terça-feira, 17 de janeiro de 2012

William Shakespeare - Inspiração sem fim para o cinema

Por José Geraldo Couto, da Carta Capital

William Shakespeare (1564-1616) viveu três séculos antes da invenção do cinema, mas não existe outro autor que tenha sido levado tantas vezes às telas: o Internet Movie Database (IMDb) registra nada menos que 858 títulos, entre longas-metragens, telefilmes e minisséries.

A primeira adaptação cinematográfica de Shakespeare de que se tem notícia é o curta britânico King John, de 1899, que mostrava apenas a cena da morte do protagonista. De lá para cá, cineastas de todos os cantos do mundo mergulharam no universo shakespeariano em busca de inspiração.

As peças mais revisitadas do bardo foram Hamlet, Macbeth e, claro, Romeu e Julieta. Alguns diretores de primeiro time, como Laurence Olivier, Orson Welles e Akira Kurosawa, têm vários Shakespeares em sua filmografia.

Do homem William Shakespeare não há muito o que dizer, até porque sua biografia é repleta de sombras e pontos cegos. Sabemos que nasceu em Stratford-upon-Avon e aos 18 anos engravidou a amante Anne Hathaway, oito anos mais velha, com quem casou e teve três filhos.

Aos 28 anos, já era um ator e dramaturgo conhecido em Londres. Em 1599 se tornou sócio do Globe Theatre, que ganhou patrocínio real quando o rei James subiu ao trono, em 1603.

O fato de Shakespeare ter suas obras saqueadas das mais diversas maneiras em nossa época não deixa de ser irônico, já que ele próprio se servia sem cerimônia das fontes mais variadas, inclusive da literatura de seus antecessores e contemporâneos. “Somos da mesma substância de que são feitos os sonhos”, escreveu em A Tempestade. Parecia estar falando, profeticamente, do cinema.

Conheça algumas produções baseadas na obra shakespeariana:

Henrique V (1944)
Realizada no calor da luta contra o nazismo, a versão de Laurence Olivier do épico patriótico de Shakespeare sobre a Batalha de Agincourt (1415) começa com uma encenação da peça no Globe Theatre e ganha aos poucos a liberdade do cinema. Olivier dirigiu e protagonizou também Hamlet (1948) e Ricardo III (1955).

Macbeth (1948)
Macbeth (Orson Welles), nobre escocês do século XI, mata seu soberano e seus rivais para realizar a profecia ouvida de bruxas de que se tornaria rei. A versão de Welles, de baixo orçamento e com elenco teatral, tem uma ambientação selvagem e fantasmagórica. O diretor voltaria a Shakespeare com Otelo (1952) e Falstaff (1965).

 Ran (1985)
Ao transpor a tragédia Rei Lear para o Japão medieval, Kurosawa fez uma mudança: em vez de filhas, o protagonista (Tatsuya Nakadai) tem três filhos que se digladiam pelo poder e pelas terras. Um dos filmes mais exuberantes de Kurosawa, é também um libelo pacifista. O diretor já adaptara Macbeth em Trono Manchado de Sangue (1957).

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Clint Eastwood: "O trabalho me mantém jovem"

Por Elaine Guerini, da Revista Época

Aos 81 anos, o ator e cineasta Clint Eastwood não dá sinais de cansaço. Apesar da pele envelhecida e da voz mansa, ele conserva o charme e a determinação dos caubóis que interpretou no passado. E tem uma receita: levanta pesos todos os dias de manhã, antes de encarar um dia de filmagem. Mas é o trabalho, mais do que tudo, que para ele o mantém com espírito jovial e ainda em atividade. Na semana passada, aceitou ser capa da revista do jornal francês “Le Monde”, sob a condição de não ter suas rugas apagadas pelo Photoshop. “Esperava ter me aposentado 30 anos atrás. Como não aconteceu, será preciso mais que uma dor nas costas para me fazer parar’’, brincou Eastwood, em entrevista à ISTOÉ em Los Angeles. Ele está lançando “J. Edgar”, protagonizado por Leonardo DiCaprio, com estreia agendada para a sexta-feira 27 nas telas brasileiras. A cinebiografia reconstrói a trajetória profissional e pes­soal de J. Edgar Hoover, chefe do FBI (Federal Bureau of Investigation) por 48 anos. Eastwood quis contar a história dessa lendária figura pública dos EUA porque, além de fascinante, a sua vida permite traçar paralelos com personalidades atuais. “O fato de ninguém con­seguir tirá-lo do cargo me lembra alguns figurões de hoje, pessoas que se recusam a perder o poder, seja o pre­sidente de um estúdio de Hol­lywood, seja um magnata das comunicações”, diz o cineasta na entrevista a seguir.

O sr. está lançando “J. Edgar”, mais um filme em que apenas dirige. Não sente falta de atuar? 
Clint Eastwood  - Não. Mas não descarto essa possibilidade. Confesso que no set de “Gran Torino’’, que dirigi e do qual fui o protagonista, muitas vezes eu me perguntava: por que estou atuando? Para que fazer os dois trabalhos? 

A que conclusão chegou?
Como eu estava lidando com um elenco de atores não profissionais, funcionava um pouco como professor de interpretação, independentemente de ser o diretor. Mas é verdade que, dependendo do meu humor, eu me pergunto: por que você ainda se importa com tudo isso?

Fazer filmes não é mais uma prioridade?
Tenho com o cinema a mesma relação que tenho com o golfe. Adoro jogar golfe, mas não quero ter a obrigação de praticá-lo todos os dias. Claro que aprecio o fato de eu ainda ter o que fazer, o trabalho me mantém jovem. Pelo menos é assim que entendo. Ainda não estou preparado para me aposentar. O que poderia fazer? Certamente, ficaria bebendo cerveja pensando no que passou e nas coisas que eu poderia ter feito diferente.

É verdade que o sr. gosta de se exercitar antes das filmagens, montando uma academia de ginástica no set? 
Não chega a ser uma academia. Gosto de levantar peso quando chego ao set, bem cedinho. É para melhorar a minha circulação. 

Isso faz parte do seu ritual matinal?
Sim. Procuro me cuidar. Nos estúdios da Warner há uma ótima academia e, às vezes, eu passo por lá. Acho ótimo me exercitar pelo efeito que isso me proporciona, tanto físico quanto mental. Muitas vezes, o exercício ajuda a tirar a minha mente do que estou fazendo. Assim, quando eu volto ao assunto, tenho um olhar revigorado.

O sr. acha que J. Edgar Hoover aprovaria o seu novo filme?
Não sei. Talvez ele o odiasse. Hoover não foi um cara necessariamente mau. Prefiro pensar que ele foi um homem bom que ultrapassou os limites. A maioria das pessoas que comete excessos não gosta de admiti-los.

Hoover gostava de se vangloriar na vida real. A cinebiografia não faz o mesmo com o personagem? 
Se eu não tivesse preenchido lacunas na sua vida, não teríamos filme algum. São poucos os livros publicados sobre ele e muitos apenas fazem especulações. Mesmo quando Hoover estava vivo, ninguém sabia muito sobre o homem, a não ser o que saía nos jornais.

Como ele era tratado pela mídia na época?
Como um dos policiais mais admirados e temidos do país. Eu mesmo cresci tendo Hoover como um herói. Só muito mais tarde descobri que a história não era bem assim.

O que mais o fascina na personalidade de Hoover? 
A sua obsessão pelo poder. Ele comprova a teoria de que as pessoas sempre fazem coisas estranhas quando estão no topo do mundo. A verdade é que ninguém deveria ficar no mesmo cargo por tanto tempo. No seu caso, foram 48 anos, é tempo demais. Muitas vezes, vemos os governantes perder a noção do que fazem em apenas alguns anos de administração.

Por que essa história é relevante nos dias de hoje? 
Podem ser feitas muitas analogias entre a trajetória dele e a sociedade atual. A paranoia que o levou à caça aos comunistas não é muito diferente do sentimento pós-11 de setembro, que mantém o mundo em constante tensão diante dos terroristas. O fato de ninguém conseguir tirá-lo do cargo também me lembra alguns figurões de hoje, pessoas que se recusam a perder o poder, seja o presidente de um estúdio de Hol­lywood, seja um magnata das comunicações. Essas pessoas esquecem que, ficando tempo demais num cargo, perdem a sua utilidade. 

Que excessos de Hoover mais o incomodam? 
Ele foi maldoso com muitos, inclusive com o senador Robert Kennedy, que detestava. Quando o presidente John Kennedy foi assassinado, Hoover deu a notícia de uma forma cruel. A maneira como ele usava a informação para exercer a autoridade era terrível. Foi Hoover quem indiretamente ajudou Lyndon Johnson a se tornar o vice-presidente de JFK. Johnson era seu amigo e ele impôs o seu nome ao ameaçar expor a conduta sexual de JFK. O FBI tinha um arquivo meticuloso sobre esse tópico. 

Ironicamente, o filme trata com bastante sutileza a suposta homossexualidade do ex-diretor do FBI.
O roteiro procurou incorporar todas as especulações sobre o personagem, inclusive a hipótese de que ele gostava de se vestir de mulher. Não seria justo, contudo, apresentar isso co­mo verdade. No filme ele só põe o vestido da mãe quando ela morre. E o que isso quer dizer? Que ele era gay ou que queria apenas se sentir perto da mãe? Tratamos da mesma maneira o seu suposto envolvimento com o seu assistente Clyde Tolson. Quem poderia saber se eles realmente foram amantes?

Ele gostava de circular por Holly­wood. O sr. o encontrou alguma vez?
Não. O mais perto que cheguei foi conhecer algumas pessoas que trabalharam com ele no FBI. Eu me lembro bem de vê-lo posando com estrelas de cinema. Recordo da foto em que aparece beijando Shirley Temple nos jornais, nos anos 1930. Como eu era garoto, vê-lo ensinando a menina a montar num cavalo mecânico me marcou. Na medida do possível, fiz questão de incluir situações que fizeram parte da minha infância. As fotos do bebê Lindbergh que mostro no filme são reais (a trama aborda o sequestro do filho do aviador Charles Lindbergh, um caso que Hoover ajudou a solucionar).

Leonardo DiCaprio correspondeu às suas expectativas para o papel?
Completamente. Leo é mesmo um dos atores mais aplicados de sua geração e não tem medo de trabalhar duro. Como Morgan Freeman, Gene Hackman ou Hillary Swank, outros que adorei dirigir, ele chega ao set preparado para tudo. E é assim que eu gosto.

Não pensou em usar um ator mais velho para a fase final de Hoover e, assim, evitar o uso de uma maquiagem pesada? 
Eu queria Leo dos 20 aos 70 anos. Entendo que a plateia observe a maquiagem por alguns segundos, tentando imaginar se será assim mesmo que ele ficará na velhice. Espero, no entanto, que o público supere isso rapidamente e siga o personagem, sem pensar mais no assunto.

Por que o sr. não gosta de filmar uma cena muitas vezes?
Muitos atores acham que podem fazer melhor a partir da segunda tomada, mas nem sempre é verdade. O próprio Leo me pediu para fazer de novo algumas cenas. Às vezes, ele estava certo, apresentando uma melhora na nova tomada. Outras vezes, não. O problema é que muitas vezes o ator quer buscar a perfeição. 

E isso não é bom?
Claro. Mas não é preciso. Conheço atores que são bons até quando erram (risos).

Lembra de algum caso específico?
Quando dirigi Meryl Streep em “As Pontes de Madison’’, eu lhe mostrei uma versão inacabada do filme e ela reclamou. Disse: “Você guardou todos os meus erros! Eu respondi: “Claro! Eles são tão bons” (risos).

Com a experiência, não acha que tem muito mais a dizer? 
É verdade. Eu nunca me conformei com o fato de Billy Wilder, que viveu até os 90 anos, ter se aposentado aos 60. Eu me perguntava por que o cara que fez “Quanto Mais Quente Melhor’’ e “Crepúsculo dos Deuses’’ parou de filmar. O mesmo eu sentia com relação a Frank Capra, que costumava visitar. Até hoje não entendo o que aconteceu. Não sei se eles é que deixaram o cinema ou se foi o cinema que os deixou. 

O sr. se vê como o cineasta português Manoel de Oliveira, na ativa aos 103 anos?
É cedo para dizer. Conheci Manoel no Festival de Cannes, anos atrás. quase perguntei: qual o uísque que o sr. toma? Manoel ainda tem muita vitalidade, como quem está determinado a chegar aos 110. Às vezes, até fico desconfiado. Ou ele é mesmo incrível ou andou mentindo. Talvez Manoel esteja com 60 anos e diga ter passado dos 100 só para ouvir as pessoas dizer como ele ainda está bem para a idade (risos).

Já sabe qual será o seu próximo filme?
Eu ia filmar “Nasce uma Estrela’’ com Beyoncé. Mas tive de adiar porque ela ficou grávida. Adiamos o projeto por um tempo. Talvez o façamos num futuro próximo. 

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O recado de Immanuel Kant aos chineses



Do Caderno Ilustríssima

Alemães e chineses tinham objetivos diferentes ao negociar "Arte do Iluminismo", a primeira exposição internacional do Museu Nacional da China após uma ambiciosa reforma que durou quatro anos e consumiu US$ 380 milhões.
Para o lado europeu, o objeto da mostra representa "um fenômeno universal que simboliza diversidade, abertura e tolerância", como define a apresentação da série de palestras "Iluminismo em Diálogo", paralela à mostra.
Já os chineses viram no convênio com três grandes acervos alemães uma oportunidade para dar um ar de "classe mundial" ao museu, anunciado como o maior do mundo e localizado na supervigiada praça da Paz Celestial, onde qualquer manifestante está sujeito a anos de prisão. A aposta é na opulência, e não na ousadia.
Em abril passado, as diferentes expectativas produziram uma vítima. Escalado para o ciclo de palestras, o sinólogo alemão Tilman Spengler teve o visto negado pelas autoridades chinesas. O motivo: ter participado de um evento em homenagem a Liu Xiaobo, o dissidente preso que ganhou o Prêmio Nobel da Paz. "Ele não é um amigo do povo chinês", justificou um porta-voz do Ministério da Cultura.
Já a exposição caminha para os seus últimos três meses sem provocar maiores polêmicas e com público garantido pelas hordas diárias de turistas do interior. Com cerca de 450 peças, inclui pinturas, móveis e roupas da época e está dividida em nove partes.
Na seção mais ousada, "Emancipação e a Esfera Pública", há um busto do filósofo Immanuel Kant onde se lê: "Tenha a coragem de usar a sua própria compreensão". O veto a Spengler e as centenas de policiais e câmeras do lado de fora sugerem que não.

A ARTE E OS RISCOS
Um dos maiores entusiastas da arte chinesa sai de cena. O bilionário belga Guy Ullens vem se desfazendo de sua coleção de arte do país, tida como a maior do mundo, e desistiu de administrar a pioneira galeria UCCA, localizada no 798, o distrito das artes em Pequim.
As obras estão sendo leiloadas em grandes lotes em Hong Kong, com preços surpreendentes. O maior exemplo foi o quadro "Amor Eterno", de Zhang Xiaogang. Estimado inicialmente em até US$ 4,5 milhões, foi arrematado por US$ 10,1 milhões, recorde para um artista contemporâneo chinês.
Já o UCCA (Centro Ullens para Arte Contemporânea, na sigla em inglês), é um dos maiores espaços culturais de Pequim. Inspirado na Tate Modern, de Londres, reúne três grandes salas de exposição, auditório, biblioteca, loja e restaurante, tudo financiado pelo belga.
"No longo prazo, este lugar precisa ser administrado por chineses", disse Ullens, em recente entrevista ao jornal "China Daily". "Quem vai assumir o risco? É muito comum no resto do mundo. O que queremos demonstrar para a China é que é possível existir um lugar assim."

ÓPERA SINO-PERNAMBUCANA
Recém-formado pela Escola de Ópera de Bolonha, o tenor recifense Max Jota, 34, se apresentou no último dia 12 de dezembro no Teatro Nacional de Pequim, o palco mais prestigiado da China. Na programação, nada de Puccini ou Verdi -ele cantou em mandarim.
Jota é o único brasileiro entre 20 selecionados pelo programa "I Sing Beijing" (eu canto Pequim) em disputadas audições pela Europa e pelos EUA. Em meados de 2011, por 40 dias, eles receberam mais de oito horas diárias de aula para cantar em mandarim e conhecer a história da música chinesa.
"O estilo é muito diferente", explica Jota, depois da apresentação. "É muito pela entonação das palavras. Há cinco tons para a mesma palavra. Tecnicamente, é muito difícil, principalmente para quem vem de uma língua latina."
O programa incluiu professores do Metropolitan, de Nova York, e tem o ambicioso objetivo de "apresentar a emergente ópera moderna chinesa com um novo gênero na ópera de estilo ocidental". Para os escolhidos, é a chance de entrar num mercado novo e em expansão, em contraste com os centros de ópera tradicionais da Europa.
"A partir de agora, sou um embaixador da música chinesa", afirma Jota, ex-aluno da Universidade Federal da Paraíba. "Podemos ser chamados a qualquer instante para cantarmos em qualquer lugar do mundo e apresentar a cultura do país."

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Quem ainda escreve carta?



Por Alberto Villas, da Carta Capital

Ninguém! Pelo menos que eu conheça, ninguém mais tem tempo de pegar um envelope verde amarelo, o bloco Aviador papel de seda e a caneta Parker 51 para escrever uma carta. Vivemos a era do skype, da msg pelo cel, do e-mail, do vaptvupt, bateu voltou. Quem hoje teria paciência de escrever uma carta e ficar dias e dias esperando a resposta? Se a resposta do e-mail não vem em um minuto já começa aquele tictic nervoso, não é mesmo?

'Quem hoje teria paciência de escrever uma carta e ficar dias e dias esperando a resposta?'
A primeira notícia que tivemos do Brasil foi através de uma carta, aquela de Pero Vaz de Caminha escreveu ao Rei Dom Manuel, o Venturoso: “Posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta Vossa terra nova…” e por aí ia.

Durante meu auto-exílio em Paris durante a década de 1970, escrevi e recebi centenas e centenas de cartas. Até hoje me emociono ao ver um envelope verde amarelo, daqueles bem antigos onde se lia Par Avion. Acordava cedo e a primeira coisa que fazia era descer quatro andares para buscar a correspondência. Quando tinha envelope verde amarelo era uma festa.

Dentro deles, notícias boas, notícias ruins. Os sobrinhos que nasciam, a luta que aumentava, a censura que apertava. Recortes de jornais, fotografias. Se na primeira carta que mandei de lá reproduzi a carta de Pero Vaz de Caminha, a última começava assim: “São 11 horas da noite e cá estou eu sozinho no único cômodo da casa onde ainda resta um pouco de esperança. São nove baús de alumínio empilhados no canto, esperando o navio chegar. Dentro deles, tudo que restou da nossa vida aqui em Paris nestes anos todos. Estou voltando nas asas do tecoteco da anistia.”

Cartas já inspiraram poetas e compositores. Quem não se lembra do rei cantando “Cartas já não adiantam mais/Quero ouvir a sua voz/Vou telefonar dizendo/Que eu estou quase morrendo/de saudade de você”? Renato Russo, que comandava a Legião cantava: “Escrevo-te estas mal traçadas linhas meu amor/Porque veio a saudade visitar meu coração”. Milionário e Zé Rico também já derramaram lágrimas em missivas: “Estou escrevendo esta cara meio aos prantos/Ando meio pelos cantos/Pois não encontrei coragem/De encarar o teu olhar”.

Cartas não eram apenas meras cartas. Havia um ritual para escrevê-las. Muitas delas foram guardadas e acabaram virando livros da maior importância. As cartas de Vincent Van Gogh ao irmão Theo, por exemplo. Outras eram literatura pura. Sempre leio e releio as cartas que Caio Fernando de Abreu escreveu a seus amigos. Quanta ternura! Quanta literatura! Caio era daqueles que gostava de se preparar para escrever uma carta. Papel, caneta, um café, um cigarro. E derramava toda a sua dor e sua felicidade nos papéis de seda dos blocos Aviador.

Nos últimos dias estou aqui mergulhado nas cartas que Otto Lara Resende escreveu ao amigo do peito Fernando Sabino, agora organizadas pelo jornalista e escritor Humberto Werneck. São cartas escritas nas décadas de 50,60 e 70 quando o mundo era outro. Cartas deliciosas que às vezes começavam assim: “Fernando: Tráfego engasgado, nervos à mostra, passei na Embaixada, a porta apertou meu dedo, sangrou, xinguei, me indignei, Helena desencavou a bagagem do Benedito, saí lascado pelos Champs Elysées, Concorde, Madeleine, rumo ao subúrbio (esqueci de comprar o Rinoceronte de Ionesco), estrada – na volta se anda mais depressa, num instante estávamos em Soissons, omeletes de queijo, bomba de chocolate. Café três fff, pé na estrada, tempo nublado, meio frio, mas sem chuva.” Quem hoje escreveria assim num e-mail desses tempos modernos?

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Amós Oz - Pacifista Militante



Por José Eduardo Barella, da Revista Veja


Amós Oz, 62 anos, dezoito livros traduzidos em 22 idiomas, é o tipo de intelectual que provavelmente só pode existir em Israel. Pacifista militante, já combateu em duas guerras. Defensor de um Estado palestino, fala com dureza sobre os vizinhos árabes e os responsabiliza pela atual situação de violência permanente, que deverá favorecer, nas eleições desta semana em Israel, o linha-dura Ariel Sharon. Oz é o principal expoente da literatura israelense. Sua obra explora a complexidade de uma sociedade formada originalmente por pessoas provenientes dos mais distantes rincões do planeta e seus dramas cotidianos, traduzidos em personagens marcados pela tensão da guerra interminável.

Filho de judeus poloneses, nascido em Jerusalém com o nome de Amós Klausner, adotou o sobrenome Oz, que em hebraico significa coragem. Fundador do movimento Paz Agora, Oz pegou em armas em 1967, na Guerra dos Seis Dias, e seis anos mais tarde, na Guerra do Yom Kippur. O conflito não tem solução militar, acredita. A paz só virá com concessões mútuas, dolorosas mas inevitáveis, como acontece num divórcio litigioso. Desde 1986, o escritor mora com a mulher e os filhos em Arad, pequena cidade no Deserto de Negev, de onde, por telefone, deu a entrevista abaixo.

As pesquisas mostram que Ariel Sharon, o candidato da linha dura mais radical, deve vencer as eleições desta terça-feira. Por que o primeiro-ministro Ehud Barak perdeu o apoio dos israelenses?
Oz – Porque o senhor Yasser Arafat deu um tapa na cara de Barak. Tudo o que os palestinos poderiam pedir Barak ofereceu; mas, quanto mais concessões ele fez, mais violência recebeu em troca. Numa situação dessas, que reação esperar do eleitorado israelense? O apoio a Sharon é natural.

Com a vitória de Sharon o processo de paz será enterrado de vez?
Não gostaria de fazer profecias porque aqui é a terra dos profetas e já existe muita competição nessa área. É difícil prever como será uma negociação envolvendo Sharon e Arafat, dois homens igualmente intransigentes. É claro que tudo pode mudar. Ao longo da História, cansamos de ver heróis nacionalistas fazendo concessões e líderes radicais tomando atitudes moderadas.

Arafat não fez a maior das concessões ao reconhecer o direito de existência do Estado de Israel na terra originalmente pertencente a seu povo?
Quem fez a maior concessão? Arafat realmente fez uma grande concessão ao reconhecer Israel. Mas os judeus também cederam muito ao abrir mão da Faixa de Gaza e da Cisjordânia. O que temos são dois povos reivindicando o mesmo território. Ambos têm razão e argumentos fortes. A única solução para a tragédia que vivemos é um compromisso. Os judeus terão de renunciar à metade de sua terra natal e os palestinos, também. Não existe outro país para onde os palestinos ou os judeus possam ir, temos de dividir este. É duro, mas as soluções de compromisso são assim mesmo: nunca satisfazem plenamente as duas partes, seja na separação de um casal ou na dissolução de uma sociedade.

Israel não ficou com a melhor parte do território?
Não sei. Israel ficou com o deserto de Negev, que é uma terra inóspita e desabitada, e a costa mediterrânea. Os palestinos ficaram com as montanhas e lugares santos como Belém, a Samaria e Jerusalém Oriental. A divisão é dolorosa para todos. Cada lado sente como se tivesse sofrido a amputação de um membro do corpo.

Por quais razões um palestino deveria concordar com a existência do Estado de Israel?
Entendo a dificuldade dos palestinos em aceitar a existência de Israel, mas os judeus não são extraterrestres que vieram de outro planeta. Eles vivem aqui há mais de 2.000 anos. Como pacifista, tenho lutado para que os palestinos tenham seu Estado, vizinho a Israel, mas não no lugar de Israel.

A ocupação militar dos territórios palestinos por Israel, com toda a violência que implica, não compromete o patrimônio moral da civilização judaica?
A ocupação e a repressão contra os palestinos são repugnantes e precisam acabar. Mas o ciclo de violência, terrorismo, opressão e ocupação só vai acabar por meio de um acordo de paz que contemple a criação do Estado palestino. O que está faltando é o reconhecimento mútuo.

O senhor acusa os palestinos pela atual onda de violência, mas não foi Ariel Sharon que detonou as agressões ao visitar a área mais venerada pelos muçulmanos em Jerusalém?
Esse senhor agiu como se fosse um elefante numa loja de cristais. Mas a visita de uma pessoa a um lugar santo, por mais provocadora que seja, não dá para justificar tanta violência. Não acredito que os israelenses sairiam matando palestinos se um líder deles visitasse um lugar de culto dos judeus.

O acordo de Oslo, que deu início ao processo de paz, foi assinado há oito anos, mas parece que a situação, em vez de evoluir, retrocedeu. O que saiu errado?
Perdemos uma boa oportunidade no começo das conversações, quando havia entusiasmo de ambas as partes para chegar a um acordo definitivo. Mas ainda acho que a paz é viável, já que nenhum dos dois lados deixará de existir.

Por que ainda não foi possível chegar a um acordo?
Porque está ocorrendo uma considerável radicalização das posições palestinas, principalmente por motivos religiosos. Eles reivindicam soberania exclusiva sobre os lugares santos disputados pelos dois lados. Há ainda a questão da volta dos refugiados e a insistência em querer abolir o Estado de Israel. Enquanto esse radicalismo persistir, as chances de paz serão mínimas.

Israel não adota posições igualmente radicais?
Israel assumiu posições mais moderadas sob a liderança do primeiro-ministro Ehud Barak. Pela primeira vez em trinta anos, os israelenses admitem a possibilidade de existir um Estado palestino, estão dispostos a devolver todo o território da Cisjordânia e até a dividir Jerusalém. É uma mudança dramática de posição. Barak fez tantas concessões que perdeu a maioria no Parlamento e, seguramente, a possibilidade de ganhar as eleições.

É o máximo que Israel pode conceder?
Ir além disso significa um suicídio. A volta dos 3,5 milhões de refugiados reivindicada pelos palestinos seria mortal para Israel. Porque significa mais que a existência de dois Estados, um palestino e outro judeu. Significa que teremos, mais cedo ou mais tarde, dois Estados palestinos e nenhum judeu.

O problema dos refugiados palestinos não é conseqüência direta da criação de Israel?
Na época de sua criação, o Estado de Israel recebeu 1 milhão de judeus que viviam em países árabes. Enquanto isso, 60.000 palestinos que moravam onde hoje é Israel tiveram de se mudar para países vizinhos. Com a criação do Estado palestino, é justo que os refugiados palestinos possam estabelecer-se no novo país, mas não em Israel.

Como convencer os refugiados palestinos e os países árabes que os abrigam a aceitar essa solução?
Israel tem um território equivalente a 1% da área dos países árabes. É preciso fazer um acerto no qual os refugiados recebam uma indenização financeira equivalente ao valor das terras que eles deixaram para trás em 1948. Os judeus que abandonaram suas propriedades naquela época também devem ser indenizados.

Qual a solução para outras questões fundamentais, como a situação de Jerusalém e o futuro dos assentamentos israelenses em áreas palestinas?
No caso de Jerusalém, acho que a parte judaica deveria ser administrada pelos judeus e a parte árabe pelos palestinos. Israel reconheceria a soberania palestina sobre o Monte do Templo e os palestinos respeitariam as ligações religiosas, históricas e afetivas dos judeus com esse lugar santo. Sobre os assentamentos judeus, em sua maioria os colonos deveriam ter o direito de continuar onde estão, com autorização das autoridades do futuro Estado palestino, e ser tratados como cidadãos palestinos.

Existe alguma chance de israelenses e palestinos conviverem pacificamente?
Vão ter de conviver de uma forma ou de outra. A solução é estipular as fronteiras e fazer com que vivam como vizinhos decentes. Agora, não dá para imaginar israelenses e palestinos juntos, dividindo a mesma cama numa lua-de-mel. Seria o mesmo que propor a unificação de Brasil e Argentina: vocês acham que formariam uma nação feliz?

No caso de palestinos e israelenses, meio século de conflitos demonstrou que não se trata de uma questão de felicidade, mas de total impossibilidade de convivência.
Os países da Europa Ocidental passaram 800 anos em lutas cruentas antes de chegar à realidade do mercado comum e das fronteiras abertas. Pode demorar 800 anos, mas, a exemplo do que ocorreu na Europa, o que hoje parece impensável vai acabar acontecendo: algum dia, os povos do Oriente Médio vão viver como uma família.

Os palestinos vão aceitar paz pela via da negociação?
Acredito que muitos palestinos apoiam uma solução negociada com Israel. A maioria dos conflitos do mundo é resolvida por meio de negociações e de concessões de lado a lado. Israelenses e palestinos já estão cansados da guerra, e eu chamaria essa fadiga de síndrome da paz.

Mas os palestinos parecem menos cansados e mais dispostos a seguir lutando por seus direitos.
Eles não têm um Estado independente, que nós israelenses já temos. Muitos ainda vivem sob ocupação estrangeira. Tudo isso os motiva ainda mais a continuar lutando. Quando tiverem seu Estado, o ímpeto nacionalista tenderá a diminuir.

Como é viver num país em estado de guerra permanente?
Terrível. Eu nasci em Jerusalém em pleno conflito e tenho memórias amargas de minha infância. Até hoje nunca pisei em certos bairros de Jerusalém porque, se for lá, me passam a faca. Na época da independência, em 1948, o setor judeu sofreu um cerco igual ao de Sarajevo. Fui para o campo de batalha em 1967 e em 1973. Apesar de ser pacifista militante há mais de trinta anos, sei que um perigo mortal paira sobre Israel e nos faz viver constantemente encostados na parede. Tenho consciência de que os palestinos vivem em condições semelhantes. É uma tragédia, mas me recuso a pintar o quadro de preto e branco. A situação não é como na África do Sul do apartheid, onde era possível saber quem era mocinho e quem era bandido. O conflito aqui é entre o certo e o certo.

Como o conflito árabe-israelense interfere em sua obra literária?
Meus livros falam do povo israelense, das pessoas que vivem aqui e sofrem uma influência dramática do conflito árabe-israelense. Mas nunca usei meus romances para transmitir uma idéia política. Quando quero divulgar minhas posições, uso ensaios ou artigos.

O senhor lê obras de autores árabes?
Sim, mas infelizmente leio apenas obras traduzidas. Meu autor favorito é meu amigo Naguib Mahfouz (escritor egípcio, ganhador do Nobel de Literatura em 1988).

Muitos árabes nasceram em Israel, falam o hebraico e estão integrados ao país. Isso não cria um conflito interior insuportável?
Ser palestino nascido em Israel é uma condição ambígua e dolorosa. Como disse um deles, "é duro ver meu povo em guerra com meu país". Eles estão no meio da discussão. Uma das características mais interessantes dos israelenses é que você não encontra duas pessoas que concordem sobre todos os assuntos. É difícil até mesmo que um israelense concorde consigo mesmo, porque aqui todos têm a mente e a alma divididas. Os palestinos nascidos em Israel têm opiniões diferentes das dos judeus e vice-versa. E temos ainda os imigrantes judeus que vieram de vários países.

Esse conflito pode afetar a unidade da sociedade israelense?
Oz – Não acredito. Os israelenses têm uma expressão verbal exacerbada: eles conversam, falam, gritam e discutem, mas não costumam matar-se uns aos outros. Talvez por causa da memória do holocausto, ou até mesmo por causa da história do povo judeu, existe um tabu sobre a possibilidade de uma guerra civil entre judeus. O que temos é uma guerra civil verbal o tempo todo. A divisão é complexa: não se trata apenas de judeus de origem européia e de origem oriental, ou de religiosos e seculares. Trata-se de um mosaico que abriga diversos grupos e subgrupos. Isso, curiosamente, é bom para Israel: não temos uma sociedade dividida por causa de um assunto, mas de vários.

O senhor acha que vai viver para ver a paz no Oriente Médio?
Está muito claro que vamos acabar tendo, infelizmente, a criação de dois Estados. Digo infelizmente porque nenhum dos dois lados vai ficar satisfeito com a paz que será alcançada. Não será uma cena de Dostoievski, de irmãos se abraçando. Não haverá uma reconciliação, mas um acordo mais parecido com um divórcio do que com uma lua-de-mel. Não posso dizer quanto tempo vai demorar, mas sei que vai acontecer. Simplesmente porque não há alternativa.


terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Ainda é preciso ler Freud?

Por Fernando Aguiar, da Revista Cult

Fora do círculo familiar, os 50 anos de Freud foram festejados apenas pelo pequeno grupo de psicanalistas vienenses que se reuniam em sua casa todas as quartas-feiras desde o outono de 1902. A ocasião era propícia a comemorações: não sendo mais o único analista, sua psicanálise já ultrapassara os limites de Viena – a conquista dos “arianos” de Zurique neutralizara a vil acusação de “ciência judia”. Vivia-se a fase áurea da clínica psicanalítica e, em termos de publicações de fôlego, jamais haveria para Freud ano igual ao anterior (1905). Além do livro sobre os chistes e do “Caso Dora”, houve os Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, com o qual ele adicionara ao discurso do desejo (1900) o discurso da pulsão, definindo categoricamente os dois eixos centrais de sua investigação metapsicológica.
Como presente de aniversário, os alunos ofereceram-lhe um medalhão, realizado pelo escultor K. M. Schwerdtner. Sobre uma face, fora gravado o perfil de Freud, e sobre a outra, a cena de Édipo em frente à Esfinge. Em volta do desenho, um verso de Édipo Rei: “Aquele que resolveu o famoso enigma e que foi um homem de enorme poder”. Lendo a inscrição, Freud teria empalidecido: “Parecia ter visto um fantasma”, escreveu E. Jones. Depois de P. Federn admitir ser o autor da escolha da citação, Freud, agitado, contou que, quando jovem estudante de medicina na Universidade de Viena, costumava olhar os bustos dos antigos professores, imaginando que um dia poderia estar entre eles: o seu traria exatamente a mesma citação de Sófocles inscrita no medalhão com o qual acabava de ser honrado.

A posição de marginalidade e ruptura da psicanálise

Desse episódio, apenas a segunda parte do sonho diurno de Freud materializou-se: afinal, como o Édipo da mitologia, ele decifrou, no plano da cultura, o próprio enigma edipiano, adentrando os mistérios da sexualidade humana. Quanto a figurar entre pares, nem seria o caso, pois de fato jamais fora médico; foi um psicanalista e um magnífico professor. Mas, na Universidade de Viena, seu estatuto não passou de um professor extraordinarius, que, no regime acadêmico da época, designava quem se encarregava de cursos que não constavam do currículo oficial obrigatório.
Esse caráter marginal permanece também o destino da psicanálise, e mesmo seu grande trunfo ou talvez condição de sobrevivência. Na academia, em particular, a psicanálise não deve estar no centro de uma formação, mas exterior aos outros domínios. O próprio Freud assumia uma incompatibilidade com toda sorte de “existência oficial” e demandava “independência em todas as direções”. O professor francês Jean Laplanche afirma que o analista [e a psicanálise] nasce e desenvolve-se apenas na marginalidade e na ruptura, e não pode garantir-se senão preservando todo um jogo de extraterritorialidades, em todos os níveis: marginalidade do tratamento em relação às instâncias da vida cotidiana, da análise pessoal em relação aos requisitos das sociedades de analistas, do exercício da análise em relação às profissões reconhecidas (médico ou psicólogo), das instituições analíticas em relação às instituições e aos reconhecimentos oficiais etc. “Como analistas, como pesquisadores e como universitários, afirmamos (…) que a experiência analítica constitui um campo epistemológico específico e autônomo”. A contrapartida é que ela não seja propriedade privada de um indivíduo ou de uma instituição.
É que ao fim e ao cabo, como teoria do inconsciente, a psicanálise acabaria por se tornar indispensável para todas as ciências que se ocupam da gênese da civilização humana e de suas grandes instituições como a arte, a religião ou a ordem social. “Creio ter introduzido alguma coisa que ocupará constantemente os homens”, escreveu Freud a Binswanger, em 1911.
Não há qualquer anseio imperialista na pretensão freudiana. Se a disciplina por ele fundada deve interessar à psicologia, às ciências da linguagem, à filosofia, à biologia, à história da civilização, à estética, à sociologia e à pedagogia, isso não faz mais do que prolongar o movimento mesmo de seu próprio pensamento, “interessado” em todas essas disciplinas, conforme nos explica S. Mijolla-Mellor (Recherches en Psychanalise, 2004). Desse ponto de vista, antes de interessar a outros campos do saber ou da cultura, é a própria psicanálise que tem interesse nesses campos, sendo eles parte constitutiva dela própria. Quanto ao interesse das outras disciplinas pela psicanálise, é certo que tal movimento não elimina o fato da resistência – e esta diz respeito à vexação psicológica dos homens diante de seus desejos inconscientes tais como apontados pela invenção freudiana. Na fundação da Associação Psicanalítica Internacional, em 1910, Freud anunciou aos colegas: “Os indivíduos aos quais fazemos descobrir o que recalcam experimentam hostilidade a nosso respeito; não podemos esperar uma amabilidade simpática da sociedade para com aqueles que desvelam impiedosamente seus defeitos e insuficiências”. Em carta a Arthur Schnitzler, ainda escreveria que a psicanálise não é “um meio de se fazer amar”.
Devemos esperar, por isso, de tempos em tempos, vilanias tais como a infame e medíocre compilação de críticas publicada na França, em 2005, com o nome de O Livro Negro da Psicanálise, no qual Freud é tratado como falsário, trapaceiro e mentiroso (tal como faz agora, em 2010, Michel Onfray em O Crepúsculo de um Ídolo: a Fabulação Freudiana). Costuma-se aproveitar essas ocasiões para mais uma vez se falar em “crise da psicanálise”, o que Jacques Lacan (1901-1981), já em 1974, refuta com vigor, em termos definitivos: “A crise (…) não existe (…).” A psicanálise ainda não encontrou seus próprios limites. Há muito que descobrir na prática e no conhecimento. Em psicanálise não há solução imediata, mas apenas a longa e paciente busca das razões”. Além disso, há Freud, arremata Lacan, “que ainda não compreendemos inteiramente”.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A grande depressão e o Mágico de Oz

Por Christiane Marcondes, do Portal Vermelho

Um coração para o homem de lata, um cérebro para o espantalho, coragem para o leão e um lar para Dorothy. Esta é a busca dos personagens de O mágico de Oz, um musical clássico de 1939. A maioria dos fãs compra a versão de que é uma história típica de Hollywood com final feliz. Poderia ser se não tivesse Yip Harpurg como letrista. 

Yip escreveu também o “hino da depressão”, em 1932, no qual narra o engodo do sonho capitalista. O Mágico de Oz resgata o sonho, realizável além do arco-íris, ou das fantasias do mundo imperialista que Yip, socialista, sempre combateu.

Do palco para a depressão

Posso imaginar o letrista Yip Harburg em um bar freqüentado por roteiristas, artistas, compositores da Broadway, logo após a quebra da Bolsa de Nova York em 1929. Os pedintes nas esquinas o deixam indignado. Também inspiram.

Yip começa então a rabiscar num guardanapo a letra da música que se tornaria o verdadeiro hino da depressão norte-americana. Um gole na bebida e um verso: ““Eles me diziam que eu estava construindo um sonho”. Outro gole, novo verso: “Com paz e glória à minha espera”. Engole a seco, conclui a quadra: “Por que então estou aqui na fila/ esperando apenas por um pedaço de pão?”

O título da canção “Brother, can you spare a dime?” pode ser traduzido por “Amigo, você tem um trocado?”. Bing Crosby gravou em 1932 -- muitos outros famosos regravam até hoje -- e foi um retumbante sucesso. 

A música expõe a realidade estúpida do operário -- personagem da letra -- que construiu tudo o que constitui o “american way of life”, de ferrovias a mansões, grandes torres e edifícios, mas não tem um tostão no bolso e fica na esquina, espiando a pressa dos ricos na tentativa vã de ser ouvido na sua pobreza. 

Da depressão para a guerra

O tempo passa, chega 1939. O mundo se confronta com a guerra. Yip cria o Mágico de Oz. Dorothy, o leão, o espantalho e o homem de lata metaforizam o drama e transformam a história em uma fábula universal. 

A canção-tema, “Somewhere over the rainbow”, gravada por Judy Garland, resgata o sonho, não o capitalista, mas o dos direitos humanos, que Yip persegue como bom socialista. O tema principal? Voltar para casa, um espaço onde somos aceitos, compreendidos e amados!

Voltar para casa também é chegar a um lugar além do arco-íris, diz a letra, e esse lugar não tem nada a ver com o tal pote de ouro do folclore popular. Também não tem relação com posse ou poder, conforme explica o medroso leão, na cena em que assume por breves momentos o posto de rei dos animais: “A diferença entre um rei e um escravo é a coragem”. Logo a coragem o abandona e ele rasteja diante do mágico no trono.

Da Broadway para a lista negra

Yip Harburg, filhos de pais imigrantes de origem russo-judaico, conheceu cedo na pele a pobreza e o preconceito e nunca virou as costas ao passado miserável. 
Ao longo da carreira, escreveu letras para mais de 600 canções em parceria com uma variedade de notáveis compositores. 

De 1951 a 1961, durante a temporada de caça a artistas, celebridades e jornalistas supostamente remota ou completamente ligados a comunistas, promovida pelo Senador Joseph McCarthy, Yip foi para a "lista negra" em função de suas idéias políticas sobre cinema, televisão e rádio. A Broadway, no entanto, manteve-se livre desse tipo de censura, só por isso o autor pôde continuar trabalhando, embora perseguido. 

De Hollywood para o Havaí

Yip Harburg morreu em 5 de março de 1981 aos 84 anos. Seu espírito visionário não morreu, muito menos sua obra, que continua inspirando ativistas de todo o tipo, como Israel Kamakawiwo. 

Nascido em Honolulu, Israel nunca ocultou a sua posição a favor da independência do Havaí e de defesa dos direitos dos nativos. Regravou “somewhere over the rainbow” em um mix com “What a wonderful World”. 

O cenário, o humor e o ritmo são outros; o sonho, não sei, mas gosto de pensar que continue sendo o mesmo sonho de Yip.