. O homem que eu amo foi possuído por maus espíritos, mas não sabe disso. Sua influência é perniciosa: seu filho está sendo destruído, suas filhas estão sendo destruídas, assim como todos os que entram em contato com ele", ela desabafa num dos instantes de maior desalento. E, sem perceber, descreve o que está na base do desespero do escritor.
"Um cristão só pode contrair matrimônio sem cometer pecado no caso de saber que todas as crianças que existem têm a vida assegurada", Tolstói escreveu no comentário a "A Sonata a Kreutzer". Estava falando da miséria do mundo, é claro.
Mas não é preciso chegar ao extremo de reduzir sua imagem pública de santidade e ascetismo a mera vaidade e egoísmo, como faz Sofia Andrêievna em sua exasperação cega, para entender que, se ele chegou à verdade terrível e autopunitiva dessa frase, foi porque também amou e viu a morte dos próprios filhos, dentro de casa.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Eder Jofre e a melancolia do boxeur

A Força do Sucesso - Em novembro de 1960, o pugilista Éder Jofre tornava-se campeão mundial dos pesos-galo, em Los Angeles

Por Eduardo Ohata, do Estadão

Presente em todas as listas dos maiores boxeadores da história, o bicampeão mundial Eder Jofre rememora os 50 anos de seu título peso-galo sem desfrutar de real popularidade no Brasil. Desconhecido pelas novas gerações e recolhido à vida doméstica, Jofre defende seu legado e clama pela valorização do esporte no país.

O MEXICANO OLHA o brasileiro de alto a baixo. Em silêncio, o público do Olympic Auditorium, em Los Angeles, nos EUA, fita as três figuras no centro do ringue: os dois pugilistas e o árbitro, que lhes passa as instruções finais. Estão previstos 15 assaltos para decidir de quem será o título mundial da categoria galo, que reúne lutadores com até 53,5 kg.
Eles não demoram a começar a troca de sopapos: primeiro, um golpe forte, de esquerda, atinge a cabeça do mexicano, que revida com dois ganchos no corpo do brasileiro; mais um "jab" -golpe preparatório de esquerda- e acaba o assalto.
O mexicano volta para o seu corner com o lábio superior cortado. A caminho do ringue, o brasileiro ouve a pior vaia de sua carreira: 10 mil mexicanos tinham atravessado a fronteira com os Estados Unidos para torcer contra ele. A seu lado, os brasileiros são apenas 500, se tanto.
Apesar da recepção hostil, o brasileiro cumprimenta a plateia. Lá estão os atores Kirk Douglas e George Raft. O melhor pugilista da história, "Sugar" Ray Robinson, também está lá.
O mexicano começa o segundo assalto ainda mais agressivo. Procura o corpo a corpo, a troca franca de golpes. Em dois minutos, "acusa" o direto de direita do brasileiro, mas revida com dois ganchos no corpo do rival.
A partir do terceiro assalto, o brasileiro força o ritmo. Evita o corpo a corpo, ora no centro do tablado, ora com as costas contra as cordas, bombardeando sem trégua o mexicano. O barulho do público é ensurdecedor.
No quarto assalto, fica patente o domínio do brasileiro, que castiga, alternadamente, corpo e rosto do adversário. Sem querer, o mexicano acerta-lhe um golpe baixo. O brasileiro não se incomoda e prossegue com a saraivada de golpes. Finaliza o assalto com um potente golpe de direita.
Ali perto, o pai e técnico do brasileiro sente que o fim está próximo. Antes do quinto assalto, berra para o filho: "Capricha na direita que ele desce!".
E assim é. Com uma direita, ele faz o mexicano estremecer no centro do ringue. Então desfere duas esquerdas: o mexicano se ajoelha.
No assalto seguinte, desesperado, o mexicano tenta o nocaute. Sob os gritos alucinados do público, a dupla troca golpes em um dos corners.
O nocaute vem na forma de uma combinação de gancho de esquerda, no fígado, e um cruzado de direita que acerta em cheio a mandíbula do mexicano.
Fim da luta. É a consagração do clã Jofre-Zumbano, que produziria, nos próximos 50 anos, 28 pugilistas.

50 ANOS Naquele 18 de novembro de 1960, quase meio século atrás, em apenas seis dos 15 assaltos previstos, Eder Jofre conquistou o título galo da Associação Mundial de Boxe (AMB).
Eloy Sanchez, o mexicano, surpreendera o mundo do pugilismo ao colocar na lona o grande campeão mundial Joe Becerra, em Ciudad Juárez, no México. Até então, não passava de um desconhecido.
Nocauteado pela primeira vez, Becerra abriu mão do cinturão e se aposentou. A AMB, então, incluiu Sanchez no ranking e anunciou que o vencedor de seu confronto com Eder seria reconhecido como campeão mundial.
Nem mesmo um presidente da República jamais teve a recepção que Eder recebeu ao voltar ao Brasil. Só foi inferior, em número, à recepção que os paulistanos fizeram para os heróis da Copa do Mundo de 1958. No aeroporto, 20 mil pessoas o esperavam; cerca de 100 mil o assistiram no caminho do saguão de Congonhas até o Parque Peruche, onde morava.
Como prêmio pelo título mundial, Eder ganhou do promotor do combate, George Parnassus, um luxuoso Impala que acabou vendendo. Achou que seria constrangedor entrar no Peruche com aquele carrão e preferiu ficar com o seu Simca Chambord.

EMBARAÇO A cena de constrangimento tem se tornado cada vez mais frequente para Eder Jofre. Quando alguém reconhece o bicampeão mundial de boxe -títulos conquistados antes da proliferação de entidades que controlam o boxe e de categorias de peso, na rua, na padaria, no supermercado, no banco, na lanchonete ou em qualquer outro lugar, tornou-se comum a pessoa o cumprimentar e comentar para o filho, o amigo ou o conhecido:
- Olha, é o Eder Jofre!
- Quem? - respondem.
- É o Eder, o Eder Jofre. Ele foi campeão mundial...
- Ah, é? De quê?
É a senha para Eder dar de ombros.
Resignado, pensa: "Esse cara é desse mundo? Sou um bicampeão mundial, representei o país no mundo inteiro. Isso deveria valer alguma coisa".
No dia a dia, Eder Jofre, 74, sempre muito bem-humorado, é um mestre dos trocadilhos. Quando lhe perguntam se está "tudo joia", ele corrige: "Não, metade é roupa".
Quando um funcionário da Câmara de Vereadores de São Paulo, onde ocupou o cargo de vereador entre 1982 e 2000, o reconhece e diz que sempre vê seu filho, Marcel, que trabalha lá, Eder responde: "É, e por enquanto ele continua sendo meu filho".
Descendente de japoneses, sempre que encontro Eder sou saudado com cumprimentos em japonês. Ele aprendeu palavras no idioma nos três combates que fez no Japão, e também sabe dizer algo na linha de "espere um pouco, por favor".

MEMÓRIA Mas a falta de memória, especialmente das gerações mais novas, acaba com o seu proverbial bom humor.
"Não passam para os mais jovens o que os atletas do passado fizeram", diz Eder em tom sério, melancólico, durante a entrevista. "O que não dá para aceitar é gente com mais de 30 anos não saber quem fui", reclama o "Galo de Ouro", gesticulando.
"Sou bicampeão, porra, e o cara não sabe? Vai se ferrar! Esses caras tão no mundo?"
Ele desabafa: "Daqui a 50 anos vão perguntar: 'Quem é esse Guga?', 'Quem é esse Cielo?'".
"Todo ano morre atleta. Em alguns anos, ninguém vai se lembrar deles. O Brasil é futebol e acabou. Pelé, Garrincha... Fazer o quê?", se exaspera, abrindo os braços.
"Não me entenda mal. É bom o Brasil ser conhecido pelo futebol, mas não é só o futebol que existe", afirma Eder, que, na adolescência, fez teste no futebol do São Paulo -atuava como ponta-esquerda.
Eder acha que todo ano, em determinada data, o governo deveria fazer uma campanha para lembrar os atletas nacionais que se destacaram no passado.

LÁ FORA "Ah, então você é da terra do Eder Jofre?"
Não é incomum ouvir a pergunta, quando ligo para jornalistas, promotores ou profissionais do pugilismo no exterior, em países como o Japão e os EUA.
Certa vez, liguei para Herb Lambeck, especialista em bolsas de apostas que tinha uma coluna na publicação "Boxing Update". Ele fez exatamente esse comentário e acrescentou: "Escrevi um texto sobre o Eder há pouco tempo. Qual é seu endereço?".
Poucas semanas depois, recebi uma cópia. Procurei Eder, pedi uma dedicatória para Lambeck e mandei de volta.
Joe Koizumi, o jornalista de boxe mais conceituado no Japão, sabia de episódios da vida de Eder ocorridos décadas após sua aposentadoria, como a sua eleição para vereador em São Paulo.
Até hoje, quase anualmente, Eder é lembrado em publicações especializadas como a "Boxing Illustrated", que publica o ranking dos melhores galos da história, organizado pelo historiador Herbert Goldman. Eder foi considerado o melhor de todos os tempos.
No ranking dos melhores boxeadores dos últimos 50 anos, em qualquer categoria, compilado em edição especial da tradicionalíssima "The Ring", fundada em 1922, Eder ficou em nono, competindo até com pesos-pesados (acima de 90,7 kg), a grande paixão dos norte-americanos.
Numa lista mais abrangente, que engloba os últimos 80 anos, ficou em um respeitabilíssimo 19º lugar. Numa espécie de ringue eletrônico, um torneio por computador que o pôs frente a frente com os melhores galos da história, Eder foi o vice-campeão.
Na lista do CMB (Conselho Mundial de Boxe), Eder é apontado como o melhor de seus campeões dos galos. A entidade, no entanto, apresentou o mexicano Ruben Olivares e Eder como os melhores em sua convenção de 2000, no México, onde o CMB está sediado.
Quando perguntei quem foi o melhor galo para o CMB, o presidente da entidade, Jose Sulaiman, foi salomônico: "Os dois estão empatados em primeiro".
É questionado sobre quem foi o melhor galo da história, se ele, Olivares ou Zarate, Eder dispara a resposta objetiva e autoexplicativa: "Eles não lutaram comigo".

VOLTA Não fosse por um incômodo comentário de seu filho, Marcel, ainda aos seis anos, a interrupção na carreira em 1967 seria definitiva. Ao ver o pai dormir por três horas após o almoço e perceber que ficava o dia inteiro em casa, exceto quando saía para treinar para manter a forma, Marcel disparou, inocente:
- Pai, você não trabalha?
- O papai já trabalhou muito, mas não foi em fábrica nem nada disso. Foi de um jeito diferente. O papai aplicou o dinheiro, comprou casas, ganha dinheiro de aluguel -procurou justificar.
- Mas pai... Você não trabalha? Os pais de todos os meus amigos trabalham...
E seguiu mirando o pai.
O comentário de Marcel mexeu com os brios de Eder, que decidiu voltar ao ringue.
Marcel afirma não se lembrar do episódio. "Eu era muito pequeno, sei porque me contaram", diz. "Mas tenho orgulho por ter participação no segundo cinturão mundial do país", sorri.
"Não tinha certeza de que ia dar tudo certo", diz Eder. "Mas queria tentar. Estava me sentindo um verdadeiro leão sem ter de passar pelo sacrifício de perder o excesso de peso." Para se manter no limite máximo de cada categoria, os boxeadores são obrigados a fazer extenuantes treinamentos de perda de peso.
Ao retomar os treinamentos de forma competitiva, ele explicou ao filho:
- Agora você vai entender de que jeito seu pai trabalha.

HARADA Até pendurar definitivamente as luvas em 1976, Eder venceria todos os que se colocaram à sua frente, até pegar o japonês Masahiko "Fighting" Harada, que, lutando em casa, o superou por duas vezes, em 1965 e 1966.
O pugilista ficou entusiasmado quando lhe informei que é possível assistir a seus combates no YouTube. Foi quando reconheceu que "gostaria de rever a luta com o Harada".
Ele quer provar que, no primeiro e polêmico duelo entre ambos, o japonês o castigou a cabeçadas. Pediu para anotar o endereço do site. Queria conferir, quase 45 anos depois, como se saiu contra o rival. Ele acredita que, com o acesso aos seus combates, o público poderá ter uma ideia melhor sobre sua carreira.
Voltou a dar socos em 1969, e, aos 37 anos, ganhou o cinturão dos penas (até 57,1 kg) do CMB -a segunda entidade do boxe após dissidência da AMB.
Fez sua primeira e última defesa do cinturão contra Vicente Saldivar, perdeu o título no tapetão e se aposentou em 1976, depois da morte de Dogalberto, seu irmão, que ele pretendia que assumisse seu corner. Encerrou a carreira com impressionantes 72 vitórias, 50 nocautes, 4 empates e 2 derrotas por pontos.
Foi o bastante para que a ressurreição de Eder voltasse a ser lembrada: entrou na lista dos editores da revista "The Ring", compilada há poucos anos, dos melhores retornos da história do boxe.

TAREFAS DOMÉSTICAS Foi difícil marcar a entrevista com Eder. Toda vez que concordava em falar "amanhã" com a reportagem, era possível ouvir ao fundo sua mulher, Cidinha, reclamando que no dia seguinte ele já tinha o que fazer. O ex-campeão logo se desculpava e pedia para mudar a data.
"Ajudo nas tarefas domésticas", diz, meio sem jeito. "Vou fazer compras de mercado e demoro mais de uma hora. Também tenho de ir ao banco para pagar contas, receber dinheiro etc."
O ex-bicampeão mundial acrescenta que precisa cuidar da mulher, que sofre de artrite reumatoide e diabetes. Como são vários medicamentos, Eder quer sempre estar perto, para ter certeza de que ela toma os remédios certos.
Cidinha funciona como uma espécie de enciclopédia da carreira do marido. Eder volta e meia pede ajuda a ela para lembrar alguma coisa, seja um dado sobre sua carreira ou o paradeiro de um personagem dos velhos tempos.

POPÓ Perto do fim, a entrevista com o "Galo de Ouro" retomou, em diversos tópicos, o assunto inicial da memória. Está fresco em sua lembrança, por exemplo, o episódio no qual Popó, ex-campeão superpena (até 58,9 kg) e leve (até 61,2 kg), anunciou ao público que já se via maior do que o "Galo de Ouro". "Não dá para a imprensa ir na onda e dizer que esse ou aquele foi maior que o Eder em termos de boxeadores nacionais", protesta Marcel.
O pai concorda, mas em termos mais incisivos.
"O Popó é um bundão. Campeão que é campeão não desiste, a não ser que esteja com o nariz ou a mão quebrada. Eu mesmo caí num combate, levantei e venci", criticou Eder, lembrando que Popó desistiu de uma luta contra Juan Diaz sem ter sofrido uma queda sequer. Contra Diego Corrales, também fez sinal com a mão de que não queria continuar.
"Quem foi melhor? Se você puser o Eder no ringue hoje, ele é capaz de vencer esse 'Póp'", comentou comigo, durante o auge de Popó, o argentino Abraham Katzenelson, ex-promotor de Eder, com quem o "Galo de Ouro" rompeu no fim da carreira.
Eder não discorda da avaliação de Katzenelson.
"Olha, é que ultimamente não tenho treinado todos os dias. Mas sou mais eu", disse Eder, sério, ao tomar conhecimento dos comentários.

DINASTIA O nome da dinastia Jofre-Zumbano segue vivo com Raphael Zumbano, primo em segundo grau de Eder e um peso-pesado de modesto talento.
Eder sai em sua defesa.
"É um bom lutador. É que no Brasil não tem espaço para pesos-pesados", diz, ao aludir à falta de grandalhões nos ringues do país.
Apesar de ser conhecido como o melhor galo da história, foi a conquista do título mundial dos penas, em 1973, aos 37 anos, que definiu a sua estatura.
Há cerca de dois anos e meio, a proposta para a filmagem de sua biografia animou Eder. Ironicamente, a ideia surgiu do ator Thomas Stavros. Ele reconhece que não conhecia bem o ex-bicampeão antes de, "inspirado por um sonho", começar a alinhavar o projeto do filme. Pretende lançá-lo no final de 2011.
Ultimamente, Eder carrega um pedaço de papel no qual escreveu uma espécie de discurso, que pretende que seja incluído no filme.
Nele, lembra todos os boxeadores que fizeram parte do clã Jofre-Zumbano, além de outros parentes que não subiram no ringue, como a tia Olga, que se apresentou em outra categoria de luta, o "telecatch", popularmente conhecido como "marmelada".
A história começou com seu pai, o argentino Kid Jofre, que havia se engraçado com a namorada de um pugilista.
Desafiado a decidir a contenda no braço, Kid topou, mas para ganhar tempo disse que precisava de uma semana não só para treinar, mas para aprender a lutar boxe.
O rival do pai do"Galo de Ouro" beijou a lona.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

João Pessoa receberá 1º Salão Internacional de Livros da Paraíba

Estrela confirmada - A escritora Marina Colassanti participará do evento


Do jornal O Norte

De 20 a 28 de novembro, João Pessoa vai virar a capital brasileira do livro. Neste período será realizado, o 1º Salão Internacional de Livros da Paraíba, com mais de 80 mil livros expostos.

O evento será realizado no Espaço Cultural José Lins do Rego, em João Pessoa. serão 71 stands, com 400 expositores representando 500 livrarias do Brasil e dos oito países participantes do salão: Estados Unidos, França, Espanha, Venezuela, México, Peru, Argentina e Portugal.

Os escritores nacionais e internacionais virão expor suas obras literárias na Paraíba. Dentre os grandes nomes já confirmados estão Afonso Romano Sant'anna, Marina Colassanti, Anaílde Antunes, Nélida Piñon e Ignácio Loyola Brandão.

Além de conferir as obras clássicas e os lançamentos, o publico que prestigiar o evento ainda poderá participar de oficinas, tanto para crianças quanto para adultos, palestras, workshops, atrações musicais e teatrais. Tudo isso, gratuitamente.

Os visitantes poderão conhecer o salão das 10 às 22h. A organização espera um público de cerca de  250 mil pessoas.

A iniciativa é do Governo do Estado, em parceria com Universidade Federal da Paraíba, Academia Paraibana de Letras, Sebrae e Ministério da Cultura.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O Homem Ideal de Hollywood

"Orelhudo" - A beleza exótica de Clark Gable foi rechaçada por um grande produtor de cinema da época

Por Laís Bodanski (Cineasta)

Na imaginação vale tudo. Vivemos grandes aventuras, brigas, amores. Somos os donos da história, podemos vivê-la várias vezes ou escolher um pedaço para repetir o tempo todo. O mundo ideal se torna quase palpável. Nesse contexto, os galãs se encaixam perfeitamente.
O cinema foi o primeiro veículo a dar corpo à imaginação de meninas sonhadoras. E como os filmes sobrevivem na linha do tempo, hoje podemos olhar para trás e saber o que aquelas meninas sonhavam, ou melhor, quem se encaixava em seus sonhos.
Sem dúvida nenhuma, um dos primeiros galãs da história foi Clark Gable. Seu charme invadiu o terreno fértil da imaginação de toda uma geração. Deu vida a sonhos de garotas que escondiam sua foto debaixo do travesseiro, como no filme "The Broadway Melody of 1938" em que Judy Garland canta para uma foto de Gable, "Mr. Clark Gable: You Made me Love You".
"E o Vento Levou" (1939) foi seu filme mais emblemático. A escalação para o papel de Rhett Butler foi feita porque ele era o mais desejado de Hollywood.
Mas, diferente dos dias de hoje, o público não tinha tanta informação sobre os atores. Os estúdios fingiam que eles eram perfeitos. A mídia dizia que homens ideais existiam de fato e Clark Gable era um deles.
Em um passado mais recente, jovens atores romperam essa máscara. Marlon Brando e James Dean não se deixavam moldar pelos personagens, ao contrário, os personagens é que tinham que se encaixar em quem eles realmente eram.
Hoje temos Brad Pitt, que quando não está filmando deixa a barba crescer, revelando uma personalidade que não tem nada tem a ver com seus personagens. Johnny Depp é um camaleão, ninguém sabe quem ele é.
E quem foi Clark Gable? De família humilde e conservadora, William Clark Gable, ainda adolescente, enfrentou os gritos do pai quando decidiu ser ator. Profissão esta que caia como uma luva para esconder uma personalidade que não se encaixava na sociedade de sua época.
Antes de virar galã, trabalhou duro como figurante até conquistar minúsculos papéis em Hollywood. O grande produtor Darryl F. Zanuck viu seu teste e disse "Não serve para o cinema. As orelhas são grandes e se parece com um macaco".
Finalmente, em 1931, ele se camuflou no homem ideal. Lançou 12 longas metragens esse ano. Seu sex appeal menos romântico e mais cínico combinava com a grande depressão que assolava os EUA.
Sua contratação em o "E o Vento Levou" custou ao produtor Selznick muito dinheiro só para a MGM liberá-lo para filmar. Gable filmou com preguiça, demorou séculos para ler o roteiro. Ele não sabia que o filme que o tornaria imortal.
Longe do olhar do público, da mídia e da família, pôde ser ele mesmo. Homens e mulheres passaram por sua vida, escolhia e descartava seus amores como um menino mimado.
O divisor de águas em sua vida foi a morte de seu grande amor, a atriz Carole Lombard. Eram recém-casados, apaixonados, quando Carole morreu em um acidente de avião.
Decidido a abandonar a carreira, alistou-se na força aérea americana e foi para o front da segunda guerra mundial. Hitler soube de sua presença e exigiu seu resgate, pois era seu fã. Gable conseguiu escapar e voltou aos EUA condecorado.
Com o final da guerra, voltou para as telas. Mas já era o declínio de um grande ator que em 1960 morreu de ataque cardíaco sem conhecer seu filho ainda na barriga de sua última mulher.
Para os paparazzi esfomeados de hoje, Gable teria sido um prato cheio. Mas talvez as meninas sonhadoras daquela época não estivessem preparadas para sonhar com a vida real...